O Legado de Pontmerci
18 Véu Negro
Notas iniciais
Capítulo 18
Em um outro tempo, Watson poderia sentir que ralhar com seu amigo, o pomposo detetive de Baker Street, fazia parte de sua responsabilidade enquanto ser humano inteiramente são que estava sempre ao seu lado. Naquele momento, contudo, parecia ter sido um dos maiores erros que cometera desde que conhecera Holmes. Seu comentário não havia sido feito no intuito de deixá-lo ainda mais consternado do que estava, mas isso não o impediu de surtir tal efeito. Sherlock comeu pouco da ceia fria trazida pela senhora Hudson e seus olhos corriam a todo momento da porta entreaberta para o quarto.
Caso não soubesse o que se passara de fato entre seu companheiro e sua esposa, seria capaz de afirmar que a discussão fora de uma intensidade tão extrema, que um futuro estava fora de cogitação para o casal de Baker Street, ou seja, se não soubesse o que se passara ali, poderia afirmar que a parceria Anne e Holmes acabara. Aquilo era mais do que seria capaz de suportar ou de explicar para Mary. Sua querida Mary... ser mandada para casa de forma tão abrupta certamente não fez bem aos seus nervos; e assim que seu marido retornasse, ela estaria à postos para encher-lhe de perguntas sobre o casal. Alma boa e carinhosa que era, desejava sempre saber dos pormenores acerca de seus melhores amigos e como poderia ajudá-los em momentos difíceis.
Daquela vez, John teria que decepcioná-la. Não havia nada a ser feito. O que ele deveria ter feito e não fez foi manter a discrição e o silêncio. O assunto era inteiramente conjugal... como tantas vezes fora e ainda assim costumava ser discutido em sua presença ou mesmo na de Mary. Se alguém era culpado ali pelo silêncio desconfortável que se abatera sobre os dois, esse alguém era a força do hábito. Nunca lhe passara pela cabeça, mesmo ele que era descrito por todos como uma pessoa sensata, que chegaria o momento em que Anne não gostaria de ter uma plateia para seus espetáculos. Embora, refletia em meio a um gole de brandy, pensar assim sobre ela fosse desrespeitoso e vulgar. Especialmente quando ela o considerava um irmão muito querido; e que nunca possuíra.
Além disso, Watson também deveria saber, pelos olhos e a maneira como tentara abordá-la nas escadas, que uma represália não era necessária. Holmes só demonstrara tal nível de culpa e preocupação quando a senhora Holmes viu-se nas garras de James Moriarty. Seu ar de espírito era a própria definição de letargia, como se ele só desejasse fechar os olhos e acordar daquele sonho ruim. Isso, John sabia, não o ajudaria na noite que ainda precisavam enfrentar. E, como se estivesse lendo as ideias do doutor, Sherlock de repente se reergueu com energia, alcançando seu melhor sobretudo, chamando seu fiel Boswel para mais uma caçada.
O embaraço e tensão perduraram durante todo o trajeto até a charneca, de onde começaram o caminho a pé até Appledore Towers. Sherlock explicava todos os detalhes de sua conversa com Agatha para o doutor, hesitando em pronunciar seu nome por um momento. Watson se resumiu a assentir, mirando a casa, quando o detetive a apontou, com certa admiração. O lugar parecia ter sido retirado de um conto macabro àquela hora da noite. Sem nenhuma luz, o que deixou Holmes confiante. Pararam para colocar as máscaras e, em seguida, tornaram a caminhar pela varanda ladrilhada.
— Aquele é o quarto dele. – Holmes sussurrou. – Esta porta dá direto no gabinete. Seria mais conveniente para nós, mas além de trancada está aferrolhada, e faríamos muito barulho para entrar. Venha por aqui. Há uma estufa que dá para a sala de estar.
O lugar estava trancado, mas Sherlock removeu um círculo de vidro e girou a chave por dentro, a partir dali, perceberia Watson, se tornaram legalmente infringentes da lei. O caminho até o gabinete fora consideravelmente fácil, visto a incrível capacidade do pomposo detetive de enxergar no escuro, que segurando a mão de seu companheiro, guiou-os habilmente até a famosa sala recheada de tesouros. Aqueles que o interessavam, no entanto, eram mais singelos... nem por isso, possuíam menor sistema de guarda.
Com passos leves, Sherlock caminhou até o belo cofre verde no canto entre a parede e a estante, enquanto Watson ocupava-se em analisar a porta externa que os levaria para os jardins e, portanto, lhe parecera a escolha mais segura para um plano de fuga. Não estava trancada e nem aferrolhada. Preocupado com a carta branca que tal descoberta apresentava, aproximou-se de Holmes, que mantinha seu ouvido à porta do quarto de Milverton a fim de discernir a veracidade sobre seu sono pesado. Silêncio completo, nem mesmo o sussurro de roncos. O toque no braço dado por Watson assustou-o, mais ainda ao perceber o que consternava seu amigo.
— Isso não me agrada. – cochichou com os lábios encostados no ouvido do doutor. – Não consigo entender. Mas, seja como for, não temos tempo a perder. – era evidente que o enlace com a criada o enchiam de pensamentos ruins quanto àquela casa. Quanto mais rápido saíssem, melhor seria para ele.
— Posso fazer alguma coisa? – indagou John, visivelmente querendo contribuir com aquele desejo.
— Sim; fique junto da porta. Se ouvir alguém chegando, tranque-a por dentro e podemos sair por onde entramos. Se vierem pelo outro lado, podemos sair pela porta, se nosso serviço estiver feito, ou nos esconder atrás dessas cortinas, se não estiver. Entendeu?
E já de tarefas definidas, ambos se puseram a tratar de seus assuntos. Watson à porta e Holmes junto ao cofre, retirando de seu sobretudo seu estojo de instrumentos e pondo-se a refletir sobre qual era a melhor ferramenta a ser usada. A poucos metros de distância, John o observava com venerável admiração, esperando que seu hobby de abrir cofres fosse ajudá-los a escapar dali mais rápido e ilesos. O detetive retirou o sobretudo, dispondo-o sobre uma cadeira, arregaçou as mangas da casaca e começou a ponderar sobre duas furadeiras, um pé-de-cabra e várias chaves mestras.
Passou-se meia hora e durante tal interim, Holmes trabalhou tal qual um cirurgião em uma operação delicada; com extrema delicadeza e precisão de profissional. Por fim, ouviram o estalo e trocaram sorrisos. Ali dentro estavam milhares de pacotes amarrados, lacrados e rotulados. Agora precisavam encontrar o pacote de Madam de Pontmerci, contudo, à luz da lareira, ficava quase impossível de se ler as letras tão delicadamente dispostas nos envelopes. Com um suspiro nervoso, Sherlock então retirou sua pequena lanterna de dentro do estojo e pôs-se a procurar; parando logo em seguida.
Em um instante, a porta do cofre estava novamente fechada, os resquícios de sua presença naquele quarto recolhidos e seu corpo atrás de uma das cortinas. Watson o copiou e rapidamente percebeu o que o afligira. O barulho de movimento na casa e, logo, de passos no corredor adjacente àquele quarto. A porta se abriu, trazendo consigo o cheiro pungente de charuto forte e o estalido da luz elétrica se acendendo. Nenhum dos dois ousava se mexer, se resumindo apenas a ouvir enquanto Charles Milverton fazia seu caminho por dentro do quarto. Não os viu por trás da cortina, visto que permanecera de costas para elas o tempo inteiro, mas, dali, seus invasores já planejavam um plano de ataque se fosse necessário. Não fora.
Minutos depois, alguém bateu à porta e Milverton se aproximou para abri-la, revelando uma mulher graciosamente vestida com uma capa e véu negro que lhe encobria totalmente o rosto.
— Bem. – disse lacônico. – Você está quase meia hora atrasada.
Ousando espiar, Watson afastou as cortinas para verificar a visitante do chantagista, que o seguia até a mesa. Ela era alta, magra e morena, e além do véu, havia uma manta mais grossa envolvendo seu pescoço. Os olhos do doutor logo recaíram sobre suas mãos enluvadas. Tremiam... e na parte da frente de seu vestido, por entre a capa, era possível notar uma espécie de cabo negro... talvez, uma...
— Bem. – tornou a dizer Milverton. – Por sua causa perdi uma boa noite de sono, minha cara. Espero que tenha valido a pena. Não poderia ter vindo numa outra hora... hein?
A mulher sacudiu a cabeça.
— Bem, se não pôde, paciência. Se a Condessa é uma patroa severa, agora você tem uma chance de se desforrar. Mas que é isso, criatura? Por que treme tanto? Está tudo bem! Controle-se! Agora, vamos aos negócios. – disse tirando uma carteira de dentro da escrivaninha. – Você diz que tem cinco cartas que comprometem a condessa d’Albert. Quer vendê-las. Eu quero comprá-las. Até aí, tudo bem. Só resta fixar o preço. Eu gostaria de examinar as cartas, é claro. Se forem espécimes realmente bons... Meu Deus, é a senhora?
O peso dos ombros de Holmes sobre os de Watson aumentou, quando seu amigo forçou-se contra a fresta da cortina que haviam aberto. A mulher retirara seu véu lentamente e sem dizer uma palavra. Ao olhar bem para ela, Sherlock sentiu sua boca se abrindo um pouco em choque ao passo que apertava a mão de seu companheiro, para que mantivesse a calma. Ela estava muito bem coberta por aquela maquilagem que, sem sombra de dúvida, usava a fim de encobrir suas pistas... mas ninguém nunca se enganaria quanto àqueles olhos, se já os tivesse visto antes.
Parada diante de Charles Milverton estava Madam Josephine de Pontmerci.
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