Notas iniciais
Uma pequena explicação nada reveladora.
Palavras dedicadas a Hemy Hyuuga, que me inspirou a escrever e publicar.

Um choro corta o silêncio. Um choro que se manifesta e ecoa no interior da alma de qualquer ser vivo. O choro de uma criança.

Um pequeno ser se debate dentro de seu berço. A luz é completamente insuficiente para definir qualquer traço de sua aparência, mas qualquer um pode observar que este está incomodado com algum fato. O quarto está escuro e estranhamente amendrotador, iluminado pela fraca luz de algo que parece uma vela já praticamente toda consumida.

Parados frente ao quarto do pequeno ser, postam-se duas silhuetas: A primeira passa uma sensação de força, imponência, liderança, estranhamente brilhante. Já a segunda apresenta traços sombrios, regado de uma certa tristeza implícita. Aparentemente, essas silhuetas estão discutindo, com um leve toque de agressão adicionado ao tom de suas vozes:


– De que adianta a existência se os passos trilhados pelos filhos Dele já estão predestinados? Não há razão em existir apenas pelo ato de existir! — Disse a silhueta mais iluminada, golpeando a parede do quarto da criaturinha.

– Não é sua responsabilidade como eles vivem ou como deixam de viver. Pelo menos não inteiramente sua. — Disse a silhueta mas escura — Estou aqui como um dos regentes, mas não pense que simpatizo com suas ideias.

– Não é e nem nunca foi o que pensei. Entretanto, Ele nos incumbiu de determinar tais fatores. Quero que entenda: Não aceitarei a obra de nosso pai rendida a mero parâmetros fixos. Vamos permitir que se expressem e que descubram.

– De forma alguma deixarei que tais serem sejam libertos e pensem por si. O tempo empregado em cada indivíduo é um tempo irrecuperável. Temos que garantir que a obra não desafiará o criador.

Um súbito silêncio preenche o ambiente. O choro da criança subitamente cessa, quase como se este esperasse ouvir o desenlace da situação. Por fim, a silhueta mais brilhante respira fundo, aguarda alguns segundos e, por fim, fala:

– Pois bem. Vejo que suas intenções já estão definidas. Se dermos continuidade a isto, ficaremos sempre em total discordância. Façamos o seguinte...

A silhueta se afasta em busca de algo e retorna pouco depois com algo nas mãos. O som do grafite sendo arrastado pela extensão do papel parece cortar o ar, em um ritmo rápido e inabalável. Alguns minutos depois, o papel é passado para as mãos da outra silhueta, a qual, após a leitura, exclama:

–Uma perspectiva interessante. Não achei que fosse se valer tanto de meu ponto de vista. Pois bem, aceito seus termos. Devemos reportar nossa decisão ao Pai.


As silhuetas olham ao mesmo tempo para a pequena criança deitada em seu berço. Uma expressão impossível de definir se forma em suas faces, algo que beira a loucura e o medo. O ranger da porta ao se fechar soa estranhamente penoso, como uma despedida final ou o fechar de um caixão. Mais uma vez, a criança chora. Chora envolta em escuridão.