O Livro de Eileen
16 Conversa com Lúcifer
Notas iniciais
No início da manhã, Eileen começou a sentir a agitação crescer em sua mente. A falta de descanso aliado aos pensamentos a respeito da tarefa que realizaria naquele dia a fizeram um ser incapaz de se manter um segundo parado, indo e vindo até onde os irmãos preparavam os ingredientes para o feitiço que deveria invocar Lúcifer. Várias vezes perguntou se eles precisavam de ajuda, mas Sam e Dean afirmavam não precisar de qualquer auxílio. Ela tentou ler, mas seus olhos não conseguiam se concentrar nas palavras, tentou ouvir música, e embora tenha ajudado por um tempo, assim que a última canção do álbum London Calling terminou, ela se viu novamente tragada para um estado de completa perturbação.
— Fica calma. — Dean disse, já começando a se sentir nervoso pela menina.
— Eu sei, eu sei. Eu não entendo por que eu estou tão nervosa. Quero dizer, é claro que eu estou prestes a conhecer o próprio Lúcifer, mas dadas as circunstâncias até agora, isso não deveria me deixar tão agitada.
— Vai dar tudo certo. — Sam disse, e Eileen assentiu.
Passaram o resto da manhã assim, com Eileen pulando de uma distração para outra, enquanto os irmãos cortavam fungos de aparência estranha, ou quebravam ervas que a menina nunca vira antes, e duvidava que teriam algum uso na cozinha. Ela admirou o conhecimento dos Winchester a cerca de feitiços, e a biblioteca dos homens das letras era um arsenal quase infinito de grimórios, existia todo o tipo de livro sobre encantamentos, que os irmãos sabiam aproveitar muito bem. Em certo ponto Eileen parou para prestar atenção ao que eles faziam, mas isto não durou mais do que meros cinco minutos, antes que ela se virasse e começasse a procurar algum outro passatempo.
A manhã passou vagarosamente na visão de Eileen, mas quando chegou a tarde e ela se viu dentro do impala, se dirigindo para um endereço que Crowley arranjara, afastado de qualquer civilização e tão seguro quanto possível, a agitação que já era grande se tornou insuportável. Pelo retrovisor Dean percebeu que ela apertava seu livro ao ponto do nós dos dedos se tornaram brancos. Também reparou que os olhos da menina não se fixavam em lugar algum, e por um instante ele achou que ela vomitaria de nervosismo. Eles nunca viram Eileen daquele jeito, e o mais velho esperava que ela não fosse desistir, como parecia que faria.
Assim que chegaram ao local indicado, descobriram um velho galpão, em todas as janelas frontais havia, pelo menos, um vidro estilhaçado. A pintura descascava, e a que perdurava na parede há muito estava desbotada. Era um lugar isolado sem sinal de casas ao redor, perfeito para a tarefa que tinham em frente. Eileen deixou sair um longo suspiro antes de abrir a porta do impala. A tarde ensolarada não conseguia sobressair o frio que um forte vento trazia, seu corpo começar a tremer levemente.
Sentiu uma mão acolhedora cair sobre seu ombro, e logo seus olhos encontraram os de Dean, e ele sorriu tentando passar alguma calma – Eu sei o que você está arriscando aqui… — Começou, mas a menina não deixou que ele terminasse.
— Tudo bem, por incrível que pareça, eu não estou com medo de passar mal depois do feitiço, não é dai que essa agitação está vindo. — Começaram a andar em direção ao galpão, já com as malas cheias do que seria necessário para a invocação.
— Preocupada com o Lúcifer? — O mais novo sugeriu, abrindo a velha porta do lugar, as dobradiças enferrujadas rangeram, e a porta quase não cedeu.
— Eu acho que sim… Na verdade tenho certeza que sim. — Ela disse, olhando para seu livro – Toda a minha vida ouvindo referências a ele, é como conhecer uma celebridade, eu acho. — Ela deu um leve sorriso de gracejo.
Crowley já estava lá, com seu habitual ar de pompa, e um olhar sério que suavizou quando ele avistou Eileen. Os irmãos já tinham por certo o fato de que o demônio virara o fã número um da menina, e diferente de como fora com Amara, ele não parecia nutrir nenhum sentimento suspeito além da honesta admiração, mas mesmo assim, aquele era Crowley, era sempre bom manter a guarda alta.
— Podemos começar? — Ele perguntou, estendendo a mão em direção a uma área limpa do galpão onde eles poderiam realizar o feitiço.
Eileen observou enquanto os irmãos espalhavam um óleo, desenhando um círculo no chão, eles haviam explicado a ela que uma vez que eles ateassem fogo aquele óleo Lúcifer não poderia cruzar a barreira das chamas. Prosseguiram desenhando dentro do círculo os símbolos que deveriam fazer com que o anjo caído aparecesse ali. E quando tudo pareceu satisfatoriamente pronto, Sam e Dean a encararam por alguns segundos, como que perguntando se ela estava pronta, a menina acenou um sim com a cabeça, e Dean começou a ler as palavras da magia.
Uma vez que ele havia terminado, Eileen sentiu seu coração disparar além de qualquer coisa que ela já sentira, e em nada ajudou que tudo começara a tremer e balançar, como se lá fora um tornado estivesse se aproximando do galpão. As luzes piscaram e todos precisaram se segurar em alguma coisa para manter o equilíbrio. Mas, tão de repente quando veio, o tremor se foi, e uma nova figura se fez presente no lugar. Sam jogou um fósforo no óleo que se acendeu rapidamente.
A menina olhou com atenção o homem parado dentro do círculo, ele olhava direto para os Winchesters com uma expressão cínica dançando no rosto, com o dobro de malícia que Crowley impunha em suas expressões. Mas logo a expressão dele mudou, como se tivesse pressentido que algo estava errado, mas até então ele não havia notado a presença de Eileen.
— Eu devo entender por esse maravilhoso convite, que vocês devem ter achado mais alguma “mão de Deus”? — Perguntou, embora tentasse parecer petulante, seu olhar de preocupação o traiu. Como os irmãos nada disseram, ele continuou – Oh, não precisam ser tão tímidos, eu senti há algum tempo atrás algo liberando muito poder, e eu imaginei “quando será que eles vão me chamar pra brincar?”. É sério rapazes, vocês precisam parar de gastar essas preciosas armas, logo nós vamos ficar sem opções.
Eileen virou-se para olhar os irmãos, enquanto Sam parecia desconfortável, Dean carregava um olhar além da tristeza, que a lembrou qual era a tarefa dela ali. E embora ela estivesse um tanto impressionada pela presença do anjo caído, sentiu de uma forma que não soube explicar para si mesma, que havia algo em Lúcifer de muito familiar. Como ela viu que Dean estava impossibilitado de dizer qualquer coisa por um crescente desânimo e que tanto Crowley quanto Sam esperavam que o mais velho começasse a falar, ela tomou a liderança da conversa.
— Eu receio que aquilo tenha sido eu. — Disse, e Lúcifer virou para encará-la. E no exato momento que ele o fez, suas expressões se transformaram completamente. Os Winchester ficaram chocados ao constatar que o anjo caído olhou para Eileen como se ela fosse algum tipo de fantasma pessoal, ou antigo medo de infância.
— Você… — Ele disse apenas, os olhos arregalado e os lábios tremendo – Como pode ser você? — A pergunta desconexa fez com que a menina encarasse os irmãos em busca de algum esclarecimento, mas eles também não estavam entendendo muito.
— Eileen! — Dean começou – Termina logo o que nós viemos fazer. — Ele se viu na urgência de que ela tirasse logo Lúcifer do corpo que Castiel habitava. Tanto pelo fato de querer o amigo de volta, quanto pelo súbito medo de que o anjo soubesse alguma coisa do que estava escrito no livro que Crowley traduzira.
— Você – Lúcifer continuou, ignorando o Winchester mais velho – Ele disse que vocês tinham ido embora, ele disse que vocês tinham seguido pra outra dimensão, como pode ser você? — A histeria com que ele falava era tamanha, que Eileen achou que ele começaria a chorar – Meio humana meio Cimmeries, como pode ser? — Quando ele mencionou o nome original de Eileen, tanto ela quanto os irmãos trocaram um olhar espantado.
— Como você sabe sobre mim? — Eileen perguntou, já muito confusa para se manter calada.
— Você não lembra de mim? — Havia dor em seu tom de voz, e ele avançou em direção a menina, se detendo assim que o calor das chamas se intensificou.
— Eu não lembro de muitas coisas – Eileen começou – Se nós já nos conhecemos não teria como eu saber.
Assim que ela terminou de falar, o inesperado aconteceu, tomando todos de surpresa. Lúcifer começou a sorrir, não um sorriso de escárnio ou malícia, ele sorriu como se estivesse tremendamente aliviado – Eu achei que nunca mais fosse ver você. — Ele começou, o sorriso se alargando – Eu não sei o que fizeram com você Cimmeries, mas é tão bom te ver outra vez.
— Ok, chega de conversa. — Dean interrompeu – Vamos logo com isso. — Ele encarou Eileen.
— O que… O que você vai fazer comigo? — Lúcifer perguntou, e finalmente Eileen notou que ele de fato tinha deixado algumas lágrimas rolarem.
— Nós vamos trazer Cas de volta. — O mais velho disse.
— Vai usar o poder em mim Cimmeries? — Lúcifer voltou a estampar um semblante de dor – Bem, já que você não lembra, não é como se fosse ligar. — Uma última lágrima rolou.
Eileen nada fez, para a surpresa dos irmãos, ela só ficou parada encarando Lúcifer, tentando lembrar de qualquer coisa relacionada ao anjo, mas foi em vão, sua mente embora estivesse se abrindo com os poderes, e ela sentisse a essência de Cimmeries crescendo dentro de si, as memórias ainda eram inacessíveis – Sam – Ela começou – Mudança de planos. Prepara algum compartimento pra mim que possa segurar ele.
— Como assim? — Tanto os irmãos quanto Crowley perguntaram ao mesmo tempo.
— Eu não vou absorver a essência dele, eu quero passar pra alguma coisa. — Disse, determinada – Mas antes, eu vou querer algumas explicações. — Virou-se para o anjo caído – Como você pode me conhecer? — Disse, enquanto o Winchester mais novo acatava a ordem dada.
— Há muito tempo vocês apareceram, na mesma época que Deus estava “experimentando” os humanos, eu posso dizer que vocês ainda estavam no beta – Disse, olhando pros três outros rapazes – Vieram como criaturas errantes, que iam e vinham de dimensões. Feitos pelo universo e tão maravilhosos quanto meu próprio pai. Passaram algum tempo conosco e eu me interessei especialmente por você – Nesse momento, algo da malícia retornou, e sob aquele olhar Eileen pode apenas se encolher, apertando o livro em seus braços – Tão perfeita – Ele suspirou – Com todo aquele poder, um potencial destrutivo além de qualquer coisa que eu, um jovem anjo, jamais vira. Você parou, me contou sobre o universo além da dimensão que papai criara, de criaturas que eram como nós, e não como os humanos. Eras se passaram e a cada vez mais eu… — Ele se deteve, escolhendo as palavras – Eu queria sair com vocês para ver esses outros lugares maravilhosos, ainda mais quando Deus resolveu que os humanos eram os favoritos dele. Mas então… — Ele fez uma pausa, seus olhos encarando os de Eileen – Vocês sumiram, desapareceram sem deixar qualquer sinal. Deus nos disse que vocês, como as criaturas errantes que eram, haviam ido embora, se cansado de permanecer em um só lugar.
— Eileen. — Sam chamou a atenção dela – Eu terminei. — Ele havia gravado alguns sigilos que segurariam o arcanjo dentro de uma pequena jarra de vidro.
— Por favor, não faça isso, eu posso te contar mais coisas, falar daquela época. — Lúcifer começou.
— Desculpa, mas eu já estou fazendo muito por você. Nesse momento, eles são os amigos, e você o desconhecido. Essa não é a última vez que nós vamos nos falar. — Ela foi até Sam e pegou a jarra – Mas agora eu preciso trazer Castiel de volta. — Ela fez um pausa. Lúcifer ficou sério, mas ele sabia o que ela ia fazer, já a vira fazer antes – Livahnoun. — Ele ouviu, e notou quando o fogo verde surgiu nas mãos dela, exatamente como há eras atrás. Ele não tentou lutar, apenas deixou que o feitiço arrancasse a parte que cabia a graça e essência dele dentro do corpo de Jimmy. Assim como acontecera com o demônio no qual Eileen praticou, o fogo verde adentrou o corpo de Lúcifer, mas em vez de uma fumaça preta, o que deixou aquele corpo foi uma espécie de espectro azul — Diath – Ela completou, passando a graça de Lúcifer para dentro do pequeno frasco.
No momento em que o último fio do espectro azul adentrou o compartimento de vidro, Eileen foi ao chão, inconsciente. Sam e Crowley foram até ela, enquanto Dean foi amparar Castiel, que atordoado também acabara caindo. Ele não tinha ideia do que estava acontecendo, num minuto Lúcifer estava no controle, no outro, ele encarva Dean que tinha o rosto carregado de alívio.
— Hei. — Ele ouviu o Winchester mais velho dizer, mas sua visão ainda não estava totalmente focada – Nós vamos precisar de uma ajuda aqui. — Dean passou seu próprio braço por baixo do braço de Castiel, o ajudando a se erguer. Foram até Eileen que mais uma vez estava com a aparência de alguém que fora privado de água por um longo tempo – Cas! — O mais velho praticamente gritou, e o anjo pareceu finalmente acordar, ainda mais confuso quando avistou a figura feminina caída com Crowley e Sam ao redor – Você tem que curar ela, consegue fazer isso? — Disse, sua voz começava a soar desesperada. Castiel acenou que sim, estava perdido no meio de todos aqueles acontecimentos, mas, mesmo assim, ele se abaixou com alguma ajuda de Dean, e encostou na testa da menina.
Eileen acordou em uma longa inspiração, buscando com força o ar, agarrando a ermo o braço de Crowley, que a segurou em retorno e a ajudou a se levantar, não sem antes pegar o pequeno frasco, que agora continha a essência de Lúcifer. Ela olhou ao redor, parando na figura de Castiel que parecia tão desnorteado quanto ela. Eileen notou que, embora o rosto fosse o mesmo, aquele a sua frente parecia outra pessoa.
— Você é o anjo então? — Eileen perguntou, a garganta estava seca, então o que saiu não foi mais alto do que um sussurro.
— Dean, o que está acontecendo? — Ele perguntou, ignorando Eileen.
— Essa é a Eileen, Cas – O mais velho começou, apontando para a menina – Ela acabou de te salvar.
Castiel fixou seus olhos em Eileen, e então olhou para o livro verde. Aquela informação não fez com que tudo fizesse mais sentido.
— O que é você? — Castiel apertou seus olhos da maneira que costumava fazer.
— É complicado. — A menina disse apenas, sentindo uma súbita vontade de rir, vendo que Dean estava na mesma situação que ela. Ele sentiu toda a tensão que se acumulara desde que descobriu que Castiel deixara que Lúcifer o possuísse, se esvair ao que seu amigo parecia bem. Eileen também estava a salvo, e agora tudo seria só uma questão de longas explicações.
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