O Legado Petrova
2 Ruptura
O celeiro da família era um casebre decrépito de madeira que abrigava algumas galinhas e uma vaca com as costelas aparentes, que ainda conseguia dar leite com alguma dificuldade. A mãe estava sentada em um banco baixo de madeira e, por mais força, que fizesse ainda não tinha enchido nem metade do balde de metal. Ela levantou a cabeça e secou o suor da testa quando ouviu a porta se abrindo.
— Feche logo essa porta, Sara! Está fazendo muito frio lá fora. Não acho que a nossa vaca vá aguentar até o fim do inverno.— Mãe, eu queria conversar algo com a senhora. – Sara se aproximou com passos hesitantes bem ensaiados, o rosto baixo para evitar que a mãe visse o sorriso que brotava em seus lábios. Nádia assistia a cena pela fresta que ficara aberta da porta.— Sim?— Sobre uma conversa que ouvi a senhora e o papai tendo ontem. Sobre como a Nádia só nos gera despesa agora que o dinheiro que nos deram para criá-la acabou. Magdalena levantou tão rápido que assustou a vaca e derrubou o balde. Metade do pouco leite ordenhado pintou o chão de branco, e ela ajeitou o balde xingando baixinho antes de se virar para a filha mais velha.— Do quê você está falando, Sara? Não pode ficar escutando as conversas dos adultos, não me importa que você já tenha quase 14 anos!— Mas é verdade, não é? Eu já tinha reparado como a Nádia é diferente de todos nós, aquele cabelo escuro e o corpo ossudo. Você vai arriscar a suas filhas verdadeiras por uma bastarda? Do lado de fora os joelhos de Nádia cederam e bateram no chão congelado. A fita estava esquecida, caída no mato rasteiro. O mundo parecia girar e o ar parecia mais gelado que nunca; a fita não tinha mais importância agora.— Me escute aqui. Essa é a última vez que falamos sobre isso. Sim, o servo de um nobre veio e nos deu dinheiro para criarmos um bebê como se fosse nosso. Acho que eles imaginavam que ela passaria despercebida no meio de nós. Usamos o dinheiro para comprar duas vacas, a que morreu ano passado e essa que não deve chegar até o próximo. O servo deveria ter voltado quando ela fez cinco anos, mas ele não apareceu e não sabíamos o que tinha acontecido. Seu pai descobriu o nome da família, Petrova, e então o resto da história. Petrova. Nádia experimentou o nome saindo de sua boca, os movimentos que os lábios precisavam fazer. Petrova. Era quem ela era, uma desconhecida até para ela mesma— Por que alguém pagaria para cuidar de uma criança bastarda?— Nós achávamos que tinham entregado o bebê a nós por causa disso, mas poucos anos depois todos no palácio dos Petrova foram mortos. Não sobrou ninguém. Então achamos que nos entregaram a Nádia para protegê-la de alguém. – Magdalena enroscava o tecido do avental com as mãos, Sara não sabia ficar de boca fechada.— Então é perigoso ela continuar aqui!— Sim, Sara. É por isso que ninguém pode saber dessa história. Os Petrova eram queridos na região, até agora ninguém soube dizer ao seu pai quem poderia ter feito isso.— Então, mãe...— Mas ela é filha de um nobre, está entendendo? Mesmo uma filha indesejada, é filha de um nobre, e pode nos render um bom dote quando a casarmos com alguém do vilarejo onde ela nasceu, alguém que possa pagar mais do que o servo tinha nos oferecido. O palácio está abandonado, mas quem casar com ela será dono dele também. E isso precisa ser segredo até tudo estar arranjado, até termos certeza que ninguém virá atrás dela para eliminar a última pessoa da família. Além disso, se ela se deitar com um camponês, toda a nossa família estará perdida, está entendendo? Há muita coisa que não pode dar errado! – Magdalena apertava o braço da filha com força; ela sabia o quanto Sara sempre implicara com Nádia, e sabia que a mais velha poderia contar tudo apenas para ver a outra menina chorar.— Ela tem um castelo? – a voz de Sara tremia de raiva e inveja.— Cala a boca, Sara! Isso é segredo!— Tarde demais para isso. Desculpe, mamãe. – Sara falou olhando para o chão, sentindo um prazer perverso ao ver a mãe empalidecer e ver as lágrimas no rosto de Nádia quando a porta do celeiro se abriu. A garota nem merecia estar na casa deles, dividindo a pouca comida que tinham, e ainda tinha um castelo? Magdalena sentiu o sangue se esvair do rosto quando viu Nádia caída ali de joelhos, as lágrimas escorrendo pelo belo rosto.— Então é isso que eu sou para vocês? Algo para ser vendido, como um animal de celeiro? Isso se eu não for morta por um desconhecido, não é? E antes que Magdalena dissesse uma palavra, Nádia já estava correndo para longe.
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