O Legado Esquecido

6 O equilíbrio da Normalidade


Os dias seguintes foram um exercício de equilíbrio para o grupo. O mistério da câmara e do espelho pairava sobre eles como uma nuvem, mas precisavam manter as aparências. Era fundamental que não levantassem mais suspeitas entre os professores — ou pior, entre os colegas mais curiosos.

James, como o mais velho e um dos mais populares entre os alunos da Grifinória, tomou a frente para garantir que tudo parecesse normal. Ele voltou às suas típicas partidas de Quadribol, voando com energia renovada durante os treinos. “Se alguém perguntar,” ele disse ao grupo durante o jantar no Salão Principal, “digam que estou tentando bater meu próprio recorde de velocidade. Ninguém vai questionar.”

Fred, sempre disposto a improvisar, assumiu o papel de distração oficial. Ele passou a liderar pequenas pegadinhas contra os colegas da Sonserina, especialmente contra Scorpius Malfoy, embora fosse tudo combinado.

“Você precisa parar de rir quando eu faço cara de bravo,” reclamou Scorpius, cruzando os braços depois de uma sessão de feitiços na biblioteca.

“Desculpa,” respondeu Fred, ainda rindo. “Mas você faz uma expressão tão convincente que até eu quase acredito.”

Enquanto isso, Lily e Molly investiram em manter a rotina acadêmica impecável, especialmente na Corvinal e na Lufa-Lufa. As duas eram frequentemente vistas entregando trabalhos de redação antes do prazo, e Lily até ganhou elogios de Flitwick por sua habilidade excepcional em encantamentos.

“Se Flitwick acha que estamos ocupados com os estudos, ele não vai suspeitar de nada,” explicou Lily certa manhã enquanto fazia anotações na aula de Poções.

Molly assentiu. “E se precisar de alguma desculpa para sair à noite, posso dizer que estou praticando feitiços de iluminação para Herbologia. Sprout nunca questiona nada relacionado às estufas.”

Na Sonserina, Rose e Albus também estavam trabalhando em seus próprios métodos de desviar atenção. Rose, sempre estrategista, passou a frequentar mais a sala comum da Sonserina, onde discutia detalhes de debates acadêmicos com colegas e professores.

Albus, por outro lado, assumiu uma abordagem mais discreta. Ele passava horas na biblioteca, escondendo suas pesquisas reais entre livros de Transfiguração e História da Magia. “Se alguém perguntar,” disse ele a Hugo, “diga que estou obcecado por uma redação para Binns. Ninguém vai me incomodar se acharem que estou estudando para ele.”

Hugo, por sua vez, garantiu que sua presença na Lufa-Lufa fosse vista como algo trivial. Ele organizava pequenos eventos na sala comunal, desde jogos de tabuleiro mágico até sessões de leitura de histórias engraçadas.

“Manter as coisas leves é minha especialidade,” ele disse a Lorcan e Lysander.

Os gêmeos Scamander, sempre inventivos, começaram a explorar as propriedades mágicas das criaturas nos arredores de Hogwarts. Eles eram vistos frequentemente nos jardins, estudando as pegadas de um possível trasgo da floresta ou tentando documentar o comportamento dos sapos saltitantes.

“E se alguém perguntar por que estamos aqui?” questionou Lorcan, enquanto observava um pássaro mágico de plumagem cintilante perto do lago.

“Diga que estamos fazendo um projeto para Hagrid,” respondeu Lysander. “Ele sempre dá cobertura.”

Apesar das tentativas de despistar os professores e outros alunos, não demorou para que McGonagall começasse a desconfiar. Certa tarde, ela chamou James e Rose para sua sala.

“Tenho notado que você e seus amigos têm estado inusitadamente ocupados ultimamente,” disse ela, com o olhar severo por cima dos óculos.

James tentou um sorriso inocente. “Estamos só ajustando nossa rotina de estudos, professora. O quinto ano é importante, afinal.”

Rose, sempre preparada, acrescentou: “E eu me voluntariei para ajudar alguns alunos mais novos. Um esforço para promover a colaboração entre as casas, como a senhora sempre incentivou.”

McGonagall estreitou os olhos, mas acabou suspirando. “Muito bem. Mas não se esqueçam de que há limites para tudo. Hogwarts tem uma longa história de alunos curiosos que se meteram em problemas... e não pretendo que esse grupo siga pelo mesmo caminho.”

Os encontros noturnos do grupo tornaram-se menos frequentes, mas o mistério nunca esteve longe de suas mentes. Naquela semana, decidiram se reunir novamente na biblioteca, sob o pretexto de estudar para os exames.

“McGonagall está de olho,” comentou James, folheando distraidamente um livro de Defesa Contra as Artes das Trevas. “Precisamos ser ainda mais cuidadosos agora.”

Rose assentiu. “Mas também não podemos deixar o espelho de lado. Ele claramente está conectado às visões e ao que quer que esteja por trás dessa profecia.”

“Por enquanto,” disse Albus, olhando ao redor para garantir que estavam sozinhos, “devemos manter as coisas simples. Espiar mais locais em Hogwarts e tentar decifrar o que ele quer sem chamar atenção.”

Lysander puxou um mapa amassado do castelo que havia desenhado às pressas. “Marquei os lugares mais antigos de Hogwarts. Se algo parecido com a câmara sob a árvore existir, provavelmente estará aqui ou aqui.” Ele apontou para dois locais: as masmorras e o corredor do terceiro andar, onde um antigo corredor havia sido selado por séculos.

“O problema,” comentou Fred, “é que agora temos que dividir nosso tempo entre parecer alunos exemplares e explorar esses lugares sem sermos pegos.”

Apesar da tensão, havia um consenso entre eles: o mistério era grande demais para ser ignorado. Mas cada passo precisava ser meticulosamente planejado. Afinal, o equilíbrio entre resolver o enigma e manter as aparências era essencial — e, no fim, a verdadeira batalha ainda estava por vir.