O Legado
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Conhecidos como “a espinha dorsal da Inglaterra”, os montes Peninos são uma perigosa cadeia de montanhas de aproximadamente 402 km de comprimento que cortam o país.
Escondido no meio dessas montanhas existe o Vale dos Lobos, um lugar que poucas pessoas conhecem e menos ainda sabem chegar até lá. O vale é protegido por bosques e florestas e escondido pelas colossais montanhas que se erguem ao seu redor.
É inteiramente habitado por lobisomens, criaturas que viviam ali há muito tempo tirando seu alimento do próprio plantio e dos animais que caçavam na floresta. Eles viviam com simplicidade, se contentavam com suas primitivas casas de pedras com telhados de madeira cobertos por palha e raramente saíam do vale. Na verdade nunca saíam do vale, apenas em noites de lua cheia quando assumiam sua forma de lobo perdendo totalmente o controle e desaparecendo no meio da floresta.
Não era noite de lua cheia e o vale estava calmo como sempre quando uma carruagem se aproximou. Normalmente ninguém visitava aquele lugar e a carruagem causou estranho desconforto e agitação entre os habitantes. Ela surgiu por entre as árvores e seguiu pela estrada que levava até uma das casas mais isoladas do vale onde um homem alto e robusto mantinha-se de pé com os braços cruzados e uma expressão pouco amigável. Ele parecia estar a ponto de entrar em casa quando percebeu a carruagem e reconheceu o símbolo estampado nas portas do veículo quando este se aproximou.
A carruagem contornou o lago e estacionou em frente ao homem robusto, o cocheiro desceu e abriu a porta para seu senhor. Um homem elegante e bem vestido desceu da carruagem e retirou a cartola revelando seu rosto.
— Albert? — O homem robusto pareceu surpreso com a visita do outro.
— Há quanto tempo Serberus. — Disse Albert abrindo um meio sorriso nos lábios, sua expressão dizia claramente que ele estava perdido em algumas lembranças passadas.
— Faz tempo mesmo. Por que veio? Espero que não tenha sido por causa da Ordem. — Disse Serberus trazendo o amigo de volta ao tempo presente.
— Eu temo que sim. Será que posso entrar?
Serberus hesitou por alguns instantes, coçou o queixo sentindo a barba mal feita arranhar as pontas dos dedos, depois coçou a nuca e suspirou longamente.
— Me desculpe Albert, mas não.
— Pelos velhos tempos Serberus. Prometo não demorar-me.
O homem robusto bufou.
— Acho que tenho um minuto. Entre.
— Obrigado.
A casa era pequena por dentro e tão humilde quanto era por fora, a sala e a cozinha eram praticamente juntas e quase não havia mobília. Uma lareira acesa na sala aquecia e iluminava o ambiente, e na cozinha uma mesa de madeira, com tigelas de barro e copos de ferro retorcido, ocupava espaço ao lado de um fogão a lenha; quatro cadeiras, também de madeira, estavam envolta da mesa, uma fruteira artesanal feita de vime decorava o móvel com algumas frutas variadas.
Serberus convidou o amigo a puxar uma cadeira e se sentar enquanto servia dois copos com vinho esquecendo-se do trabalho de perguntar se o outro gostaria de beber ou não alguma coisa. Olhou para os copos em sua mão e depois para Albert.
—Aceita?
— Por favor, estou com a garganta seca. — Serberus deslizou o copo sobre a mesa para o amigo, porém, sabia que ele só aceitara por educação.
Puxou uma cadeira e sentou-se ao contrário passando uma perna de cada lado e apoiando os braços no encosto da cadeira.
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, Albert examinou discretamente o cômodo até seus olhos encontrarem o amigo sentado a sua frente fitando-o seriamente. Serberus nunca se esforçava em ser gentil e Albert conhecia o amigo suficientemente bem para não se incomodar com seu jeito rude, no fundo sabia que poderia contar com Serberus sempre que precisasse e era justamente por isso que estava ali, fazendo uma visita após tantos anos, porque ele precisava.
O que Albert tinha a pedir era importante e muito delicado, qualquer palavra mal colocada faria com que Serberus recuasse sem pensar duas vezes, por isso Albert precisaria medir cada uma de suas palavras.
— Como está Lauren? — Albert tentou iniciar a conversa.
— Bem. — Respondeu Serberus secamente dando um gole no vinho.
— E as crianças?
— O que você quer, Albert? — interrompeu-o com certa grosseria para força-lo a ir direto ao ponto. Serberus parecia não estar com muita paciência e delicadeza nunca fora seu ponto forte.
Albert deu um gole no vinho e depois deixou o copo de ferro sobre a mesa perdendo o interesse pela bebida.
— Preciso de um favor.
— A resposta é não!
— Você nem ouviu o que tenho a dizer.
— Não preciso ouvir para saber que você certamente não veio aqui pedir que eu, por favor, o acompanhe a um baile ou qualquer outra ocasião divertida entre dois velhos amigos, por isso a resposta é não. — continuou ao mudar de posição desconfortavelmente virando a cadeira de frente para a mesma e sentando-se com as costas no apoio da cadeira e os pés repousados despreocupadamente sobre o tampo da mesa. Apesar da forma descontraída de postar-se era possível perceber que se mantinha na defensiva com as mãos cruzadas na frente do peito e a cara fechada em um semblante pouco amigável.
Albert apoiou as duas mãos sobre a mesa e levantou-se, inclinou o corpo na direção do outro assumindo uma postura mais séria.
— Eu também não viria se não fosse algo realmente importante. Pelo menos escute o que tenho a dizer, Serberus.
— Seja lá o que for, se eu escutar vou acabar concordando. A resposta continua sendo não, sinto muito.
Albert fez uma breve pausa antes de continuar.
— Você me deve isso!
Serberus voltou a coçar a nuca e bufou pesadamente.
— Diga logo o que quer.
— A Ordem registrou uma estranha movimentação de criaturas nos arredores de Much Wenlock e você sabe o que isso significa!
Serberus deslizou a mão sobre o rosto e apertou a ponte do nariz.
— Eu não tenho mais nada a ver com a Ordem, isso não é problema meu.
— Serberus, por favor! Isso não tem a ver só com a Ordem, a vida de nossas famílias pode estar em perigo, de nossas espécies!
— E o que quer que eu faça?
— Não sabemos como eles pretendem agir, precisamos de informações. E quando se trata de recolher informações eu não conheço ninguém melhor do que você.
— Esqueça! Tem ideia do que está me pedindo?
— Eu sei que parece arriscado mas...
— Não, não parece arriscado, é arriscado! — Interrompeu Serberus antes que o outro terminasse de falar. — Vou repetir Albert: esqueça! Peça a outro.
— Entendo que não tenho o direito de te pedir algo assim e eu não faria isso se não fosse minha última opção. Os membros da Ordem começaram a discutir entre si, a se confrontar, não falta muito para o caos se instalar e se isso acontecer vocês também vão se prejudicar! A Ordem garante a proteção do Vale dos Lobos desde que foi fundado se ela acabar ou se se desestabilizar o vale ficará desprotegido.
— Nós podemos cuidar do vale! — Serberus suspirou e fez uma longa pausa. — Escuta Albert, você me conhece desde menino, somos amigos, lutamos juntos pela Ordem, você me apresentou Lauren, achou esse vale onde eu e minha espécie vivemos em paz e eu serei eternamente grato por isso, mas o que está me pedindo envolve colocar em risco a vida da minha família e isso eu não posso fazer! Sinto muito. A Ordem já teve de mim mais do que eu gostaria, você entende o que eu digo você estava lá, mais do que qualquer um deveria saber.
— Eu sei meu amigo, mas se não nos ajudar isso pode significar o fim não apenas de sua família como também de toda a sua espécie, além da minha espécie e da raça humana. — Albert o fitava com uma expressão endurecida, sua voz não tinha mais nada de amigável ou cortês, os dois homens sentados à mesa entendiam perfeitamente o grau de importância que aquela situação compreendia.
Serberus movimentou o copo de ferro brincando com o pouco liquido que sobrara no fundo do objeto enquanto ponderava sobre as palavras do amigo. Ele largou o copo sobre a mesa e apoiou os cotovelos sobre ela enterrando o rosto nas mãos, ficou em silêncio por mais algum tempo e depois voltou a encarar o amigo sentado a sua frente.
— Prometa-me que cuidará de minha família se algo me acontecer.
— Eu farei o possível.
Serberus soltou uma risada sem nenhum humor.
— Isso não é muito encorajador.
Os dois homens ficaram em silêncio por mais alguns minutos que pareceram passar como horas até que finalmente a voz grave de Serberus rompeu a calmaria desconfortável.
— Eu sabia que acabaria concordando se deixasse você falar.
Os dois deram risada daquele comentário, mas nenhum deles realmente pareceu animado.
— Obrigado meu amigo, eu sabia que poderia contar com você.
— Sabia coisa nenhuma, você tentou a sorte! E pra sua sorte você é bom em improvisar, sempre foi bom com as palavras.
Os dois homens foram surpreendidos pela voz de uma mulher, que entrara sorrateiramente na casa. Seus cabelos eram longos, negros e ondulados; trajava uma capa verde musgo com um capuz jogado para trás, por baixo um vestido branco e comprido, porém modesto.
— Albert?
Os cavalheiros se levantaram ao ouvirem a voz da mulher.
— Olá Lauren. — Respondeu Albert tomando-lhe a mão e beijando-a em forma de cumprimento.
— Nossa! Há quanto tempo. O que faz aqui? — A mulher o fitava com um ar de curiosidade, retirou a capa pendurando-a sobre a lareira e caminhou até o marido que beijou carinhosamente sua testa.
— Vim ter com Serberus, já estava de saída, tenha uma boa noite.
Albert fez uma reverencia ao casal e saiu da casa. Segundos depois a carruagem se afastou do vale.
Lauren voltou sua atenção para o marido e cruzou os braços.
— O que ele queria?
Serberus sentou-se na cadeira e puxou Lauren pela mão até que ela se sentasse em seu colo, envolveu a cintura da mulher com os dois braços enquanto a mesma lhe acariciava suavemente os cabelos castanhos e lisos na altura do ombro.
— Nada demais, não se preocupe.
Lauren o encarou com uma expressão doce, porém forte que queria dizer “não minta para mim”. O homem reconheceu imediatamente a expressão e suspirou longamente procurando uma forma de se explicar.
— Ele precisava de um favor, só isso.
— Vocês estavam com uma expressão tão séria quando cheguei... Tem certeza de que isso é tudo o que tem para me contar? — Insistiu a mulher determinada a fazer o marido falar.
— Esqueça isso certo?! Confie em mim.
Ela lhe lançou o olhar mais doce que conseguia e acariciou sua face com a mão direita, selou rapidamente seus lábios e se levantou do colo do marido.
— Confio em você Serberus, sabe disso.
Aquelas palavras ditas de maneira tão sincera fizeram Serberus sentir-se culpado por não dizer a Lauren tudo o que queria dizer. Que ele poderia estar se arriscando e arriscando a família inteira, que poderia sair de casa qualquer dia e não voltar, que aquela visita de Albert não tinha nada de simples e que Lauren precisava estar preparada para o pior.
Por mais que tentasse, ele não conseguia dizer nada daquilo, não conseguia encontrar as palavras certas e mesmo quando achava que conseguiria sua garganta era tomada por um nó.
Ele ficou sentado na mesa da cozinha observando Lauren preparar o jantar. Observando com um sorriso bobo enquanto ela cortava legumes.
— O que foi? — perguntou Lauren ao virar-se e se deparar com o sorriso de Serberus. — Você parece distante.
Ele apenas agitou a cabeça dizendo um “nada” em tom baixinho. Desejou voltar no tempo e dizer a Albert que procurasse outro para o serviço, que ele não era o único capaz de recolher informações e que não aceitaria o serviço independente do que ele dissesse.
Lauren percebeu a expressão vazia de seu marido, ele não precisava dizer nada para que ela entendesse o quanto a visita o havia perturbado, o pior, é que ela estava quase certa de que sabia o motivo da preocupação de Serberus.
Na tentativa de tranquiliza-lo ela o abraçou pelas costas cruzando os braços na frente de seu peito largo e firme, coberto por músculos que se definiram depois de tanto trabalho braçal.
— Eles estão agindo de novo não é?
Serberus apenas balançou a cabeça positivamente. A mulher o apertou mais forte.
— Tenha cuidado, eu não posso perder você. — A voz de Lauren saiu mais trêmula do que ela gostaria, estava claramente amedrontada e tinha razões para isso.
Serberus virou-se para a mulher e a abraçou fortemente, pousou a cabeça sobre a dela e fechou os olhos acariciando seus cabelos.
— Não se preocupe. Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem. — Ele repetia como se quisesse convencer a si mesmo.
Seis meses depois
Era inverno.
O fogo oscilante da lareira iluminava a sala onde a família repousava. As chamas bruxuleavam causando sombras inconstantes que se estendiam pelo cômodo.
Foi no inicio da noite.
Albert estava sentado em uma poltrona segurando um charuto entre os dedos, Eleanor afagava os cacheados cabelos de Lilith que se espalhavam sobre seu colo e Arthur distraía-se ao piano quando ouviram o som de cascos de cavalos batendo ferozmente contra o chão ao longe.
Albert levantou-se e foi até a janela, Eleanor o seguiu com os olhos. Da janela ele viu dois homens aproximando-se rapidamente do casarão, quando as duas figuras chegaram mais perto Albert pôde distinguir os rostos de Alphonse e John.
— São seus irmãos. — Disse para Eleanor.
Arthur parou com o piano e voltou sua atenção para o pai que parecia preocupado. Lilith colocou-se de pé em um salto e ajeitou a saia do vestido, a pequena adorava receber visita dos tios principalmente quando tio Alphonse trazia Elliot para brincar com ela.
— Venha Eleanor, vamos receber nossos visitantes. Arthur fique aqui com Lilith e tome conta dela, nós voltaremos logo.
Dizendo isso Albert e Eleanor deixaram a sala e se dirigiram para o hall do casarão . Não demorou muito para que Alphonse e John entrassem e pendurassem suas casacas e chapéus.
— Sejam bem-vindos, meus irmãos. — Recepcionou-os Eleanor.
Os dois homens nutriam um ar sério e melancólico que deixou o casal ainda mais preocupado.
— Agradeço minha irmã, mas não há tempo para formalidades. — Disse John com uma voz baixa e tensa. — Será que podemos conversar no escritório?
— Por aqui. — Respondeu Albert guiando os convidados.
Dentro do escritório Albert fechou a porta e convidou os dois a se sentarem, porém, eles recusaram a oferta preferindo ir direto ao assunto.
— Vocês já devem suspeitar que o motivo de nossa vinda é alarmante. E infelizmente estão certos.
— O que houve Alphonse? — perguntou Albert sem deixar transparecer qualquer resquício de preocupação na voz.
— O vale dos Lobos foi atacado. O mensageiro que veio até a Ordem pedir ajuda não chegou a tempo, quando chegamos ao vale já era tarde demais, tudo havia sido queimado.
Houve um momento de silêncio.
Albert e Eleanor se entreolharam, ele abaixou os olhos demonstrando profunda tristeza, mas sabia que ainda não tinha escutado tudo, voltou a fitar os dois cavalheiros a sua frente e reunindo coragem perguntou:
— E Serberus?
John abaixou a cabeça e a balançou lentamente da esquerda para a direita.
— Entendo... — Albert não conseguiu disfarçar a tristeza na voz.
Eleanor se aproximou do marido e abraçou seu braço querendo consola-lo.
— Sinto muito querido. — Ela sussurrou para que apenas Albert pudesse ouvir seu lamento.
— Nós organizamos grupos de buscas, mas não encontramos nem sinal de Serberus ou Lauren. — Prosseguiu John. — Até agora só encontramos um sobrevivente, um garoto que estava caído no meio da floresta. Aparentemente o pequeno deu sorte de conseguir fugir do ataque, mas não se lembra de nada do que aconteceu, achamos que bateu a cabeça durante a fuga por isso desmaiou no meio da floresta. Só se lembra de viver no vale e de ser chamado de Will.
— Ele deve ser um pouco mais velho do que Lilith. — Comentou Alphonse.
— Onde está esse menino agora? — perguntou Albert com interesse.
— Nós o levamos para a sede da Ordem até decidir o que fazer com ele, o pequeno é o único lobisomem que restou em toda a Inglaterra então não sabemos para onde manda-lo.
— Tragam- no para cá.
Todos os olhares da sala se voltaram com espanto para Albert, mas ele parecia falar sério.
— Albert, ouviu o que acabou de dizer? Quer colocar um lobisomem em nossa casa, é isso mesmo? O que pretende fazer na lua cheia?
— Eu pensarei em algo Eleanor, não se preocupe. Por favor. — Ele olhou para a mulher com grande culpa. — É o mínimo que posso fazer por Serberus.
— Você nem sabe se Serberus conhecia esse garoto.
— Não importa, para Serberus toda sua raça era como sua família e eu prometi que faria o possível para cuidar de sua família.
— Não foi culpa sua.
— Sabemos que foi!
Eleanor abaixou a cabeça, não poderia negar aquilo ao marido, ela sabia como ele se sentia em relação à morte de Serberus. Depois de refletir por um momento a mulher olhou para o irmão mais novo, Alphonse, e disse com firmeza:
— Pode trazer o menino ainda está noite, eu vou subir e arrumar-lhe um quarto. Com licença. — Ela saiu do escritório fechando a porta atrás de si.
Mais tarde, naquela noite, John e Alphonse voltaram em uma carruagem trazendo o menino.
Era um garoto engraçado, com um rosto que lembrava o de um filhote, chegava até mesmo a ser meigo com os cabelos lisos e negros despenteados e caídos na altura dos ombros, os olhos amendoados e fortes nutriam uma expressão que Eleanor não conseguiu identificar se era seriedade ou receio, o rosto estava com alguns arranhões e hematomas, com certeza lembranças da fuga, e no canto esquerdo da testa um enorme corte tinha início na raiz do cabelo e descia pela testa em diagonal até encontrar seu fim na lateral do rosto do jovem, ao lado do olho esquerdo. Aquele corte certamente fora o motivo da perda da memória e deixaria uma cicatriz para a vida toda.
Ao entrar no casarão o jovem ficou visivelmente impressionado com o lugar, ninguém sabia como ele se lembrava do vale, mas era óbvio que nunca havia visto nada tão deslumbrante ou luxuoso como aquela imagem que enchia seus olhos.
Foi recebido pelos donos do lugar e o casal de crianças que ali morava. Nenhum deles parecia saber como agir em uma situação como aquela que enfrentavam, então Albert achou que seria mais fácil começar com as apresentações.
— Você deve ser o Will. — Disse o líder da família aproximando-se do rapaz que apenas assentiu com a cabeça. — Muito prazer meu jovem, essa é minha mulher Eleanor e esses são meus filhos Arthur e Lilith.
— Está com fome Will? — Perguntou Eleanor.
O rapaz novamente assentiu com a cabeça e isso foi à deixa para Lilith.
— Você não sabe falar?
Arthur chamou a atenção da pequena com um beliscão no braço da mesma, ela resmungou e Eleanor repreendeu ambos.
— Foi ele quem começou. — Defendeu-se a menor.
Will não conteve um risinho com a atitude da jovem e isso chamou a atenção da família.
— Parece que Will vai se entender bem com Lilith. — Observou Albert.
— Isso se ele aguenta-la por mais de uma semana. — Resmungou Arthur.
A pequena mostrou a língua para o irmão provocando outro riso no novato, ela então se sentiu à vontade para aproximar-se do rapaz.
— O que você come Will?
— Normalmente como carne, mas também como frutas, legumes e verduras apesar de não gostar muito delas. — Ele respondeu timidamente.
Lilith ficou pensativa e virou-se para a mãe.
— Nós temos carne em casa mamãe?
— Não querida, não comemos carne.
Pareceu ser a primeira vez que Eleanor pensou sobre aquele assuntou, percebeu que se um lobisomem iria morar com eles isso incluía refeições diárias e principalmente: ficar acordado durante o dia. Os pensamentos de Eleanor foram interrompidos pela voz de Arthur.
— É simples, damos Lilith pra ele comer.
A menina fez uma careta para o irmão e cruzou os braços.
— Além de sem graça esse comentário foi muito grosseiro! — Provocou a jovem.
Arthur deu de ombros.
— Eu tinha esperanças que ele aceitasse.
Lilith ignorou o irmão e voltou-se para Will com um sorriso gentil.
— Ignore o meu irmão, a parte do cérebro dele que comanda gentilezas é mal desenvolvida e eu suspeito que as outras também sejam. Vem comigo, vamos colher algumas frutas enquanto não arrumamos carne pra você!
Ela puxou o garoto pela mão e correu com ele para o pomar, o jovem tropeçou enquanto se acostumava a ser puxado, mas depois seguiu sem problemas a menina que o guiava. Seus olhos logo se acostumaram com a pouca iluminação.
— Voltem antes do amanhecer! — Gritou Albert quando os dois já contornavam a casa.
Lilith e Will ficaram parados ao pé da laranjeira, a menina procurava um jeito de subir na árvore, mas nada lhe vinha à cabeça. Ela coçou a nuca sem graça e olhou para o menino ao seu lado.
— Desculpe por isso Will eu esqueci que nenhum de nós dois tem altura o suficiente pra colher as laranjas. Espere aqui vou chamar o papai.
Lilith já havia se virado quando Will lhe puxou pelo braço e balançou a cabeça negativamente. Ele retirou as botas que calçava e saltou agarrando-se à árvore e escalando-a de galho em galho até chegar próximo às laranjas, colheu uma e ameaçou joga-la para Lilith.
— Segure.
Lilith colocou as palmas das mãos para cima.
— Segurar com o que?
Ele soltou a laranja que despencou até parar nas mãos de Lilith, a menina colocou aquela laranja no chão e esperou pela próxima que veio em seguida.
— Acho que já está bom Will! Pegue algumas mangas também, e pêssegos. Eu não como frutas, mas imagino que apenas laranjas devem ser enjoativas.
— Está enganada Lilith, laranjas são as minhas favoritas, mas vou aceitar alguns pêssegos também. — O rapaz saltou da laranjeira para o pessegueiro que estava há pelo menos cinco metros de distancia.
A menina cruzou os braços e torceu a boca.
— Exibido!
Will soltou uma rápida risada.
— Não sou exibido, sou prático. — Tentou justificar-se enquanto colhia pêssegos e os tacava para Lilith. Parecia já se sentir completamente à vontade na presença da menor.
— Prático e faminto. — Brincou Lilith observando a quantidade de frutas que juntaram.
Will desceu do pessegueiro e ajudou a menina a recolher as frutas do chão, caminharam até um lago no descampado atrás da casa, lavaram as frutas e ali ficaram. O rapaz logo começou a devorar os alimentos com grande apetite enquanto a pequena vampira olhava com certo nojo
— Como pode comer essas coisas?
— “Essas coisas”, como você diz, são frutas e são deliciosas, prove. — Ele estendeu um pêssego para a jovem que receou antes de dar uma pequena mordida e cuspir em seguida.
— Eca, eca! — Ela limpava os lábios enquanto Will ria descontroladamente da ação da menina. — Isso vai ter troco! — ameaçou ela sem muita convicção.
Ele continuou a rir sem se importar com a ameaça da jovem, parecia se divertir com na companhia da pequena.
— Aliás, Will por que você não corta esse cabelo? Meu pai e meu irmão nunca deixam ficar desse tamanho! Você parece até uma menina.
— Eu desisti de cortar o cabelo, ele cresce muito rápido. — Justificou-se o rapaz.
Quando estava quase amanhecendo os dois voltaram para o casarão. Por ter ficado acordado a noite inteira Will conseguiu dormir durante o dia e assim acabou se acostumando à rotina de sua família vampira.
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