O Legista
1 Prólogo
Notas iniciais
Existe todo um folclore silencioso por trás da profissão do médico legista, pelo menos para aqueles inseridos no meio da rotina de uma investigação criminal – seja atuando diretamente na mesma como um oficial da lei, ou apenas como um mero e peculiar curioso, como provavelmente é o seu caso agora. O médico legista é quase um ser místico, instigando a curiosidade alheia com todo o seu mistério. O que ele tanto faz dentro do necrotério durante um dia inteiro? O cheiro é realmente tão insuportável como dizem os filmes e as séries? É traumatizante? Dá medo? Ah, o medo. Esse geralmente vem acompanhado do meu questionamento favorito:
E os fantasmas?
Porque sim, outra coisa que pude reparar durante os meus anos de experiência na profissão – pois, diga-se de passagem, nós somos pagos para sermos observadores – é que não existe um único ser humano que seja, leigo ou não nos assuntos criminais, que não se pergunte se nós não conseguimos ver ou ouvir coisas, principalmente dentro do necrotério. Alguns, vez ou outra, têm a coragem de perguntar se não temos medo que um dos nossos pacientes acorde. Bem, talvez nós sejamos a única especialização médica que prefere que isso nunca aconteça, mas até que existem histórias por aí... O que acontece, de fato, é que as pessoas que nos veem de fora se perguntam se o trabalho não traz esse tipo de consequência, se nós não conseguimos ver ou ouvir os fantasmas dos corpos guardados dentro das nossas gavetas ou coisas do tipo. E se eu pudesse responder a isso em nome dos meus colegas de profissão, eu certamente diria que isso não passa de uma bobagem, afinal, esse tipo de coisa não existe. Contudo, como eu só respondo por mim mesmo e nós estamos aqui nesse monólogo um tanto quanto particular, eu terei que lhes dizer a verdade: depende.
Troque a ordem lógica dessa pergunta, e a minha resposta com certeza muda para sim.
Acontece que o meu caso é um pouco mais específico. Vejam bem, o trabalho não me trouxe as assombrações nem nada do tipo porque, na verdade, elas já estavam aqui; colocando as coisas na ordem certa, os fantasmas me trouxeram até esse trabalho. Se eu estou dizendo que cursei seis anos de uma faculdade de medicina e depois passei mais três ou quatro anos – ou seja, uma década de estudos – em uma especialização em medicina legal por causa de fantasmas? De seres que ficam nesse plano espiritual me assombrando ao invés de simplesmente partirem em paz?
Sim, é exatamente isso que eu estou dizendo.
– Dr. Lee? – a voz grave me desconcentrou do relatório em minhas mãos. – O senhor tem um minuto?
Se eu realmente tivesse a capacidade de me assustar com algo nessa profissão, esse algo com certeza seria o Felix. Lee Felix. Sendo sincero, aqui entre nós, eu sempre tive um certo preconceito contra nomes estrangeiros, mas com o Felix não tinha outra saída porque:
1 – Ele realmente era estrangeiro, australiano mais especificamente.
2 – O nome coreano dele era simplesmente pavoroso. Sério, quem coloca o nome do próprio filho de Yongbok? Pelo menos não ninguém nascido após a Dinastia Joseon.
De qualquer forma, a figura esguia, a pele pálida e a voz grave que sempre surgia aleatoriamente no meio do mais completo silêncio do necrotério eram de assustar, de fato, as pessoas assustáveis; o que não era bem o meu caso, para a sorte do meu estagiário. Levantei apenas meu olhar dos papéis em minhas mãos em direção aos cabelos excessivamente descoloridos diante de mim, mantendo a cabeça abaixada pois planejava voltar para minha leitura dentro dos próximos dois minutos, no máximo.
Bem, pelo menos Felix era um cara bonito. Acreditem ou não, isso pode ser útil dentro da polícia.
– Não exatamente. – respondi sem nenhuma emoção e voltei a abaixar o olhar. Pois bem, aquilo tinha acabado mais rápido do que o programado.
– De qualquer forma, será rápido. – ele insistiu e puxou uma cadeira para se sentar diante de mim.
Rápido até demais.
– O que foi? – não tinha outro jeito, Felix era o tipo de pessoa tão inconveniente quanto era educado, por isso, não era sempre que dava para dizer não a ele.
– O senhor já ouviu falar do Detetive Han? – questionou e eu ergui uma sobrancelha. Automaticamente, ele entendeu que precisaria ser um pouco mais específico do que aquilo. – Han Jisung, Divisão de Homicídios.
– Por que? É o seu mais novo paquera?
O mais novo saltou da cadeira com a minha pergunta intencionalmente maldosa. A verdade que é eu não tinha muito interesse no assunto, mas acompanhar as idas e vindas amorosas do Felix pela delegacia e seus departamentos anexos tinha se tornado um hábito nesse último ano do seu estágio. Com certeza era a parte mais agitada do meu dia.
– É claro que não! – ele exclamou, ofendido. – Ele não faz o meu tipo. – pausa dramática. – Além disso, com todo o respeito, o senhor precisa atualizar um pouco o vocabulário... Só a minha avó ainda deve falar paquera.
Por que eu ainda não demiti esse australiano mesmo?
– Bem, com certeza a sua avó é mais jovem do que o seu nome. – rebati e finalmente voltei meu olhar para o aspirante a legista diante de mim, que parecia ter sido atingido com sucesso pela minha farpa. – Você ainda não me respondeu o porquê da pergunta.
Felix respirou fundo, muito provavelmente considerando o quão respeitado eu era como profissional e também o seu superior de trabalho, então tirou alguns segundos para reformular suas palavras.
– Ouvi dizer que ele é um novato na delegacia de Seongdong, mas veio transferido de Incheon e ninguém sabe o motivo. – novamente, faltava especificidade na sua fala. – Ele tem perguntado do senhor por aí.
– Hm... é um fã? – perguntei sem um pingo de empolgação na voz.
Acontece que casos como aquele não eram muito difíceis de acontecer, pelo menos não comigo. Digamos que eu tinha uma certa fama, principalmente entre os oficiais da patrulha e os detetives.
– Não exatamente. – respondeu com um sorriso de canto, sem graça, o que me fez franzir o cenho. – Parece que ele tem perguntado sobre...
A vibração do meu celular sobre a bancada de alumínio interrompeu a fala de Felix; ainda bem, diga-se de passagem, porque pouco me interessava o que os detetives perguntavam ou não sobre mim por aí.
Contudo, o nome aceso no visor do aparelho me pegou um pouco de surpresa.
– Sargento Seo? – atendi, tão curioso quanto tenso. Uma ligação direta de um sargento geralmente só significava uma coisa. – Se o senhor está ligando, então deve ser uma cena bem...
– Sim, é sangrento. Minho-ah... – ele respondeu e sua voz estava tão séria quanto o usual. Chamar pelo meu primeiro nome dentro do horário de trabalho e sem bebidas alcoólicas envolvidas certamente não era um bom sinal. – Ele voltou.
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