Notas iniciais
Gente, eu sei que estou demorando para postar os capítulos, mas estou com algumas dificuldades para acessar o computador ultimamente. Vou tentar postar mais um até sábado no máximo, espero que me perdoem

Celtigar, filho de Hessyah.

Octogésimo Entardecer do Outono do Ciclo de 27 da Era das Espécies.

Tribo de Mohen — Extremo Norte do Velho Continente.

CELTIGAR acordou extremamente dolorido, espremido entre Merikh e Haakon na pequena barraca que montaram no centro da Tribo de Mohen. Moveu-se com o maior cuidado possível, tentando não acordar seus companheiros. Assim que pisou na grama macia do lado de fora, sentiu um peso sendo jogado em seu peito. Confuso, olhou para baixo, encontrando Beyaz muito animado, abanando o rabo. Celtigar imediatamente sorriu e acariciou a cabeça do animal.

— Alguém acordou animado, não?

— É o lobo se um caçador, no final das contas. — ouviu a voz risonha de Batisal. O Chefe estava se aproximando com um sorriso e uma grande maçã na mão. — Junte-se a mim para o desjejum, rapaz. E os seus companheiros?

— Ainda dormindo. — Celtigar respondeu, um tanto desconfortável, fazendo um gesto para que Beyaz descesse de seu peito. — A caminhada foi exaustiva.

Ele sabia que conservar sozinho com o Chefe era uma péssima ideia, mas também não tinha nenhuma desculpa plausível para recusar e considerando que não estava em sua própria Tribo, era melhor não abusar de sua sorte. Então, Celtigar seguiu Batsal até os resquícios da fogueira da Lua anterior, onde agora havia algumas grandes cestas com maçãs, morangos e abacates, além de novas pequenas fogueiras com várias chaleiras de latão, o cheiro de erva-doce preenchendo o ar.

Alguns anciãos estavam sentados no chão de um ponto mais afastado da cabana do Chefe, para onde Celtigar e Batsal estavam se dirigindo, e o loiro fingiu não perceber os olhares feios que os velhos lançavam para a marca em sua testa. Levantou o queixo e seguiu até a fogueira mais próxima a maior das cabanas. Batsal estendeu dois tapetes marrons-escuros antigos e muito bem trabalhados e os dois sentaram-se. O Chefe serviu o chá de erva-doce em duas canecas de metal e ofereceu uma cesta de frutas ao loiro.

— Sabe, o que você e sua mãe estão fazendo é muito bonito. — Batsal comentou com um sorriso.

— Como? — Celtigar perguntou, confuso, pegando um abacate da cesta que lhe era oferecida.

— Criar o elfo. — Batsal franziu o cenho, fazendo-o lembrar-se da mentira. — Não é todo mundo que faria isso.

— Oh sim. Haakon é como um irmão mais novo para mim. — Celtigar sorriu um carinho genuíno.

Ele realmente gostava muito de Haakon, até por isso era tão duro com o jovem. O senso de proteção e amor de Celtigar eram distorcidos pelas penúrias de sua vida. Uma parte dele queria preparar o amigo para os horrores que eram inevitáveis na trajetória de um criminoso.

— Eu estava conversando com Asthur depois que vocês foram se deitar, acho que vai se tornar um padrão nas Tribos licantropas, pelo menos aqui no Extremo Norte. — Batsal prosseguiu, bebericando seu chá. — Os Treedan também estão fazendo isso, sabia?

— Criando feiticeiros bastardos de elfos? — Celtigar levantou uma sobrancelha, usando um punhal para abrir o abacate. Por motivos óbvios, duvidava muito daquilo.

— Não, eles não chegaram tão longe. — Batsal riu. — Mas o Chefe Leif acolheu três Clãs élficos, se não me engano dois estão morando na Tribo de Treedan e um acabou de se mudar para o Bosque de Dreak.

— É mesmo? — Celtigar ficou interessado na informação, afinal, era mais comum elfos serem condenados a serem Guardiões do que lobisomens. — Alguém que eu ou minha mãe conhecemos?

— Creio que não, são Clãs da terra e não do fogo. — Batsal fez um gesto fazendo um pouco caso. — Os nomes que chegaram para mim foram Nefel, Eldrich e Slater.

Os elfos se dividiam em Clãs organizados de acordo com o tipo da Magia Elemental que dominavam — afinal, para os elfos, diferente dos bruxos, aquela era uma habilidade inata: dominavam apenas um elemento, definido pelo seu sangue e não eram capazes de aprender a controlar outros elementos ou outros tipos de magia.

As relações entre os Clãs de diferentes elementos nunca foram pacíficas. No Extremo Norte, os mais comuns eram os do fogo (como os Iorth, Clã de Hessyah) e os do ar (como os Vidar), aliados desde o início dos tempos. Em algum momento da Era dos Deuses, durante as muitas guerras élficas, a maior parte dos Clãs da terra foram expulsos do Extremo Norte e se concentraram na região do Deserto do Velho Continente.

Era óbvio que Celtigar não conhecia ninguém dos pouquíssimos Clãs da terra que restavam na região, até porque praticamente não tinha contato com elfos. Hessyah foi banida dos seus quando se casou com Dorfaren e o loiro foi criado entre lobisomens. Exceto por Haakon e um ou outro larápio que frequentava O Elfo Fronteiriço, seus conhecidos eram licantropos.

— Realmente, talvez as Tribos sejam os locais mais seguros para os Clãs da terra. — Celtigar admitiu, seus dedos sujos de abacate. — Embora eu estranhe Treedan aceitá-los.

— Bom, o velho Leif precisa de pelo menos alguns guerreiros até aquele bando de filhotes crescerem, me parece uma aliança razoável. — Batsal deu de ombros, servindo mais chá para ambos. — E por falar em filhote, veja quem acordou!

Celtigar olhou Haakon saindo da barraca, ainda sonolento, com a tinta ao redor de seus olhos borrada. Fez um gesto para que ele se aproximasse, o que o rapaz de cabelos azuis escuros fez, mesmo a contragosto. O Chefe esticou-se para pegar mais uma caneca, sorrindo para o recém-chegado:

— Sente-se, rapaz, faça o desjejum conosco.

— Ainda estou empanturrado da última Madrugada, obrigado. — Haakon tentou se desvencilhar, já que era uma das únicas pessoas que conhecia que odiava chá e frutas.

— Que tal fazermos assim: ou você senta e come ou eu te dou de comida para Beyaz. — Celtigar rosnou, sem muita paciência. Se o mais novo não se alimentasse antes de retomarem a caminhada, logo ele iria irritar os dois licantropos para caçarem antes do tempo e isso irritaria o loiro a ponto de não conseguir cumprir sua promessa de não bater nele.

— Acho melhor obedecer, seu irmão postiço parece ser bravo. — Batsal brincou com o mais novo.

— O Chefe não imagina o quanto. — Haakon suspirou, sentando-se no chão sem pensar duas vezes.

— Apenas cale a boca e coma. — Celtigar bufou, terminando seu abacate e levantando-se. — Vou acordar Merikh e preparar nossas coisas.

Sem dar tempo para que Haakon ou Batsal o impedisse, Celtigar dirigiu-se até a barraca e despertou o moreno sem nenhuma delicadeza. Merikh acordou mal humorado e resmungando algumas coisas desconexas, mas por sorte acatou as instruções para que fosse quebrar o jejum sem maiores resistências. Depois, rapidamente desmontou a barraca.

— Beyaz! Aqui, rapaz!

O lobo branco rapidamente obedeceu o chamado e Celtigar agachou-se para novamente prender nele o suporte de couro, já devidamente carregados com as peles que supostamente iriam comercializar. Precisou cantarolar uma antiga melodia élfica para tentar acalmar o lobo, que estava muito agitado. Assim como o dono, Beyaz era um guerreiro, e além de ferir-lhe o orgulho ser tratado como montaria, odiava carregar um peso que diminuiria sua agilidade e, por consequência, sua letalidade. Mas tal qual Celtigar, Beyaz aceitava sem questionar qualquer fardo necessário para garantir o bem-estar e a segurança de seu pequeno grupo.

Justamente por ser tão parecido com Beyaz é que Celtigar conseguia notar algo de diferente em seus olhos negros. Sentia como se lobo não tivesse gostado da notícia da presença de elfos dos Clãs da terra, uma desconfiança quase incômoda.

Ignorou aqueles pensamentos e, com muita dificuldade, conseguiu chamar Iswed para perto e prender o segundo suporte. O lobo negro era menos agitado, mas consideravelmente mais arredio e teimoso. Quando finalmente acabou, estava cansado e sentiu vontade de socar o melhor ao amigo ao notar a expressão divertida em seu rosto conforme se aproximava.

— Até pensei em te ajudar, mas estava engraçado ver Iswed lhe dando uma canseira. — Merikh provocou.

— Não se preocupe, me vingarei assistindo você tirando o suporte de Beyaz depois de nossa longa e exaustiva caminhada. — Celtigar devolveu, fazendo o rosto do moreno se distorcer em uma careta.

— Para que tanta pressa, rapazes? — Batsal perguntou. — Vocês podem ficar mais essa Lua por aqui.

— Nós agradecemos a hospitalidade, Chefe, mas realmente precisamos ir. — Merikh agradeceu com um sorriso falso. — O objetivo é ser uma caravana rápida, quero voltar para Nyhue antes do meu filhote nascer.

A verdade era que queriam sair da presença do Chefe Batsal o mais rápido possível, antes que fossem pegos em alguma de suas mentiras. A desculpa do filhote era simplesmente perfeita, embora tanto Merikh quanto Celtigar soubessem que muito provavelmente iriam perder o nascimento do filhote de Mavka. Finalmente, conseguiram se despedir de forma pacífica e com algumas informações úteis. Celtigar poderia considerar a primeira parte da incursão um sucesso.