O Legado Escarlate
4 Capítulo 3 ☼ "De volta às raízes" Parte Um
Notas iniciais

Capítulo 3 ☼ "De volta às raízes" Parte Um
Um lenço de linho branco foi retirado do bolso e colocado sobre o nariz logo que os pés tocaram o chão e o trotar dos cavalos entregou que a diligência pararia de levantar toda aquela poeira desagradável.
A figura distinta atraiu olhares de todos os que passavam.
Trajado em um terno feito sob medida, luvas e sobretudo, o homem vinha andando sob um chapéu coco preto e com uma valise na mão, destoante da maioria, mas não estranho a ponto de que dedicassem uma análise mais profunda ao seu porte; não quando o assunto que corria por todos os lados ainda era o triste incêndio do saloon mais movimentado da cidade.
Pelas ruas, muitos questionavam se o Dennison's Exchange tinha alguma chance de retornar às atividades com toda a fama de antes, mas negativas eram tão constantes quanto as perguntas. O dono, que havia perdido tudo o que tinha nas chamas, pelo que alguns diziam, cogitava voltar à terra natal.
John McShaw evitou tossir.
As ruínas do que algum dia foi uma casa festiva, chamaram os olhos azuis, a convicção de que tal coisa deveria acontecer com alguma frequência naquele lugar que ainda considerava um fim de mundo, passou por seus pensamentos e não o agradou nem de longe.
Pessoas falando alto nas ruas, bandeiras cheias de estrelas desfraldadas em algumas casas, o cheiro de uísque — americanos... — e tabaco se misturando à poeira e os maus odores que qualquer rua como a singela Clay Street daria como um agrado ao olfato dos visitantes.
O sol era desesperador.
Estava de volta às raízes.
Há muito havia deixado San Francisco — que outrora tinha outro nome — para estudar advocacia em Londres e, sem muitos remorsos, dizia que não era saudoso da vida na América. Talvez por jamais ter criado raízes naquele lugar ou por ter sido criado pelos primos ingleses da mãe desde os onze anos de idade, não tivera tempo de chamar a Califórnia de lar.
Obviamente, entretanto, não havia se desapegado da família que deixara para trás.
Era um dos motivos para sua volta às origens e às propriedades da família, agora administradas pelo tio enquanto o irmão caçula se encontrava acamado depois de ser acometido por uma enfermidade que o acompanhava desde a morte prematura e criminosa dos pais, naquelas terras onde a lei se fazia valer apenas no cano de um revolver ou com uma corda no pescoço.
Era um lugar de selvagens e não seria um pouco de ouro que o tornaria civilizado. Muito pelo contrário, a ganância era um dos fatores que contribuíam para cenas como aquela.
Sua bagagem estava com caminho certo ao casarão da família McShaw, mas a viagem havia sido cansativa e acabou por pedir ao garoto que guiava a diligência para que o deixasse ali, na casa que se lembrava que o tio e o pai mantinham para tratar de negócios. Tudo havia mudado muito, e agora a construção era ainda maior.
A cidade inteira era maior.
Desde as estalagens espalhadas por todos os lados, aos salões, residências e os muitos barcos para além da praia até onde seus olhos perdiam o mar de vista. O irmão não havia exagerado na última carta que havia lhe enviado; San Francisco estava imponente e a todos os momentos chegavam e saiam homens de todas as nacionalidades e condições sociais. Desde os mais bem vestidos que chegavam em suntuosas diligências até aqueles que vinham acompanhados de um burro velho e uma carroça carregando famílias inteiras e tudo o que tinham de valor.
Naquele mesmo momento, podia ver um rapaz com claros traços orientais deixando um hotel acompanhado de um negro e um americano. Um samurai, pôde reconhecer. O tio tinha certo fascínio por japoneses, a ponto de ter se casado com uma.
Era um trio inusitado, mas não era estranho encontrar parcerias como aquela.
O homem fazia loucuras por conta de um brilho dourado.
Para John, era tudo ouro de tolo e o único brilho dourado com o qual se importava era aquele que carregava no bolso. Presente do pai, algo que ainda desejava entregar ao irmão, pois era ele aquele quem devia herdar todos os bens da família, uma vez que o primogênito não tinha nenhuma vontade de lidar com nada que viesse da Califórnia, a cidade que havia lhe tirado os progenitores.
Os pés fizeram ranger a madeira da escada nos nove degraus que subiu, não precisando anunciar sua chegada quando a porta foi aberta e um menino negro e bem vestido, diferente dos escravos maltrapilhos lá fora, saudou sua volta e se ofereceu para levar sua valise, chapéu e casaco.
John deu as luvas também, estranhando os olhos do rapaz que pareciam ter visto uma assombração. Ele saiu correndo antes que tivesse a chance de perguntar qualquer coisa, o que era estranho, uma vez que o correto seria anunciar sua chegada.
Todo aquele silêncio era estranho, mas entendeu que talvez estivesse sendo aguardado na casa grande da família. Havia pensado que talvez o tio estaria ali, Howard era obcecado por trabalho.
Decidiu conferir mesmo assim.
Longe da poeira, mas não completamente do calor, ali dentro podia enxergar três palmos a sua frente sem ter que apertar os olhos azuis. Eles já eram sensíveis por natureza, estava acostumado ao clima frio de Londres, mas o inverno na Califórnia era uma estação amena e suportável, com neblina pela manhã, vento ou chuva, mas o sol parecia não desistir de brilhar em nenhuma estação.
Outro dos motivos para ter ido ali, era o pedido do tio para que ajudasse com o mais novo negócio da família. Ele não havia explicado muito, mas tinha a ver com pessoas exóticas chegando à Califórnia e a construção de estalagens apropriadas para tais pessoas.
Howard McShaw sempre havia sido um humanitário, do tipo que sentia prazer em ajudar os outros e o homem que fez com que quisesse ser advogado, por lhe ensinar que a violência era a resposta errada para todos os conflitos.
Retratos, pinturas, dos homens McShaw acompanhavam seus passos no corredor, as últimas, sendo do pai e do tio e mais dois espaços para aqueles que ainda não posaram para um artista. Dez gerações ao todo, tinham edificado raízes naquele lugar e a fortuna que cultivaram era incalculável, sendo multiplicada pelo pai e o tio ao longo dos anos.
Infelizmente, o pai não podia mais continuar aquele trabalho.
Mas ali estava John.
Primogênito e herdeiro de tudo o que foi dele.
Ainda se lembrava daquela casa, do início ao fim da infância, ele sempre sendo o filho que se interessava pelas burocracias da família enquanto o caçula preferia a companhia da mãe ou falar sobre as batalhas que aconteceram em outras civilizações, todas contadas pelo tio que se colocava como um herói de guerra.
Ele era mesmo um herói.
E sentia tanta falta daquele homem que não pôde conter a decepção que o tomou quando, ao alcançar o fim do corredor e o escritório da casa, se deparou com uma figura feminina atrás da mesa que costumava ser do pai.
Uma mulher lendo, parecia até piada.
O escritório era um lugar aconchegante, com prateleiras exibindo uísques caros nas paredes, uma sequência de pequenos soldados de chumbo em outra e a bandeira dos Estados Unidos cobrindo uma das laterais.
O mais exótico no cenário, não era o absurdo de ter uma mulher usando óculos e com um tinteiro ao lado, mas as pinturas de traços orientais, chinesas e japonesas em sua maioria. Todas parecendo delicadas ao ponto de se desfazerem sob um toque descuidado. A que mais chamou sua atenção, foi a que tinha um dragão deitado numa montanha encarando uma flor de lótus como se todos os segredos da vida estivessem dentro das pétalas dela. Sempre achou engraçado o interesse do tio por aquele povo de olhos pequenos e pele amarela.
Três espadas estavam em seus devidos apoios nessa mesma parede.
"Posso ajudar?" A voz feminina fez com que voltasse os olhos à figura iluminada pelo sol de início de tarde.
Os dedos delicados eram enfeitados por alguns anéis e as unhas bateram contra a mesa de mogno. Era uma mulher bonita, embora mais velha. Os cabelos arranjados num penteado que parecia muito complicado e alguns cachos castanhos caindo ao redor do rosto e busto.
Uma pedra de ônix enfeitava o pescoço já marcado pela idade, mas os anos não haviam tornado menos belo o seu decote.
Sorriu de lado. Oras, não era exatamente seu tipo de mulher e nem o lugar onde esperava encontrar uma mulher, mas eram todas lindas e nunca vinham em má hora, em seu humilde ponto de vista.
"Bem, acho que eu quem deveria te fazer essa pergunta, senhorita...?"
"Senhora." A mulher corrigiu. "Senhora Carter." Ela apontou e voltou ao que escrevia. "Diga logo, garoto, não tenho o dia todo. E como foi que entrou aqui sem ser anunciado?!" As sobrancelhas escuras se apertaram. "Não se pode mais confiar nesses negros... Se estiver vendendo algo, já digo que não temos interes-"
"Aqui não é a propriedade da família McShaw?" John a interrompeu, parando de ouvir quando ela disse o sobrenome. Talvez tivessem vendido a casa e os novos donos possuíam os mesmos gostos excêntricos de seu tio.
"Está procurando por Howard?" Ela ergueu o olhar, refreando o próprio mau humor ao encarar seus olhos com surpresa. Novamente, John se sentia uma assombração andando por aí. A senhora Carter, felizmente, se recompôs em vez de sair correndo como o escravo de antes. "Quem é você, meu jovem?"
Não era a recepção que pensou que receberia e acabou entendendo que não estava na casa errada ou algo do tipo, mas que alguma coisa de muito errado andava acontecendo por ali. Ou isso ou o sol havia torrado os miolos do povo de San Francisco ao ponto de que não se preocupassem com os arranjos para sua chegada.
Era John McShaw, oras. Esperava mais que um escravo assustado e uma mulher numa mesa de escritório.
"Sou John Mcshaw." Se apresentou, aproximando-se quando ela se ergueu de uma só vez e limpou alguma sujeira invisível no vestido preto que lhe entregava o luto. "O sobrinho dele. E herdeiro."
Quando a senhora Carter pareceu que ia desfalecer, entendeu que tinha algo mal contado ali.
☼
Na infância, a mãe gostava de andar nas ruas agarrando as filhas gêmeas pelos pulsos. Uma, sempre muito quieta e a outra agitada e pronta para escapar na primeira distração, o que fazia com que suas chances de fuga fossem reduzidas por conta da atenção redobrada que recebia.
Ichiru, o mais velho, sempre andava atrás, carregando o que quer que a mãe não pudesse segurar. Ele era o homem da casa quando o pai não estava e se orgulhava sempre que podia ajudar a mãe com qualquer tarefa; mesmo as mais simples, como tomar conta das irmãzinhas.
Naquele momento, ele se sentia como a mais calma das gêmeas. Seguindo os passos de um homem de nome estranho enquanto na outra mão ele segurava um rapaz rebelde e que reclamava de tudo. O homem, Jade O'Hara ou O'Hara Jade, como ele havia se apresentado, estava com a mesma expressão de enfado e irritação que sua saudosa mãe tinha naquela época onde tudo era tão mais fácil.
Talvez, por isso, ainda não tivesse se afastado. E pelo cachorro.
Cães sempre haviam sido dignos de confiança. O pai costumava dizer que não existiam cães malvados e sim donos malvados, mas, depois de observar como aquele homem protegia com unhas e dentes o rapaz de pele escura, decidiu que podia confiar no julgamento do cão. Ao menos por enquanto.
De qualquer forma, estava perdido, aquela era a única pessoa até aquele momento que falava sua língua e também havia o reconhecimento nos olhos dele quando pronunciou aquele nome, que tinha entalado na garganta há tanto tempo. Foi como se livrar de um peso e reafirmar os motivos de estar ali.
Havia ido em busca da mãe, das irmãs e de vingança.
E iria sujar aquela terra de vermelho como tinham sujado a neve com o sangue de seu pai.
Mas, para isso, antes precisava saber para onde estava sendo arrastado como se fosse uma criança malcriada. Tudo bem que havia errado o caminho algumas vezes, não entendia nada do que gritavam quando esbarrava em alguém e esbarrava muito nas pessoas, mas a culpa não era sua que tudo ali fosse um verdadeiro caos.
A paciência acabou quando apertou os pés no chão e balançou a cabeça, se recusando a dar mais um passo que fosse.
Jade foi obrigado a também parar, quando perdeu o contato com o tecido do kimono de Ichiru. Ele não era tolo a ponto de não saber que contato físico era desrespeitoso para os orientais, mas precisava segurá-lo e ter a certeza de que ele não se perderia em meio as pessoas que seguiam pela estrada. Puxá-lo pela barra das roupas pareceu o mais sensato a se fazer e um pouco menos invasivo.
— Ichiru-san... — Dirigiu-se a ele, respirando fundo ao ver a postura rígida que deixava explícita qualquer vontade que ele tinha de continuar o caminho. Ele estava limpo, mesmo com as roupas de antes, parecia mais jovem e havia um viço de uma noite de sono no rosto dele, mas não parecia de bom humor.
O pistoleiro sentiu-se uma espécie de babá; cuidando da segurança de um garoto, ajudando um estrangeiro a não se perder e com um cão no encalço, mas estava claro que Pirata era a alma mais sensata daquele grupo.
Na noite anterior, ele deixou avisado que, tão logo clareasse, levaria Michael de volta para casa e, estranhamente, tinha se comprometido de maneira silenciosa com o samurai. Depois que deixasse o garoto em segurança com a família, ajudaria o asiático a encontrar por quem ele buscava.
Mas talvez, as coisas não estivessem muito claras entre eles, tinham dado poucos passos até aquela birra repentina. E Michael insistia que precisava ficar, mesmo sem contar qualquer motivo que o fizesse mudar de ideia e concordar com aquela sandice.
O maior empecilho, sendo os idiomas tão distintos que ambos falavam. Tinha pensado em uma ou duas frases antes de dormir, mas foi só fechar os olhos para esquecer.
— Soko ni [1]. — Falou ao apontar para onde o estábulo ficava, indicando que iam para lá. — Ikuze [2]. — Tentou. Os dedos ainda prendiam o pulso de Michael, cientes de que o garoto queria escapar, mas Ichiru além de ser japonês, não era mais uma criança, embora não soubesse a idade dele.
— Ele também não quer ir. — Michael protestou. Estava contrariado com aquele tratamento infantil, afinal, já era um homem e sabia se cuidar, não causaria nenhuma confusão. Não depois da noite passada.
Um homem de cabelos loiros e roupas elegantes passou por eles, destoando da cena assim como o samurai. Jade observou as costas dele por uns momentos, mas logo a atenção retomou ao Masame.
— Ele mal entende o que nós falamos, deve estar assustado. — Falou a Michael. Deveria mudar a abordagem, pois deixar um estrangeiro que conhecia um nome bem particular andando a solta pela cidade, era o mesmo que deixá-lo para morrer. Sua empatia era um problema, certamente. — Ichiru-san. Kuru [3]. — Novamente o chamou. Em certo momento, os dedos foram para o chapéu, cobrindo um pouco do rosto. Estavam se demorando ali, parados feito tolos. Até Pirata resolveu parar, sentando-se junto ao samurai.
Os olhos pequenos e negros se tornaram ainda mais estreitos e passaram do cachorro preguiçoso ao homem loiro.
Havia compreendido, mas o americano não tinha prática em seu idioma, mas não deixou de pensar que ele estava ao menos tentando, o que era mais do que poderia dizer sobre qualquer um a quem buscou pedir por informações naquele lugar. Normalmente, as pessoas se afastavam como se fosse algum akuma [4] sempre que pronunciava aquele nome.
Chegou a pensar que estava no lugar errado, mas não. Andou demais e pôde encontrar um homem de cabelos loiros, olhos azuis e que falava um pouco da sua língua. O último homem que conheceu com aquelas características, havia levado embora tudo o que tinha.
Apontou o dedo em riste para o rosto de Jade.
— Howard McShaw! — Repetiu, como na noite passada. Exigiu.
Depois que disse aquele mesmo nome, se fez silêncio no restaurante, na noite anterior.
O piano desafinou, um copo se quebrou e a maioria das conversações cessaram. Nem havia erguido a voz tanto assim, apenas o suficiente para que a pronúncia não fosse tão dificultosa.
O resultado de tudo, se dera com o loiro engolindo a bebida com dificuldade antes de pousar os olhos sobre si, totalmente, lhe dando uma atenção que há muito não recebia.
A partir de então, ele fez de tudo para lhe entender e o Masame se esforçou para falar com pausas frequentes, explicar seus motivos e ver o americano empalidecer a cada palavra que ele conseguia entender. Não foram muitas, mas havia valido a pena.
No fim da noite, recebeu um quarto, uma cama quente e água para se banhar, o que fez com muito gosto. O julgou digno de confiança quando ele bateu em sua porta pela manhã.
Ichiru não deixava de pensar em tudo até ali.
Desde a morte dos pais, até o desespero que sentiu e todo o treino árduo e as dificuldades para se deslocar até a América, mais especificamente para a tal Corrida do Ouro de que o assassino de seu pai se vangloriou de 'coordenar'. Se lembrava das flores de cerejeira que voavam pela neve e do sangue manchando aquele branco. A promessa que fez, o medo que suas irmãs e sua mãe deveriam estar sentindo.
Anos...
Se passaram anos e nem ao menos sabia se estavam vivas, já se preparando para ser informado sobre a morte delas, tudo o que restava era a jura de vingança. Pelo pai, por elas, por ele mesmo.
Tudo o que foi tirado, não voltaria apenas porque empunhava uma espada, mas era sua herança. Seu legado.
Sua sina que se resumia a um nome, aquele que aprendeu a repetir constantemente como uma criança que aprendia uma palavra diferente.
— McShaw... — Era mais convicto agora. — A...Ajuda. — Conhecia aquela palavra e podia rir.
Se lembrava dela de quando recebeu ajuda para carregar uma bandeja de chá.
— Você vai ajudar? — Michael perguntou após olhar ao redor, temeroso de que novamente escutassem o nome daquele homem. Arranjava-se encrenca por menos. — Se for, eu—
— Não. — A interrupção veio firme. O olhar azul passou de Ichiru para Michael. O que era aquilo? Uma espécie de missão suicida? Ichiru tinha os motivos dele, fortes o bastante para viajar a San Francisco, com todas as limitações da língua e cultura, era um assunto que dizia respeito somente a ele. — Ajudar, sim. — Retomou ao samurai, vendo-o de cenho franzido para o seu "não". — Eu vou ajudar.
Por alguns momentos, Ichiru pareceu avaliar sua sinceridade e vontade em ajudá-lo. Ele buscava algo em seus olhos.
Jade não queria ficar em dívida com ninguém, só precisaria buscar informações e garantir que o japonês alcançasse o McShaw, o resto, Ichiru faria, e depois disso, não teriam mais nenhum assunto. Tudo seria como antes e era como deveria ser.
Pegariam dois cavalos e seguiriam até a casa de Michael, voltariam e então, buscariam por informações. Jade sabia como consegui-las, era mais comedido e americano, não teriam muitos problemas se fossem discretos.
— Isso é injusto! — O tom de Michael deixava claro que ele faria de tudo para o O'Hara mudar de opinião, mas ele logo foi obrigado a andar, quando Ichiru retomou o passo. — Você devia me ensinar a atirar, continuar ensinando. E devia me deixar encontrar o meu pai.
O cenho do pistoleiro se franziu como se ouvisse o maior dos disparates.
— Seu pai? Ele está nas minas, como aqueles homens nos acampamentos. — Era o que sabia, e se o garoto quisesse matar a saudade do pai, só teria que procurá-lo entre os mineiros para um abraço. Mas Michael parecia saber de algo que Jade ainda não sabia. — Ele não está?
Michael pensou se responderia aquela pergunta antes de alcançarem os estábulos, mas a cena seguinte trouxe uma notável distração a ambos.
— Esse homem aí, o esquisito. — Uma voz soou bem próxima a eles. — Isso é um vestido?
Jade só precisou virar o rosto para ver dois homens altos e trajados em casacos longos e caros, esmorecendo de Ichiru e seu kimono. Depois da noite anterior, nem ficou surpreso com babacas em potencial.
— Eu acho que é uma saia, Burton. — O outro homem respondeu, coçando o rosto barbado e analisando o samurai. — Que grupinho interessante.
Ichiru que não entendia o que os outros homens estavam dizendo, buscou o rosto de Jade para algum entendimento, mas o pistoleiro fez um sinal para que ele não se preocupasse. Vendo as roupas caras que os dois usavam, tinha uma ideia de quem poderiam ser, os tinha visto logo que chegou, cobrando impostos em uma das casas daquela rua. Ignorou aos dois e seguiu em frente.
Podia ver os cavalos nas baías e teria que escolher um para Ichiru montar.
— Hey! — Um dos homens chamou, exigindo que retornassem. — Você de cabelo claro, eu não te conheço de algum lugar?
— Provavelmente não. — Foi educado o suficiente para responder, mas não parou. Não parou até sentir alguém puxar seu braço e forçá-lo a parar. As manhãs começavam problemáticas assim como terminavam as noites. — Eu disse que...
— Tenho certeza. — O homem chamado de Burton foi quem o abordou, dedos grosseiros apertando seu braço como se o intimidasse. — Você não é aquele garoto? Jesse ou algo assim?
Quando Jade encarou o homem de roupas caras e um comportamento que o fez pousar a mão em uma das pistolas no coldre, o rosto empalideceu com algo que somente ele viu.
Fale com o autor