O Legista

2 Capítulo 1 - A vítima


As sirenes, as fitas amarelas isolando todo o perímetro, a movimentação de policiais quase que ofuscada pelo grande burburinho de curiosos se espremendo uns contra os outros ao redor da cena... eu já estava acostumado com tudo aquilo, afinal, já fazia cinco anos desde a minha primeira cena de crime. O meu primeiro cadáver eu vi de perto aos vinte e cinco anos e, poucas horas depois, conheci o meu primeiro fantasma nesse trabalho. Sendo sincero, por mais que eu já estivesse habituado a todo sangue e mau cheiro, eu ainda me lembrava de cada um deles, inclusive do primeiro; mas nada nunca havia me preparado para aquela cena.

Era uma casa alugada no subúrbio, acima de qualquer suspeita. Não era uma fábrica abandonada ou uma colônia de sem-teto debaixo de um viaduto, mas sim uma casa colorida de um pavimento e com um belo e bem cuidado jardim na frente. Como com as outras vítimas, a diversão começava já ali: aterrorizar para o resto da vida uma vizinhança pacata, fazer com que famílias passassem meses desconfiando umas das outras e com medo até das sombras das árvores à noite. A mesma casa, o mesmo subúrbio, a mesma vítima... já do lado de fora era praticamente impossível de não desconfiar dele.

Um policial me abordou assim que cruzei as fitas de isolamento, porém, ao dar uma segunda olhada no meu rosto, liberou a passagem. Acontece que cinco anos podia não ser muito tempo para os oficiais e sua hierarquia – com cinco anos de formados na academia de polícia, alguns ainda permaneciam patrulhando as ruas e aplicando multas de trânsito – mas eu tinha feito um trabalho bom o suficiente para que àquela altura todos já me conhecessem. Quase impecável, diga-se de passagem, mas isso eu obviamente devia ao fato de nunca estar sozinho quando o fazia.

O primeiro cômodo da casa era a sala de estar e, nela, Seo Changbin me esperava com uma expressão tensa em seu rosto.

– Sargento Seo. – eu o cumprimentei. Apesar de sermos amigos, essa amizade só acontecia fora do horário de trabalho. Eu não era exatamente ligado à polícia e principalmente à sua hierarquia, mas Changbin ocupava uma patente alta o suficiente para que até mesmo eu demonstrasse algum respeito. – O que temos aqui?

Ele era mais baixo do que eu, mas definitivamente mais forte. Seu cabelo curto e preto estava sempre penteado na forma de um topete despretensioso e, por raramente ter que ir a campo, ele podia se dar ao luxo de manter uma pulseira de prata em seu pulso direito como acessório. No mesmo braço da pulseira, as três listras bordadas abaixo do seu ombro indicavam o quanto deveriam respeitá-lo – sua divisa de sargento. Os três traços brancos eram, definitivamente, o que mais se destacavam em todo o uniforme azul marinho.

– Você sabe que eu não tiro conclusões precipitadas. – foi a primeira coisa que ele me disse. Com um gesto, indicou que eu continuasse o seguindo até os cômodos mais aos fundos da casa. – A vítima é Yang Jeongin, estudante de ensino médio de uma escola pouco conhecida em Itaewon. Ele ainda está uniformizado, por isso não foi difícil de identificar. Pela identidade no bolso, tinha quinze anos, mais especificamente.

A mesma idade. Sempre uniformizados.

– E por que você me chamou aqui? – perguntei, sem me deixar levar por poucas informações. Todos sabiam o quão brutal um crime tinha que ser para me tirarem de dentro do necrotério.

Automaticamente, Changbin parou. Estávamos diante da porta de um quarto e, pelo cheiro, eu já sabia o quanto de sangue me aguardava lá dentro. Havia peritos totalmente equiparados para todos os lados e um deles veio nos entregar protetores de sapatos, luvas e a touca, todo o equipamento padrão.

– Garganta cortada. – respondeu. – Você vai poder me dizer melhor, mas dá para ver que tiraram alguma coisa de lá de dentro.

Cordas vocais.

Permaneci em silêncio, afinal, o Seo não era o único que não gostava de tirar conclusões precipitadas. Podia ser tudo uma grande coincidência, não me parecia um crime tão atípico, apesar de sangrento. Com a minha maleta em mãos e devidamente vestido, transpassei a fita que isolava a porta e logo me vi dentro da cena do crime.

A mesma cena.

Vítima jovem, deitada em decúbito dorsal sobre a cama. Lençóis brancos ensopados de sangue, gotas e jatos vermelhos por todas as paredes. Olhos abertos, assim como a garganta. A expressão totalmente aterrorizada em seu rosto era a única coisa que podia fazê-lo ainda parecer minimamente vivo. Pés e mãos cruzados na mesma direção. Primeiramente, puxei minha pinça de dentro da maleta e me aproximei do corpo enquanto os peritos se ocupavam do restante do quarto. Por um breve instante, minha mão direita tremeu. Aquele era o meu trabalho e cada cena era uma cena única, cada vítima era singular... meu eu ainda podia ver o primeiro menino naquela cama, o mesmo de cinco anos atrás.

Garganta totalmente exposta, cordas vocais visivelmente faltando.

Era ele.

– O senhor sabe que eu só posso afirmar qualquer coisa dentro do necrotério. – eu disse e afastei o meu corpo do rapaz, me endireitando. Não olhei diretamente para Changbin e eu poderia apostar que isso lhe dava a resposta que ele queria.

Porém, outro fator para que eu não olhasse para trás onde o sargento estava, é que eu sabia o que me aguardava assim que eu erguesse os meus olhos – e, sem evitar isso, eu o fiz.

Yang Jeongin estava lá, parado em meio a todos aqueles peritos e os seus flashes. Seu uniforme escolar estava limpo, impecável, assim como sua franja castanho claro estava totalmente penteada. Não havia sangue, não havia cortes... apenas um olhar amedrontado que corria por todos os cantos daquele quarto procurando respostas. Quando seus olhos escuros encontraram os meus, eu automaticamente desviei de qualquer contato visual. Nunca na cena do crime, era muito cedo. Apesar disso, alguns fantasmas percebiam que eu conseguia vê-los, assim como eu senti que o jovem Jeongin tinha o feito. Por um milésimo de segundo, nossos olhos tinham se encontrado, e aquele era o momento que ele começava a clamar por ajuda. Eles sempre faziam isso, gritavam e perguntavam o que estava acontecendo – e, no fundo, eu estava torcendo para que o menino fizesse o mesmo. Ele precisava correr até mim e me encher de perguntas, acabando por atrapalhar o meu trabalho de campo – era o que todos faziam e o que ele precisava fazer. Mas não foi o que ele fez, pelo menos não completamente.

Caminhando, ainda desnorteado, eu podia ver de relance que Jeongin vinha na minha direção. Parou ao meu lado e eu automaticamente senti aquela presença fria, mais gélida que o ar-condicionado do necrotério. Sim, é verdade o que dizem sobre os fantasmas e como eles conseguem gelar todo um ambiente – talvez exista alguém como eu por aí, que tenha realmente vivido isso para poder contar. Contudo, os clamores não vieram. Jeongin não falava. Ele tentava, eu percebi, mas não conseguia. No fim das contas, era inevitável não olhar para ele e assim eu acabei fazendo. Nenhum som, apenas olhos assustados marejados. Era apenas um garoto que não fazia ideia de que nunca mais voltaria para casa.

Nesse ponto, fantasmas não são exatamente como as pessoas pensam; são pessoas normais, aparentemente saudáveis. Não existe palidez, feridas expostas... e eles expressam emoções, assim como nós. Vez ou outra eu podia vê-los sorrir, apesar de ser mais raro – geralmente, eles choravam e demonstravam completo pavor, exatamente como o jovem ao meu lado fazia naquele momento. Bem, isso também devia se dar ao fato de que eu só conseguia vê-los naquela situação, ao lado de seus cadáveres; e esses cadáveres estavam quase sempre em situações horripilantes. O fato era que, se não houvesse um corpo presente, não havia um fantasma. Por isso, por mais que eles se parecessem com pessoas normais e vivas aos meus olhos, o contexto era sempre mórbido.

Ele deveria gritar e me encher de perguntas, mas Yang Jeongin não emitia um único som.

Cordas vocais faltando.

Aquilo não era o normal. Eu já havia visto diversos amputados antes, especialmente por conta do trabalho. Algumas vítimas faltavam braços, outras uma perna e algumas até a cabeça; porém, como fantasmas, eles estavam sempre lá, perfeitamente inteiros. Podiam correr, gritar e me contar tudo o que fosse necessário, mas nunca aquelas vítimas.

Nunca as vítimas dele.

– Dr. Lee? – ouvi a voz do sargento me chamar e voltei à realidade. A figura jovem ao meu lado não sumiu, pelo contrário, parecia querer se agarrar ainda mais a mim depois de perceber que eu conseguia vê-lo, mas aquele realmente não era o momento. Eu demorei, mas aprendi entre erros e acertos que os ouvir logo na cena do crime nunca dava certo.

Desculpe, Yang Jeongin, mas nós ainda teremos bastante tempo juntos. Por mais que você não vá conseguir fazer muito para nos ajudar.

Voltei meu olhar para Changbin e, assim que o fiz, percebi uma figura destacada do restante da cena parada ainda na porta do quarto, sem parecer ter a intenção de entrar. Alguma coisa parecia estranha naquela pessoa.

– O detetive do caso chegou. – Changbin me avisou. – É melhor vocês conversarem logo, eu vou apresentá-los.

– Apresentar? – questionei. – Mas eu conheço todos os detetives da divisão de homicídios.

– Não todos. O Detetive Han é novo na nossa delegacia.

E por que isso me soava familiar?

De qualquer modo, talvez devido a toda a carga emocional e extremamente pesada que aquela cena tinha, eu não tivesse ligado os pontos na hora. Não era bem do meu feitio, geralmente o meu raciocínio era rápido e nunca falhava, mas aqueles poucos segundos entre o fantasma de Jeongin e o homem parado à porta deveriam ter sido suficientes para que eu me lembrasse da história de Felix de poucas horas atrás.

Cabelos pretos mais ou menos acima dos ombros – um tipo de corte bastante corajoso, inclusive – uma jaqueta cinza por cima de uma camisa e calças jeans também pretas e um olhar que automaticamente me prendeu. Com seus olhos pequenos, ele me olhava como se me conhecesse há muito tempo e não estava tentando disfarçar isso.

– Detetive Han, esse é o Dr. Lee. – nos apresentou, dirigindo-se primeiro a ele. Seus olhos em nenhum momento desgrudaram da mínima fração de movimento que eu me dispunha a fazer. – Lee Minho, esse é Han Jisung.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.