Notas iniciais
Boa tarde pessoal! Peço desculpas pela demora para atualizar, tive um pequeno problema com o computador :/

Merikh, filho de Megaera.

Septuagésima Nona Lua do Outono do Ciclo de 27 da Era das Espécies.

Floresta de Ryuk — Extremo Norte do Velho Continente.

ENTRAR em território alheio nunca iria ser algo completamente confortável para Merikh. Afinal, ele tinha as duas Mãos do Ladrão, Celtigar tinha a Marca do Assassino, era simplesmente estranho que estivessem viajando com um feiticeiro que não tinha nenhum traço de sangue licantropo e estavam em evidente desvantagem numérica. O cenário não era nada favorável para eles e era muito fácil que as coisas ficassem feias com uma rapidez impressionante — a sorte nunca estava a favor dos criminosos.

Mas se Merikh realmente ligasse para isso, simplesmente viraria um caçador e um homem honesto. Um dos seus segredos naquelas ocasiões era agir com uma confiança e tranquilidade que não necessariamente sentia. Isso não apenas passava a impressão a terceiros de que Merikh era mais confiável do que era na realidade, mas também influenciava diretamente no comportamento de seus companheiros, que tendiam a imitar a postura do moreno. Além disso, ajudava a acalmar o próprio Merikh, já que de tanto mentir para si mesmo, uma hora a mentira se tornava verdade.

Então não era de se espantar que os três estivessem andando de forma tão segura naquele que era um cenário assustador. Estava muito escuro, a Lua Cheia aparecendo apenas vagamente por entre as copas das árvores, agora menos cheias com folhas. Ouviram um barulho entre as folhas e galhos secos no chão e Merikh fez um gesto para que seus companheiros parassem. Farejou o ar gelado, sentindo três cheiros amadeirados diferentes. Trocou um rápido olhar com Celtigar e Haakon, que assentiram, indicando que estavam preparados para o contato.

Não demorou mais do que alguns segundos para que avistasse o primeiro deles, um lobisomem adulto completamente transformado. Atingia facilmente os três metros de altura e tinha a pelagem cinza-escura. Parecia mais curioso do que hostil, mas logo viu um borrão branco em direção a ele e logo o lobo de Celtigar estava rosnando para o desconhecido, mostrando suas presas. Logo mais dois machos adultos se aproximaram, tão altos quanto o primeiro, um com pelos castanhos-claros e outro com a pelagem avermelhada.

— Beyaz, junto, rapaz! — Celtigar chamou com a voz forte e, relutantemente, o lobo branco retornou para as pernas de seu dono, que abaixou-se para acariciá-lo de modo que a mão do loiro permanecesse perto de seu machado, prevenindo-se ao mesmo tempo que tentava acalmar o lobo. — Seu monstrengo superprotetor!

— Peço perdão pelo companheiro de meu amigo, rapazes. — Merikh obrigou-se a rir mesmo sabendo que haviam causado uma primeira impressão horrível. — Vocês sabem como os lobos são.

— Sei sim, Pazach também é extremamente protetor comigo. — o lobisomem cinzento concordou com a voz dura, apontando para um lobo cinza-claro que encarava Beyaz com uma expressão nada boa. — Quem são vocês e de onde vieram?

— O que querem em Ryuk? — o lobisomem de pelagem avermelhada acrescentou, os olhos fixos na Marca do Assassino na testa de Celtigar.

— Eu sou Merikh, filho de Megaera; o loiro é Celtigar, filho de Hessyah e o filhote de cabelos azuis é Haakon, do Clã Vidar. — o moreno explicou calmamente, vendo os três licantropos a sua frente trocarem um olhar preocupado ao perceberem que estavam lidando com feiticeiros. — Viemos da Tribo de Nyhue e, se a Tribo de Mohan nos permitir, pretendemos atravessar a Floresta de Ryuk para comercializar peles em Northriver.

— Muita coisa estranha nessa história. — o lobisomem castanho-claro grunhiu, franzindo o nariz. — Por que dois lobisomens estariam viajando com um elfo?

Eles já imaginavam que seriam interrogados assim que fossem interceptados e estavam preparados para aquilo. Sempre contavam a mesma história para quem não os conhecia tão bem e era convincente o bastante.

— Eu sou um bastardo, fruto da indiscrição da senhora minha mãe com um bruxo. — Haakon adiantou-se para se explicar, sabendo que as melhores mentiras começavam com algumas verdades. — Como vocês podem imaginar, o marido dela não gostou nada disso. Quem me criou foi Hessyah, a mãe de Celtigar, e cresci na Tribo de Nyhue.

— Parece uma mulher formidável. — o lobisomem cinzento pareceu um pouco menos desconfiado com a presença de Haakon, vendo sentido em uma elfa, mãe de um feiticeiro, criar o filho bastardo e feiticeiro de outra elfa. — Mas isso não explica porque precisam ir a Northriver para vender suas peles. Por que não em Phego, Kroburg ou Blackfield, que são mais próximas a Tribo de Nyhue?

— Porque nós cometemos muitos erros quando éramos filhotes. — Merikh levantou suas mãos, mostrando as tatuagens que denunciavam o seu status de ladrão. Negar que os dois mais velhos pelo menos tinham um passado criminoso era inútil, já que estava marcado em sua pele. Precisava trabalhar com o que tinha. — Por consequência, nossa fama nessas cidades é péssima. Minha esposa costuma lidar com o comércio de peles para mim, mas agora ela está em um estágio muito avançado de gestação e preferimos não arriscar o filhote.

— E não podíamos mandar Haakon sozinho, ele é um filhote ainda e qualquer um facilmente o enganaria. — Celtigar apoiou o melhor amigo, com uma falsa preocupação muito convincente. — Além disso, minha mãe me mataria.

Os três lobisomens se entreolharam, como se estivessem tentando decidir o quanto acreditavam naquela história. Lobisomens honestos, como ele aparentavam ser, odiavam criminosos e costumavam ser extremamente desconfiados e até mesmo hostis ao interagir com foras-da-lei. Se aqueles caçadores decidissem os expulsar da Floresta de Ryuk, não teriam escolha a não ser obedecer e o trajeto até Northriver se tornaria muito mais longo.

— E nós deveríamos supor que vocês simplesmente decidiram mudar de vida? — o lobisomem de pelagem cinza parecia compreensivelmente cético.

— Bem, eu ainda tenho as minhas duas mãos e o Celtigar ainda tem a cabeça. — Merikh levantou uma sobrancelha, sabendo que era o momento certo para lançar aquela provocação. — É de se esperar que em algum momento tenhamos parado.

— Então por que o feiticeiro está carregando uma espada? — o lobisomem de pelo avermelhado era o mais desconfiado.

— Eu não tenho presas ou garras e não posso depender apenas deles para me defender. — Haakon se justificou com um sorriso abobado, batendo de forma propositalmente desajeitada na espada. — Quem sabe em Northriver eu não ache alguém que possa me ensinar a usar isso direito?

Haakon fazia o papel de filhote fraco e bobo muito bem, o suficiente para que mais alguns momentos de silêncio se seguissem. Pelo canto do olho, Merikh conseguia ver o quão tenso o melhor amigo estava: Celtigar continuava agachado, acariciando Beyaz, sua mão cada vez mais perto de seu machado e sem desviar o olhar dos três lobisomens.

— Acho melhor levá-los até o seu pai. — o de pelos castanhos-claros finalmente sugeriu para o cinzento. — É o Chefe que deve decidir se eles podem ou não atravessar Ryuk.

— Que maravilha, rapazes, parece que demos sorte! — Merikh obrigou-se a manter-se sorrindo, mesmo sabendo que seus amigos iriam captar a ironia de sua fala. — Fomos encontrar justamente com o filho do Chefe!

Aquilo definitivamente não era nada positivo para eles. Tudo o que queriam evitar era o contato com o Chefe ou o Conselho de Anciões, que teriam muito mais questionamentos, que se não fossem respondidos de forma satisfatória, poderiam gerar consequências mais graves do que uma simples proibição de atravessar a Floresta de Ryuk. O plano original era apenas serem acolhidos por algum caçador desavisado o bastante para cair na história triste que havia bolado. Agora, precisariam ser perfeitos em sua mentira.

— Vocês já sabem nosso nome. — Celtigar fez uma pequena objeção antes de concordar em segui-los, sabendo que seria estranho se um deles não fosse minimamente desconfiado. — Seria justo se nós também soubéssemos os de vocês.

— Eu sou Asthur, filho de Urska. — o de pêlos cinzentos, que presumiam ser o filho do Chefe, se apresentou, transformando-se para sua forma humana, revelando um homem pouca coisa mais baixo do que Celtigar, com a pele amadeirada e cabelos negros curtos e cacheados. — E esses são meus primos.

— Benat, filho de Damka. — o de pelagem avermelhada também retornou a forma humana e parecia ser o mais novo dos três, com a pele muito pálida e longos cabelos ruivos-claros lisos.

— Oulix, filho de Larke. — o último definitivamente era o mais velho deles, também de pele amadeirada, longos cabelos castanhos-claros presos em uma única trança e incrivelmente alto.

— É um grande prazer conhecer vocês. — Merikh deu um sorriso falso. — Receio que por conta do isolamento, não sabemos quem é o Chefe de Mohen.

Na verdade, se tratava da mais pura falta de interesse. Já tinham problemas o bastante em Nyhue para quererem se meter com outras Tribos e tratavam de fugir para a cabana de Hessyah nas raras ocasiões em que caravanas diplomáticas iam visitar Chafyr. Parando para pensar, talvez tivesse sido útil ter pedido para que Mavka lhes desse algumas rápidas lições de política licantropa antes de partirem, já que ela entendia bastante do assunto.

— Chefe Batsal, filho de Eshe. — Asthur informou, seu peito enchendo de orgulho. — Vocês irão conhecê-lo.

— Chame Pazach, Asthur. — Oulix orientou, permanecendo frio. — Eu e Benat chamaremos Jaeger e Heliwr.

— Iswed, aqui, rapaz. — Merikh chamou o seu lobo negro para mais perto, sendo prontamente obedecido. Se os seus anfitriões seriam escoltados por seus companheiros de alma, faria questão de manter Iswed e Beyaz bem próximos.

O início daquela jornada já não tinha sido exatamente o melhor possível. Como esperado, os ventos nunca sopravam a favor dos criminosos, mesmo quando estavam trabalhando para os Deuses. Mas no fundo, Merikh não se importava: ele faria a própria sorte.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Para compensar a ausência, vou postar mais um capítulo!