O Ladrão de Nyhue
12 12. Lobisomens e Elfos
Haakon, do Clã Vidar.
Octogésima Lua do Outono do Ciclo de 27 da Era das Espécies.
Tribo de Mohen — Extremo Norte do Velho Continente.
HAAKON precisava admitir que estar em uma Tribo licantropa era extremamente desconfortável, por mais que tenham criado uma justificativa quase perfeita para sua presença ali. Não era uma questão de ser estranho não estar entre os seus, afinal, como feiticeiro, não pertencia a um povo específico — não era aceito nem entre os elfos, nem entre os bruxos. Tendo vivido sempre à margem da sociedade, ter virado um criminoso era uma consequência quase natural.
Já estava acostumado com os olhares tortos o acompanhando por onde quer que fosse e não era surpresa que na Tribo de Mohen não fosse diferente. Tentou imitar a postura de Celtigar, mantendo a cabeça erguida e o rosto fechado, mesmo sabendo que não era necessário: com a benção do Chefe Batsal e a companhia de seus melhores amigos, ninguém seria louco de mexer com ele.
Foi ficando menos desconfortável conforme foram se afastando do centro da Tribo e a quantidade de cabanas foi diminuindo. Apesar de verem um ou outro lobisomem saindo para caçar, e conforme saiam de Mohen e entravam na Floresta de Ryuk em si, voltaram a ficar praticamente sozinhos. Andaram por um tempo considerável antes de finalmente chegarem à margem da Tribo, na mata aberta.
Celtigar e Merikh rapidamente fizeram gestos para que Beyaz e Iswed verificassem os arredores e foram prontamente atendidos. Os lobos estavam mais lentos do que o normal por conta do peso que carregavam, mas era o recurso que dispunham no momento. Os dois feiticeiros meio-lobisomens também fizeram sua parte, farejando o ar frio da noite.
— Eu odeio quando vocês fazem isso. — Haakon comentou baixinho. Era difícil não se sentir excluído quando não compreendia o vínculo de companheiros de almas e nem possuía aquelas habilidades quase animalescas de predador.
— Você deveria agradecer. — Merikh revirou os olhos, antes de sorrir para Iswed, que se aproximava novamente. — Estamos sozinhos por enquanto. Se quiserem falar algo importante, agora é o melhor momento.
— Na verdade, o Chefe Batsal me deu uma informação interessante enquanto fazíamos o desjejum. — Celtigar tomou o cuidado de manter a voz baixa. — Aparentemente, a Tribo de Treedan está abrigando alguns Clãs élficos. É o povo da terra, não sei muito sobre eles.
— Quais os nomes? — Haakon imediatamente perguntou, atraindo olhares questionadores. — Talvez eu possa ter escutado o marido da minha mãe comentando algo.
Olysseus, do Clã Emyk, não era apenas um elfo da Era dos Deuses, mas também um guerreiro dos Clãs do ar. Em sua juventude, participou ativamente das guerras élficas que expulsaram o povo da terra do Extremo Norte do Velho Continente — foi inclusive em uma das últimas dessas guerras que a mãe de Haakon, Capricia, do Clã Vidar, engravidou do bastardo.
De qualquer modo, Olysseus adorava rememorar os seus tempos de glória. Nas raras ocasiões que ficava em casa, era comum que o ouvisse contando uma história após a outra, repletas de detalhes. Quando era mais novo, achava tudo aquilo muito enfadonho, mas conforme foi crescendo, aproveitou os longos discursos de Olysseus para formar o seu próprio arcabouço quase exclusivo de conhecimento élfico.
— Nefel, Eldrich e Slater. — Celtigar rapidamente relatou, fazendo o mais novo franzir o cenho.
— O Clã Nefel são guerreiros do povo da terra, muito antigos no Extremo Norte. Foram responsáveis por dizimar vários Clãs do ar nas guerras élficas. Foram os Emyk que mataram vários deles, mas justamente por serem tão antigos e influentes que conseguiram um tratado de paz. Até onde eu sei, hoje estão bem enfraquecidos. — Haakon puxou as informações na memória, tentando resumir o máximo possível. — A história do Clã Eldrich é basicamente a mesma, com a diferença que eles vieram do Meio Norte. Foram massacrados pelos Clãs do fogo antes de conseguirem paz. O que realmente me surpreende é o Clã Slater.
— Por que? — Merikh perguntou, visivelmente interessado.
— Achei que estivessem extintos. É uma história muito mais sombria. — a voz de Haakon saiu quase em um sussurro, evidenciando o desconforto que sentia. — São curandeiros tradicionais do Extremo Norte, muito bons mesmo. Tiveram um papel secundário nas guerras élficas até simplesmente desaparecerem. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, mas Olysseus conta uma lenda: aparentemente, o Clã Slater ficou tão arrogante por conta de suas habilidades de cura que começaram a desafiar os Deuses. Em algum momento, se denominaram mais sábios do que a própria Sabedoria. Os Clãs da terra pararam de fazer oferendas para Veraya e passaram a pagar pelos conselhos dos Slater. Na lenda que Olysseus conta, Veraya os destruiu.
Veraya era a Deusa dos Oceanos e da Sabedoria, Mãe da Magia e esposa de Shada. Era conhecida por ser uma das Deusas mais orgulhosas que existiam, tão temperamental quanto o próprio mar. Embora fosse mais cultuada por bruxos, ganhou muitos devotos durante as guerras élficas, na esperança vã dos Clãs serem abençoados com boas estratégias de batalha.
— Então Veraya não os extinguiu, fez pior: os transformou em Guardiões. — Celtigar concluiu sombriamente. — Faria sentido.
— Mas ainda nos deixa uma grande questão. — Merikh objetou, pensativo. — O que levaria a Deusa que deveria ser a personificação da Sabedoria a ser burra a ponto de confiar um livro tão perigoso à guarda de um Clã que tem todos os motivos para odiá-la e desprezá-la?
— Cuidado! — Celtigar pediu, alarmado, olhando nervosamente para os lados. Definitivamente, era uma péssima ideia falar mal da esposa do Deus dos Bosques e das Florestas quando estavam em mata aberta.
— Se Shada quiser tirar satisfação comigo, que fique à vontade. — Merikh bufou, tão arrogante quanto um Deus, abrindo os braços em desafio. — Eu estou trabalhando para consertar a besteira que foi feita pela esposa dele.
Alguns momentos de silêncio tenso se seguiram conforme esperavam. Era como se Celtigar e Haakon temessem que a mata se revoltasse contra eles ou um ataque repentino de lobos, afinal, Shada não era conhecido por ser uma Divindade muito paciente. Mas conforme o tempo passou e se tornou evidente que não haveria nenhuma retaliação, o sorriso debochado de Merikh aumentou.
— Bom, acho que o caos da Era dos Deuses deixa claro que seus grandes erros todos advém da arrogância das Divindades, algo que estão tentando corrigir agora na Era das Espécies. — Haakon suspirou, tentando puxar um pouco de racionalidade de volta a discussão. — Não podemos descartar a possibilidade.
— Ou seja, de qualquer forma, é a irresponsabilidade de uma Deusa que terá de ser corrigida por criminosos horríveis e desonrados. — Merikh bufou, tentando disfarçar seu rancor com indiferença.
E ele não estava completamente errado. Não adiantava muita coisa perder tempo debatendo os motivos dos Deuses. A menos que eles próprios decidissem se explicar, jamais saberiam a verdade e era impossível compreender aquelas mentes, as Divindades eram criaturas caprichosas e imprevisíveis.
— Vamos lidar com Guardiões da Sabedoria, então. — Celtigar os puxou de volta para que os interessava. — E temos que levar em consideração que devem ter muita experiência com Magia Elemental da terra, estaremos em desvantagem em um confronto no Bosque de Dreak.
— Não necessariamente. — foi a vez de Haakon deixar um pouco de sua arrogância vir à tona. — Eles sempre perderam para os Clãs do ar.
— Para elfos dos Clãs do ar muito mais bem treinados do que você. — Merikh o corrigiu friamente, fazendo questão de manter seus pés no chão. — Sabe quantos são?
— Claro que não, até agora há pouco achei que estavam extintos. — Haakon revirou os olhos, um tanto indignado. Ele também não era uma fonte inesgotável de conhecimento sobre elfos. — No máximo, sei os nomes de alguns que morreram nos confrontos com os Clãs do ar.
— Pelo menos já sabemos como começar a procurar. — Celtigar focou no mais prático, como era próprio de sua natureza. — Alguém no Mercado Central de Northriver deve saber algo desses Slater.
Os Mercados Centrais costumavam ser locais bem interessantes para colher informações, principalmente em cidades de pequenos e médios portes. Sempre havia senhoras fofoqueiras que sabiam mais do que deveriam, jovens ingênuas que soltavam a língua diante um simples galanteio, pais de família sobrecarregados que só precisavam de uma brecha para reclamar dos vizinhos ou algum desafeto. Mas o mais jovem do trio tinha estratégias mais ousadas.
— Enquanto vocês fazem isso, eu vou procurar pelo bordel de Northriver. — Haakon anunciou, com um sorriso presunçoso. — Prostitutas sempre sabem mais.
— Sua irmã que o diga. — Celtigar não perdeu a oportunidade de zombar, fazendo o moreno rir.
— Exatamente. — Haakon concordou calmamente. Já fazia tempo que não se deixava levar por aquele tipo de provocação.
Verena, do Clã Emyk, era a filha menos preferida de Olysseus e a irmã favorita de Haakon. Era pouco mais nova e apesar de seu domínio da Magia Elemental ser brilhante, ela também seguiu seu caminho pela ilegalidade para conseguir sua independência. Todas as Luas, Verena ia ao O Elfo Fronteiriço se deitar com desconhecidos e, por consequência, acabava acumulando uma coleção de segredos que por diversas vezes serviram como base para os roubos do trio.
Foi com Verena que descobriu que os homens só costumavam mostrar sua verdadeira natureza — para melhor ou para pior. Também foi com a sua irmã que Haakon aprendeu como conversar com as mulheres da vida, como conquistar sua confiança. Celtigar e Merikh poderiam até zombar, mas foi com as meretrizes que aprendeu os maiores segredos da vida, inclusive foi iniciado na arte dos venenos.
— Certo, eu e Celtigar cuidamos do Mercado Central, você vai para o prostíbulo. — Merikh concedeu com um revirar de olhos. — Aproveite para passar em um herbário, vamos trabalhar com lâminas envenenadas dessa vez.
— Lâminas envenenadas. — Haakon repetiu, chocado.
— Nós fomos contratados por Sacerdotes da Morte para enfrentar Guardiões da Sabedoria e um luphyr. — Celtigar explicou, impaciente. — Vão ter corpos. Esqueça os seus escrúpulos no momento em que chegar a Northriver e mate sem pensar duas vezes se for necessário.
— É hora de você também virar um assassino, Haakon. — Merikh determinou com um sorriso cruel.
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