O Livro Encantado
4 Acidente
Naquela tarde tudo corria perfeitamente bem. Até aquele momento era um dia comum, sem agitação, um dia como qualquer outro, dentro dos padrões rotineiros da minha vida.
Tinha acabado de chegar do colégio, na época estava no segundo ano, terminando uma cansativa semana de provas. Cheguei em casa muito cansado. Tomei um banho e me joguei na cama. Teria prova final de física então, a não ser que eu quisesse refazer o segundo ano, era essencial que eu revisasse toda a matéria.
Já havia anoitecido, e minha mãe ainda não tinha chegado, o que me pareceu estranho. Talvez ela estivesse fazendo hora extra, o que seria estranho, pois era fim de semana. Resolvi preparar o jantar, algo simples, como salada e filé grelhado. O telefone tocou assim que coloquei o frango na grelha, corri para atender, com esperança que era minha mãe Alicia me ligando.
— Por favor, o Sr. Samuel? – Uma voz gentil de mulher falava, como aquelas moças de televendas.
— Sim, sou eu!
— Poderia se sentar por um minuto?
Sentei-me no sofá ao lado.
— Pronto.
— Tenho uma noticia nada agradável. Gostaria que mantivesse a calma. – Ela agora transmitia tensão.
— O que foi?
— Você tem algum parente ou amigo, um vizinho quem sabe, alguém que possa o acompanhar até o hospital geral?
— Acho que posso tentar encontrar alguém para me levar até o hospital sim. – estava começando a entrar em pânico.
— Ótimo preciso que mantenha a calma agora. Você precisa vir o mais rápido que puder!
— Quero saber o que esta acontecendo! – Fui um tanto rude nesse momento
— Samuel, sua mãe sofreu um acidente.
Não estava sentindo mais o chão, era como se minhas pernas estivessem fora do meu corpo, meu peito estava em chamas.
— Samuel? Samuel? – Ela me chamava de volta à realidade.
— Como ela está? – Senti meus olhos arderem, como se algo quisesse sair deles.
— Infelizmente, permanece inconsciente. – A atendente estava quase sussurrando.
— Estou a caminho.
Desliguei o telefone.
Caminhei até a cozinha, peguei um copo no escorredor e o enchi de água, tomei um gole. Estava suando frio, meu peito estava mais dolorido que antes, minhas mãos tremiam. Olhei para o lado e vi a carne que antes vermelha, agora estava mais escura que asfalto. Puxei o fio da grelha da tomada. Subi as escadas correndo como nunca.
Ao passar pela porta do meu quarto, peguei a blusa que estava pendurada atrás da porta e meu celular com os fones. Voltei para a escada correndo, no meio de meu desespero acabei tropeçando e caindo escada a baixo. Levantei-me ainda tonto e corri até o lado de fora. Peguei a bicicleta que estava caída no canto da garagem e pedalei até não aguentar mais.
Finalmente cheguei ao hospital, e corri para a emergência. Parei no balcão, no qual se encontrava uma recepcionista de cabelos crespos, olhos e pele escuros.
— Eu sou... – Ela me interrompeu.
— Samuel? – Tinha a mesma voz gentil de antes.
— Sim!
— Só um minuto, vou chamar uma de nossas enfermeiras para leva-lo à sua mãe.
Alguns minutos depois uma enfermeira baixinha me chamou e me levou por um corredor longo, cheio de portas, todas fechadas menos uma.
— Este é o quarto em que sua mãe está. Fique à vontade!
— Obrigado! – Minha voz estava tremula.
Entrei na sala devagar, era como ter um peso enorme me segurando fora dela. Ao passar pela porta me deparei com a imagem de minha mãe no leito do hospital, com muitos tubos e medicamentos sendo injetados em seus braços. Fiquei de pé ao seu lado e segurei em sua mão. Havia também diversos curativos no rosto e na barriga, o braço esquerdo estava todo engessado, bem como sua perna direita. A máquina registrava cada batimento cardíaco com um bipe baixo.
— Estou aqui! – Desabei, não resisti, todas as lagrimas que me foram poupadas durante anos, agora rolavam todas de uma só vez. – Eu não vou sair daqui!
Tive a impressão de que ela estava me abraçando, era como se eu sentisse o calor do corpo dela e seu perfume.
— Eu quero que você saiba, se você decidir partir – Engasguei com a ideia, mas se alguém tinha que decidir era ela. – Vou aceitar, vou ficar bem, claro que iria gostar mais se estivesse comigo, mas quero que pela primeira vez faça o que for bom para você! Eu te amo!
De repente deixei de sentir o “suposto abraço” da minha mãe, e o bipe se tornou mais agudo e interminável. Um médico entrou e tocou no pescoço da minha mãe, logo depois desligou os aparelhos, duas enfermeiras que entraram na sala, se entreolharam e se dividiram, uma delas a mais baixa tirou os tubos, e agulhas que injetavam medicamentos. A mais alta se dirigiu a mim:
— Ela estava muito machucada. Sinto muito! – Estava desmoronando em lagrimas e soluços.
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