O Legado do Tabuleiro
11 O Colapso das Peças
O som metálico da chave mestra girando na fechadura cortou o ar do quarto como um tiro de misericórdia. Thomas mal teve tempo de se afastar quando a porta foi empurrada com violência.
James Lâfrer cruzou o batente com os olhos injetados de fúria, seguido imediatamente por Garret, cujas mãos tremiam de puro choque. Logo atrás, Sofia e Hope estancaram no corredor, com as expressões completamente petrificadas diante do cenário: os lençóis totalmente desalinhados, Maya com a camisola de seda suspensa e Thomas com o peito nu, a respiração cortada pelo flagrante.
— Mas que porra é essa, Thomas?! — a voz de James ecoou como um trovão, fazendo as paredes do quarto vibrarem. Ele avançou dois passos, apontando o dedo rigidamente para o peito do filho. — Você perdeu o resto de sanidade que te restava? Com a sua tia?! Sob o meu teto?!
— Pai, sai do quarto! — Thomas rosnou, postando-se imediatamente na frente de Maya para tentar cobri-la, o maxilar trincado em pura postura defensiva.
— Sai do quarto? — Garret Styles deu um passo à frente, a voz embargada pelo desgosto profundo enquanto olhava para a filha caçula. — Maya... como você teve coragem? Nós avisamos. Nós viemos até aqui para proteger você, e você se sujeita a isso? Acabou! Vocês dois estão completamente proibidos de ficarem no mesmo cômodo. Não haverá mais holding, não haverá St. Jude juntos, eu vou tirar você dessa casa amanhã mesmo!
O quarto, apesar de imenso, tornou-se sufocante, uma trincheira onde os segredos do passado colidiam diretamente com o presente.
— Proibidos?! — Thomas soltou uma risada amarga, ultrajada, dando um passo desafiador na direção de James e Garret. — Vocês querem falar de proibição? Vocês querem falar de moralidade? Olha para trás, pai! Olha para a mulher que está do seu lado! Você e a Hope começaram exatamente assim. Você era o tio dela, e ela era a filha do Garret! Qual é a diferença agora?!
— Cale a boca, Thomas! — James berrou, dando um passo ameaçador, a face vermelha de raiva. — Você não sabe do que está falando!
— Não, Thomas, ele tem razão! — Garret interveio, a voz cortante e autoritária, silenciando o ambiente por um segundo. Ele olhou nos olhos do neto com uma frieza cirúrgica. — Há uma diferença crucial que a sua arrogância não te deixa ver. O James e a Hope não eram tios e sobrinhos de sangue. A árvore genealógica de vocês é direta, o vínculo de vocês é oficial! Vocês moram na mesma casa como família legítima perante o mundo e as leis! O que vocês estão fazendo não é um romance rebelde, é a destruição completa do nome que nós passamos a vida inteira construindo na lama de Nova York!
Sofia cobriu a boca com as mãos, as lágrimas finalmente rolando pelo seu rosto, enquanto Hope mantinha os olhos fixos no chão, revivendo o fantasma de sua própria juventude sendo jogado na mesa da pior forma possível.
— CHEGA! — o grito de Maya rasgou o quarto, agudo, desesperado e carregado de uma dor que ninguém ali esperava.
Todos os olhos se voltaram para a cama. Maya levantou-se, ajeitando a camisola com as mãos trêmulas, as lágrimas descendo quentes pelo seu rosto, mas o olhar era puro fogo. Ela olhou para o pai, para a mãe, para os tios e, finalmente, para Thomas.
— Chega de falar de holding! Chega de falar de sobrenome! Eu não aguento mais essa hipocrisia de tabuleiro! — ela caminhou até o centro do quarto, parando entre os adultos e Thomas. Sua respiração era um chiado doloroso. Ela fixou os olhos em Garret e Sofia, a voz trêmula, mas firme como uma sentença de morte. — Vocês querem uma garantia? Querem salvar as ações da empresa? Pois eu prometo. Eu juro pela minha vida, pelo meu futuro, que eu nunca mais... nunca mais vou deixar o Thomas chegar perto de mim desse jeito. Acabou. O jogo de vocês venceu.
Thomas congelou. O peito dele subia e descia violentamente enquanto ele assimilava as palavras dela. Ele olhou para Maya, esperando encontrar um traço da garota que, segundos atrás, cravava as unhas em suas costas e pedia por mais. Mas tudo o que viu foi a frieza de uma Styles recuando para a segurança da holding.
Um brilho de puro ódio e decepção profunda tomou conta dos olhos escuros de Thomas.
— Você é uma covarde, Maya — ele disse, com a voz absurdamente baixa, fria e cortante, cada palavra pesando como chumbo. — No primeiro impacto, você correu de volta para o manual de regras deles. Você me dá nojo.
Ele pegou sua camiseta de moletom no chão com um puxão brusco, virou as costas e passou como um trator por James e Garret, batendo a porta do corredor com uma força que fez os vidros das janelas de Hamptons vibrarem.
Maya engoliu em seco, o estômago revirando, mas manteve a postura rígida. Ela se virou para os quatro adultos que ainda a encaravam com uma mistura de alívio e vigilância.
— Maya, querida... — Hope deu um passo à frente, estendendo a mão materna, tentando aproximar-se da filha. — Deixe-me falar com você...
— Saiam — Maya cortou, a voz gélida, destituída de qualquer respeito ou hesitação.
— Maya, meça as suas palavras com a sua mãe e seus tios — Garret alertou, com o cenho franzido pela audácia.
— Eu mandei saírem! Todos vocês! — Maya explodiu, sendo abertamente ignorante e hostil com os pais e os tios pela primeira vez na vida. Ela apontou para a saída, os olhos injetados. — Eu já dei a porcaria da promessa que vocês queriam para salvar o maldito império de vocês. Agora saiam do meu quarto e me deixem morrer sozinha aqui dentro!
Sofia puxou Garret pelo braço, balançando a cabeça, sabendo que não havia espaço para diálogo na mente destruída da filha. James olhou para a cunhada e para o sogro, fazendo um sinal com a cabeça para que recuassem.
Um a um, os quatro adultos cruzaram o batente, os rostos carregados de uma derrota silenciosa. No momento em que o último pé cruzou a linha, Maya avançou num salto, bateu a porta de madeira maciça e girou a chave mestra pelo lado de dentro, trancando-se em seu próprio exílio escuro, enquanto desabava de joelhos contra o chão de madeira, ouvindo o som implacável do oceano lá fora.
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