O Legado Olimpiano

1 Acampamento Meio-Sangue


Quem imaginaria que isso poderia ter acontecido comigo? Logo comigo? Pois bem, isso foi meio estranho.

Em um certo momento, quando eu saia do colégio — sozinho, como sempre — me deparei com alguns.. algumas pessoas. Primeiramente, assim que adentrei em uma quadra vazia e destruída, me esbarrei em duas pessoas. Os que diziam se chamar Jack e Jessica, estavam no momento lutando contra uma criatura enorme com a aparência de um touro. Mas era mecânico. Assim que nos esbarramos, eles me puxaram e me jogaram para trás no exato momento em que o touro havia atirado chamas em Jack. Por sorte, o escudo de Jessica — prateado e com as palavras 'ENDOOR' cravadas —, salvou a vida de seu irmão. Os dois lutavam contra o touro enquanto a vinte metros a esquerda, outros quatro semideuses estavam ocupados lutando contra uma criatura gigantesca — com a pele esverdeada, pensei ser o Hulk, mas só pensei mesmo. — que quebrava o chão com uma pisada, pegava as pedras e jogava na direção dos adolescentes. Uns desviavam, já outros não tinham a mesma sorte, e eram atingidos em cheio, machucando-se seriamente. Fiquei confuso, lógico. A única coisa que consegui fazer foi gritar. E gritar feito um humano idiota:

— O que raios está havendo aqui?! — não sou uma pessoa escandalosa e que vive para chamar atenção, mas aquilo fez todos os rostos se virarem para mim. Até o touro mecânico e o falso Hulk se viraram. Naquele momento, todos os ataques haviam sido travados. Os ''monstros'' ficaram paralisados com cara de que estavam confusos. As pessoas estranharam isso neles e resolveram atacá-los enquanto os mesmos de repente ficaram inofensíveis. — Parem! Parem com isso!

— Quem é você, garoto? Saia daqui antes que perca a sua miserável vida! — gritou uma garota que antes fora acertada pelo falso Hulk.

— Quem deveria sair daqui são vocês! Quem vocês pensam que é para destruir essa quadra?! Isso tudo pertence a mim! — não sou uma pessoa medrosa, e muito menos uma pessoa que não acredita nem por um pouco em qualquer coisa desse mundo. Lógico que se me disserem que o Godzilla está atacando Nova York eu não acreditarei totalmente, mas ficarei em dúvida. Idiota, eu? Pode ser.

As pessoas pararam de atacar, pois no momento que parei de falar, os monstros fugiram pela porta principal da quadra.

Não sou muito bom em ouvir conversas de longe, mas tentei ao máximo escutar o que eles tanto falavam após os monstros sairem.

— Quem é esse garoto? Por que os monstros ficaram paralisados e depois fugiram?

— Ele só pode ser um de nós. — Deus me livre. Seja o que essas pessoas forem, eu não quero ser.

— Isso não explica o por que dos monstros terem sido paralisados! — grita Jack.

— Teremos que obter respostas. Isso foi... épico. — todos olharam entre todos e depois para mim. — Teremos que levá-lo.

Eles se aproximaram de mim, alguns cambaleando e outros prontos para uma briga.

— Venha com nós, garoto.

— Não. Quem é você?

— Isso não te interessa, vem logo! — Jack e Jessica seguraram no meu ombro, tentando me guiar para uma caminhonete branca.

— Me larguem! — me debati, mas mesmo assim não consegui sequer empurrá-los.

— Vicki, faça as honras por favor antes que eu soque ele. — Jack parecia ter a minha idade, mas era bem forte. Em uma briga, acho que eu me daria mal.

A garota chamadaVicki fez algum gesto com a mão que durou apenas alguns segundos, mas para mim, uma eternidade, pois comecei a ficar com sono. E assim, desmaiei ali na calçada mesmo.

***
Acordo, mas não abro os olhos totalmente, pois não quero que saibam que eu despertei. Pelo pouco que consigo ver, estou sentado em um banco de caminhonete, junto a Jack, Jessica, Vicki e outras pessoas que conversam sem parar.

— Há notícias dele?

— Infelizmente, não.

A conversa pairou pelo ar por alguns segundos, mas depois houvi a voz de Vicki no banco da frente.

— Confortável aí, garoto? — sabia que ela estava falando comigo. Me estiquei e sentei normalmente.

— Comparando com o lugar que dormi pelos últimos quatorze anos, até que sim. — sorri ironicamente.

— O que? Você mora naquela quadra? — pergunta Jack.
Afirmo com a cabeça.

— Por quê? — foi a vez de Jessica perguntar.

— No dia em que minha mãe e eu, recém-nascido, havíamos sido liberados do hospital, fomos de carro para a nossa casa. — parei de falar... Não sei por que estava falando isso, já que não gosto de tocar nesse assunto.

— E..? — Jack pareceu se interessar pela história.

— E daí que quando estávamos a caminho da ponte Joey Joscen, o freio e o volante parou de funcionar, o que provocou pânico em meus pais, que sem poder fazer nada, caíram com o carro da ponte. Foi uma confusão total. Sei que uma criança de apenas dias teria uma mínima das mais mínimas chances de sobreviver. Mas dizem que foi um milagre e tal. Resumindo: Minha mãe morreu por conta da queda. Meu pai me tirou de dentro do carro e colocou-me na grama, do outro lado do rio. Fomos resgatados, mas meu pai morreu de hipotermia horas depois.
Ninguém mais falou nada até a caminhonete parar no meio do mato e um dos garotos que dirigia pedir para nós sairmos.

— Onde estamos? Não me digam que vão me deixar nessa floresta para eu morrer por ataque de algum animal?

— Animal não. — disse Jack. — Um monstro daqueles, quem sabe...

Pela primeira vez no dia, eu ri. Coisa que eu nunca faria nessas circunstâncias. Nesses quatorze anos, passei a vida toda sozinho. Sem ter um pai ou mãe para abraçar, conta coisas e abrir presentes em datas importantes. Nunca tive um irmão para levar ao parque e brincarmos com as outras crianças, ou para contar uma piada engraçadíssima e ambos rirem. Ou mesmo um amigo que ficasse comigo por pelo menos as horas que passo na escola.

Eles adentraram na floresta, indo por uma pequena trilha quase apagada. Enquanto andávamos, gritos e urros ouvíamos. Eu perguntava o que era, mas eles não me falam nada de útil.

— Chegamos. — disse Jessica, ao pararmos em frente a um local com um tipo de porta natural. Uma passagem, acho. Pelos lados, algumas tochas bem acesas iluminavam o caminho. Acima de tudo, havia uma placa dizendo algo em uma língua estranha.

— O que é Acampamento Meio-Sangue? — pergunto, e todos se viram para mim. — O que foi dessa vez?

— Nada. Só.. você consegue passar por aquela passagem?

Andei até lá e quase atravessando, falei:

— Lógico que consigo. Está vendo algum muro que me impede aqui?

Jessica me empurrou para frente.

— Atravessem logo essa barreira antes que as crias de Hades venham até nós. — ela suspirou. — O que pela lerdeza de vocês, já deviam ter atacado!

— Calma aí, princesa. — disse o irmão, atravessando a barreira também.

— Não me enche, Jack.

Andamos mais um pouco até chegarmos diante de um tipo de... fazenda? Depois lembrei que era um acampamento. Mas um acampamento não é assim.

Abri os dois braços, bloqueando Jack e Jessica, e todos os outros que a seguiam.

— Chega! Vocês poderiam me dizer o que é isso aqui?!

Jessica estava nervosa demais para explicar, então Jack ficou escolhendo as palavras, mas acabou não dizendo nada.

— Finalmente! Ele é todo seu. — não entendi, mas depois percebi que Jack não havia falado comigo. Olhei para trás rapidamente. Uma figura estava diante de nós. Um homem baixo, barbudo e acima do peso me olhou dos pés a cabeça. Ele usava sandálias e uma bermuda. Até parecia que estava indo para a praia.

— Quem é esse velho? — eu disse baixinho para Jack, mas o mesmo ficou com a cara vermelha. Acho que o velho escutou.

— Pelo que vi e ouvi, já não gosto de você, garoto. Me siga antes que eu te dê de comida aos monstros.

Não estava com medo, mas Jessica me empurrou. Os irmãos dispensaram o resto da equipe e resolveram ir comigo para uma grande estalagem. Várias coisas enfeitam a grande casa, que é branca e tem uma placa há cinco metros de distância. Os dizeres: ''Casa Grande''

— Por que estou aqui? — pergunto ao homem de bermuda e sandália.

— É isso o que vamos descobrir, Andrei. — apesar de ter errado o nome, ele provavelmente já soube qual era. Não sei como, mas será uma das perguntas que farei a ele depois de comer alguma coisa, porque estou faminto. Espero que eles tenham sanduíches.