O Legado Olimpiano

3 A Queda da Barreira Mágica


O queixo de Quíron caiu. Ele se dirigiu a Dionísio.

— É brincadeira? — o deus do vinho negou, e Quíron não tinha escolha a não ser acreditar. — Um garoto desse.. Ele não deveria estar aqui!

— Por que eu não deveria estar aqui? — digo. O assunto sou eu e o próprio eu não sabe de nada.

Quíron me ignorou.

— Por Zeus! Quem se responsabilizou por ele?

— Hades. — respondeu Dionísio.

O centauro riu, irônico.

— Você não pode estar falando sério. — Quíron saiu apressado para a Casa Grande. Quíron ficara realmente revoltado com qualquer que fosse o assunto Eu, o tal de Hades e os Doze.

— Tayne, diga para os outros campistas que se arrumem e vão para o refeitório. — antes dela se virar, o deus a lembrou. — Não conte nada do que ouviu a ninguém. Se perguntarem, diga que Andrew passou mal, ok?

— Entendido. — Tayne saiu correndo, tentando acumular o máximo de pessoas em um canto só. Ouvi ela falando sobre o refeitório, roupas e sei lá mais o quê. Dionísio pegou no meu ombro e disse que daríamos uma volta.

— Quem cuida de você?

— Hesad. — digo. Hesad é o irmão do meu pai. Ele viaja e trabalha muito. Após o acidente com os meus pais, fiquei na maternidade por algumas semanas, até Hesad aparecer e conseguir a minha guarda na justiça. Ele não estava em casa todo dia. Era sumido. O estranho era que nenhum advogado ou coisa do tipo fora me olhar durante o tempo em que eu ficara só.

— Hesad... — ele parou e ficou em silêncio por dez segundos. — Ahn, um anagrama para Hades.

— Não. Hesad é irmão do meu pai.

Dionísio me olhou com uma cara de que não gosta de ser interrompido ou "desafiado".

— Provavelmente foi a história que inventou para se aproximar de você. Mas bem.. eu terei de explicar o que é Filho dos Doze, né? — lógico que concordei com a cabeça. — Então, há mais de duas décadas atrás... seu pai foi ao Olimpo.

— Olimpo? Monte Olimpo? — ele afirmou com a cabeça. — Se é um lugar que contém deuses, um mortal como meu pai poderia facilmente entrar lá?

— Acontece que seu pai não era um mortal... — dei um pequeno soco no ar, feliz por saber que eu era realmente filho dos meus pais. — No entanto, também não era imortal; tanto que ele já falecera.

— Ele era um.. semideus?

— Exatamente, mas ele era um semideus, vamos dizer.. "aposentado". — paramos e nos sentamos em bancos em meio a um campo. — Matheus era um semideus excelente. Ele foi o melhor de sua geração. Salvou diversas vidas. Matheus era um exemplo de pessoa.

— Você o conheceu? — pergunto.

— Um pouco, mas sim. — ele olhou triste para mim. — E mesmo que não o conhecesse pessoalmente, eu ouvia coisas sobre ele. Ele foi o semideus salvador do Olimpo. Você provavelmente não deve saber da guerra iniciada alguns anos antes de você nascer. — neguei. — Houve uma revolta. Doze semideuses se rebelaram contra o Olimpo, e eles eram poderosíssimos! De começo, poucos tentaram interferir.

— Qual o motivo? — pergunto novamente.

— Eles não gostavam dos pais. Achavam que os deuses só queriam mandar e mandar neles. Mas então, alguns dos deuses resolveram interferir e batalhar contra os semideuses. Seu pai lutou ao lado dos deuses e venceu quase todos os semideuses rebeldes. Sem falar que Matheus convenceu os deuses a não matarem eles. Os rebeldes foram presos em cantos diferentes do mundo. Alguns estão lá até agora.

Fiquei feliz por ouvir isso. Meu pai fora um herói. Exatamente como eu o havia imaginado.

— Saímos do foco. — eu digo. — O que meu pai foi fazer no Olimpo?

— Ah, bem, por salvar várias pessoas e derrotar a maioria dos rebeldes na batalha, os doze deuses olimpianos ofereceram qualquer coisa a Matheus. Para milhares de semideuses, ser um deus seria o desejo certo a fazer. Mas seu pai não o fez. Ele disse que não precisava de nada no momento, mas que iria voltar para os deuses um dia, e eles o teriam de ajudar. Eu estava no momento em que seu pai fora lá. Matheus nos fez jurar pelo Rio Estige de que futuramente teríamos que o ajudar.

— E..? — falei. — Só isso?

— O tempo passou e tudo continuou como estava. Alguns anos depois Lilian engravidou e Matheus ficara maravilhado. O casal esperava há muito a chegada de um filho. A notícia de que você nasceu havia se espalhado por todo o Olimpo. Um dia após o seu nascimento, Matheus foi ao Olimpo com a intenção de que realizassem o seu desejo que ganhara há anos. Você pode adivinhar o que ele pediu?

— Não faço a menor ideia.

— Proteção. — não entendi, e então Dionísio começou a explicar. — Matheus pediu que protegessem o filho a todo custo. O seu pai tinha inimigos e tinha certeza que um dos alvos seria você. Sem falar que alguns deuses não gostavam muito de Matheus. Um conselho com doze deuses fora formado secretamente e depois de uma árdua decisão, Matheus obteve a resposta: Os deuses protegeriam o seu filho.

— Senhor, me proteger como?

— Não é fácil proteger alguém de várias pessoas, Andrew. Zeus achou melhor que se quisessem proteger você, deveriam fazer algo forte. E fizeram. Foi uma escolha um tanto perigosa, mas eles arriscaram. Eles colocaram o sangue deles em você. Por isso o chamam de o Filho dos Doze.

— O quê?!

— Além do sangue vermelho que costuma ver em algumas imagens, que é propriamente dos mortais ou semideuses, os deuses meio que "colocaram" o sangue dourado em você. O líquido dourado faz parte de você.

— Então eu sou um.. deus?

Dionísio demorou para responder.

— Você é único, Andrew. Você é e sempre foi uma escolha perigosa.

— Eu.. perigoso? Você acha que eu irei pegar uma faca e atacar todos vocês?! Eu sou um deus ou não?

— Você herdará o poder dos doze. Sabe o tanto de poder? De doze deuses! Isso é muito poder para uma pessoa só. — o deus do vinho se levantou. — Esses dons provavelmente vão aparecer daqui a algum tempo. Eles demoram um pouco para vir. Um filho de Poseidon, por exemplo, pode herdar o poder de controlar e manipular a água. Pelo menos as que estejam em domínio do deus dos mares.

Levanto apressadamente.

— E de quem eu herdarei esses "poderes"?

— De Zeus, Poseidon, Hades, Afrodite, Ártemis, Apolo, Deméter, Hermes, Hefesto, Ares, Héstia e.. eu.

Meu queixo caiu.

— Você... eles.. eu sou filho de quatorze pessoas? — que lógica é essa?

— Bem, na verdade você é filho de Lilian e Matheus, no entanto você tem o nosso sangue, então é considerado nosso filho. É como se você fosse... adotado. Acho que o termo é ado..

Duas explosões vieram da Casa Grande. Boa parte do segundo andar foi destruído e lançado a metros. Um fogo gigantesco tomou conta da casa. A fumaça rapidamente apareceu e tomou conta de quase tudo.

— Mas o quê? — Dionísio correu para a Casa Grande. Apesar de ser um velho, seus movimentos eram consideravelmente rápidos.

Boom!

A barreira mágica que protegia o acampamento parecia estar sendo danificada. É como se um manto acima de todos os campistas estivesse se ligando e desligando.

Oito, treze, quinze. Enquanto a barreira se danificava, os campistas corriam de um lado para outro. Um ou dois semideuses me derrubaram, e foi aí que bati minhas costas contra uma árvore. Um poderoso rugido pôde ser ouvido vindo do céu. Raios e raios tentavam quebrar a barreira por cima. Uma parte já estava sendo destruída.

— ZEUS QUER NOS ANIQUILAR? — uma garota com olhos pretos e cruéis, bandana cobrindo uma parte do cabelo castanho e pronta para lutar com uma lança afiadíssima gritava furiosamente e empurrava os outros campistas, tentando ir para a entrada do acampamento. — Saiam do meio ou eu partirei vocês em dois! QUEM SABE EM TRÊS!

As chamas continuavam na Casa Grande, mas pareciam estar.. desaparecendo? Alguém deve estar apagando o fogo.

Corri para a entrada do acampamento, mas sem querer tropecei num tronco de árvore e voei em direção a uma menina. Me estraçalhei todo na armadura dela.

— Quem é você, garoto?! — na hora em que ela ia me dar um empurrão, sua mão parou a centímetros do meu rosto. Os raios começaram a atingir a barreira novamente. Mas não era isso. Todos que olhavam para trás me viam de boca aberta.

— O que foi?! — pergunto.

— Você não pode ser filho de Ares! — segundo Dionísio, eu sou, mas.. Como ela descobriu? — Depois continuamos essa.. conversa. Tem alguma coisa querendo ser morta por mim!

Todos corremos numa multidão sem fim até a entrada do acampamento. A barreira estava com traços vermelhos e danificada. Do outro lado, o lado perigoso, centenas de monstros rugiam e ajudavam os raios a destruir a barreira que, segundo Quíron, mantém os semideuses seguros há séculos. Algo que tinha mãos enormes batiam com troncos de árvores na barreira mágica. Apesar de tudo, ela ainda resistia. Era como se ela quisesse lutar. Como se estivesse lutando.

Ninguém ousou atravessar a barreira, então todos vieram armados com escudos, lanças, espadas e sei lá mais o quê numa posição de defesa. A garota que me chamou de filho de Ares, que deduzi se chamar Clarisse, pois era um dos nomes que estava em um colar dourado em volta de seu pescoço — Chris e Clarisse —, estava vestida de uma armadura cinza e de traços vermelhos.

Minha dor de cabeça voltou. E mais intensamente que até comecei a gritar. Fiquei com raiva. Com raiva do maldito freio e do maldito volante que pararam de funcionar, com raiva de não ter amigos, com raiva de tudo. Um barulho de um raio caindo acima de um dos monstros fez o acampamento tremer. Os monstros diminuíam enquanto vários raios os acertavam. De primeira eu fiquei curioso, mas depois soube que era eu.

Não sabia como estava fazendo aquilo, mas adorei fazer.

A barreira mágica se despedaçou em milhares de pedaços. Estávamos vulneráveis.

— Oh, não.

Sozinho, parti para cima dos monstros. Pude perceber que uma aura me cobria. Uma aura azul. Raios e mais raios atingiam e as centenas de monstros ali.

Um grupo de vacas com olhos vermelhos iam em minha direção. Sem pensar direito, voltei e peguei uma lança de um garoto, corri para o outro lado da floresta, com esperança de que a multidão de vacas me seguissem. E foi o que elas fizeram. Escalei uma enorme pedra.

— Vocês me querem? — as vacas se aproximavam cada vez mais. — Então venham me pegar!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.