O Ladrão de Almas
1 Prólogo
Notas iniciais

O corpo pende para o lado e cai em direção ao chão. O seguro antes que o atinja e me ajoelho ao seu lado, encarando agora os olhos sem vida: sem dúvidas, esta é a minha parte favorita do meu trabalho. Ergo meus olhos na direção da alma que agora me encara, estupefata demais para dizer qualquer coisa.
− M-mas... como... o que...?
A pobre criatura tenta dizer mais algo, mas a voz lhe falta quando encaro o espírito diretamente. Talvez seja meu sorriso doentio ou apenas o terror de não compreender a situação. Com o corpo em meus braços, caminho até um dos bancos de concreto e o deposito lá, dando um último beijo em seus lábios: esse é o meu contrato.
Não sou nada além de um servo, aquele que carreia as almas devedoras ao meu senhor para o outro mundo. Alguns dizem que sou um cobrador, mas a alcunha que carrego comigo é de ladrão. Não um ladrão convencional, embora possa acreditar que os humanos me prenderiam pelo meu trabalho.
Eu sou o ladrão do tipo que rouba aquilo que é mais precioso para alguém: eu roubo vida. Sou o Ladrão de Almas que leva ao meu senhor a recompensa por aquilo que ele prometeu aos humanos. São criaturas tão tolas, tão fracas que sempre precisam recorrer à forças superiores para seguirem adiante. No entanto, sou um admirador de sua audácia, pois sequer tenho coragem de olhar nos olhos aquele a quem sigo tão fielmente como meu único mestre e senhor.
Ergo meus olhos e suspiro ao ver que a alma perdida tenta correr de mim. Quase sorrio nesse momento e acendo um cigarro olhando naquela direção. Ainda posso ouvir a respiração pesada daquela criatura que não se acostumou com sua morte. Sem me dar ao trabalho de correr, caminho em sua direção lentamente e expiro a fumaça do cigarro para cima, encarando o céu cinzento como presságio da pesada chuva que cairá sobre aquela cidade.
− Você não entendeu ainda, humano? – pergunto alto o suficiente para que ele possa me escutar embora continue se distanciando.
− F-fique longe de mim!— seu grito soa desesperado. É o tipo de desespero que desperta o pior lado que existe em mim. Sinto vontade de destruí-lo por completo e levar apenas as partículas de seu espírito para o Inferno comigo, mas sei que não posso fazer isso.
− Por que vocês sempre precisam complicar no final? – Suspiro, segurando comigo o desejo latente que possuo naquele momento. Quase posso me imaginar dilacerando-o, findando sua triste existência até que não sobre nada. Posso sentir o sabor de seu espírito enquanto o mastigo vorazmente.
Agora ele vai dizer que não sabe do que eu estou falando. Vai dizer que sempre viveu uma boa vida, que sempre foi um bom cidadão. Já cheguei a uma fase do meu trabalho onde sou capaz de ignorar esse tipo de coisa. Não possuo nenhum tipo de sentimentalismo que possa me ligar a essas criaturas tão frágeis, embora tenha genuína curiosidade a respeito da fonte de sua força de vontade em continuar seguindo em frente mesmo quando tudo parece perdido: e principalmente na sua força em acreditar que Deus os salvará nesse momento. Ele não salva. Ele não pode. Talvez nem os escute mais.
Aproximo-me lentamente caminhando em sua direção. Vejo com certa satisfação a alma penada recostar-se sobre uma parede, incapaz de compreender que já poderia tê-la atravessado se assim desejasse.
− Me deixe em paz! Por favor, me deixe em paz! Eu faço qualquer coisa!— ele grita desesperado, tentando se soltar quando toco seu rosto. Devo ser mesmo muito assustador, talvez o pior de seus pesadelos. Mal sabe ele que sou um simples intermédio para o que é realmente tenebroso. Para um fim que, particularmente, eu não desejaria para o meu pior inimigo.
− Você não entende mesmo, não é? – sussurro em seu ouvido, inclinando meu corpo sobre sua alma. – Você já fez.— A realidade cai sobre ele como um choque e parece finalmente compreender o que estou dizendo, pois vejo a surpresa estampada em seu olhar. É sempre assim com todos eles. O choque do momento que antecede a descoberta da verdade. Como uma lâmpada que se acende no escuro, uma fagulha de algo que parecia esquecido em algum canto da mente.
− M-mas eu....
− É... o sucesso, a carreira promissora, suas mulheres. Achou mesmo que eu não viria cobrar o preço, meu caro?
Sorrio, abocanhando seu espírito com os dentes e ouço seus gritos de agonia antes que finalmente termine meu trabalho. Com isso, cesso sua vontade de viver por completo. Vejo-o se debater ainda que por alguns instantes, antes que o espírito finalmente se acalme e abro os olhos, encarando aquele que agora me fulmina com seu olhar, incapaz de carregar algum sentimento por mim que não seja uma tristeza absoluta por ser aquilo que sou: um eterno lacaio de meu senhor.
− Por que, Adrian, tu faz isto? – O Anjo me encara com tristeza. Estaria tocado se possuísse um coração para sentir por ele.
− Assim como você faz seu trabalho de tentar salvar as almas, Porteiro, eu faço o meu de cobrar pelo que me devem. – respondo, enquanto aceno com o chapéu e faço um gesto com uma das mãos criando um portal para o submundo. Levo comigo a alma que ele tanto desejou salvar. Ainda distante, sou capaz de ouvir o barulho de suas asas batendo, afastando-se de luto por mais uma batalha perdida no momento em que a chuva prometida começa a cair dos céus.
Eu não me importo com isso. Eu nunca me importei.
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