O Lançar Da Moeda
5 Pronto para partir
Notas iniciais
Não haviam palavras suficientes para descrever o quanto Kline estava atordoado. Em questão minutos, foi vítima de uma enorme gama de emoções, muitas das vezes controvérsias. Entretanto, naquele momento, a realidade a enfrentar era a qual continha um figura idosa postada a alguns metros a sua frente. Apesar da situação, um sentimento doce se manifestava no interior do rapaz, um sentimento de segurança e quietude. Seus pensamentos foram interrompidos pela fala do senhor, agora com os braços levemente cruzados:
– Acredito que parado aí não vá obter grandes resultados, meu jovem. Aproxime-se, vamos examinar estes bilhetes.
Não que tais palavras fossem confirmadamente confiáveis, mas em nome da confusão completa daquele dia tão singular, pequenos passos afoitos começaram a ecoar na estação. Um oceano de perguntas assombrava a mente de Kline, e ele sabia que, de alguma forma, algumas respostas poderiam ser obtidas naquele momento, com aquela figura tão amistosa. A imagem do senhor de idade começava a ficar mais nítida a cada centímetro. Seu rosto estava repleto de marcar de expressão, provavelmente uma pessoa que já riu e chorou demais ao longo de sua vida. Seus olhos eram castanhos claros, quase tão inocentes como os olhos de uma criança. Havia, caminhando em sua face, um grande e grosso bigode, totalmente proporcional às suas sombrancelhas. Assim que o rapaz deu seu último passo, já bem próximo, o homem ergueu uma pranxeta lotada de papéis. Desceu seus óculos redondos para a ponta do nariz e começou a deslizar o indicador na folha mais acima da pranxeta. Alguns sons inaudíveis foram gerados e, após alguns segundos, o idoso voltou sua atenção ao rapaz a sua frente:
– Oh sim, senhor... Kline. Presumo não saber absolutamente nada a respeito deste lugar — o homem mais uma vez tossiu, ou tentou rir — mas é melhor assim. O interessante da vida é esse mistério absoluto não? Apesar deste ninho de indagações mostrar-se muito inspirador, creio que devo iluminar um pouco sua mente enevoada.
Aquelas palavras não faziam qualquer sentido, se não colocadas em um contexto maior, o qual o rapaz desconhecia por completo. Sem reação, resolveu apenas acatar com a cabeça. O senhor soltou uma expressão de surpresa
– Sim sim, quase me esqueci! Antes, vejamos quantos bilhetes o senhor possui...
Do bolso de seu terno, Kline retirou os três pedaços de papel que encontrou mais cedo na entrada da estação, e os entregou ao homem. O idoso os examinou por algum tempo, parando por alguns instantes para fazer alguma anotação em sua pranxeta, permitindo que alguns gemidos de dúvida ou talvez curiosidade deixassem sua impressão na atmosfera. De súbito, ele ergueu as sombrancelhas e fixou a vista direto nos olhos do rapaz:
– Tem algum palpite, meu jovem?
– Bom, até o dado momento sei que três bilhetes representam três viagens, ainda que o destino destas me seja totalmente desconhecido — arriscou o jovem.
– Parcialmente exato! — Respondeu o homem — entretanto eles representam algo mais. Segundo as regras deste lugar, três bilhetes representam também três perguntas. Sempre que alguém furar um de seus bilhetes, você poderá fazer uma, e não mais que uma, pergunta. Em resumo, a cada viagem que fizer, terá uma pergunta respondida. E por falar nisso... — o homem retirou de seu bolso um furador metálico, estranhamente reluzente — gostaria de perguntar-me algo?
O som do furador cedendo à pressão das mãos do senhor pareceu o cair de um alfinete durante a noite. Três perguntas. Três perguntas a serem selecionadas em meio a incontáveis outras. Um silêncio preencheu a estação, o vento ecoando acima, batendo contra o telhado da estrutura. Não haviam distrações naquele local, permitindo que a mente mais perturbada retomasse o fôlego e racionasse com calma. Ao refletir quanto sua escolha, o jovem respirou fundo, sentindo o ar metálico entrando em seus pulmões e finalmente separou os lábios:
– Já que tocou no assunto, gostaria de perguntar que lugar é esse. Digo, sinto-me como que transitando por realidades diferentes em um espaço de tempo extremamente curto. Lembro-me que tudo teve início em minha casa, e agora aqui estou. Poderia me esclarecer esta dúvida?
O homem a sua frente suspirou.
– Pois bem, a pergunta característica. Você, meu rapaz, está agora entre a existência e a não existência, por assim dizer. Você está agora respondendo à pergunta mais fundamental da humanidade, aquela dúvida que sempre esteve infincada nas entranhas de cada homem. Você está agora, meu jovem, na estação que você criou ao longo de sua vida. Você está morto.
É indescritível a sensação de uma realidade tão amedrontadora. Não se determina de imediato se existe uma sensação de negação, de pavor ou de conformidade. Kline sentiu que seu mundo era ilusão, cada momento de sua vida até o momento como uma núvem de poeira soprada por um fraco vento. Os olhos de Kline só foram capazes de abrirem como nunca antes, enquanto uma carga elétrica involuntária viajou pela extensão de seu corpo, causando um frio inconsolável. As pernas do jovem mais uma vez tentaram puxar todo o ar ofertado pelos pulmões, deixando-o sem ar. A mente do jovem fraquejou por um tempo e quase desapareceu em um abismo de loucura.
– Mas saiba — retomou o homem a sua frente — que seu destino, de agora em diante, depende apenas de você. Pense na justiça celestial. Não existe um juiz primordial, um juri celestial, um verdadeiro julgamento. Existe apenas você e sua alma. Desejo-lhe sorte rapaz, três bilhetes são deveras raros. Talvez algo mais esteja correndo em segundo plano com esta situação.
A mente de Kline buscava uma borda na qual apoiar-se, tal como um inseto quando abandonado na água. Um fragmento de seu espírito estava desolado, mas a coragem presente em cada homem ressoava como um grito nas trevas. "Levante-se, nada está concluído ainda, você pode determinar o final destes capítulos, levante-se!".
Kline recuperou a razão. Estava completamente em pé, com uma postura totalmente diferente da anterior, mais fria, mais centrada.
– E o que devo fazer agora? — Perguntou, secando a garganta.
Sua atenção foi desviada por um vibrar sutil em um de seus bolsos. O rapaz apalpou freneticamente todos os bolsos em seu terno até que finalmente deparou-se com um vibrar ritmico em um deles. Afundou sua mão no tecido e de lá retirou o relógio de bolso que havia antes visto, mas agora este começara a funcionar. Ao erguer a cabeça, deparou-se com uma enorme locomotiva, apesar de não tê-la visto ou ouvido chegar. Era negra com alguns traços vermelhos, e havia apenas um vagão para passageiros que fosse acessível. O apito era alto e supreendentemente agudo. Ao cessar do apito, o senhor de idade, rindo de sua forma tão característica, voltou sua atenção ao rapaz e disse em tom suave:
– Embarcar!
Fale com o autor