O Legado Esquecido

18 O peso das escolhas


Notas iniciais
Estamos na reta final dessa história.

O dia seguinte amanheceu surpreendentemente calmo em Hogwarts. Os raios de sol atravessavam as janelas do castelo, mas o grupo carregava um peso novo nos ombros. Mesmo com a vitória na noite anterior, sabiam que o equilíbrio que haviam defendido poderia ser ameaçado a qualquer momento. O confronto com a Ordem da Lua Negra e o surgimento do Guardião os havia transformado, e agora precisavam lidar com as consequências.

Rose e Albus caminhavam pelos corredores em direção à biblioteca, buscando respostas adicionais sobre como proteger a Essência do Equilíbrio. Os passos ecoavam pelo chão de pedra, mas a sensação de tranquilidade parecia frágil, como se algo à espreita pudesse romper a aparente normalidade a qualquer segundo.

— Você consegue sentir? — perguntou Albus, olhando para Rose de soslaio. — Parece que todo o castelo respirou aliviado.

— Sim — respondeu ela, evitando encarar diretamente o olhar dele. — Mas algo me diz que essa paz é temporária. Precisamos saber mais sobre o legado de Merlin e o que realmente significa manter a Essência protegida.

Na biblioteca, Lily e Hugo já pesquisavam em livros empoeirados, guiando-se pelas anotações de Rose sobre magia antiga. Lorcan e Lysander folheavam outro volume, tentando compreender melhor a extensão do feitiço que selara a Essência. Fred, embora mais impaciente, ajudava vasculhando títulos raros nas prateleiras mais altas.

— Não há muitas referências claras sobre a Essência — comentou Lily, correndo os dedos por um parágrafo quase ilegível. — Apenas menções vagas a um “coração da magia” criado ou resguardado por Merlin.

— Isso pode significar que Merlin intencionalmente escondeu informações, até mesmo nos registros mais antigos — pontuou Lorcan. — Se a Ordem se corrompeu ao longo do tempo, faz sentido ele ter tomado precauções extras.

Enquanto isso, Scorpius se sentara em um canto silencioso, pensativo. Seu olhar se perdia nas letras diminutas de um grimório repleto de símbolos que lembravam aqueles vistos durante o confronto. A revelação de Lorcan sobre o feitiço de sangue ainda o intrigava; afinal, se Lorcan estava ligado a uma das famílias de origem da Ordem, quantos outros poderiam ter heranças semelhantes?

— Devemos agir com cautela — disse Scorpius, fitando as páginas. — Se a Ordem ainda tem simpatizantes ocultos dentro de Hogwarts ou em outro lugar, podemos ser surpreendidos de novo.

A conversa foi interrompida pela chegada de McGonagall, que, com um olhar grave, fez sinal para que se aproximassem. Ela não chegou a pronunciar nenhuma repreensão pelas ausências ou pelos boatos que circulavam pelos corredores — afinal, nenhum aluno típico se metia em duelos secretos e passagens antigas. Em vez disso, sua expressão mesclava preocupação e discreta admiração.

— Sinto que algo grave aconteceu, embora eu não tenha todos os detalhes — disse ela, baixando a voz. — Apenas peço que sejam cuidadosos. Hogwarts já viu desastres demais para que permitamos outro. E, seja lá o que estiverem fazendo, acredito que os senhores desejem proteger a escola e quem vive aqui, não é?

O grupo concordou, sentindo um calor de gratidão pela confiança silenciosa que a diretora parecia depositar neles. Mesmo que não soubesse de tudo, ela sabia o bastante para entender que algo maior estava em jogo.

Ao saírem da biblioteca, a rotina retomava seu ritmo. A hora do almoço trazia o Grande Salão repleto de alunos animados, e as conversas variavam entre tarefas de Herbologia e as próximas partidas de Quadribol. O contraste com os eventos secretos da noite anterior era gritante.

James, que havia se ausentado para cumprir tarefas do time de Quadribol da Grifinória, aproximou-se do grupo com um ar de curiosidade. Ele notou o semblante preocupado no rosto de cada um.

— Então? Vocês descobriram como guardar... bem... o que quer que seja que Merlin deixou? — perguntou em voz baixa, olhando ao redor para se certificar de que ninguém mais ouvia.

— Ainda não completamente — respondeu Rose. — Mas sabemos que a Essência do Equilíbrio está protegida temporariamente. Precisamos reforçar esse selo e entender o que acontece se ele falhar.

No fim do dia, já exaustos, reencontraram-se nos jardins. Sentaram-se na grama úmida sob a luz dourada do pôr do sol. Era quase poético pensar em quantas vezes aquele local havia testemunhado encontros, conversas e aventuras. A brisa fresca agitava os cabelos e as capas, lembrando-os de que o tempo não parava.

— A Ordem foi derrotada, mas não destruída — comentou Hugo, olhando para o céu. — Provavelmente estão se reorganizando.

— Precisamos nos preparar também — disse Lily. — Encontrar um jeito de garantir que esse poder não seja abusado.

— O Guardião falou em responsabilidade — lembrou Albus. — Talvez devêssemos começar aceitando que estamos envolvidos de forma irreversível.

— Mas não estamos sozinhos — completou Scorpius, lançando um olhar para os amigos. — E isso faz toda a diferença.

Um silêncio confortante se instalou por alguns instantes, cada um pensando em todo o caminho percorrido até ali. Havia mais dúvidas do que respostas, mas pela primeira vez sentiam que a luta não era em vão. Estavam mais unidos, mais fortes.

O sol desapareceu no horizonte, dando lugar às primeiras estrelas. Levantaram-se, rumo ao castelo, com a certeza de que ainda havia muito a ser feito. A magia de Merlin continuava a pulsar nos corredores antigos, e a Essência do Equilíbrio, selada com tanto esforço, agora os ligava de um modo impossível de ignorar.

No fundo, todos sabiam que as batalhas mais difíceis ainda estavam por vir. As sombras que rondavam as Sagradas 28 e a Ordem da Lua Negra não se dissipariam tão facilmente, e o peso daquela responsabilidade recairia em cada um deles. Mas, por hora, a chama da esperança cintilava, iluminando o caminho até o desfecho final que se aproximava.