O Leão e a Tempestade
1 Capítulo Único
Notas iniciais
[O Leão e a Tempestade]
"O rugido do manso leão..."
O relâmpago que assim surgia daquela tempestade parecia explodir ao colidir com a terra, ao mesmo tempo que gritos se renovavam pelo castelo da família Anflin, cada vez mais relâmpagos apareciam como o urro de um urso ou o rugido de um temível leão, assustando até mesmo os homens mais valentes que lá fora jaziam. O que era pra ser uma festa de aniversário surpresa se tornou uma confusão inevitável.
Os pequenos amedrontados agora permaneciam encolhidos ali no chão com as mãos nos ouvidos na sala do trono, suas ações se repetiam a cada estrondo que vinha do lado de fora os quais pareciam nunca terem fim. Os mais novos se agarravam a mais velha, mas ela também estava com medo apesar de se manter firme na esperança de transpassar um pouco de tranquilidade aos mais novos, infelizmente isto não pareceu bastar muito para a caçula pois agora a pequena Helena começava a chorar e era um pouco inevitável deste ato não contagiar aos poucos os outros pequenos, mas uma voz mansa e calma pareceu agora ganhar todas as atenções daquelas quatro crianças.
— Meus pequenos, ora vamos não fiquem assim, pois isto pode contagiar o rei aqui. Não chorem meus filhos, aqui venham, sentem mais perto.
O rei convidava-os para o tapete próximo a seu trono, mas no qual agora havia um grande colchão e cobertas para seus filhos lá ficarem, eles aceitaram sem pestanejar pois a voz do pai era cativante e passava a eles segurança, parecia amenizar toda aquela confusão. A sala do trono era ampla e dourada, detalhando-as em branco pequenos desenhos que contavam a história de seu mundo. A voz do rei era calma mas sua aparência demonstrava imponência e forte liderança, seus cabelos eram da cor de fogo, uma chama que nunca se acabava e seus olhos como o campo verde, calmo e sereno.
— P-Papai... cante a canção da Neve, por favor!
Lúcio pedia ainda um pouco trêmulo pois ainda era atordoado pelos trovões e relâmpagos que se sucediam. Mas se manteve ereto, mesmo que seus olhinhos verdes mostrassem que ele estava aflito, sua tentativa era admirável.
— Sim papai! A canção da Neve por favor!
Dessa vez foi a mais velha a pedir, Jarcke parecia agora se manter firme e inabalável aos atos daquela tempestade, seus olhos verdes brilhavam conforme as luzes das tochas de ambos os cantos, seu cabelo era da mesma cor das paredes, um dourado bem claro e aconchegante, sua coragem inspirava os mais novos que agora olhavam o pai com confiança e determinação. Isso poderia inspirar e impressionar qualquer adulto pois ali estavam quatro crianças com menos de oito anos que se mantinham fortes mesmo com uma tempestade tão avassaladora, que se não fosse pelas obras dos Antigos, poderia destruir todo o reino.
O pai não mais como rei, de todo o Reino de Gronn, mas sim como o simples e humildade pai que odiava ver seus filhos naquela condição, sentou-se perto deles e com um sorriso é um olhar pensativo, daqueles que a pessoa parece buscar na memória algo perdido a muito tempo mas que buscava com fervor. Ele estalou os dedos como de quem teve uma ideia ou se lembrou de algo esquecido a muito, tomou fôlego e lá pós se a cantar.
"Neve dourada que cai do céu
aquece meu coração
Pois este teu véu
salvará nossa nação..."
A voz era imponente e grave, como um leão que protege e cuida. Jarcke prestava atenção na letra, logo se juntando ao canto. A chuva continuava forte mas era tentada a ceder e a ser vencida pela canção, que se mostrava cada vez mais imponente a aquela situação.
"A voz da coragem
Árvores fortes
Folhas ao vento
Já fiz o meu Forte..."
Conforme a pequena música se prosseguia, agora Lúcio e Ian começavam a acompanha-la no canto, ainda um pouco falhos mas logo todo o temor e a lembrança ruim daquele dia iam desaparecendo cada vez mais que embarcavam na letra.
"Neve dourada que cai do céu
Atenda com atenção
Pois este teu véu
Protege nossa nação..."
A última a se juntar a cantoria foi Helena, antes teimosa a chorar agora era levada pelo canto, acalmando-se e cessando suas lágrimas, assim se aconteceu até o término da canção, ela acabava e levava consigo todos os pensamentos ruins e angustias que poderiam ter. Assim se surgiram sorrisos naqueles rostinhos que brilhavam como estrelas que eram.
— A gente podia jogar agora!
Helena era agora um poço de alegria e agitação, virando-se para seus irmãos mais velhos entusiasmada.
— Lógico, que tal caça a irmã caçula!
Com suas orelhas e cauda de lobo ele rosnava para a irmã que estava ao seu lado, em tons de brincadeira para assusta-la, ela não se pôs a se assustar novamente com algo assim, já estava na defensiva de uma gata que era, com as orelhas e cauda ouriçadas. Suas formas de ambos, a felina e a lupina, logo tomaram vida e eles brincavam rolando pelo chão. Ian parecia perturbado até ser empurrado por um dos dois o que o deixou enfurecido e o fez unir-se a eles.
Jarcke os olhava sem ação só os observando até notar que o pai se divertia com a situação, ela sorriu ao perceber que nada mais os abalaria, não a chuva pelo menos.
— Jarcke, por que não nos conta uma história de elfos? Admito que a muitos anos não escuto uma, talvez Lúcio e Ian possam interpretar.
Os três mais novos pararam de rolar e se morder ao ouvirem a proposta do pai, se mostraram animados com a ideia, pois antenaram as pequenas orelhinhas para ouvirem melhor.
— Como ...como um teatro papai?
Ian arriscou, duvidando mentalmente da sua capacidade.
— Sim, meu filho. Um teatro.
— O que é um teatro?
Helena parecia perdida sobre o assunto, era compreensível pois ainda era julgada muito nova e inquieta para poder ir a um teatro, o que a incomodava o pensamento de sua infantilidade. Lúcio rolou os olhos, parecia debochado.
— Um teatro é uma história que interpretamos sua boba!
— Lúcio!
Foi repreendido pelo pai e a irmã mais velha, ambos disseram juntos, isso fez Lúcio abaixar as orelhas e desviar o olhar, resmungando algo inaudível. Isso fez os outros rirem, mas não dele mas sim pela situação que estavam.
— Um teatro, minha pequena, é como Lúcio disse. Uma história feita onde alguém pode vir a narrar e os atores a interpretar os personagens da história. Isso pode ser feito com fantoches ou marionetes.
— Ahh...entendi, obrigada papai.
Ela sorriu em direção ao seu responsável ao mesmo tempo que dava um leve chute no irmão o qual lhe atormentava. Antes que ambos recomeçarem uma discussão ou uma "brincadeira" de tapas, Jarcke se levantou num salto e puxou Lúcio para o fim do salão que apesar de não ser tão grande cansou-os um pouco, lá havia um grande baú antigo de madeira com detalhes em prata de rosas, que logo com um pouco de esforço o abriram, lá se encontravam muitas peças de roupa antigas e alguns objetos velhos. Sujeitos a doações. Ambos ficaram surpresos com tudo aquilo e ansiosos.
— Heeh... leve isso Luh!
Ela ordenou pondo nos braços do irmão alguns acessórios, ele pareceu não se importar com o tom da irmã afinal não era por maldade, ela logo fez o mesmo consigo, mesmo tendo dificuldade em levar tudo de necessário até os outros, eles fizeram e riram quando algo caia de suas mãos. Os outros esperavam ansiosos pelo que ia acontecer.
Os trigêmeos se puseram a montar um pequeno palco improvisado com o colchão que ali estava e ergueram uma espécie de cortina com tecidos remendados um pouco velhos, amarrada a cabides velhos, araras e vassouras. Os três pareciam combinar tudo atrás das cortinas. Ansiosos e sorridentes eram a caçula e o rei que aguardavam animados. Fez-se silêncio até que Jarcke chama-se a atenção de todos do público.
— É com prazer que eu, Jarcke Anflin, vós apresento a peça teatral criada e organizada pelos filhos do Rei: O Leão e a Tempestade!
Ela falou com animação, pondo o "público" à aplaudi-los e então se pôs a abrir as cortinas e naquele pequeno palco improvisado Lúcio e Ian tais como agora o Leão e a Tempestade encenavam e mesmo que ali houvessem diversas gafis e erros cômicos tudo valiam para que aquele dia fosse mais divertido.
Era o Dia do Rei, uma espécie de festival que era comemorado em diversos lugares daquele imenso universo. Nele não era de específico o dia do Rei específicamente, era mais como algo o "responsável da casa", nesse dia este homem se unia a família para contar histórias e verdades não ditas antes. Mas para a família Anflin também era um dia especial, este era o dia do aniversário de oito anos dos trigêmeos Jarcke, Lúcio e Ian, infelizmente era a chuva torrencial que atrapalhou a festa surpresa, mas que uniu a família. A brincadeira já estava se acabando assim como a energia dos garotos, que na primeira oportunidade caíram no sono logo após a terceira peça que completavam, a tempestade não mais violenta agora se tornava mais calma mesmo que ainda continuasse a cair. Helena dormirá no colo do pai que a ninava com cuidado, já a mais velha se prontificava a organizar e a guardar tudo que haviam espalhado mas logo se uniu aos irmãos.
Foi então que a porta da sala do trono se abriu subitamente e passos rápidos se seguiram até o trono.
— Iriana...
Disse o rei ao perceber quem era a estar fazendo a porta se fechar bruscamente, esse som acordou o pequeno Lúcio que ainda sonolento erguei a cabeça, o som também assustou o rei e a mais velha que olharam para quem vinha. Era uma mulher alta e magra de cabelos grisalhos e olhos azuis, eram frios como gelo e suas feições eram rígidas, ainda que fosse bela, ela nem chegou a olhar para os pequenos.
— O que significa isso Leon?!
Sua voz mostrava que estava perplexa. Já Leon, o rei, pareceu confuso e abismado logo se levantado. Mas não teve tempo para falar algo pois logo fora interrompido.
— Eu quero essas coisas longe daqui! Longe de mim! Principalmente...essa aberração.
Disse olhando Jarcke, que parecia confusa com o insulto que vinha em sua direção como um tiro a queima roupa. Ela sabia quem era aquela mulher, mas nunca passou por sua cabeça que ela, sua mãe, tivesse uma reação perturbadora tal como esta. Este era seu primeiro encontro com a mãe e já havia começado de uma forma tão desconfortante.
Ali ficaram ouvindo a mãe e o pai discutirem, não importava mais sobre o que, Jarcke só sabia que a mãe a insultava incansavelmente mas o por que ela não fazia ideia.
Acabava de começar a verdadeira tempestade torrencial, que parecia nunca ter fim.
"...e o falcão da manhã."
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