O Legado RED

1 Lua de Sangue


Notas iniciais
Espero que gostem, e me desculpem, porque tive que escrever rápido.

─ Ah não, por favor ! ─ protestei contra minha mãe. ─ A galera toda vai, por favor fique com a Lily.

─ Por favor digo eu, não seja tão egoísta, vai ter outra lua de sangue no final do ano. Você é jovem, pode ir na próxima. ─ ela disse inflexível, ajustando a maquiagem perfeita. ─ Não que eu não seja, mas... ah, você entendeu.

Revirei os olhos. Essa mania de querer ser sempre jovem dela era algo realmente repulsivo. Tanto que ela deixaria o próprio filho cuidando da filha pequena, pra sair para jantar com um cara que mal conhece. Minha mãe tinha 41, mas aparentava uns 36, por conta das sessões de botóx e por sua frequente alimentação natural e tratamentos naturais tão repulsivos quanto sua personalidade.

Ela se olhou no espelho mais uma vez, como se sua maquiagem tivesse deixado de ser perfeita por apenas um piscar de olhos, depois de meu pai ter morrido, essa mania piorou. Vesti o moletom vermelho enquanto pegava na mão de Lily e esperava por Sarah do lado de fora. Chamá-la de mãe era meio que uma proibição, uma vez, quando ela trouxe seu pretendente ricaço para casa, e a chamei de mãe, recebi um belo tapa em minha boca. E para piorar, Sarah disse para Christopher que eu e Lily éramos seus sobrinhos, e que a chamávamos de mãe porque ela havia nos criado, depois de sua irmã ─ que não existe ─ ter morrido. Completamente irritante, não ?!

Eu deveria sentir ódio de Sarah, mas sinto pena. Pena de sua superficialidade, pena de achar que Christopher a ama, pena de sua personalidade, pena de sua alma.

Lily segura minha mão com força, vestindo seu moletom rosa. Os cabelos negros, assim como os meus e de meu pai balançam ao vento. Lily era uma criança incrivelmente doce, e eu não sei o que seria dela sem mim. Com apenas 5 anos, ela possuia uma linda personalidade altruísta. Papai dizia que Lily era minha versão feminina. Será ? O mesmo formato dos olhos, sim. A mesma cor também, olhos pequenos e puxados de um castanho tão escuro que parecem serem negros. A mesma pele ? Sim. A mesma pele morena avermelhada e pálida, fruto da mistura de um pai descendente dos índios Kwakiutl e de uma mãe branquela descendente de ingleses. Lily e eu éramos muito parecidos com nosso pai, foi uma pena ele ter a vida interrompida por aquele acidente de carro, quando Lily tinha apenas 2 anos e eu 13. Parece que foi há muito tempo, mas foi há apenas 3 anos. Eu sinto sua falta de uma maneira indescritivelmente dolorosa, mas tive que aprender a ser forte, principalmente por Lily. Sarah surtou, parou de trabalhar, vivia trancada no quarto e tentara se matar duas vezes. Mas depois de suas amigas ─ igualmente superficiais ─ terem a aconselhado que ela ainda era jovem e que a vida dela ainda não acabara, Sarah deu a volta por cima, aplicou botóx, arrumou um novo emprego, e voltou a cuidar dos filhos. Mas com toda essa reviravolta veio essa mania extremamente narcisista e prepotente, e aos poucos fomos esquecidos, então passei a cuidar de Lily, a alimentava, ajudava no banho e a botava pra dormir, criando assim um amor fraterno muito grande entre nós dois.

─ Sarah vai demorar muito ? ─ ela me observou com os olhos preocupados.

─ Espero que não, já estamos atrasados. ─ a olhei de cima, enquanto batia os pés com impaciência contra a calçada.

Mesmo estando na primaveira, a brisa matinal do pacífico nos atingia e eu realmente sentia o vento frio em meu rosto, susperei impaciente, enquanto Sarah saía de casa e entrávamos em seu Honda prateado.

Durante toda a ida à escola pensei sobre como seria se meu pai ainda estivesse vivo. Será que Sarah estaria assim ? Com certeza não. Observei o rio Fraser, e o céu, as montanhas ao longe. Eu realmente era feliz, por ter amigos, por ter uma vida confortável, e apesar de Sarah ser uma mãe aleatória, eu tinha à Lily, minha pequena e doce irmãzinha.

─ Depois da escola vocês passem no Rick’s, deixei lanche pago para vocês dois, entenderam ? ─ Sarah disse enquanto saíamos de seu carro ─ Entenderam ? ─ sua voz soou mais alta e mais irritada.

─ Sim Sarah, entendemos, não somos surdos . ─ a respondi no mesmo tom, enquanto pegava a mão de Lily. ─ Tenha um bom dia.

─ Ah, mas parecem ─ ele disse se olhando no espelho do carro ─ Boa aula, mamãe ama vocês.

E disparou em direção ao seu trabalho. Senti uma vontade louca de rir, Sarah não ama ninguém, essa é a verdade, ela só ama a si mesma. Olhei para Lily que parecia querer rir também, nossos olhos se encontraram e ela riu, não aguentei e ri também. Erámos crianças más por rirmos de nossa mãe narcisista e alheia ?

Após levar Lily à pré-escola e chegar em minha, avisto meus amigos esperando impacientemente por mim na entrada e me apresso, não quero testar a paciência deles.

─ Caramba, achei que você não ia vir ─ diz Andy, com seus olhos cor de mel sérios e suplicantes. ─ O que aconteceu ? Sarah de novo ?

Assenti. Jessie e Leo chegaram logo depois, e então Zoe. Chamando por nós, já que o alarme já havia tocado.

Eu tinha os amigos ótimos, não eram populares, muito menos eu era popular, mas no nosso grupo, nós nos complementávamos. Andy tinha problemas na família em relação a bebida, Zoe tinha problemas com o irmão mais velho e machista, eu tinha Sarah, Jessie tinha Giana, sua mãe igualmente avulsa, e Leo, bom, Leo era gay, e seu tinha sérios problemas para aceitá-lo. Nós éramos os desajustados, os rebeldes sem causa, não éramos nem um pouco populares, como já disse, mas éramos verdadeiros e cada um levanta e se apoiava no outro. Fora eu e Zoe, os outros bebiam, Andy e Zoe eram as duas únicas héteros, e eu e Andy éramos os mais ajuizados.

Depois das primeiras aulas, nos encontramos no almoço, e quando cheguei à mesa, ouvi o assunto pelo qual tive que ouvir e ficar extremamente chateado por não poder ver: A Lua de Sangue. Um fenômeno lindo e raro da astronomia, que eu não veria porque tinha que tomar conta de Lily. Meus amigos haviam combinado de ver filmes depois do jantar e tarde da noite verem a lua rubra no céu, o que eu não poderia fazer, já que eu não queria que Lily se amedontrasse com os assustadores filmes de terror que a galera assistia. Loucos.

─ E então Luke ? ─ diz Jessie enquanto comia batatas fritas. ─ Vai vir né ?

─ Ah, huh ─ me enrolei. ─ não vai dar, tenho que ficar com a Lily...

Todos me olharam e entenderam, todos sabiam de como Sarah era ridícula e como Lily dependia de mim.

─ Ah, vai ter outra lua mesmo, sem problemas ─ Zoe deu de ombros, ajeitando em seguida seu cabelo vermelho escuro, os olhos puxados com um olhar de despreocupação.

─ Fala a verdade, você vai é ver o eclipse com um bofe ! ─ Leo exclama, e todos riem. Observo meu amigo com seu olhar sarcástico vindo de seus olhos castanhos escuros. Leo era engraçado, desde seus pés, passando por sua pele morena até seus cabelos negros no topo de sua cabeça.

Dei um sorriso amarelo e dei um olhar de reprovação pra ele.

─ Queria eu ver o eclipse com um bofe, tô mais encalhada que baleia em maré baixa ─ diz Jessie, minha amiga pseudo alcólatra de cabelos e olhos castanhos e pele branca, sua baixa estatura fazia-me sentir um gigante, já que eu tinha 1,80 e Jessie pouco mais de 1,60. Na verdade, eu era o mais alto, o que era cômico porque eu era um dos mais responsáveis também.

Andy riu e exclamou:

─ O Mitchell me chamou pra ver com ele, mas eu estou chateada com o que ele fez e vou ver com vocês.

Eu tinha um pouco de pena de Mitchell, o namorado de Andy, que era demasiado carinhoso para a frieza e negatividade da minha amiga, o cabelo castanho de Andy estava com seu costumeiro coque, e já que sua nuca e parte do seu cabelo era azul, toda a parte de trás estava azul turquesa, uma ótima combinação.

Andy era estilosa, Jessie alternativa, Leo era uma diva, Zoe se recusava a usar maquiagem e eu era eu.

Depois de me despedir dos meus amigos, e comer no Rick’s, Lily e eu fomos pra casa. Acabei dormindo no sofá e só acordei 18:34 com Lily me chamando pra ver A Pequena Sereia. Assisti junto com minha irmãzinha, que sabia de cor todas as músicas e cantava, cheia de vida. Mesmo não aturando a ingenuidade da Ariel.

Por volta de 19:40 jantamos, e Sarah chegou às pressas e foi se arrumar. Se encontraria com Christopher para jantarem e depois verem o eclipse juntos.

─ Ah que droga, Chris não arranjou reserva para nós ─ ela estava apressada e nervosa ─ O que você preparou ?

Não tive tempo pra responder, Sarah de encaminhou para a cozinha e viu o jantar que eu havia preparado, que não era nada chique.

─ Ah, isso aqui tá bom ─ ela se encaminhou aos armários retirando os talheres de prata e os colocando em cima da mesa.

─ Ei, Sarah ─ a segurei pelos ombros ─ Oh, pare. Você está atônita !

Ela respirou fundo e se concentrou.

─ É verdade, é verdade ─ ela tocou o rosto com a ponta dos dedos ─ Preocupação dá rugas, rugas são ruins, obrigada Luke.

Tive que me segurar pra não dar na cara dela.

O telefone de Sarah tocou e ela correu apressada para atender.

─ Chris ? Amor, ah que lástima ─ sua voz era um poço de melosididade. ─ Conseguiu ??????? Ó-ti-mo ! Às nove ? Ok, beijos baby.

Ela desligou e sorriu animada, parecendo uma menina do colegial.

─ Ainda bem que ele conseguiu, imagina que gafe servir isso ─ ela apontou para as panelas ─ para Christopher Graham-Wood. ─ ela riu.

─ Vai se arrumar e cala a boca, Sarah Reed. ─ eu disse frio.

─ Olha aqui menino... ─ ela levantou um dedo.

A ignorei e subi para o meu quarto. Christopher chegou e levou Sarah, e Lily pediu para eu contar uma história antes de ela dormir.

Enrolei, mas Lily era esperta, e acabei contando a história da Chapeuzinho Vermelho, ela prestou atenção em cada detalhe, até que no meio da história, pegou no sono. Beijei sua testa delicada e fui para o meu quarto. Nem o cochilo que tirei de tarde tirou meu sono, e dormi rapidamente, com a brisa fria entrando pela janela.

Acordei com um barulho alto vindo da cozinha, como panelas jogadas ao chão. Imaginei que Lily sentiu fome e foi comer alguma coisa, mas um barulho estranho me fez entender que não. Levantei devagar, me encaminhando ao seu quarto, constatando a cama rosa e branca vazia. Com os cobertores cheios de sangue. Espera... SANGUE ?

Um frio subiu pela minha espinha, cada pelo do meu corpo se eriçou e o desespero foi tão grande que me encaminhei ao corredor chamando angustiosamente pelo seu nome:

─ Lily ?? Lily ??? ─ observo o rastro de sangue pelo corredor e levo a mão a boca, tomado pelo desespero. ─ Li...

Corro até a sala, e vejo o que eu jamais esperaria ver. Primeiramente imaginei que um estripador de criancinhas havia invadido nossa casa, mas o que estava na minha frente era muito, muito pior.

Pra começar, a besta tinha mais ou menos minha altura, porém ela estava abaixada, o pelo negro estava salpicado de sangue, os olhos dourados brilhando com o mal dentro deles, dentes grandes afiados manchados de sangue fizeram minha vida passar pelos meus olhos, era uma mistura bizarra de homem com lobo, mais lobo que homem, porém seus olhos eram bizarramente humanos, exceto pela cor amarelada. O que estava na minha frente era a criatura que eu mais tinha medo, e que sempre neguei em acreditar. Um lobisomem.

Suas garras enormes estavam ensopadas de sangue, de um sangue vermelho e puro, porque no meio de suas garras, estava o corpo mutilado, despedaçado e ensanguentado de Lily.

A dor me atingiu, o ódio também, junto com o desespero, eu não conseguia me mexer, estava travado no mesmo lugar. Todos os meus instintos gritavam “corra”, mas meu corpo estava retesado.

A fera uivou e direcionou a atenção pra mim, rugindo, com os olhos tomados por morte. Então, meus instintos falaram mais alto e corri para a cozinha, não ousei olhar pra trás, porque sentia o odor pulgente e pútrido de seu bafo. Me abaixei e o homem lobo pulou por cima de mim, corri para o outro lado da cozinha e meus olhos se direcionaram aos talheres de prata em cima da mesa... Prata...

Peguei a primeira faca que vi e a segurei com força, meus olhos encontraram o do lobisomem, ele me observou sobre quatro patas, andando como se fosse me devorar em poucos segundos, mas eu não deixaria isso acontecer, eu não ia.

Ele avançou, corri em direção ao balcão e acabei escorregando no sangue, bati o queixo contra o chão e senti o gosto de sangue na boca, apenas tive tempo de me virar e estender a faca pra cima, enquanto o lobisomem pulava em cima de mim.

Fechei os olhos, esperei pela dor de seus dentes rasgando meu rosto e suas garras em minhas entranhas, mas nada. Nada aconteceu, o odor de seu bafo continuava em meu rosto, e eu sentia seu peso em mim. Movimentei meu corpo e observei o corpo da fera ao meu lado, a faca de prata enfiada em seu peito. Senti meus olhos queimarem, meu corpo ferver. Senti minha pele formigar e todos os meus instintos se aguçaram, eu me sentia diferente, vívido e firme.

Ouvi a porta ser derrubada e peguei outra faca, pronto para qualquer fera que aparecesse. Mas ao invés disso, entraram três jovens. Um menino de cabelo castanho baixo, com um arco na mão e flechas na aljava. Uma linda menina ruiva com um alfanje afiado, e um outro garoto loiro e musculoso, mais alto que eu, com uma lança na mão, ele me olhou nos olhos e percebi que seus olhos eram estranhamente azul-arroxeados, mas tanto a menina ruiva quanto o menino baixo tinham olhos castanhos avermelhados. Primeiramete pensei que eram jovens lobisomens, mas suas roupas pretas e vermelhas, suas armas de prata e sua expressão de alerta me fizeram ver que não.

─ Você matou um lobisomem ??? ─ o garoto loiro falou com os olhos arregalados.

─ Não, é um lobisomem suicida, não tá vendo ?! ─ eu acabei dizendo sem pensar.

Eles trocaram olhares, a menina me olhou com desdém, mas o menino loiro acabou dando um sorriso.

─ Venha conosco. ─ ele disse.

─ Por quê ? ─ retruquei desconfiado.

─ Venha logo, explicamos no caminho. ─ interviu o menino de cabelos castanhos.

Então eu os segui, confiando em minha intuição.

Notas finais
Espero que gostem, obrigado por lerem, e voltem sempre. (:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.