O Leão e a Donzela de Safira
1 O Matador de Reis
Notas iniciais
Jaime POV
Ela cavalgava com o queixo erguido. Jaime sabia que ali estava uma pessoa que jamais se renderia, jamais desistira, jamais deixaria de lutar. Isso não era problema pra ele, até lhe inspirava certo respeito. Achava tal nobreza tolice mas sabia reconhecer bravura quando via, e aquela aberração loira era o ser mais corajoso que conhecera.
Mas como que para reforçar seus ideais sobre nobreza e tolice, ele percebeu o jeito como os homens olhavam pra ela. Jaime mal notara que ela era mulher até esse momento — acreditava que nem ela mesmo se enxergasse dessa forma — e tal contatação quase o assustou. Não que ele se sentisse subitamente atraído por ela, mas notara que se importava se ela se machucasse, sabe se lá os Sete Infernos o porquê.
"Ei, quando eles vieram a noite, não lute. Será mais fácil e acabará rápido"
Ele viu confusão nos olhos dela por alguns segundos, até ser quase instantaneamente substituídos por resistência e teimosia. "Típico dessa besta loira!", pensou. Mas quer saber? Ele avisara, tentara ajudar, se a mostro de olhos azuis era burra o suficiente para não ouvir, não era ele quem ia se importar mais! Não sabe nem porque se preocupou, pra início de conversa...
Escureceu e os homens os amarram juntos à árvore. Sentia o corpo rígido, as pernas doloridas, a dor nos punhos e nas costas. Fome. Sede. Sono. Bom, já se acostumara a essa altura. Tinha certeza que no dia que estivesse num castelo quente e confortável em uma cama com lençóis limpos e macios, não conseguiria talvez nem mais dormir. A Besta de Tarth estava ali, tão rígida e desconfortável quanto ele mas sem demonstrar nada além da carranca de sempre.
A noite chegou e com ela, os homens se animaram. Quando acabaram de comer e beber, desamarraram Brienne de onde estava e a levaram pra um arbusto próximo. Os filhos da puta nem se deram o trabalho de se afastar. Teria que ouvir os gritos dela, os sons de luta, a resistência, a dor quando ela aceitasse a inevitabilidade do que estava por vir. Teria que sentir sua própria impotência.
Jaime sempre preferiu a espada mas era irmão de Tyrion e o viu usar a inteligência por anos a fio. Jamais foi ou seria tão inteligente quanto o caçula mas sabia que tinha uma coisa que mercenários gostavam mais do que uma buceta: dinheiro. Num sopro de inspiração em meio ao desespero — não sabia de onde nenhum dos dois vinha ele meio falou, meio exalou para o líder, ainda sentado em frente a fogueira:
"Não vai querer macular a herdeira de Tarth"
"Que me importa isso?"
"Não conhece Tarth? Provavelmente não, sendo nortista... Tarth é chamada de Ilha Safira por um motivo..." — viu o briho da ganância nos olhos do outro e insistiu. "Tenho certeza que o pai dela pagaria seu peso em ouro — ou safiras — se você pedisse.. Mas ela teria que estar... Intocada. Afinal, que pai conseguiria um bom casamento pra uma filha desvirtuada?"
Alívio tomou conta de seu interior quando o líder levantou, foi até o arbusto e fez seus homens largarem a moça e a trouxe para perto da fogueira.
Então, Tyrion esteve certo todo esse tempo. Imaginou a gargalhada que o anão daria quando soubesse dessa mentira. Seus olhos se encontraram com a loira. À luz do fogo ele viu confusão e agradecimento. Já o vira antes em donzelas que resgatara em suas aventuras, mas a Bela Brienne não era uma moça indefesa. Lhe deram de comer e os amarraram de volta à árvore.
"Tarth é chamada de Ilha Safira pela cor das águas ao seu redor..."
"Eu sei. Quer contar a ele e voltar com seus amiguinhos pro arbusto?"
Apenas o silêncio o respondeu.
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