O Legado Escarlate
6 Capítulo 4 ☼ "Uma bela parceria"
Notas iniciais
Capítulo 4 "Uma bela parceria"
As rédeas do puro-sangue foram puxadas frente a uma das maiores casas da rua. Um jovenzinho com roupas de serviçal correu para segurar as habenas assim que o patrão desmontou. As botas de couro alcançaram a terra vermelha e uma fina camada de poeira se ergueu a cada passo até a varanda.
Gregory Carter estava de mau humor, algo perceptível na ruga que se formava entre as sobrancelhas claras. A vergonha que havia passado na Clay Street ainda queimava as faces. Que humilhação!
Todos sabiam que os irmãos Barret pertenciam a sua família. Eram como cães de guarda, tinham fama por aquelas bandas, mas um grupinho de forasteiros os havia humilhado em público.
As luvas negras foram jogadas sobre outro serviçal e o casaco teve o mesmo destino, no rosto do homem que o seguia pelo hall de entrada.
— Onde está a minha mãe? — Perguntou ao vasculhar o cômodo com os olhos azuis-escuros. No fim do corredor era onde ela deveria estar, mas encontrou o escritório vazio. Havia um livro entreaberto sobre a mesa de madeira, como se ela tivesse algum importante assunto a tratar e sequer se preocupara em guardar o que lia de volta à estante.
— Na sala de visitas, senhor. — O serviçal respondeu. Chamava-se Yohannas e era um homem alto e de pele negra, trajado em roupas escuras e sociais. — O senhorzinho demorou. Precisa de algo? Por que essa cara de-
— Preciso da minha mãe! — Gregory cortou, impaciente. — Disse sala de visitas? Quem é? Eu conheço?
Yohannas continuou seguindo o rapaz. Via-o de costas, em passos rápidos e com os ombros tensos. Era sua obrigação servir a ele e, infelizmente, não conseguia deixar de se preocupar com o bem-estar do afilhado entojado do patrão. Ele titubeou um pouco antes de responder:
— Não. O senhor ainda não o conhece.
Gregory se virou para encontrar os olhos escuros de Yohannas. Quanto mistério...
Quando alcançaram a sala de visitas, o rapaz não esperou ser anunciado, invadiu o cômodo e encontrou a mãe junto a um homem nunca antes visto.
Yohannas ficou prostrado feito um cabideiro atrás do senhorzinho. Ele não era tratado como os outros escravos da casa, entendia-se diretamente com o McShaw, o padrinho de Gregory, os únicos de quem recebia ordens.
Os azuis-escuros passearam pela visita ainda desconhecida e as sobrancelhas douradas se franziram na rápida observação. Havia uma característica entre os homens da família McShaw, e Gregory as encontrou no homem sentado em uma das poltronas frente a única mulher presente.
— Mamãe... — Chamou por Karolyn, importando-se pouco com a forma carinhosa a qual chamava a mãe.
O homem na poltrona segurava uma xícara de café, mas parecia imerso em pensamentos, distante da realidade. Era perceptível um silêncio pesado pairando sobre o cômodo, mas não pareciam ter interrompido qualquer conversa.
O loiro ergueu o rosto logo que ouviu a nova voz masculina e, assim que seus olhos pousaram no jovem, os sentiu queimando. Tudo bem, não iria chorar na frente de desconhecidos, mas se sentia culpado. Nem ao menos havia tido a oportunidade de se despedir do irmão.
Ele não seria muito mais velho que aquele garoto agora.
— Gregory! — A mulher foi mais rápida e se ergueu, indo até o menino e estendendo os braços para receber o filho. Ela parou bem na frente do campo de visão de John. — Pensei que fosse voltar mais tarde e-
Foi interrompida por um pigarrear e teve que sair do caminho para que o recém-chegado pudesse colocar os olhos sobre seu menino.
Ambos de olhos azuis que, embora não no mesmo tom, se pareciam. Karolyn odiava se deixar levar por devaneios em meio a situações que requeriam um pensamento rápido, mas era difícil raciocinar com os dois bem ali; onde nunca imaginou que estariam.
— Que modos os meus... Peço perdão, estou distraída hoje. — Ela sorriu, ganhando um pequeno erguer de lábios do loiro que parecia não saber lidar com o recente luto. — Gregory, quero que conheça o senhor John McShaw, sobrinho de Howard.
Gregory estancou no lugar ao ouvir aquele nome. Os olhos ganharam o dobro do tamanho e foi impossível guardar a surpresa. Estava de queixo caído. Sequer imaginava que aquele homem estava vivo, devido ao tempo que esteve fora do país.
— Sobrinho...? — Ainda balbuciou, mas não era como se não estivessem ali as semelhanças com seu padrinho. O olhar se desviou para Yohannas e claramente reprovou o fato de ele ter guardado aquele pequeno segredo até a sala de visitas. Teria ao menos disfarçado a cara de tolo impressionado. — Isso certamente deixará o padrinho feliz. É um prazer, John. — Estendeu a mão, ainda atarantado.
John parecia acabar de ter ouvido algo terrível ou talvez estivesse insatisfeito com a recepção. O fato é que não parecia uma tarde agradável e de sorrisos.
— John acaba de receber a notícia... — Karolyn tocou o braço do filho quando os dois apertaram as mãos, como se lesse seus pensamentos.
O rapaz olhou para a mãe, sem entender qual seria a notícia, mas acenou positivamente mesmo assim. Karolyn parecia tão afetada quanto John, mas por motivos diferentes. Poucas vezes havia visto a mãe aflita, ela era uma mulher que sempre tinha o controle de qualquer situação.
— Eu gostaria de visitá-lo ainda hoje. — John não se importava mais com o cansaço. Estava exausto pela viagem, mas a dor no peito era maior que a vontade de fechar os olhos e se fingir de morto pelo resto do dia. — Se não se importar, senhora... Apenas peço por um guia. Já fazem muitos anos, não acho que lembrarei o caminho.
Quando foi mandado a Londres, era muito jovem ainda. Os pais queriam que tivesse um bom estudo, por isso foi criado pelos parentes da mãe e ficou por lá todos esses anos. Se comunicava com a família através de cartas, primeiro sofreu com a notícia da morte dos pais, sem poder voltar à América por conta dos estudos. Agora, nem mesmo saberia como o irmão era.
Só se lembrava de um garotinho risonho de olhos azuis e cabelos loiros correndo pela casa e brincando com soldadinhos de chumbo. O amava, mesmo conhecendo-o tão pouco.
Havia sido o pior irmão de que se tinha notícia.
— Querido, não acho que seja uma boa ideia. — Karolyn o olhou compadecida. John, em qualquer outro momento, adoraria ter sobre si os olhares de pena vindos de uma mulher tão bonita; agora só pensava no tempo que estavam perdendo. — Já vai entardecer, seu irmão foi enterrado ao lado dos pais, dentro das propriedades da família.
Então, era disso que se tratava.
— Mamãe tem razão. — Gregory concordou rapidamente. — Eu sinto muito por sua perda, mas podemos ir até lá amanhã. Cedo. Posso eu mesmo acompanhá-lo. — Conhecia San Francisco, mas principalmente, conhecia qualquer locação dos McShaw.
— Nós dois. — Yohannas disse, chamando a atenção para sua figura que ainda segurava casaco, chapéu e as luvas de Gregory. — Nós dois podemos acompanhá-lo, senhor. — E não importava se o senhorzinho aceitaria ou não.
Gregory quis rolar os olhos para a intromissão do criado, mas guardou a vontade e dedicou um olhar apático ao sobrinho de Howard McShaw. O homem parecia a sombra do que poderia ter sido, com olhos aquosos e sem a cor natural das faces, estava pálido feito papel. Exatamente o que se espera de quem recebe uma notícia tão desoladora quanto a perda de um irmão.
— Ele já foi devidamente hospedado? — Perguntou, ignorando o tom fúnebre da situação. Ainda estava nervoso pela humilhação de momentos antes, na rua Clay. — Pretende ficar por muito tempo?
Tantos anos sem aparecer e, de repente, surgia sem sequer avisar? Era tão estranho, que seus olhos ainda confusos desviavam da mãe para John. O padrinho não estava e não havia data certa para retorno, e na ausência de Howard, a mãe e ele teriam que fazer sala para o sobrinho esquecido do McShaw.
Em seu lugar, John pensava se todos na América não haviam ficado loucos. Como diabos faziam uma pergunta como aquela para ele? Sua expressão enrijeceu e ele decidiu que deixaria para cuidar dos pormenores no dia seguinte.
Não conseguiria dormir, mas já estava farto de sorrisos amarelos e palavras que contrastavam com qualquer coisa que fosse verdadeira. Não confiava naquelas pessoas e seus instintos não costumavam errar.
— Assumirei as posses de meus pais e minha parte da herança. — O tom era decisório. — Gostaria de ser inteirado dos negócios tão logo quanto possível, mas por hoje, aceitarei a sua... Generosidade. — Ergueu a sobrancelha e, com certa satisfação, viu olhares vacilantes e dois azuis raivosos.
Céus, quase podia se lembrar do irmãozinho irritado ao ser contrariado! Cansaço e tristeza não eram uma boa combinação, de jeito nenhum.
Um sorriso forçado ergueu o canto dos lábios de Gregory e ele assentiu, cordialmente. John era dono de ao menos metade de tudo aquilo, era sensato que não mostrasse hostilidade. E embora houvesse uma sensação de reconhecimento ao olhar para John, estava mesmo atuando quanto as boas-vindas.
— Bem-vindo à América. — Desejou, dando as costas a John e chamando pela mãe. Tinha um ou dois assuntos a tratar no particular com ela.
O dia não podia piorar.
☼
A casa era simples, mas aconchegante.
Savannah não precisou dizer, quando a porta foi aberta, ela caminhou pelo cômodo, puxando as cortinas da janela e dispensando a sombrinha e o chapéu em uma mesinha baixa ao lado de um sofá.
— Sintam-se a vontade, meus caros. — Fez um gesto para que se sentassem. Com muito custo tinha conseguido aquela propriedade, embora a usasse pouco. O Dennison's era sua casa, mas, infelizmente, ele não passava de um punhado de madeira queimada agora.
Michael havia entrado ainda antes dos outros dois homens, ele e Pirata. Observaram o local com olhos curiosos e buscaram assento no pequeno sofá. Savannah os tinha achado uma graça; um menino e um cão. Chegou a compará-los a uma família e sorriu dos próprios pensamentos.
— É mais seguro que ficar perambulando por aí. — Garantiu ao volver os olhos castanhos a Jade e Ichiru, ainda em pé. — Os Barret têm poder por essas bandas e vocês os humilharam.
— Nada diferente do que mereciam. — Jade falou, como se desse de ombros. — E aquele outro? O garoto no cavalo.
— Gregory Carter. — Era óbvio que alguém como ela conhecia os nomes mais famosos da cidade sem qualquer esforço. — É filho de uma viúva e afilhado do McShaw. Jovem e com muitas liberdades. — Um verdadeiro perigo. — Sentem-se, docinhos. Vou preparar alguma coisa para comermos. E falaremos de negócios!
Enquanto vasculhava em busca de algo na apertada cozinha, notou que pistoleiro e samurai se entreolhavam. Jade pareceu dizer qualquer coisa naquela língua estrangeira e Ichiru assentiu, suavizando a expressão.
Em pouco tempo, Jade já tinha entendido que teria que acalmar o novo amigo sempre que aquele sobrenome fosse dito. Era visível o transtorno nos olhos de Ichiru, mas também era claro como água como ele se tornava mais maleável ao ouvir uma palavra.
"Ajuda."
Savannah os ajudaria, foi isso o que disse a ele. Esperava realmente que aquilo fosse verdade.
— Sem querer ofender, mas que tipo de negócios iremos tratar? — Precisou perguntar, afinal, eram uma dançarina de um saloon queimado e quatro forasteiros encrencados.
Pirata sempre fazia parte da soma, mesmo que fosse um interesseiro.
Ichiru só se sentou quando recebeu autorização e assim que estendeu a mão para o cachorro, Pirata dispensou a companhia de Michael para deitar a cabeça nas pernas do samurai. Jade poderia rir da cena e do rosto indignado de Michael, mas o dia estava atribulado.
E ele não estava com muito humor.
Ao contrário de Savannah.
A ruiva parecia ter encontrado um pedacinho do céu, rindo quando trouxe uma garrafa com uma bebida vermelha e uma tigela de petiscos. Teve a impressão de que ela começaria a cantarolar a qualquer momento.
— Bem... Como eu disse; vocês humilharam a dupla mais problemática dessa cidade. — Savannah queria um cigarro, ela odiava ficar com as mãos paradas. — Haverá consequências para vocês e para qualquer um que fale com vocês.
— A senhorita não parece se importar. — Jade observou. A tigela com o que quer que ela tivesse colocado lá dentro, foi agarrada por Michael, mas a bebida foi aceita.
— Eu preciso de vocês. — Ela ergueu uma sobrancelha. — Caso não se recordem, meu adorado saloon não é nada mais que um amontoado de cinzas e a culpa é de vocês.
Savannah viu Jade fazer o mesmo; um arquear grosseiro de sobrancelha. Ele bebericou do copo com licor vermelho e pareceu apreciar o sabor, bebendo outro gole antes de falar:
— E vai nos dar abrigo se concordarmos com o que está planejando? — O pistoleiro perguntou, ciente da resposta.
— Precisam de um lugar para ficar. Não é grande coisa, mas é limpo e a dona é muito agradável. — Em um flerte que para ela era natural, piscou um dos olhos e arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Jade ponderou. Parecia algo que os atrasaria, mas porcaria de culpa que estava sentindo! Pouco se importava com a merda do dono do saloon, o racista infeliz que o obrigou a tocar fogo no lugar, mas tinham outras pessoas que tiravam o sustento diretamente do Dennison's.
— O que sabe sobre aqueles homens? Os Barret. — Mais um gole da bebida e então notou que Michael, Ichiru e até Pirata estavam olhando para ele. Savannah havia tomado espaço no braço do sofá, colada a ele e exibindo a velha mania de uma profissão muito antiga.
Sentiu dedos suaves subirem por seu braço antes que o perfume dela o inebriasse. Os lábios pintados de carmim tocaram sua orelha e Jade lutou para manter a expressão neutra.
— Tudo. — Não era uma resposta exatamente certa, mas ambos sabiam disso. Ela sabia tudo o que precisava, apenas. — Para alguns homens, querido, a cama é mais eficaz que um confessionário.
Mas ela não era um padre.
E estava cansada de viver deixando que os homens decidissem tudo sozinhos.
☼
— Arroz. — Jade estava dizendo. — Arroz e guisado.
Ichiru ergueu os olhos escuros para ele, concordando brevemente com a cabeça, absorvendo o que dizia. O jantar estava bom e quente, um aroma agradável envolvia o ar. Savannah era boa na cozinha e os paladares foram agraciados pelo tempero da ruiva, mas Jade resolveu ensinar algumas palavras ao samurai, usando dos alimentos que tinha no prato.
— O que ele disse antes? — Savannah perguntou. — Aquela palavra antes de começar a comer.
— Itadakimasu [1]. — Jade repetiu o que Ichiru havia falado. O samurai juntara ambas as mãos, falou a palavra e então começou a comer. — Ele agradeceu pela alimento.
— Oishii [2]! — Ichiru exclamou em seguida, esperando que Jade o ajudasse.
— Delicioso.
— De... deri... cioso. Dericioso. — Ichiru testou a palavra, franzindo o cenho, achando-a complicada, mas todos à mesa tinham compreendido. — Batatas! — Apontou para o prato, mostrando os legumes.
— Que gracinha. — Savannah abriu um sorriso cheio de admiração. — E muito educado. — Salientou o elogio. — Diferente de vocês dois, americanos.
Michael fez careta e já estava no segundo prato, dividindo com Pirata, jogando um pouco da carne para o cão por baixo da mesa.
— Eu disse que 'tá uma delícia. — Talvez não tivesse verbalizado, mas era o que achava.
— Está perdoado, senhor Michael. — Savannah tocou o ombro ao do garoto, implicando com ele. — Como sabe falar essa língua fascinante? — Ela se voltou a Jade, interessada na dinâmica daqueles dois.
— Tive aulas quando mais novo. Não me recordo de tudo, consigo entender algumas frases ou palavras soltas. — A resposta veio como um encerrar de assunto e a mulher entendeu.
Daquela forma, ensinando palavras em seu idioma para ele, Ichiru não parecia ameaçador. Não se parecia com o homem que tinha humilhado os Barret mais cedo. Mas Jade também estava mais leve. Ou disfarçava muito bem o estado de espírito no momento. Lado a lado com o samurai, ambos eram a definição de opostos.
Jade tinha a pele queimada pelo sol voraz da Califórnia, os cabelos dourados e curtos, a barba por fazer e os olhos azuis-claros. Ichiru era dono de uma pele mais clara, vulgarmente destacada sob o kimono azul-escuro, os cabelos pretos estavam ajeitados em um rabo de cavalo, caindo pouco abaixo dos ombros, olhos negros e brilhantes e parecia ter se barbeado recentemente.
Savannah os considerou muito atraentes após a observação. Uma bela parceria, sem dúvidas.
— É impressionante essa amizade de vocês. — Não deixou de comentar, sendo observada pelos dois, Ichiru carregando confusão no olhar e Jade, estranhamento. — Oras, pelo que entendi, se conheceram ontem... Ou foi anteontem? — Ela pareceu pensativa, balançando os ombros logo em seguida. — Faz pouco tempo de qualquer forma, ele tem sorte de ter encontrado logo você por aí. — Não era qualquer um que falava aquele idioma por ali e Ichiru poderia ter encontrado pessoas ruins pelo caminho.
Eram palavras certas, embora fossem um tanto duras.
Jade se voltou para Ichiru, sendo ele a ser olhado com completa confusão dessa vez. Era bom que Ichiru não entendesse o que estavam dizendo, assim não se sentiria ofendido pela língua solta de Savannah. Embora fosse muito imprudente tirar a espada para cada brutamontes que encontrassem pelo caminho.
— Eu estou ajudando Ichiru-san numa... Busca. — Quis justificar aquela amizade, embora não houvesse real motivo para tal. — Para pagar o débito que tenho com ele.
— Ajuda. — Ichiru voltou a falar, assentindo como se compreendesse todo o teor da conversa. Savannah sorriu. Ela gostava de homens exóticos e Ichiru ainda era um completo cavalheiro de olhos puxados.
— É, vamos ajudar! Ele vai pegar o desgraçado do McShaw! — Michael cantarolou, levando Jade a engasgar e receber tapinhas nas costas.
— Michael...! — Mas que diabos aquele garoto tinha na cabeça para sair falando aquele tipo de coisa assim?! Já não tinham problemas demais?
E o moleque ainda fazia aquela cara de inocente.
Ergueu os olhos para Savannah, sabendo que seria inútil contornar o que Michael havia dito. A dançarina estava pensativa, apoiando o queixo na palma da mão, o cotovelo sobre a mesa. Nem mesmo precisou olhar para Ichiru para saber que a expressão do samurai tinha mudado.
— Pegar Howard McShaw...?— Parecia uma história muito arriscada para que acreditasse sem uma confirmação. — Vão...?
— Korose [3]! — Ichiru interrompeu qualquer coisa que Jade pudesse dizer. O tom forte e arrastado com que disse a palavra, não deixava muito para a imaginação adivinhar. Savannah tinha os dedos cobrindo os lábios boquiabertos e Michael parecia querer se fundir à cadeira. — S...Sumimasen [4]. — Ele pediu, constrangido pouco antes de se erguer e sair, provavelmente para o quarto onde foram instalados.
Jade lançou outro olhar torto a Michael, mas o menino estava mais preocupado em erguer os pés para que Pirata fosse seguir Ichiru. Jade quase foi pelo mesmo caminho, mas Savannah estava longe de deixar a conversa acabar.
— Foi algo que eu disse? — A mulher perguntou, apenas por educação.— O que ele falou?
— Pediu licença. — Jade tentou, sendo encarado por olhos estreitos acima de algumas sardas que ela tinha na bochecha.
— Antes disso, pistoleiro.— Ela insistiu. — Vocês querem encontrar McShaw e tenho certeza que não é apenas uma visita de cortesia.
Oras, qualquer um sabia onde encontrar Howard McShaw. Quando ele estava no país, claro. Acontece, que a maioria das pessoas evitava ao máximo tais encontros.
— É, eu não faço muito o perfil cortês. — Jade deixou um sorriso erguer o canto dos lábios. — É algo um pouco menos formal que isso.
— O McShaw é o homem mais importante da cidade. Com um estalo de dedos, ele acaba com qualquer um que entre no caminho dele. — Savannah parecia apelar para o bom-juízo do pistoleiro. — Não importa se é um homem bonito e charmoso de belos olhos azuis, um japonês adorável e temperamental, um garoto que fala demais e um cão de um olho só.
O perigo era iminente. Qualquer um conhecia a fama de Howard McShaw e ninguém era suficientemente louco para desafiá-lo. San Francisco crescia a cada dia, a notícia do ouro navegava continentes, tudo ia bem a uma primeira vista, mas a uma segunda, descobria-se uma certa opressão a qual nenhum daqueles homens e mulheres conseguiriam escapar.
— Bonito e charmoso de belos olhos azuis? — Jade balançou a cabeça, ignorando qualquer coisa que viera depois daquilo.
Savannah suspirou. Nada do que dissesse ou alertasse faria efeito ou conseguiria assustar aquele pistoleiro. Ele devia ser louco. Ichiru certamente não sabia sobre a fama ruim do homem que queria enfrentar, mas Jade era americano, sabia sobre tais detalhes, mas não se importava.
— Eu odiei o "garoto que fala demais". — Michael resmungou. Queria muito saber quando as mulheres deixariam de vê-lo como um simples garoto. Ele quase tinha pelos no rosto, muito parecidos com os de Jade. — E então? Eu vou dormir na cama?
Havia um único quarto para hóspedes e somente uma cama, mas tinham o sofá e o tapete.
— Deixemos a cama para o Ichiru e o Pirata. Foi um dia difícil. — Jade decidiu, virando o restante da bebida.
Na manhã seguinte conversariam melhor sobre McShaw, os irmãos Barret e a tal escritura do falecido Dennison's Exchange.
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