— Ora meu sobrinho, acha mesmo que vou deixar ela dar um golpe em você? Acha mesmo que aquela carinha linda e insonsa iria me enganar? Não, não mesmo! Meu dever é proteger você, cuidar para que não seja incomodado e não caia em nenhum golpe, especialmente o dela.

Ele estava chocado e furioso, não conseguia imaginar que sua doce tia teria uma postura tão feia, tão antiga e que ela fosse tão fofoqueira assim. Ele fazia um esforço enorme para não entrar em um atrito direto com ela, mas era impossível não se sentir magoado com as palavras que ela havia dito para Maze e que também manchavam sua reputação.

Justamente ele que era praticamente um celibatário, cheio de receios por conta do dom, tinha acabado de ser taxado de sem vergonha e aproveitador de empregadas.

— Tia, a senhora está confundindo as coisas, seu papel aqui era me ajudar a dominar meu dom. O que já aconteceu. Agora seu papel é ser apenas minha tia. Não cabe a você, não mais, se intrometer em minha vida. Muito menos a minha vida amorosa lhe diz respeito. – Ela abriu a boca para responder, mas ele ainda não tinha acabado. — E antes que você fale algo mais, saiba que nunca houve nada demais entre nós. Mas confesso que tenho os sentimentos mais que ternos por ela. E não será você que irá impedir que eu descubra o que é e até que ponto vou levar esta relação. E se for sério, irei me casar com ela, mas eu não vou permitir que a afaste de mim.

Sua tia olhou para ele assombrada. Sua cara dizia exatamente o quão incomodada ela estava, que não aceitar a relação entre ele, um duque, com uma simples serviçal.

— A senhora, mais que ninguém, deveria saber que eu não sou dado a relacionamentos superficiais. Sabe o quão doloroso para mim é ficar perto de algumas pessoas, especialmente das jovens bobas que rondam nossa sociedade em busca de aprovação. Ainda me lembro da última vez que estive em salão de bailes. Não consegui ficar lá mais que 20 minutos e Chloe teve que me levar pra casa. Os pensamentos de todas aquelas mulheres, solteiras ou casadas, era quase o mesmo. Eu era um título, apenas um título. E isto eu não vejo nos olhos de Maze. Ela olha e vê a mim, Modred, como eu sou. Nada mais.

Segurando a raiva que passava por seu corpo, ele deu o último aviso:

— Fique fora disso ou serei obrigado a tomar providências enérgicas.

— O que pretende fazer? Me mandar embora da minha casa, é isso?

— Não sei tia. Mas não quero mais vê-la se metendo em assuntos tão pessoais que dizem respeito somente a mim. E sim, se for preciso, irei manda-la de volta a Londres. Não volte mais a tocar neste assunto com ela ou qualquer outra pessoa. Essa minha decisão é definitiva.

Sua voz tinha o tom de comando que ele usava quando queria deixar claro que era o duque, a autoridade maior dentro da família que falava. E deixou claro que a sua decisão havia sido tomada.

Ele estava possesso, se sentia afrontado, queria conversa com Maze, resolver as coisas, mas ela havia decidido se esconder dentro do quarto de Catryn.

Andava às cegas por meio do jardim interno, remoendo cada palavra que ouvira sua tia falar, desejando poder resolver as coisas com Maze. Sentia como se alguém tivesse roubado seu chão. Não queria ver ou ouvir ninguém, mas era sempre impossível se esconder de sua família.

— Modred, o que aconteceu? É possível sentir a milhas de distância a sua raiva. – Orion olhava preocupado para o primo. Não era comum ele perder o controle daquele jeito. Na verdade ele não se recordava de nunca ter visto seu primo tão fora de si como naquele momento.

— Tia Dot, foi isto que aconteceu, tia Dot! – Levantando as mãos pra o alto e suspirando profundamente, procurava as palavras que não vinha.

— O que houve? Coloque para fora o que está incomoda. Manter a calma é algo fundamental em nossa família.

Modred suspirou para se acalmar e sem editar nada contou tudo que ouvira a tia falar a Maze e como isto o havia machucado, pois havia visto no rosto dela, o quanto aquelas palavras a machucaram.

— Já tentou falar com ela?

— Sim, mas ela se escondeu no quarto de vocês, ajudando Catryn a se recuperar. E não desejou falar comigo.

— Você está apaixonado por ela! — Orion se admirou, não imaginava que os sentimentos de seu primo fossem tão profundos.

Aquilo caiu como uma bomba sobre ele. Até aquele momento imaginava que seu interesse era sincero, mas nunca tinha cogitado que poderia estar apaixonado por ela. Mas sim, era exatamente isto que ele sentia, não podia negar que ansiava estar ao lado dela todos os dias, que desejava roubar algum beijo dela apenas para ter com que recordar. Muito menos podia negar que estava achando sua cama muito vazia depois que começou a sonhar com ela todas as noites.

— Sim, Orion, acho que estou apaixonado por ela. – Finalmente as coisas estavam entrando em perspectiva dentro dele. – Mas será que ela também sente o mesmo por mim?

— Acredito que sim, mas somente ela poderá responder sua dúvida. Vá falar com ela e seja honesto com seus sentimentos. – Modred apenas assentiu a cabeça e voltou a caminhar pelo jardim. Agora tinha mais um ingrediente para colocar em seus pensamentos.

— Modred, eu não sei o que aconteceu com ela, mas Olímpia exigiu que eu enviasse uma carta dizendo se ela estava bem, se ela se sentia feliz. Só tenha paciência para que ambos não se machuquem com esta situação. Está bem? – O duque assentiu e saiu em direção a biblioteca, ler seria um excelente calmante para suas preocupações.

***

Depois de tudo que ouviu e a magoou profundamente, Maze foi se esconder no quarto de Catryn e cuidar da menina. Lá ela não poderia chorar, não poderia lamentar sua sina, e teria algo para fazer que a manteria ocupada sem poder pensar em tudo que ouvira.

Ela estava apaixonada por ele, não tinha como negar. Desde a primeira vez que o viu, soube que seria um problema manter-se a distância, mas não esperava ser escorraçada daquela casa.

Muito menos pela doce tia Dot. Ela tinha se afeiçoado a todos, e sua situação em Londres era insustentável. Sabia que se voltasse para lá ou se saísse do ducado correria risco de vida.

Não era fácil relembrar os tristes momentos que tinha vivenciado há dois anos atrás, mas em breve teria que tomar uma decisão e talvez voltar para Londres ou para Myrtledowns, pois somente assim conseguiria manter-se distante do problema chamado Modred.

Estava decidido, assim que Catryn não precisasse mais de socorro, iria embora dali, e como era uma covarde, iria atrás do amparo de Olímpia.

“Ah, Ollie... será que fiz bem ter vindo trabalhar aqui? Será que eu não deveria ter dito não a ele desde o começo? Olha a enrascada em que me meti, minha querida amiga?”

A pequena Olivia chorou no berço e Maze secou a única lágrima que escorreu, pegando-a no colo. Viu que estava com fome, mas como Catryn não poderia ainda dar de mamar, a levou para a ama de leite que tinha vindo ficar hospeda na casa. Depois trocou a menina e cantou para ela dormir. Ela era tão lindinha, com bochechas rosadas e cabelos pretos, era grande, de mãos e pés finos e cumpridos, com certeza seria alta.

Estava saindo do guardo quando Catryn a chamou, quase em um sussurro, praticamente sem forças.

Ajudou Catryn a se recostar nos travesseiros, deu-lhe um pouco de cidra para beber e alisou seus cabelos, fazendo um sutil carinho. Enquanto preparava para dar um pouco do caldo que haviam trazido da cozinha há pouco tempo.

— Onde está meu marido?

— Ele saiu para comer algo, ficou ao seu lado até agora pouco. Ajudou a trocar a primeira fralda da Olivia

— Oh, céus! Ele não fez isso? – Catryn estava admirada! Ele estava se esforçando para ser um pai presente. – E qual foi o resultado?

— Fez sim. Estava todo desajeitado, mas consegui ajuda-lo a resolver isso.

— Ela não está com fome?

— A ama de leite está aqui do lado, sempre que ela pede mamar, a levo lá.

— Da próxima vez, você me chama? Quero ser capaz de cuidar dela.

— Acha que consegue? Você ainda está muito fraca. Nos deu um baita susto, sabia?

— Eu sei. Mas ela queria vir ao mundo, conhecer o dono daquela voz rouca e grave que falava com ela através de minha barriga. A menina é forte e temperamental, puxou ao pai, senti isso quando ela estava nascendo.

— Ela é linda demais.

— Fico feliz de saber que ela está sendo bem cuidada enquanto me recupero. — Deu um beijo na testa de Catryn e já estava saindo, quando esta segurou sua mão:

— Por que você estava chorando, Maze?

— Agora não Catryn, outro dia, outro momento. Agora você precisa repousar. Prometo que conversamos quando estiver mais forte.

— Está bem, não vou insistir. Mas saiba que Modred está de fato apaixonado por você. Ele ainda não sabe, mas está pronto para avançar para o próximo estágio. Só tenha paciência com ele.

Maze apenas assentiu, como poderia dizer o que havia acontecido consigo? Não tinha forças para falar disso ainda.

— Poderia chamar meu marido? Gostaria de tê-lo aqui ao meu lado nas próximas horas.

Depois de avisar Orion, Maze foi para o quarto que estava ocupando desde que fora trabalhar como secretária pessoal dele. O horário do jantar já havia passado fazia muito tempo, mas ela estava sem fome, sua vontade era deitar e chorar até o sono chegar.

Entrou no quarto e acendeu o candeeiro e quase morreu de susto. Modred estava sentado em sua cama, a esperando com os pés esticados sobre o colchão.

Quem o via sem casaco, só de camisa, com os cabelos soltos e com as mãos apoiadas atrás da cabeça, imaginava que ele estava relaxado, mas a verdade ficava visível quando se olhava em sua boca, que estava contraída, como se estivesse remoendo algo.