O Ladrão de Almas
2 Sweet Nightmare
Notas iniciais
Todo e qualquer mísero detalhe daquele lugar me enchia de prazer e orgulho. Estava em casa, naquele pequeno pedaço do Inferno reservado exclusivamente para minha coleção de almas. Encaixei a que eu tinha acabado de roubar em uma espécie de prisão de fogo e ela começou a gritar. Sorri e me permiti rir fraco.
— Pode rezar agora, se quiser – Ironizei.
Voltei lentamente para a sala principal da minha “casa”, gostava do meu trabalho, de verdade, mas convenhamos que cansa. Sentei em uma das cadeiras antigas da Inglaterra Vitoriana e fechei os olhos, tentando pelo menos descansar, já que não podia pegar no sono. São os males do oficio. Deixei minha mente vazia e tentei fazer algo parecido com dormir, quando uma imagem invadiu minha mente. Uma nova alma para roubar. Concentrei-me na visão.
Uma garota loira de aproximadamente 23 anos de idade andava por uma rua com a iluminação precária. Era de noite e ela andava a passos largos, protegendo a qualquer custo alguma coisa em baixo do braço. Uma pasta. Um homem velho que usava uma touca para cobrir o rosto a apunhalou pelas costas, fazendo-a quase imediatamente desmaiar. Ele arrastou seu corpo para uma viela próxima, com um sorriso malicioso nos lábios, deixando para trás a pasta que a garota tanto protegia. Uma forte ventania a abriu em uma página, cuja foto de uma menina e seu nome, Lea McKanzie, ocupava o centro.
“É seu próximo trabalho”, uma voz ecoou em minha cabeça e eu assenti, sem fazer perguntas. Abri os olhos e me deparei com um demônio sentado em meu colo, sorrindo sem fazer questão de esconder as segundas, terceiras e quartas intenções. A “mulher” tinha os cabelos cacheados um pouco abaixo dos ombros, os olhos amarelos beirando ao laranja me encaravam curiosos, já o corpo, pelo amor da Deusa, acho que matariam para ter um nem que seja parecido. A olhei com desprezo, já sabendo o que ela queria.
— Lea McKanzie? – Repetiu, presa em seus devaneios.
— Droga, Nytn (lê-se ‘Nitin’), já te falei para não se meter no meu trabalho – Desaprovei com o olhar, irritado.
— Qual é, amor... – O demônio desarrumou me cabelo e encaixou seu corpo no meu, deixando nossos rostos a milímetros de distancia – Que tal esquecer um pouco o trabalho e...
— Me poupe dos seus joguinhos – Joguei-a para longe e ela riu como uma criança – Agora se me dá licença... – Fiz sinal para que saísse.
— Certo, sei que não me quer aqui – Fez um biquinho e depois sorriu – Mas não vim aqui para tentar ficar com você, só queria te avisar de uma coisa que um amigo meu me contou sobre os anjos – Ela fez uma pausa e me olhou com preocupação – Hy, eles querem te matar, acabar com seu trabalho e recuperar as almas que você roubou.
Anjos intrometidos! Sempre metendo a harpinha e as asinhas onde não são chamados... Porra, eu só faço meu trabalho, coleciono almas, eles não tem nada a ver com isso. Tenho que parar de deixar minhas vitimas rezarem antes de morrer, deve ter sido isso que atraiu a atenção do Céu. Malditos mortais!
— Quando eles querem lutar? – Perguntei, decidido.
— Talvez quando você for roubar a próxima alma.
Bufei, não gosto de idéia de ter que parar de colecionar. Se eles querem lutar, que venham, mas eu definitivamente não vou parar de trabalhar por que os desgraçados de asas têm algo contra, não mesmo.
— Hyntf (lê-se ‘Haintifi’) – Ela me repreendeu – Sei o que está pensando e pode esquecer, você não vai roubar a alma de Lea, pelo menos não agora. É muito perigoso, amor, por favor, não...
Nytn mal acabou de falar e eu já tinha sumido, em busca da minha mais nova alma. O show não pode parar.
A garota de cabelos castanhos dormia calmamente, sem saber o que ia acontecer com ela daqui alguns minutos. Estava de pé ao lado de sua cama, observando-a, estava muito escuro e nenhum mortal poderia me ver. Para falar a verdade, ela era até bonitinha, delicada. Darei-lhe uma cela que cause menos sofrimento quando tudo isso acabar. Sorri para ela, vasculhando em sua mente seu pior medo, alguma fobia ou... Eu vi direito? Controlei a risada, ela deveria ter uns 20 e poucos anos e tinha medo do bicho papão? Era hilário, nunca tinha pegado um caso assim, seria interessante. Comecei a pensar no que ia fazer.
Sorri vitorioso com a minha idéia, era perfeita, realmente genial. Comecei a preparar as coisas em sua mente, era como arar a terra para plantar uma semente, só que no meu caso eu ia plantar o medo, o veneno que me faria obter sua alma imaculada. Entrei em sua cabeça, dando inicio ao seu fim, ao seu doce pesadelo.
xx Lea’s POV xx
Acordei assustada, dando um grito fraco e com meus olhos cheios d’água, maldito pesadelo! Olhei em volta e ainda estava em meu quarto, a luz apagada dava um ar mais sinistro ao local, fazendo com que os pôsteres das minhas bandas favoritas ficassem mais diabólicos do que já são. Suspirei alto, deitando minha cabeça do travesseiro e tentando dormir, pensando em coisas boas, pensamentos positivos.
Estava quase caindo no sono quando ouvi um barulho estranho, algo tentando arranhar algum tipo de madeira, pela origem do som parecia que vinha do... Armário? Arregalei os olhos e tentei acender o abajur, que não ligava de jeito nenhum. Comecei a ficar desesperada, escondendo minha cabeça embaixo do edredom, tentando não ligar para os ruídos que aumentavam cada vez mais.
Ouvi o som de madeira quebrando e os arranhões pararam, o que não era bom sinal, a coisa poderia ter saído. Fechei os olhos, a escuridão de minhas pálpebras com toda certeza era melhor que a escuridão do quarto. Comecei a prestar atenção em qualquer tipo de barulho, mas só o que ouvia era os grilos do lado de fora da minha janela. Talvez ele tenha ido embora, afinal. Viu que já era grande e que não me assustava, por mais que isso fosse mentira, eu devia tê-lo enganado.
Não me atrevi a tirar a cabeça debaixo do edredom, mas abri os olhos, tentando inutilmente enxergar o que estava acontecen... Gritei, automaticamente colocando as mãos na boca para abafar o som. Tinha alguma coisa ali, algo grande, muito grande.
— Por favor, que não seja o que eu estou pensando. Por favor, que seja um urso. Por favor, que seja um urso. Por favor, que seja um urso. Um urso, um urso! – Murmurei, rezando para que seja verdade.
Eu vi a coisa se virando e encarando o edredom, parecia que olhava diretamente pra mim, analisando o que eu ia fazer. Permaneci quieta, segurando a respiração e encolhida, lembrando do que minha mãe dizia: “não tem nada no armário, querida”, isso, não tinha nada no armário. Eu devia estar assustada com o pesadelo, é só isso.
Fechei os olhos e mentalizei minha mãe abrindo o guarda-roupa, sorrindo para mim e desarrumando meu cabelo. Eu não sou mais criança, eu já tenho 22 anos e não posso mais ter medo dessas coisas infantis que nunca vão existir. Certo, agora eu vou contar até 10 e sair debaixo desse edredom, vou abrir o armário e só vou encontrar roupas.
1... 2... 3... 4... 5... 6... 7... 8... 9... 10.
Sai lentamente do meu refugio e automaticamente fechei os olhos, desejando não ter tido aquele maldito momento de coragem. Não! Eu já sou uma adulta, eu não tenho mais sete anos. Abri os olhos lentamente, deparando com um quarto normal, só um pouco escuro. Ri de mim mesma e deitei novamente, dando uma boa olhada no armário que estava intacto. Não tinha absolutamente nada ali.
Olhei para cima e minha visão ficou totalmente embaçada, estava chorando antes mesmo de me dar conta do que eu tinha visto. Era ele, aquele que tanto temia desde a infância. O bicho olhava para mim e imaginei que estava sorrindo, como se o meu medo fosse seu alimento, sua fonte de prazer. Comecei soluçar e ele fez uns barulhos estranhos, uma risada. Porque aquilo estava acontecendo?
— P-p-por favor, me-meu Deus... – Minha voz começou a ficar fraca, não conseguia mais controlar meu próprio corpo. Droga! Eu sabia o que significava, eu entrei em pânico, no pior estágio de pânico.
Aquela coisa ficou irritada, os olhos passaram para um vermelho-sangue que me dava medo, assim com tudo nele, que, aliás, era um tipo de cachorro gigante, um lobo desfigurado com uma falta de pelo bizarra, a boca recheada por duas fileiras de dentes absurdamente pontudos e os olhos, pelo amor de Deus, aqueles olhos me causavam arrepios! Comecei a rezar, eu sabia que era inútil, nunca fui religiosa e não defendia essa teoria que tinha alguém para me ouvir, mas eu rezei, pela primeira vez na minha vida.
— Pelo amor da Deusa, porque vocês têm que rezar? – A coisa grunhiu, parecia uma voz humana, não se encaixava no perfil do animal.
Consegui ver seus olhos me fitando através do tufo de pelo que ficava um pouco acima da região ocular. Era como se tivesse inteligência. Ao mesmo tempo em que estava morrendo de medo eu também estava admirada, porém o medo falava mais alto e eu consegui lembrar de como se gritava. Chamei pela minha mãe, como nos velhos tempos.
A coisa riu novamente, se divertindo com aquilo. O ouvi comentando sobre “matar rápido” e entrei novamente em pânico, enquanto ele “pensava”, saí da cama lentamente, quando já tinha um dos pés no chão corri até a porta. Comecei a sentir um liquido quente escorrendo da minha perna e ela simplesmente falhou, me fazendo cair de cara no chão. Olhei para trás e vi o bicho sobre mim, mordendo minha perna já ensangüentada. Comecei a chorar novamente, não pela dor, nem pelo fato do monstro que assombrou toda a minha vida estar tocando em mim, mas porque sabia que ia morrer em poucos minutos.
O bicho me fez virar para ele e fiquei deitada no chão, olhando para o teto, esperando meu destino. Ele subiu em cima de mim, conseguia ouvir sua respiração pesada roçando em minha pele, as garras estavam fincadas em meus braços. Se ele não me matasse ali, eu ia morrer por perda de sangue. Fechei os olhos todo o meu corpo começou a queimar, era como se tivessem tacado fogo em mim. Por curiosidade abri os olhos e me deparei com o bicho queimando, se transformando aos poucos em um... Homem? E que homem! Ele tinha cabelos negros e curtos, os olhos de um verde azulado muito bem visíveis e luminosos, traços fortes e também era musculoso. Ele já tinha parado de queimar e eu prendi a respiração, já que ele ainda estava em cima de mim.
— Eu saí do personagem, não é? – O homem sorriu para mim, eu ainda sentia medo, mas sorri de volta, quase involuntariamente – Desculpe, mas eu tinha que fazer isso... Mas não quer dizer que você não vai morrer – Avisou e o sorriso em meus lábios desapareceu.
Ele se aproximou dos meus lábios e fechou os olhos, eu ainda os mantinha abertos, mas eles se fecharam quando ele me beijou. Era um beijo doce, calmo, porém logo se transformou em algo mais forte, ardente. Eu queria parar, mas não conseguia, era como se ele tivesse colocado algum tipo de feitiço em mim. Abri os olhos e consegui ver que em uma de suas mãos avia uma faca enorme, suja de sangue.
Dane-se, eu ia morrer mesmo. Fechei os olhos e continuei correspondendo o beijo, agora prendendo seu corpo no meu com as pernas, sorrindo enquanto ele brincava com a minha língua. Senti a faca roçando em meu braço e sabia que já tinha chegado minha hora. Abri os olhos e ele parou de me beijar, fitei seus olhos verdes.
— Prometo que não vai doer muito – Ele sussurrou e depois disso tudo ficou escuro. Eu só sentia o fogo queimar minha alma.
xx Hyntf’s POV xx
— Eu saí do personagem, não é? – Sorri para Lea e ela automaticamente corou, sorrindo fraco pra mim – Desculpe, mas eu tinha que fazer isso... Mas não quer dizer que você não vai morrer – Avisei, fazendo o sorriso nos lábios da garota desaparecer.
Aproximei-me dela e fechei os olhos, beijando-a lentamente. Há principio ela não correspondeu, mas logo cedeu passagem para minha língua que percorria toda sua boca, explorando cada pedaço. No começo foi um beijo calmo, sei muita troca de sentimento meu e dela, mas foi ficando mais feroz, ardente, estava saindo do meu controle. Ela deu sinais de que queria parar, mas não deixei, mordendo de leve seu lábio inferior, o que a fez voltar ao beijo, um pouco mais ousada.
Lea prendeu meu corpo no dela com as penas e eu sorri, ela fez o mesmo, o que me deu permissão para brincar um pouco com sua língua. Pensei em parar de beijá-la e levar isso para um novo nível, mas não podia, ela só era mais uma alma para minha coleção, não podia tornar isso pessoal. Passei a faca pelo seu braço, sem machucá-la, mas tentando avisá-la do que eu ia fazer. Ela não ligou e então me desprendi de seus lábios, fitei seus olhos castanhos e resolvi que ela não ia sofrer, não podia fazer isso. Ela tinha algo que... Eu não sei, era diferente.
— Prometo que não vai doer muito – Sussurrei e fiz um corte em seu pescoço, rápido e indolor. Ela morreu na hora e aquilo estranhamente me entristeceu, não pelo fato dela ter morrido imediatamente, sem gritos ou algo parecido, mas pelo fato dela ter morrido.
Sua alma saiu do corpo e eu a peguei no ar, era um ectoplasma lindo, uma aura azul¹ que via em poucas almas que roubava. Por um momento me arrependi de tê-la matado, mas esse momento passou rápido, eu era Hyntf, o Ladrão de Almas. Não tinha piedade.
Ela morreu como todos os outros, dormindo tranqüilamente quando em sua mente passava por um sofrimento sem fim. Saí daquele quarto e voltei para casa, ainda tinha que encarar Nytn e aquilo me irritava. Eu a odiava, profundamente, mas ela insistia em querer controlar minha vida e se meter onde não era chamada. Segurei carinhosamente a alma de Lea e sumi no ar, de volta para o Inferno.
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