O Legado de Hórus

Escrito numa parceria entre Luiz Fabrício “Goldfield” e Carol “Onigiri”.

Capítulo 1

O veículo vencia as áridas dunas velozmente. Deixava para trás um rastro de poeira conforme suas rodas, impelidas pelo ronco do forte motor, percorriam a região.

Sobre a bela e potente moto se encontrava uma figura feminina, atlética, trajando uma camiseta azul sem mangas sob uma jaqueta marrom, calças jeans e botas nos pés. À cintura trazia dois coldres contendo pistolas calibre 45. Os cabelos castanhos estavam presos num rabo de cavalo que balançava ao vento seco e os olhos, semicobertos por um par de óculos escuros.

Com os dentes cerrados, a jovem avistou uma construção alguns metros adiante, um tanto rústica, mas que demonstrava sinais de presença humana... Desacelerando, preparou-se para deter-se ali de forma breve, apenas para conseguir informações. Talvez não houvesse risco nenhum nisso, já que os perseguidores pareciam já ter perdido seu rastro.

Malditos contrabandistas... Quem serão eles?

Pensando ainda naqueles estranhos homens e seus armamentos ainda mais esquisitos, torcendo para não mais voltar a encontrá-los, freou diante do pequeno local...

De seu interior provinham sons de conversas, bebedeiras, jogatinas... certamente se tratava de algum tipo de botequim. E eis que, através da porta aberta, surgiu, um tanto trôpego, mas logo recuperando a firmeza nas pernas, um homem de surrada jaqueta preta, uma bolsa pendurada ao ombro, calças e botas marrons, algo como um chicote – e sim, era mesmo um chicote – preso à cintura e para completar, sobre a cabeça, um chapéu Fedora, o mesmo que a recém-chegada já vira tantas vezes sendo usado por um famoso personagem do cinema... Freddy Krueger.

Ela decidiu-se imediatamente: pediria informações a aquele sujeito mesmo.

Estacionou a moto logo em frente a ele, que, com os olhos um tanto arregalados e ajeitando o chapéu, pareceu surpreso ao contemplar o veículo. Parecia nunca ter visto nada como aquilo. Foi sorrindo que a jovem o saudou, desligando o sonoro motor de seu transporte:

- Olá!

- Quem diabos é você? – o homem, aparentemente norte-americano, indagou indelicado.

- Mas que maneira de responder às pessoas, hem? – murmurou ela em resposta, baixando de leve os óculos escuros. – Meu nome é Lara Croft. E o seu?

- Indiana. Indiana Jones.

- Hum... Um nome um tanto incomum. E não me recordo ao certo, mas creio já tê-lo ouvido em algum lugar...

Coçando a barba, Jones imaginou se tal fama se dava à sua carreira como professor e arqueólogo ou se a bela moça, de evidente sotaque britânico, tinha familiaridade com seu nome devido a simplesmente um dos estados dos EUA se chamar “Indiana”. Foi com certa desconfiança e olhos ainda atentos à arrojada motocicleta que perguntou:

- E o que faz se aventurando pelas dunas do Egito sozinha, Lara?

- Na verdade eu estava sendo perseguida, mas creio ter conseguido despistar os desgraçados... Inclusive eles desapareceram mais rápido do que eu imaginava.

- Procurava alguma coisa? – cruzando os braços, Indy, como era mais conhecido, ergueu astutamente uma das sobrancelhas.

- Hum... Sim e não – Croft preferiu não revelar toda a verdade a um estranho. – Mas há algo de interessante por aqui?

- Sim e não – foi a vez do arqueólogo, divertindo-se, dar uma resposta vaga à jovem. – Por estas redondezas se encontrava a cidade de Tanis, na qual encontrei a Arca Perdida... Mas agora a área de escavações certamente está abandonada. No entanto, nunca se sabe o que podemos encontrar em terras tão antigas como estas... E algo me diz que também se interessa por artefatos arqueológicos, não é mesmo?

Apesar de Lara não admitir, ficou surpresa pela dedução dele. E este, por sua vez, estava disposto a saber mais a respeito daquela misteriosa e encantadora mulher.

- Talvez haja algo mais enterrado por estas redondezas, quem sabe algum tesouro de civilizações passadas apenas aguardando as pessoas certas para revelá-lo ao mundo... – Indiana disse de um modo um tanto persuasivo. – Não teria interesse em me ajudar a descobrir?

- Ajudá-lo?!

Lara pareceu pensar por uns segundos. Não era de seu costume ter companhia em suas procuras, e pensava que isso poderia lhe acarretar desavenças. Por outro lado, não era má idéia: o homem parecia conhecer o lugar melhor do que ela e, seja lá o que acabassem encontrando, daria um jeito de embolsar.

— Tudo bem! Nós podemos procurar juntos. Mas primeiro, preciso descansar um pouco e me preparar. Conhece algum lugar por aqui onde eu possa alugar um quarto por esta noite?! E o clima aqui é um tanto quente...

Ela abanava-se incomodada com o calor, enquanto tirava a jaqueta aveludada e a colocava sobre a moto.

- Estamos a poucos quilômetros do Cairo – respondeu Jones. – Conheço uma boa hospedaria por lá. Bons quartos, comida apetitosa. E não é lá muito cara. Eu poderia levá-la até o lugar, se você me desse uma carona nessa sua moto...

Croft pareceu raciocinar por um instante. Acabara de conhecer aquele sujeito, não sabia se ele era plenamente confiável ou não, porém cabia lhe dar uma chance. Ela mesma, ao final, poderia sair lucrando com aquilo.

- Ora... claro! Vamos!

Posicionou-se de volta sobre a moto com um sorrisinho, recolocando os óculos escuros e ligando-a. Olhou para ele, esperando que subisse também. Via graça no modo com que ele olhava para a moto, parecia nunca ter visto uma, enquanto Lara já era bem acostumada a elas.

Indy caminhou e sentou-se um tanto desajeitado na garupa do veículo. Curioso, resolveu perguntar:

— Errr... Que tipo de motocicleta é esta, afinal de contas?

Ele pensava se talvez não seria mais alguma invencionice que não conhecia, ou algo pior...

A inglesa olhou pra trás, com um ar incrédulo e desconfiado.

— Você esteve preso por anos em alguma reserva longe da civilização ou algo similar?!

Era um homem realmente muito desatualizado, o que estranhou a morena. Onde já se vira, não conhecer uma moto daquelas?! Era desejo material de tantas pessoas...

— É uma Triumph Speed Triple. Linda, não?! – explicou Lara sem muito entusiasmo, enquanto segurava firme o guidão, acelerando antes mesmo de sair, o que causava um grande barulho. Deu uma risadinha, olhando de soslaio para o rapaz e dizendo, maliciosa:

— Espero que não tenha medo de alta velocidade!

Não esperando resposta, avançou em um tranco com a moto, que rapidamente adquiria alta velocidade. Lara adorava aquilo.

Jones agarrou-se como pôde à garupa, sacolejando, e o chapéu, milagrosamente, não lhe voando da cabeça. Replicou, um tanto irritado:

— Não, nunca vi nada assim... E viajo muito pelo mundo, se quer saber... É modelo 38 ou 39? Alemã?

Após questionar sobre o transporte, contemplou a paisagem desértica passando extremamente rápida conforme avançavam, antes de complementar:

— E nossa, como corre! Deve ser movida a Oricalco (1)! Nesse ritmo, estaremos no Cairo em poucos minutos!

Croft balançava a cabeça, ainda sem acreditar nas perguntas que lhe eram feitas. Decidiu ignorá-las, se não teria de passar horas explicando. Homem estranho!

— Você está acostumado a andar com o quê?! Camelos?! – debochou ela; a voz alta, com o rosto levemente inclinado para trás, afim de que ele pudesse ouvi-la em meio ao barulho.

Indy quase despencara da moto pendendo para a direita, mas conseguira se manter firme na garupa num suspiro de alívio.

— Eu já andei em cavalos, carros, jipes, caminhões, trens, barcos, aviões, apesar de não saber pousar, e até submarinos, para sua informação, senhorita...

Sua voz não denotava muita satisfação, ao mesmo tempo em que ajeitava o chapéu como podia.

Até certo ponto ele tinha razão no que dissera há pouco; se corressem demais acabariam passando a hospedaria e chegando à próxima cidade.

— Aonde fica o lugar?! – falou novamente Lara. – Estamos perto?!

Olhando ao redor, Indy percebia que já adentravam as ruas do Cairo. Guiou a moça enquanto dizia, apontando um dos braços para o lado:

— Vire à esquerda naquele beco. A hospedaria fica duas lojas depois de uma mesquita!

Como indicado, Lara virou à esquerda. Não se preocupou em diminuir a velocidade, o que fez a moto inclinar bastante enquanto faziam a curva, além de levantar uma nuvem espessa de poeira, chamando a atenção de alguns comerciantes e outras pessoas que passavam pela rua. Logo estavam no lugar, e Lara finalmente estacionou a moto em frente à hospedaria.

— Aqui, correto?!

Jones suspirou quase enfartando:

— Sim, é aqui!

Desceu da moto com as pernas bambas e coração ainda disparado, olhando para os moradores curiosos. Alguns se afastavam assustados: se uma moto comum já não era tão freqüente naquelas vielas, uma como a da britânica então era uma verdadeira máquina feroz e desconhecida. Algumas crianças, porém, logo se aglomeraram ao redor da mesma para admirá-la, enquanto orações a Alá eram ouvidas do interior da mesquita próxima.

— Você sabe mesmo como fazer uma entrada, hem? – o norte-americano brincou com a companheira, ajeitando o chapéu.

- Sim, eu sei! – ela respondeu orgulhosa, como se não houvesse percebido o tom de ironia na frase.

— Venha, vamos nos registrar! – ele apontou então a entrada do estabelecimento.

- Já se hospedou aqui antes?! É confiável, o lugar?! – Croft quis saber olhando discretamente ao redor enquanto adentrava o local, dirigindo-se ao balcão com Indiana.

- É confiável sim... Só cuidado com oportunistas...

Indy debruçou-se sobre o balcão, olhando para o singelo atendente de turbante branco e bigode preto espesso, que terminava de atender a um cliente através de um telefone. Dirigiu-se a ele:

— Senhor, pode reservar um quarto para mim e minha amiga?

E logo após perguntou-se com certo arrependimento, depois de sentir um cheiro de queimado, se as refeições do local ainda continuavam boas...

Enquanto Jones cuidava dos preparativos para a estada, Lara afastou-se um pouco, dando uns passos ao redor da saleta de recepção, olhando curiosa para tudo. Pareceu sentir o mesmo cheiro que ele, mas também não comentou nada a respeito. Incomodava-se ainda com o calor e, sentindo a garganta dolorida pela sede, propôs:

— Quero tomar algo... Me acompanha, Sr. Jones?

Indy terminara de reservar o quarto, apanhara as chaves e as guardara embaixo da jaqueta, sua atenção se voltando então para a moça:

— Bem, eu adoraria, senhorita Croft...

Ele a encaminhou então até um pequeno bar próximo onde, atrás de outro balcão, um magro mas sorridente funcionário preparava alguns exóticos coquetéis feitos na hora, tendo atrás de si também um vasto acervo de bebidas engarrafadas.

— O que vão querer? – ele perguntou.

- Me recomenda algo, Sr. Jones?

Ele, afinal, parecia conhecer bem o lugar. E provavelmente conhecia também a gastronomia local. Lara apoiou o cotovelo sobre o balcão, sustentando o queixo com uma das mãos. Sorria para o atendente enquanto esperava que o amigo, ainda um tanto misterioso, fizesse o pedido pelos dois.

- Bem, eu vou de uísque! – ele fez um sinal para o bartender. – Me acompanha?

O funcionário já colocara um copo sobre o balcão e o encheu com a bebida pedida por Indy. Mesmo não sendo algo local, Jones acreditava que uísque era uma boa pedida em qualquer lugar do mundo.

— Como petisco, posso pedir tâmaras... se quiser.

- Pensei que teria que beber algo que nunca havia ouvido falar na vida – Croft afirmou um tanto aliviada.

Deu em seguida uma risadinha, concordando com a cabeça logo depois e se dirigindo ao funcionário:

— Uísque para mim também. E traga as tâmaras.

Virou-se para seu acompanhante, fitando-o pelas lentes arredondadas dos óculos escuros. Indagou:

— Não é daqui, não é, Sr. Jones?! Apesar de conhecer o lugar, não acredito que more na cidade.

Ele deu um sorriso e esclareceu:

— Não sou mesmo, você é bem perspicaz. Sou norte-americano. Dou aula em Barnett College, Nova York. Arqueologia. Mas quase sempre estou viajando pelo mundo em busca de artefatos e descobertas...

Indiana bebeu mais um gole de uísque fitando a acompanhante de um modo astuto. Depois prosseguiu:

— Mas, diga... Creio que as rudes dunas não originaram alguém como você também, estou certo? De onde é?

Lara pegou o copo, bebendo um pequeno gole do uísque. Por pouco não engasgou, surpresa ao ouvir o que o homem revelava:

— Ora, então é um arqueólogo?! Não é a toa que seu nome não me é estranho, já devo ter lido sobre você, ou talvez meu pai já tenha me falado algo. Ele também era arqueólogo...

Encarou a bebida por um momento, balançando de leve o copo e sorvendo mais um gole. Continuou:

— Está certo, sim. Sou de Surrey, Inglaterra. E, se quer saber... ganhou uma nova companheira no ramo da arqueologia e busca de artefatos!

Concluiu com uma piscadela, levando seu copo de uísque ao de Indiana, fazendo assim os copos tilintarem em um brinde. Indy sorriu novamente, satisfeito por ter encontrado uma valorosa aliada e também uma amiga.

— Um brinde! – ele exclamou.

Jones estranhou um pouco, no entanto, o fato de ser conhecido na Inglaterra, já que somente seu pai era bem-visto no país, o filho nunca o fora. Algo naquilo tudo era misterioso... Ignorando por enquanto tais dúvidas, deu continuidade à interessante conversa:

— Mas afinal... O que faz no Egito?

Lara sentiu-se incomodada com a pergunta. Não queria mesmo ter de revelar sua real intenção para alguém que acabara de conhecer. O homem parecia confiável, mas sua experiência – e ganância – a ensinaram a manter-se cautelosa com desconhecidos ou interessados em artefatos, assim como ela.

— Eu... estou a trabalho... procurando algo que possa me interessar, nada de mais...

Outro gole de uísque e logo perguntou, olhando para o balcão, tentando disfarçar qualquer interesse:

— Tem certeza que não sabe de nada... não ouviu falar de algo... que possa estar escondido por aqui, Sr. Jones?

Arqueando uma das sobrancelhas, Indy pensou que talvez a moça estivesse ocultando algo de si, o que acreditava, porém, ser natural. Daria tempo ao tempo. Revelou a ela:

— Bem... Recentemente alguns arqueólogos suíços julgaram ter descoberto a localização do milenar Templo do Saber Perdido de Hórus... Até então todos diziam que não passava de uma invenção da cabeça dos arqueólogos que estiveram aqui no Egito no início do século, porém agora há evidências de que pode realmente existir...

Tomou mais um gole da bebida, pensando no que tal templo poderia esconder. Isso realmente atiçava sua imaginação.

- Humm... e que evidências seriam essas, Sr. Jones? – Croft pretendia descobrir mais.

Ela abandonou o copo, apesar de ainda restar um pouco da bebida. Seu interesse notavelmente aumentava com o decorrer da conversa. Então o Templo do Saber Perdido de Hórus realmente poderia existir... e mais: ela estaria no caminho certo para encontrá-lo.

- Bem... – Jones retirou o chapéu devido ao calor, segurando-o numa das mãos. – Uma dupla de suíços, os irmãos Clarent, encontraram um conjunto de pilares perto da margem oriental do Nilo que podem ser parte da estrutura do Templo, conforme descrita nos relatos ditos lendários. Há quem diga que o restante da construção só será acessível via escavação... Ou que na verdade os pilares guardam algum tipo de passagem secreta.

Conforme falava, sabia cada vez mais que o enigma fascinava tanto a jovem quanto a si próprio. Ela perguntou, intrigada:

- Hum... e você acredita nisso?! Acredita que este Templo esteja realmente escondido?

Lara olhou ao redor, como se certificando de que o lugar estava vazio. Voltou-se para o arqueólogo com mais uma pergunta, a voz mais baixa, mas ansiosa pela resposta. Estava claramente empolgada com aquilo:

— Ou ainda mais: que haja meios de acessá-lo?!

O arqueólogo suspirou num ligeiro sorriso. Ele já havia encontrado coisas fantásticas suficientes em sua vida para admitir que a existência do Templo era mesmo verdadeira, mas mesmo assim...

— Ele pode sim existir... – replicou com cautela. – Mas os suíços não concluíram sua verificação. Desapareceram misteriosamente no meio do deserto. Se alguém experiente o bastante fosse até lá checar... Talvez fosse sim possível acessar seu interior.

- Você se considera experiente o bastante, Sr. Jones? – a astuta Croft perguntou com a voz mais alta e um sorrisinho quase desafiador. Endireitou o corpo até então praticamente debruçado sobre o balcão e cruzou os braços, encarando-o.

- Anos de experiência, minha cara. Para o que der e vier...

Sorrindo, ele ajeitou de novo o chapéu num olhar sagaz, aceitando o desafio da inglesa. Sim, achava que fariam uma ótima dupla.

E uma grande aventura estava por se iniciar.

Notas:

(1) – Oricalco: Suposto metal mencionado em vários escritos da Antigüidade, principalmente o relato de Platão sobre a lendária Atlântida. De acordo com o mesmo, o Oricalco só não era mais valioso que o ouro, sendo encontrado e explorado em Atlântida. No jogo de computador “Indiana Jones and the Fate of Atlantis”, é descrito como uma poderosa fonte de energia na forma de pequenos grãos dourados, que os nazistas almejavam obter para a construção da bomba atômica.

Continua...