O Ladrão de Almas

5 Damn Stupid Feelings!


Notas iniciais
Me desculpem se eu demorar para postar, é que a minha criatividade travou esses dias. Graças a Deus voltou agora de noite! Enfim, boa leitura!

xx Lea’s POV xx

Olhei para o homem que andava de um lado para um outro, sua expressão era de profunda preocupação, talvez comigo, mas era obvio que não, afinal, ele tinha uma reputação a zelar aqui e, se me lembro bem, ele era um demônio. Sem sentimentos, sem compaixão ou pena por qualquer mortal. Impedi-me de suspirar. Era estranho eu sentir alguma tristeza por pensar nisso, mas eu senti. De certa forma eu gostava dele, de um modo estranho, era como o rato de apaixonando por um gato, e esse gato com certeza ia comer esse rato na janta. Era um amor impossível e infelizmente esse era o meu caso. Eu sei que é clichê, que daria um bom livro se minha história fosse contada para um bom escritor, mas eu estava começando a me apaixonar por um demônio. E para o meu azar ele não é um desses monstros bonzinhos, ele é mal e daria tudo para me matar. Que sorte desgraça essa que eu tenho... Me apaixonei por um demônio, parabéns pra mim!

Ele parou de andar e olhou me olhou, tentando escolher as palavras com que ia descrever sua possível idéia. E, por mais que eu me condenasse por isso, não pude deixar de perceber o quanto àqueles olhos verdes me hipnotizavam. Droga! Eu estava fazendo de novo, eu estava me deixando levar por um maldito quase-amor platônico.

— Eu não consigo pensar em nada – Ele confessou, pedindo desculpas com o olhar – Acho que vou ter mesmo que falar com os anjos.

Assenti, parando para pensar um pouco no assunto. Ele mencionou os anjos, aqueles seres iluminados que ele explicou que queriam me levar para o céu, com um profundo desprezo, algo que não fosse bom chamar na conversa, parecia que pioraria a situação. Não entendi, não consegui entender como aquelas pessoas tão imaculadas não ajudariam.

— Porque é tão ruim assim chamar os anjos? – Arrisquei a pergunta, tentando não gaguejar, sem muito sucesso.

— Lea, os anjos algumas vezes não são a melhor opção – Ele disse com firmeza, demonstrando sua indignação em cada palavra – Eles muitas vezes não fazem coisas boas. Acredite – Sorriu fraco – O que quero dizer é que eles tentariam te matar de vez, para te levar logo para o céu, sua alma é importante pra eles. É uma alma pura, algo que pouquíssimas pessoas tem o luxo de possuir.

— E isso é bom? – Perguntei e ele riu.

— Digamos que isso é meio relativo – Ele sorriu para mim e eu retribui quase que involuntariamente, condenando-me logo em seguida pelo ato. Eu estava no Inferno com um demônio que eu não sabia bem o que faria comigo, não podia de modo algum gostar de alguém.

O homem se sentou em uma das cadeiras perto da que eu ocupava, ficando de frente para mim. A distancia era curta, mas como eu realmente sou muito idiota de pensar isso, parecia que avia um continente entre nós, o que seria muito bom se existisse, assim eu não estaria aqui e não começaria a me apaixonar. Caramba, eu tenho que parar de repetir a mesma coisa milhões de vezes!

— Como eles iriam me... – Engoli em seco, temendo a palavra – Me matar, ahn...? – Perguntei, tentando lembrar se ele me disse seu nome alguma vez. Constatei que não.

— Hyntf – Ele sorriu ao me ver estranhar o nome – Mas pode me chamar pelo meu nome humano, quer dizer, se é que esse nome é válido. Não sei se esse nome também parece estranho para você, mas pode me chamar de Brian, se quiser.

— É um nome bonito – Deixei escapar o comentário num sussurro.

— Respondendo a sua pergunta, — Ele desconversou e fiquei feliz pelo ato, mas mesmo assim abaixei a cabeça para não deixar ele perceber o quanto eu tinha corado – Eles não te matariam da maneira que eu tentei, aliás, me desculpe por aquilo – Percebi que ele se arrependeu de ter pedido desculpas, o que me deixou um pouco triste – Os anjos te matariam rápido, apenas para pegar sua alma. E, antes que você pergunte, não, não existe um céu, só a inconsciência, como se você estivesse em coma ou como se estivesse dormindo, mas sem sonhos.

— Então tudo que nós acreditamos... – Comecei a dizer.

-... É mentira – Ele afirmou, completando minha frase.

Suspirei, eu nunca acreditei em Céu e Inferno, mas agora que soube que não existiria nada depois do final fiquei um pouco decepcionada. Voltei a fitar seus olhos, escolhendo as palavras para minha próxima pergunta e tentando não parecer idiota ao olhá-lo.

— E então, o que vai fazer?

— Eu não sei – Ele sussurrou – Acabei de descartar a idéia de chamar aqueles desgraçados de asas, e eu tenho fortes suspeitas de que você tenha um demônio aprisionado junto da sua alma. Isso é um problema — Estranhamente eu não me assustei, apenas continuei a fitá-lo.

— Mas o que você vai fazer agora? – Repeti a pergunta.

— A pergunta correta é: o que você vai fazer agora. E a resposta é: dormir – Ele sorriu fraco e por um momento me senti importante pra ele, por mais que eu estivesse mentindo para mim mesma, a sensação era tão boa... – Ainda é humana, então você precisa dormir.

Ele levantou e me puxou pela mão e, como se eu tivesse levado um choque, um calafrio percorreu toda a minha espinha. Meu Deus faça com que ele não tenha percebido isso! Nossa, que ironia, eu falando de Deus enquanto eu estou no Inferno, que eu me lembre não existe nenhum Deus aqui. Sorri fraco para o homem ao meu lado e o deixei conduzir-me até um tipo de quarto com uma cama também da Inglaterra Vitoriana ao lado de uma “janela” que tinha vista para um mar de fogo, as paredes de pedra igual a toda “casa” e nenhum outro móvel. Era estranho, mas o local não era desagradável.

— Eu gosto de ficar aqui – Ele comentou enquanto me fazia deitar, desarrumando os lençóis perfeitamente colocados – Apesar de não dormir, esse quarto é o lugar que eu mais gosto de ficar – Ele sorriu e agachou ao lado da cama – Agora durma, vou pensar em algo para te tirar daqui. E prometo não ter um ataque como da ultima vez quando estávamos nas celas – Ele me olhou, preocupado.

Sorri em resposta, não deixando ele perceber minha felicidade por perceber que ele se preocupava comigo. Observei-o levantar e começou a sair do quarto lentamente, ainda prestando atenção em mim. Ele parou perto de uma espécie de porta e me deu uma ultima olhada.

— Brian, – Sussurrei quando ele estava se virando para sair – Obrigada, quer dizer, por não me matar – Acrescentei rapidamente, para ele não pensar outra coisa. Ele sorriu em resposta e foi embora.

Um vazio preencheu o quarto e me senti um pouco sozinha. Com medo. Porém o sono foi mais forte e agora, sem a companhia dele, minhas pálpebras começaram a pesar e deixei a inconsciência tomar conta de minha mente. Pela primeira vez ao dia eu consegui descansar.

xx Hyntf’s POV xx

Mas que diabos eu estava fazendo? Eu estava realmente ajudando um mortal? Aquelas perguntas não saiam de minha mente e, infelizmente, eu não tinha uma resposta concreta para nenhuma delas. Suspirei e caminhei novamente para a sala principal, deixando Lea no quarto no final do corredor, perto da minha coleção. Tinha certeza que ela não se atreveria entrar ali. Sentei em uma das cadeiras e fechei os olhos, tentando inutilmente descansar. Senti meus olhos ficarem marejados e eu sabia o motivo, agora que mencionei meu maldito nome humano para ela, tudo veio à tona. Eu tinha me forçado tanto para esquecer, meu esforço inútil de seguir como um demônio normal. Mas eu não era um, eu era um demônio “especial”, diferente. Eu já fui humano, eu já fui um mortal. Meu maldito passado oculto.

Deixei escapar algumas lágrimas e um nó se formou em minha garganta, me forçando a deixar outras lágrimas escaparem, e com elas o soluço e a dor. Mas eu não o fiz, o que aumentou mais ainda a minha falta de ar. Porque eu não podia ser que nem os outros? Eles são tão mais poderosos, não tem sentimentos e são demônios legítimos. Eu sou o único “humano” que conseguiu fugir do sofrimento eterno e se tornar um demônio, mas eu tinha que matar muitos outros para isso. Eu não consigo saber se me arrependo de tudo ou não. O Céu também é muito cruel quando quer, assim como o Inferno pode ser bom com os seus. Eu sou eternamente condenado a conviver com o sofrimento e a dor e eu sei muito bem usar isso ao meu favor, para esconder a minha dor. Mas agora com Lea... Ela conseguiu aflorar meus antigos sentimentos humanos que foram se perdendo com o passar do tempo, ela conseguiu recuperar meus sonhos que não sobreviveram à queda.

Que se dane! Deixei o resto das lágrimas caírem e o nó em minha garganta se desfez, dando lugar aos soluços que cortavam minha respiração. Aquilo purificou minha alma, se é que ainda tenho uma. Eu não podia deixar que o antigo Brian se libertasse, eu tinha que ser Hyntf, o Ladrão de Almas. Brian, é estranho ouvir esse nome, ou até pensar nele, há anos eu não ouço alguém pronunciá-lo e agora eu estava dizendo. Isso era preocupante, quer dizer, e se eu voltar a ser um mortal? Não me permiti voltar a pensar nisso, era repugnante e, que a Deusa ouça isso: impossível. Talvez trabalhar me ajude me esquivar dos meus devaneios, como tem acontecido a mais de mil anos.

Certo, é só se concentrar e deixar alguma visão invadir minha mente. Fácil. Depois é só coletar mais uma alma, colocar na coleção e ver se Lea acordou. Só não podia demorar e tudo ficaria bem. Eu ainda estava de olhos fechados, então limpei minhas lagrimas e me concentrei.

Um garoto de uns 16 anos concentrava toda a sua atenção em algum programa inútil na televisão, algo a ver exatamente com demônios. Ele parecia gostar do que via, toda essa morte e sofrimento. Um barulho pode ser ouvido do quarto e ele não prestou atenção, ainda dando mais importância para a televisão. Uma sombra se esquivou em meio à escuridão da sala e parou na frente do garoto, tomando a forma de um demônio alto e com as feições totalmente desfiguradas. Ele soltou um grito de horror enquanto o demônio entrava em seu corpo, possuindo-o. O garoto agora estava sobre seu comando. Alguns pingos de sangue caíram no chão, formando um nome: Richard John.

Abri os olhos, esperando algum tipo de surpresa ao fitar a sala. Constatei que não tinha nada de preocupante e desapareci, tomando novamente o posto de Hyntf, o Ladrão de Almas. Sem sentimentos, sem compaixão. Do jeito que eu era antes de conhecer Lea.

Observei um garoto de também 16 anos dormir calmamente, sem nem ter idéia do que ia acontecer. Ele tinha o cabelo preto curto, o rosto nada atraente. Dei uma olhada em seu quarto, cheio de pôsteres de bandas de Rock, e, pelo que sei, eram consideradas boas. Tentei não me distrair muito e vasculhei sua mente, procurando tipo de medo, fobia ou qualquer coisa dentro dos padrões que eu usava. Dei um sorriso irônico, não era um medo bom, mas daria um ótimo “pesadelo” e uma ótima morte: O garoto tinha pavor de bonecos de ventríloquo.

Comecei a preparar o “terreno” dentro de sua mente, já preparando o cenário para uma morte relativamente rápida e, pelo menos para ele, horrorosa. Já estava tudo pronto quando me lembrei de uma coisa: a alma dele não poderia ser pura senão demoraria mais do que o esperado e os anjos iriam se intrometer. Certifiquei-me se o garoto era um pecador, alguém que os anjos não aceitariam e fiquei feliz com a resposta. Estava explicado tantos pôsteres de bandas pesadas, o garoto adorava coisas relacionadas com o meu trabalho e com o meu mundo. Entrei em sua mente e por um momento me reconheci: Aquele era eu, aquele era o verdadeiro Ladrão de Almas.

Estava escuro e o garoto andava por um corredor extremamente longo e estreito, ainda confuso do que estava fazendo, suas pernas pareciam ter vontade própria. Ele andou mais um pouco até chegar em uma parede, ele não tinha para onde ir, estava encurralado. Um barulho pode ser ouvido de longe, madeira sendo batida uma na outra e algumas risadas fracas. Ele começou a procurar de onde vinha à origem do som e conseguiu avistar alguma coisa se esquivando nas sombras.

Os barulhos começaram a aumentar, assim como as risadas que se tornavam cada vez mais diabólicas. Um boneco de madeira caiu no chão, os olhos grandes com a pintura descascando e totalmente sujo. O garoto começou a entrar em pânico, o que me assustou, não esperava por aquilo. Então o medo não era tão simples, aquilo era uma fobia. Mas não podia fazer isso se tornar algo demorado, então resolvi adiantar um pouco as coisas. Estava preocupado com Leandra.

O boneco começou a se mexer lentamente, fitando os olhos assustados do garoto. Eu quis rir, mas não podia estragar a cena.

— “Você quer brincar?” – A boca do boneco se mexeu para dar lugar a um som horrendo, algo que era para parecer inocente pareceu ter saído da boca de um Serial Killer, uma maldade visível.

O garoto começou a chorar, fazendo uns movimentos estranhos com a cabeça. Ele ia ter algum tipo de ataque? Alguns outros bonecos começaram a surgir das sombras, para o desespero do menino. Todos com um falso sorriso nos “lábios” se aproximavam do garoto. Aquilo estava demorando demais! Resolvi interferir.

Surgi em sua frente, com a minha clássica forma de caveira e com a mesma foice ensopada de sangue ao meu lado. Esse pelo menos deu seu ultimo grito antes de ter a cintura separada das pernas. Não dei mais uma palavra, apenas peguei a alma e saí dali. Eu ainda não estava bem, era estranho todo aquele sofrimento não me dar prazer. E, além disso, eu estava com uma dor de cabeça que não sentia há anos.

Coloquei aquela maldita alma em uma cela qualquer e andei até o quarto. Lea ainda dormia, graças a Deusa! Permiti-me sorrir e sentei ao seu lado na cama, meus dedos brincavam involuntariamente com seu cabelo. Eu não conseguia aceitar que sentia alguma coisa por ela, mas eu sabia que esse pensamento repugnante era verdade. Ouvi algumas palmas e olhei para porta, um demônio estava parado ali, com um sorriso irônico nos lábios e com o olhar vitorioso.

— Parabéns, Brian – Ele ironizou – Você conseguiu, você foi fraco. Quando quer voltar a sofrer eternamente?

Notas finais
Brian foi o primeiro nome que eu pensei :x não sei se combina muito com o Hyntf, mas enfim... A história dele vai ser explicada nós próximos capitulos =3 Sim! Lea está mesmo se apaixonando pelo Hy (quem não se apaixonaria? ta, eu sou estranha). E então? Dêem ideias e ajudem a minha criatividade a achar o caminho de casa =)