O Letrista da Morte
1 Parte 1 - O Letrista da Morte.
Notas iniciais
Capítulo Um — O letrista da Morte.
Aquela parecia uma típica cena de crime. Ao menos era esta a conclusão a que o sangue, os sinais de luta e a posição na qual o corpo fora posto levava os investigadores, que rodavam o ambiente em busca de qualquer vestígio que lhes desse mais detalhes sobre o que realmente havia ocorrido ali.
Aparentemente, tudo aconteceu em um banheiro. O local era imundo, o odor dos detritos despejados dentro do vaso sanitário e da pequena lixeira cor de rosa eram insuportáveis. Era estreito, uma única lâmpada enfeitava o teto, as paredes e o piso eram brancos, cobertos de azulejo. O chão era repleto de papéis sujos, camisinhas já usadas, copos descartáveis e garrafas plásticas. Em cima do vaso, só um espelho rachado ao meio.
A porta, escancarada, era de madeira e também fora manchada pela cor do sangue do homem que ali morreu naquela noite. O último espaço esperado para abrigar um indivíduo de tal classe social, um sujeito que, pela qualidade das vestes, pertencia à alta sociedade.
No geral, toda a Terra de Áries era um mundo muito próspero, quase que paradisíaco. A desigualdade econômica beirava o inexistente, os moradores de rua não representavam um por cento da população e os que não possuíam um lar para onde ir, eram acolhidos pelo estado cuja única função era intervir em casos extremos.
Inúmeras penitenciárias foram fechadas naquele ano, a porcentagem de crimes no planeta inteiro não parava de cair. Um evento como aquele era algo extremamente raro, sobretudo o cenário que estava aos pés de Arashi. Era um tanto quanto controverso. Nunca havia visto coisa parecida.
Nas paredes ao lado da ducha, uma frase macabra marcava as memórias dos presentes: "Engasgue no seu próprio sangue". Curiosamente, descrevia os detalhes da morte do cadáver. Se podia opinar, Arashi diria que a vítima, em momento algum, lutou diretamente com o seu algoz. Seus hematomas e todas as frestas abertas nas paredes foram consequências de sua luta com seu corpo desobediente, que teimava em expulsar de dentro todo o sangue bombeado de seu coração.
Mas qual terá sido a cauda disso, se indagava, correndo os seus azuis e desconfiados olhos pelo pequeno cubículo mal vistoriado, ao mesmo tempo que cobrindo a face com a máscara hospitalar que lhe deram com a missão de tornar tolerável o fedor que tomava conta do lugar.
As palavras na parede indicavam que havia uma segunda pessoa ali e o carregavam à suspeita de que, seja lá quem for, o segundo componente sabia o que ia acontecer. Crime premeditado, talvez? Ele não descartava a hipótese de suicídio, embora a tratasse como menos provável. Quem escolheria morrer de modo tão horrendo?
Suicídio, como investigador, não lhe era tão estranho. Era o que havia de mais alarmante no mundo ariano, transformara-se em algo corriqueiro, mas a sua certeza era a de que, aquele caso em específico, estava longe de poder ser visto como normal.
— Alguma descoberta? — Kin, que não estava suportando a fedentina do banheiro, voltou com as narinas tapadas pela mesma máscara que Arashi. Ela, como sempre, havia sido teimosa e desprezado as recomendações dos outros detetives.
— Não. Isso tá muito confuso... — Decepcionado, ele se levantou. — Não tem nenhuma digital no corpo dele, nenhum mísero corte na garganta. Ele tá praticamente ileso, os únicos hematomas que encontramos foram os que ele fez em si mesmo tentando sobreviver. E tem aquela frase ali escrita na parede, parece uma narração da morte dele.
A loira analisou o cadáver, que foi encontrado caído de bruços. Seu rosto fora mergulhado na poça de sangue que ele mesmo pôs para fora.
— Suicídio?
— Talvez, mas tudo indica que ele teve uma morte lenta e angustiante, o que os suicidas costumam evitar. A menos... que tenha havido algum erro da parte dele, que ele tenha tomado os remédios errados. — Pesou o olhar sobre o texto estampado nos azulejos. Apontando-o, argumentou: — O que não diz o porque daquela frase.
— Que estranho. Me arrepiou. — Chegou mais perto das palavras. — Não acha que pode ter sido obra de um retalhador?
— É o mais provável, o que só levanta mais perguntas: como fizeram isso com ele? De que tipo de habilidades o indivíduo que fez isso é dotado?
— Se foi um retalhador, só a Yue vai conseguir nos dizer com precisão. O chikara dele deve infestar esse ambiente por mais umas seis horas. Só tem um pequeno probleminha...
— Ela está na escola. — Completou.
— Exatamente. — Ela confirmou.
Kin era uma lutadora mais esquentada, impulsiva, arrogante. Detestava o fato de existirem guerreiros mais poderosos do que ela, no entanto fazia disso a sua motivação para treinar e aumentar as suas forças — quando não estava lendo Yaoi ou assistindo um filme pornô, estava assediando sexualmente o seu colega de equipe, Arashi. Ela era a respeitada líder do grupo dos retalhadores de elite.
Arashi era um guerreiro mais centrado, controlado, humilde. Frio como o gelo, era o modo que seus oponentes o descreviam. Seu ponto mais forte era o grande intelecto do qual nascera acompanhado, o que o colocava um passo a frente de todos contra quem lutava. Suas faculdades dedutivas e investigativas eram tão úteis e impressionantes que, mesmo não sendo um detetive, ele era continuamente requisitado por profissionais da área.
Ele era o cérebro da dupla, ela, a força física. Não que ela fosse burra, ou que ele fosse fraco, mas juntos, um cobria as fraquezas do outro. Conheciam-se desde muito cedo. Ela sempre foi apaixonada por ele, que gostava de outra garota: uma bela jovem com quem mantinha um relacionamento muito longo, seu nome era Shiori e, assim como eles, ela tinha dezoito anos, mas diferente dos dois, ela não era uma retalhadora.
Seres de essência eram uma novidade no planeta Terra e na Via Láctea, o que só tornava mais impressionante a rapidez com a qual eles se alastraram. Hoje, representavam quase oitenta por cento da população mundial. Como ou quando apareceu o primeiro era uma pergunta que todos os físicos, filósofos e teóricos da conspiração ainda se faziam, muito embora preferissem evitá-la já que dificilmente concordavam numa resposta.
Arashi, que era um misto dos três, trabalhava numa teoria, uma tese que contrariava totalmente o senso comum. Na crença popular, seres de essência e seres humanos só compartilhavam entre si a fisionomia física.
Para ele, homo ousia jamais teria vindo à existência se o homo sapiens não tivesse aparecido antes, tendo em vista que sua teoria buscava provar que a essência sempre constou no corpo humano em fragmentos indetectáveis que se multiplicavam em seus descendentes e cujo número foi aumentando até o dia que o "talismã" se completou e o primeiro super ser surgiu.
Ele ainda estava atrás de evidências, por isso a manteve no anonimato. A sua pretensão era clara: balançar os alicerces da ciência, revolucionar a física de seu tempo, ser irrefutável.
...
Segundo dia de aula. Yue, que só tinha doze anos, passou a maior parte de sua vida num planeta extraterrestre localizado nos limites da galáxia, então era natural que demorasse um pouco para se adaptar à Terra e sua cultura. No momento, sua única companhia era Haru, um menininho ruivo de onze anos de idade com um futuro muito promissor.
Ela tinha pele clara, media um metro e setenta, tinha olhos e cabelos cor violeta, lisos mas tão curtos que muito mal tocavam os seus ombros. Era uma garota sensível, porém forte e responsável quando a situação pedia. Alegre e amiga, era super protetora com aqueles que lhe eram importantes. Foi para a Terra de Áries com o objetivo de descobrir quem é e de onde veio.
Estava no pátio do colégio procurando por Haru quando ele veio correndo sorridente — só ele sabe de onde — para falar com ela.
— Ah, até que enfim apareceu, onde estava...?! — O procurou por toda a parte. Prometeu à Kin, irmã mais velha dele, não parar de vigiá-lo. Haru era um imã ambulante de encrenca e apesar de poderoso, era só uma criança. Um menino. Como tal, era inocente, facilmente aliciado, manipulável.
— Hum. Eu acabei de descer, tava dando uma lição nuns caras que tavam ameaçando um garoto muito menor do que eles. — Respondeu com a maior e mais notável naturalidade do mundo, sua imaginação não dava conta do quão impressionante foi ele abater, sozinho, um grupo de estudantes do último ano.
Perseguido por três caras muito maiores e bastante feridos, um moleque que aparentava ter a idade de Haru desceu uma escadaria e se escondeu atrás dele, que muito irritado, tomou a sua frente.
— Vão embora!
— Só queríamos que ele nos levasse a você, pivete. — Um quarto rapaz, ileso, terminava de descer o mesmo lance de escadas. — Como pode? Sozinho, um pirralho do primeiro ano, derrotar três caras do último? Você nos humilhou e vai pagar muito caro por isso.
— Foram vocês que me obrigaram a isso. Por que estavam batendo nele? — O ruivinho herdou o grande coração de sua mãe, a ex primeira ministra da Terra de Áries.
— Porque ele é um fracassado que não despertou a própria essência. Não toleramos fracotes como ele na nossa escola, gente assim só faz nossa média cair, perdemos o respeito com estudantes de outros continentes.
Yue não iria só assistir aquilo tudo.
— Seus amigos acabaram de ser massacrados por um garoto que entrou ontem no colégio, vocês não podem ser tão bons quanto dizem. — Disse ela.
— Como é que é...?! — O irritou ainda mais.
— É o que você ouviu. — Yue se impôs.
Os sete se transformaram no centro das atenções. Contudo, os holofotes se voltaram para o astro do colégio, para o bilionário mais jovem e influente da história da Terra ariana, um dos empreendedores mais talentosos e populares do mundo moderno.
Ele, que prezava a sua boa imagem, não podia ver aquilo quieto.
— Deixe-os em paz, Souma. — Disse, caminhando em direção a eles. Seu corpo, sarado e tatuado, chamava a atenção das garotas, seus olhos verdes as hipnotizavam e seus cabelos castanhos dançavam com o vento.
— Não se meta nisso, Sora Raikyuu. Não é da sua conta! — Retrucou.
— Eu nunca deixo falarem assim comigo, mas... — Tomou a frente, ficou cara a cara com ele e avisou: — Vou te dar mais uma chance. Se não pegar os três patetas que estão aí contigo e der o fora daqui, você vai perder a audição para sempre.
Souma hesitou. Engoliu seco e, orgulhoso demais para se calar diante de tamanha afronta, ameaçou:
— Isso ainda não acabou.
Finalmente se foi, levando os seus amigos consigo.
— Que tipinho mais desagradável. — Disse Yue. — Eu não sei como você consegue andar com gente assim, Sora.
Quando as atenções saíram de cima deles, Sora se sentiu à vontade para dizer:
— Ah, é legal cair na porrada com eles, de vez em quando. Além do mais, não somos tão diferentes assim.
— Eu sei que não são. — Retrucou a garota.
— Ele tinha razão, eu sou um perdedor. Não deveria estar aqui. — Disse o primeiro alvo daqueles quatro valentões. — Eu já tenho onze anos e ainda não despertei a minha essência... Nunca vou me formar como um retalhador.
— Qual é o seu nome? — Yue, tanto quanto Haru, se comoveu com o que ouviu.
Ele, tímido, respondeu:
— Sou Iori. Iori Tamazari.
— Não se pressione tanto, Iori. Uma hora a sua essência vai brotar. Sabe o Haru aqui? Ele só foi despertar os poderes dele no ano passado.
— Nossa! Isso é verdade? — Se impressionou. Era difícil acreditar.
— É. Hum... — Haru tentava se lembrar do instante em que aconteceu. — Foi no calor de uma grande batalha, eu tava desesperado porque sabia que eu não podia perder, que tudo dependia de mim e aí, quando menos esperei, sem pressão nenhuma, aconteceu! Eu me senti incrível, foi muito emocionante.
— Não desista, campeão. — Sora, como sempre querendo melhorar a sua imagem, segurou seus ombros e o aconselhou. — E se aqueles caras vierem te perturbar mais uma vez, pode me chamar. Eu vou ouvir e correr para te ajudar de onde eu estiver.
— Exibido. — Yue só o conhecia há um dia e meio, mas já sabia qual era a dele: o lucro, a fama. O status. Sair bem na foto.
— Puxa vida, o Sora é muito maneiro! — A admiração de Haru por ele, no entanto, só aumentava. Gostava de sua auto confiança, de seu estilo, seu jeito de ser.
...
Yue lançou sobre aquela cena de crime o seu olhar mais crítico, aguçando seus sentidos apurados para desvendar o enigma que se propôs à sua razão. Após a retirada do cadáver, Kin e Arashi a levaram até o banheiro sujo em que o milionário foi achado morto esperando que ela lhes dissesse algo que ele não sabia.
Como estava com ela no segundo em que Arashi a abordou, Haru acabou tendo que ir junto, e lá estavam os quatro, olhando a tudo como se soubessem que algo passou despercebido por todos os grandes investigadores arianos. No entanto, nada parecia novidade.
Infelizmente, a jovenzinha não sabia usar corretamente os seus talentos sensitivos quando a situação não era de vida ou morte, por isso é que estava, há vários minutos, parada com os dois olhos fechados e a mente voltada para o objetivo pré-estabelecido, que se provou um verdadeiro desafio.
De repente:
— Captei uma essência! — Apontou. — Com certeza tem chikara no ar.
— Então não resta dúvida... — Kin estava a ponto de dizer em voz alta o que os demais estavam pensando: — Isso foi obra de um retalhador.
— Exatamente. Mas, como eu disse, isso só levanta muito mais dúvidas... sacudimos o tapete, mas a poeira ainda está no ar. A mais importante delas, é: quem fez isso? A segunda mais importante, é: que tipo de habilidades o grande responsável por isso tem?
— Consegue dizer qual é a essência dele, Yue? — Haru, apesar da pouca idade, entrou no embalo e conseguiu seguir sua linha de raciocínio sem muita complicação.
— Deixa eu ver... — Precisava de concentração. — É diferente de tudo... o que já vimos ou enfrentamos, não posso dar uma definição precisa, mas... — Tateou as palavras riscadas na parede. — Eu tenho a mais absoluta certeza de que tem muito a ver com isso aqui.
Arashi compôs uma teoria, que tornou pública:
— Meu palpite é que ele ou ela pode, de algum jeito, fazer com que todos os que leram suas palavras sofram a morte descrita.
Apesar do clima inapto, Kin tentou fazer uma piada:
— Então dá pra chamar de "essência literária"?
— É um bom nome pra essa coisa. — Disse Arashi, que olhou para Yue e a indagou: — Consegue dizer onde ele está?
— Não sei, eu não sou muito boa nisso. Se ele teme ser rastreado, tapear a minha habilidade sensitiva não vai ser muito difícil, ele pode conseguir isso só espalhando o chikara por aí, mas se ele fez mais vítimas, posso ajudá-los a achá-las.
Arashi olhou para o relógio e não considerou aquele um horário adequado para uma aspirante à retalhadora inexperiente como ela andar por aí caçando um assassino em série tão perigoso, mesmo que acompanhada dele.
— Vamos deixar isso para um outro dia, mas sua ajuda seria bem vinda. — O bip em seu ombro tocou, antes de se afastar para atender à ligação, ele, educadamente, avisou: — Com licença. Sim, senhora?
Levando-os para fora, Kin tentou aliviar o tom da conversa para algo bem mais agradável do que corpos sem vida e matadores cruéis.
— E aí, o que acharam do segundo dia de aula?
— Foi ainda mais chato que o primeiro... as matérias continuam fácil pra caramba. — O garoto se queixou.
— Ele tem razão. — Yue concordou. — Lá em Karkez, a gente respondia a perguntas muito mais difíceis, passávamos por provas complicadíssimas. Aqui, nem parece que somos seres de essência. Eu esperava algo mais desafiador!
— Entendo vocês, mas isso é só porque ainda estão nos primeiros dias de aula, com o tempo vai ficar mais difícil.
Quando os dois iam contar sobre a briga, Arashi voltou e chamou Kin:
— Kin, temos que ir.
— Tudo bem. — Ela assentiu, olhou para os dois e pediu: — Vão pra casa. Hoje eu devo chegar um pouco mais tarde, mas vou fazer de tudo pra voltar... antes das onze da noite. Não saiam de lá.
Mas Yue tinha outros planos para aquele caso. Ela mentiu quando disse a eles que não tinha uma localização do assassino, pois, na realidade, tinha, sim. A garota só não contava com a perspicácia do retalhador de elite, que notou na hora a mentira dela.
Fim do primeiro capítulo.
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