O Legado Esquecido
2 Sonhos Entrelaçados
O vagão do Expresso de Hogwarts balançava levemente, o som das rodas nos trilhos marcando um ritmo constante. Dentro do compartimento, o silêncio era quase palpável. Scorpius Malfoy permanecia na entrada, os dedos ainda segurando a maçaneta da porta aberta, enquanto os outros o encaravam. Ele respirou fundo, visivelmente desconfortável, antes de finalmente cruzar o limite e fechar a porta atrás de si.
“Preciso saber se... o que ouvi é real.” Sua voz saiu quase num sussurro.
“E o que você ouviu, exatamente?” perguntou Rose, com o tom cortante que ela costumava usar para mascarar a tensão.
Scorpius hesitou, mas não desviou o olhar. “Uma voz. Ou várias. No corredor. Elas disseram algo sobre magia antiga... e a verdade que vai nos destruir.”
O coração de Albus deu um salto. As palavras de Scorpius se alinhavam com o fragmento que ele havia escrito em sua cabeceira naquela manhã. Não era coincidência. Ele sabia disso agora.
“Você também teve visões?” perguntou Lily, inclinando-se para frente, seus olhos brilhando de curiosidade.
Scorpius hesitou por um momento e depois assentiu lentamente. “Sim. Um castelo. Sombrio, mas grandioso. Escuridão e luz misturadas. Eu ouvi sussurros e... vi um símbolo. Parecia... um nó, feito de serpentes entrelaçadas.”
“Isso não faz sentido,” Fred comentou, cruzando os braços. “Por que todos nós estaríamos tendo os mesmos sonhos malucos? Não pode ser coincidência, certo?”
“Não é coincidência,” Rose afirmou, apertando os punhos. “É algo muito maior. Algo que nos conecta. Talvez com as famílias.”
“Você está falando das 28 famílias sagradas?” perguntou Lorcan, erguendo as sobrancelhas.
“Exatamente,” Rose respondeu. “Pensem bem: todos aqui vêm de linhagens antigas, ou têm alguma conexão com elas, todos fazemos parte. Não sabemos exatamente como, mas as famílias estão ligadas. Todas elas.”
Albus interrompeu, segurando o pergaminho com as palavras que ele havia anotado. “Isso aqui... isso é o que ouvi. Não consigo tirar essas palavras da cabeça: ‘Quando o último laço de sangue for desfeito, o equilíbrio se romperá.’ Isso significa alguma coisa. Algo grande.”
“Pode significar que estamos em perigo,” Lysander acrescentou, sua voz calma mas cheia de preocupação. “Se essas visões são avisos, talvez algo ou alguém esteja nos alertando.”
“Ou nos manipulando,” completou Scorpius, cruzando os braços.
A tensão no compartimento parecia crescer, até que Lily soltou um suspiro e se levantou, olhando diretamente para Scorpius. “E então? O que você quer de nós?”
“Eu não sei,” ele respondeu, parecendo genuinamente confuso. “Mas acho que, se essas visões são verdadeiras, precisamos descobrir o que elas significam. Todos nós.”
Os olhares se cruzaram, avaliando a possibilidade. Fred e James pareciam relutantes, mas Albus, Lorcan e Lysander já estavam claramente decididos. Rose, como sempre, parecia estar três passos à frente, planejando mentalmente os próximos movimentos.
Hugo quebrou o silêncio. “Se isso significa que teremos que lidar com maldições e profecias, prefiro saber agora. Afinal, não quero que as coisas piorem sem estarmos preparados.”
“Não é só isso,” Rose disse, pensativa. “Se estamos ligados às 28 famílias, então tudo isso pode ter a ver com a pureza de sangue.”
“E o que tem a pureza de sangue?” perguntou Fred, arqueando uma sobrancelha.
“É uma construção,” Lily respondeu antes de Rose, surpreendendo a todos. “Uma mentira. Algo que criaram para justificar o poder e o controle. E, pelo que vimos nos sonhos, essas famílias têm segredos que não querem revelar. Segredos que podem nos colocar em perigo.”
“Bem, então acho que não temos escolha,” James disse, finalmente quebrando o silêncio com sua típica determinação. “Se algo grande está vindo, vamos encarar. Juntos.”
“Certo, mas por onde começamos?” perguntou Molly, que até então havia permanecido em silêncio.
Rose levantou os olhos do pergaminho que estava analisando. “Pelo símbolo que Scorpius viu. O nó de serpentes. Tenho quase certeza de que já o vi em algum lugar antes. Quando chegarmos a Hogwarts, vou procurar nos arquivos da biblioteca.”
“E quanto às visões?” perguntou Lorcan. “Elas podem voltar. Talvez possamos encontrar mais pistas nelas.”
“Então anotem tudo o que se lembrarem,” sugeriu Lily. “Cada detalhe pode ser importante.”
Antes que pudessem continuar a conversa, o trem deu um solavanco, indicando que estavam próximos de Hogsmeade. A conversa foi deixada de lado, mas o peso do que haviam discutido pairava no ar. Enquanto vestiam seus robes e se preparavam para desembarcar, todos sabiam que aquela seria uma volta às aulas diferente de todas as outras.
O grupo se dispersou ao chegar ao castelo, cada um seguindo para sua respectiva casa, mas com a promessa silenciosa de que continuariam juntos. Enquanto atravessavam as portas da imponente entrada de Hogwarts, Albus não pôde evitar olhar para cima, para as torres altas que pareciam tocar o céu nublado. Por um momento, ele achou ouvir o sussurro das vozes novamente.
O castelo parecia estar esperando por eles.
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