Demora mas finalmente chegamos a uma ilha chamada Boa Morte, embora o nome, é o uma ilha comum com casas e comércios. Chegamos famintos, mas, pra nossa sorte, Connor roubara uma grande quantia do capitão (imagino que tenha sido por isso que ele saiu por último do aposento). Conseguimos quartos numa pousada e compramos comida.

Ainda pela manhã, já alimentados, nos reunimos ao redor de uma mesa num bar para discutirmos nossa situação. Embora ainda sejamos todos estranhos uns pros outros, apresentações não são mais necessárias. Ainda no barco a garota disse se chamar Rose e que trabalhava como faxineira na casa de um capitão da marinha (ela não diz porque havia sido presa e ninguém acha conveniente ou importante perguntar), em seguida o olhos puxados abriu a boca e nos mostrou que não tem língua, ele revela seu nome nos mostrando uma tatuagem em seu braço onde pudemos ler Hiro (fico tentando imaginar pelo que ele deve ter passado).

– Bom, e então? – Diz Connor ao ver que ninguém demonstrava querer começar. — Nós estamos vivos, pagamos qualquer tipo de dívida que tenhamos uns com os outros – essa última parte ele diz olhando para mim – Porque ainda estamos aqui?

– Eu te pergunto a mesma coisa. – Diz a garota em retorno. Ela suspira e volta a falar. – Agora que fugimos somos ainda mais procurados. Pra mim parece inteligente ficarmos juntos, e acredito que, no fundo, você pense o mesmo. Todos pensem o mesmo.

Connor fica sem ter o que dizer enquanto eu aceno positivamente com a cabeça.

– Certo, e qual o plano, mocinha? – Pergunta Connor.

Enquanto Rose pensa na resposta, Hiro puxa uma faca e começa a riscar a mesa de madeira no espaço entre mim e ele, todos param para olha-lo. Ele está escrevendo.

“Tem algo que eu quero mais que tudo no mundo.”

Apenas eu entendo o significado daquelas palavras, ele me olha seriamente nos olhos, vejo a determinação e o desejo dele. Como imaginei, tudo que ele fez até aqui foi baseado sobre o que eu disse pra Connor quando nos conhecemos na cela. Ele quer a bussola.

– O que ele quer dizer com isso? – Diz Connor.

– Isso... Isso é meio particular. Desculpe. – Respondo e depois olho seriamente para Hiro fazendo um aceno positivo com a cabeça. É claro que não darei a bussola a ele, é muito preciosa pra mim, foi dada pelo próprio Jack Sparrow e vou usa-la para encontra-lo. Mas também não posso negá-la a ele, Hiro me ajudou muito até aqui sem nem me conhecer. Vou ter que acompanha-lo nessa. E não posso contar sobre a bussola para os outros, Connor parece ser bem ganancioso, pode tentar toma-la de mim. Ele se mostrou um amigo até agora, mas ainda é cedo pra confiar nele totalmente. E Rose, de início, pensei que ela era uma moça frágil, imaginei até a possibilidade dela ter sido presa por engano, mas após vê-la matar o capitão daquele navio pirata tão friamente, já não tenho tanta certeza. Bom, é isso, esse segredo será nosso, Hiro, eu sei que você não vai espalhar. Haha.

– Bom, que seja. – Diz Rose, fazendo-nos voltar a discussão sobre o próximo passo a dar. Ela soa tão mandona e séria agora. Ontem à noite enquanto fugíamos da prisão em Tortuga ela parecia bem medrosa e frágil, parece que era apenas atuação pra nos fazer ajuda-la. – Vamos precisar de mais dinheiro e, com certeza de um navio.

– Como você espera conseguir essas coisas? – Prossegue Connor.

– Bom, temos três ótimos atiradores e, entre nós, alguém que é excelente usando espadas. – Ela diz a última parte olhando para Hiro.

– Ei, eu sou bom com armas também. – Digo.

– Mais importante que isso: Quer que nos tornemos piratas?

– Algum problema?

Rose lança um sorriso malicioso e Connor descansa as costas na cadeira cruzando os braços e sorrindo como se estivesse se divertindo. É Jack, parece que estou seguindo seus passos de verdade agora.

Decidido isto começamos a nos mover. Rose e Connor começaram a circular pela ilha para conhecer melhor o local, saber onde estão os mais ricos, localizar os maiores centros comerciais e regularmente visitam o porto para ver o navio que pode vir a ser nosso alvo. Estão também trabalhando em fazer pequenos roubos para aumentar nosso dinheiro. Enquanto isso Hiro começou a me dar aulas de esgrima. E, nestes momentos que passamos sem os outros dois, conto a ele sobre a bussola e que é importante que só nós saibamos dela. Falo também sobre meu plano de convencer os outros de seguir na direção que eu indicar, que será a direção da bussola, do objetivo dele. É bom falar com Hiro, ele não responde com palavras mas seus gestos e desenhos na areia permitem manter um tipo de diálogo.

Passa-se um mês, todos nos tornamos mais próximos, aprendemos a entender melhor o Hiro e ainda não me dou bem com a Rose, embora ela e Connor tenham ficado bem próximos. Voltamos então a nos reunir naquele mesmo bar, em uma de suas pequenas mesas redondas (desta vez com dinheiro para comprar algumas bebidas).

– Vamos direto ao assunto. – Começa Connor. – Um navio de mercadores está atracado no porto, ainda há algumas mercadorias e a noite ficam apenas três homens a bordo cuidado da segurança.

– Hoje à noite – continua Rose – atacaremos. O navio não é tão grande, dá pra ser navegado por apenas nós tranquilamente.

– Sobre a navegação – digo -, quero solicitar que eu cuide desta parte. Eu tenho certa experiência. – Andei praticando minha habilidade em mentir também.

– Tudo bem. – Diz Connor e Rose não se opõe.

Cai a noite, nos movemos com cautela para não despertar a atenção de ninguém nas ruas, o que talvez não devesse ser uma preocupação, já que àquela hora da noite raramente se via alguém na rua.

Rapidamente nos aproximamos do navio, sem sermos visto por ninguém, escalamos pelo casco e espiamos da beira a movimentação no convés, vemos os três que guardam o navio e quando eles dão as costas subimos rápido e sorrateiramente. Connor, Rose e Hiro cortam as gargantas dos três tão rápido que eles nem conseguem gritar. Começamos então a nos mover para colocar o navio em alto mar o quanto antes. Bom, eles começam, eu fico olhando os cadáveres perdendo sangue pelas gargantas, eu ainda não estou acostumado com tudo isso.

– Quem é você?!

Escuto uma voz atrás de mim, quando olho vejo que havia um quarto e inesperado homem no andar inferior do navio e que agora sobe ao convés já com uma pistola em punho. Antes que eu pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, os olhos dele vão de mim aos corpos no chão e volta a mim mas agora com ódio. Sua mão se levanta em minha direção apontando a arma, tento pegar a minha mas sei que não há tempo. Vejo tudo desacelerado, uma mão vinda por trás de mim puxa meu ombro enquanto projeta todo o corpo para frente, é Hiro e ele já está com sua arma em punho. Dois tiros quase simultâneos são desferidos, o homem cai no chão assim como Hiro.

Fico paralisado por um instante, vejo Rose levar as mãos à boca em choque enquanto Connor corre em minha direção. Olho para baixo e vejo Hiro caído de lado e com sangue saindo de seu peito. Caio de joelhos ao seu lado e viro seu corpo para que eu possa olha-lo. O navio começa a se mover mas não desvio o olhar do rosto sofrido de Hiro, nada mais importa naquele momento.

– Você não precisava... Porque você...?! – A emoção toma conta, não consigo falar. Ele continua a sofrer. Ponho a mão dentro da minha blusa e tiro a bussola do meu pescoço e a ponho na mão dele, que está sem forças. Movo-a para ele em direção aos seus olhos e a abro para que ele ao menos veja, antes de morrer, onde aquilo que ele mais quer está. Ele merece ao menos isso. É triste ele morrer sem conseguir o que ele lutou tanto pra tentar encontrar, ele estava realmente determinado. Será que era uma pessoa? Nunca saberei.

Ele olha para a bussola através daqueles olhos estreitos e então, mesmo com dor, ele sorri. Sua outra mão trêmula é colocada sobre as minhas enquanto ele move os lábios. Pelos movimentos que ele faz consigo distinguir um “obrigado”. Lágrimas caem.

Eu não percebo de imediato, mas Connor e Rose ficaram ali de pé em silêncio fazendo companhia a Hiro em seus momentos finais. Acho que ouvi Rose chorar.

– Você nunca será esquecido. – Digo para Hiro, mas não sei se ele ouviu. Seu corpo estava imóvel.