O Lançar Da Moeda

4 A Estação do Sol Nascente


Kline caminha em meio a escuridão, sempre na direção indicada pela estranha figura a pouco conhecida. A moeda parece estranhamente brilhante, um brilho que desperta um certo sentimento de nostalgia indefinida.

Um fato o preocupa: A presença de criaturas ao seu redor. O que o estranho homem quis dizer com intenções muito boas ou muito ruins? A ameaça faz com que os pelos de sua nuca se arrepiem, frente à possibilidade de um inesperado encontro.

Alguns metros a frente, o jovem finalmente encontra aquilo que estava procurando. Um grande letreiro piscava preguiçosamente em cores de neon sobre uma grande entrada. As letras revelavam o nome da construção: "Estação do Sol Nascente". Aparentemente aquela era a estação da qual ouvira falar. A única entrada a vista encotrava-se logo a sua frente. Em qualquer outra direção, via-se apenas uma enorme parede de tijolos que se estendia até o alcançar da vista.

A entrada parecia abandonada. Não havia sinal de pessoas ou de quaisquer outras criaturas por perto. A ferrugem se mostrava presente em todos os pontos metálicos, exceto por um objeto cilíndrico de prata brilhante. Revelava um orifício em sua parte superior e uma pequena placa com o símbolo "1$".

Kline olha rapidamente por cima de seu ombro. Não é mais possível enchergar qualquer rastro de existência a não ser a escuridão total a suas costas. Saca a moeda de seu bolso e a deposita no objeto prateado.

Um som metálico ecoa. O tilintar da moeda a descer pelo objeto gera um terrível som em meio ao silêncio total. Um som que pode ser comparado ao cair de uma moeda em um telefone público, revelando a um condenado a sua última ligação ou representando a um filho que está sozinho na noite.

A moeda desaparece da vista. Máquinas começam a entrar em operação, processando o valor da pequena peça. Em seguida, uma pequena luz verde pisca três vezes e expele três pedaços de papel por uma pequena abertura na parede. O rapaz observa os objetos com curiosidade. Estende a mão e remove os pedaços de papel com incrível velocidade, talvez por medo. Um clique se origina a sua frente, revelando a abertura de um pequeno portão que consede o acesso ao interior do prédio. Sem hesitar, Kline atravessa o portão com uma certa quantida de medo envolvida em cada passo. Quando afastado da entrada, o portão lentamente começa a se fechar. O rangido por ele criado é perturbador. É estranho que um portão tão silencioso ao abrir esteja com tamanha dificuldade aos se fechar, quase que chamando sua atenção.

Kline observa as trevas por trás do portão com um estranho sentimento. Seria ótimo passar alguns minutos a mais sentado no pequeno escritório, desfrutando de uma companhia e boa bebida, ao doce e agradável som do gramofone. Envolto em pensamentos, é paralizado pela visão que se extende ao fundo da escuridão. Um par de olhos, tão vermelhos como o mais puro sangue, o observa por entre as trevas. O ranger do portão perde o brilho para um estranho arranhar, muito parecido com o de correntes dançando conforme o vento. Os olhos crescem em sua direção enquanto seu corpo simplesmente resolve ceder ao pavor. A luz ilumina fracamente a estranha entidade, revelando um tipo de homem forte que caminha em direção à entrada. Quando as correntes parecem envolve-lo em uma sinfonia de horror, um baque profundo fecha a cena representando o fechar dos portões.

Kline não possui reação. Suas mãos parecem haver adquirido vida própria, tremendo descontroladamente frente à visão de um ser desconhecido e hostil. Sua respiração é ofegante e descontrolada. Parecia que, de súbito, seu corpo parou por um instante para compreender a cena que acabou de ocorrer.

Em alguns segundos de respiração, o rapaz retoma o controle e ajuelha-se por alguns instantes para que recupere a razão. Mas seu ato de relaxamento é interrompido. Interrompido mais uma vez para dar espaço ao terror.

Um grande baque ecoa pela escuridão. Outro baque poderoso é desferido contra algum tipo de estrutura. Um terceiro baque torna evidente para Kline o que está acontecendo: A criatura estava tentando entrar na estação derrubando os portões. Um quarto baque incrívelmente alto se manifesta quase que ressoando com o pânico manifestado pela face de Kline. Um quinto baque e, em seguida, apenas o silêncio. Um olhar perdido se manifesta na face do rapaz. Não sabia o que pensar, apenas gostaria de correr. Correr para o mais longe possível da situação em que se encontra. Mas para correr, seriam necessárias pernas, as quais se encontravam indisponíveis ao uso.

Um outro som se manifesta nas trevas. Um som que faz com que Kline ponha-se em pé e começe a correr imediatamente. Um som mais terrível do que milhares de batidas violentas contra o portão. O som do cair... de uma moeda.

O ranger dos portões assim que aceita a moeda do desconhecido soou estranhamente alto aos ouvidos de Kline. Era evidente que a barreira que o separava do estranho não mais o salvaria. O único pensamento que transitava seu subconsciente gritava de forma desesperadora, exigindo o imediato funcionamento de suas ainda trêmulas pernas em velocidade máxima.

Kline corria de forma desesperada para longe dos portões da estação, seu coração quase não suportando o ritmo de seus passos. O corredor se mostrava completamente deserto, tal qual o de uma estação abandonada. Os objetos estavam tomados pela ferrugem e abandono. Qualquer fragmento de vidraça que pudesse existir estaria coberto por uma expessa camada de fuligem e pó. Tomado pela agonia, o rapaz ergue sua visão por cima de seu ombro para verificar a distância que percorreu, mas algo estranho chama sua atenção.

Não havia sinal de outra existência naquele corredor. Tudo estava quieto novamente, tão quieto como a mais serena das noites. O som do arrastar das correntes havia desaparecido e levou consigo a entidade desconhecida. A mente de Kline, mais uma vez, precisou de algum tempo para compreender o que estava acontecendo. Aquele lugar, os fatos, as estranhas conversas, a constante ameaça por seres de identidade desconhecida. Todos esses fatores pareciam realmente deveras complicados de assimilar. O som da respiração de Kline ecoava pela extensão do corredor abandonado. Era possível detectar quase que imediatamente as notas de dúvida e medo que se manifestavam em cada expiração.

Porém não é este o som que merece destaque dentre os presentes. Os ouvidos de Kline identificaram distantes vibrações diferentes das possíveis ondas que podem se manifestar em tal ambiente. Era uma vibração gasta, aparentemente cansada e penosa. Era a voz de um senhor de idade, a qual anunciava: "Embarcar".

Kline girou sobre os calcanhares e observou uma paisagem muito diferente da anterior. A luz do sol passava por entre as janelas de um local muito bem conservado. Cada detalhe mostrava o mais perfeito nível de cuidado e até mesmo o corredor às suas costas assumiu esse novo aspecto. A dúvida o cativou mais uma vez. O ambiente a sua volta estava sofrendo contantes mudanças e tais alterções apenas aumentavam suas suspeitas sobre a real existência de tais lugares. De fato, começara a pensar que se tratasse de um sonho qualquer. Os pensamentos deram lugar à frase pronunciada pela mesma voz de antes:

- Perdão, senhor, mas acho que seu trem acabou de partir.

Kline olhou em volta, tomado de súbito pelas palavras do homem. Não se tratava de uma estação de metrô, mas uma antiga estação de trem. Pequenos bancos de madeira postavam-se ao redor das plataformas, cada qual contendo, ao lado, um cinzeiro de prata em formato oval. Uma pequena máquina vermelha encarregava-se de vender o jornal do dia, perfeitamente organizado. Ao centro, um grande relógio trabalhado em mogno do mais denso brilho.

- Perdão senhor — Disse Kline, voltando-se ao homem — mas creio que esta deveria ser uma estação de metrô.

Era um homem de idade, os cabelos brancos como leite. Não devia passar de 1 metro e 60 e estava em posse de um apito alongado da cor prata. Estava vestindo um uniforme muito singular, com fortes tons de cinza e azul marinho. Frente ao comentário do rapaz à sua frente, o idoso deu algumas olhadelas a sua volta, parou por alguns instantes, deu algumas risadas mistas a tosses e completou:

- Meu jovem, o senhor tem muito bom gosto!