O Lado Sombrio do Amor
20 Sombras do passado
Narrado por Jacob
A sala de reuniões da ala administrativa da Black’s Enterprises estava silenciosa, exceto pelo som do relógio analógico marcando cada segundo. A exposição em Manhattan seria em uma semana, e estávamos reunidos para alinhar os últimos pontos. Mas, como sempre, com Bonnie e meu pai, o foco da conversa estava prestes a mudar.
Bonnie inclinou-se na cadeira, relaxado demais para um homem que dizia sempre carregar o peso do passado nos ombros.
— Parabéns, Jake — ele disse, erguendo a xícara de café como se brindasse. — Essa exposição vai marcar sua volta por cima. É importante, principalmente depois do... vexame com a filha do Yong.
Mordi o maxilar ao ouvir aquilo. O nome de Claire ainda tinha gosto amargo.
— Já estou cuidando disso — respondi, firme.
Billy, ao meu lado, assentiu.
— Ele tem razão, Bonnie. Jacob está limpando sua imagem. A jovem Newton — ou melhor, Cullen — tem sido uma presença estratégica.
Bonnie riu. Um som baixo, quase cínico.
— Ah, eu percebi. Você e ela têm causado burburinhos. Ela é linda. Carismática. A mídia adora esse tipo de história: redenção, amor, superação... escândalos familiares. — Ele se recostou. — Mas me diga uma coisa, Jake. Você sabe mesmo quem é Renesmee Cullen?
— Billy me contou tudo — respondi, encarando meu tio. — Sobre a amizade entre os Cullen e os Black. Sobre o triângulo amoroso. A gravidez. A fuga de Edward. A morte de Isabella e Mike. E sobre Charlie se afastar de todos depois disso.
Bonnie trocou um olhar rápido com Billy. Um olhar que dizia mais que palavras.
— Contou tudo... ou contou a versão que a Renée Dwyer quis que todos acreditassem?
Meus olhos se estreitaram.
— Como assim? — perguntei, sentindo um incômodo crescer no peito. — Que parte da história vocês dois não estão me contando?
Billy suspirou e cruzou os braços, mas foi Bonnie quem respondeu:
— A parte verdadeira. A que ninguém ousou colocar em relatórios ou manchetes de jornal. A parte que foi enterrada com Isabella Newton.
Meu coração acelerou.
— Estou ouvindo.
Bonnie se inclinou para frente, os olhos mais sérios do que eu jamais vira.
— Se você quer mesmo se envolver com Renesmee, Jacob... então precisa saber exatamente de onde ela veio. E por que a verdade sobre o sangue que corre nas veias dela... pode ser muito mais perigosa do que você imagina.
A tensão na sala ficou mais espessa que o ar. Meu olhar alternava entre Bonnie e meu pai, esperando uma explicação que parecia vir de uma novela antiga e mal escrita — mas eu sabia que, vindo deles, não havia nada de ficção.
Bonnie cruzou as mãos sobre a mesa e começou:
— Eu e Edward Cullen éramos como irmãos. Estudamos juntos, crescemos juntos, dividimos sonhos e até o futuro da empresa Cullen. Eu confiava nele como ninguém. Até Isabella Swan aparecer na nossa vida.
Meu coração bateu mais forte ao ouvir o nome completo da mãe de Renesmee.
— Bella era inteligente, doce... determinada. Quando chegou à universidade, todos os olhos se voltaram pra ela. Incluindo os meus — Bonnie sorriu com tristeza —, mas foi Edward quem a conquistou. Eu recuei. Eles estavam apaixonados. E, por respeito à nossa amizade, me afastei.
— Então o que aconteceu? — perguntei, sem conseguir conter a urgência na voz.
— Irina Denali. A noiva de Edward na época — disse Bonnie, os olhos endurecendo. — A família Cullen tinha planos para ele, e Bella não fazia parte deles. Irina sabia que Edward estava prestes a romper o noivado. E ela fez o que qualquer mulher desprezível, desesperada pelo poder, faria: armou.
— Como assim “armou”? — perguntei.
Bonnie olhou para Billy, como se esperasse permissão, e meu pai apenas assentiu com o queixo.
— Irina criou uma situação onde Edward nos encontrou — eu e Bella — em um momento mal interpretado. Bella estava chorando. Eu a consolei. Foi só isso. Mas Irina fez Edward acreditar que havia algo mais. Que Bella e eu tínhamos... um caso.
Senti o nó se formar em minha garganta.
— E foi aí que ele terminou tudo?
Bonnie assentiu, a voz firme:
— Sim. Ele terminou tudo. E quando Bella contou que estava grávida, ele disse que não era dele. Que devia ser meu. Eu neguei, claro. Mas ele não quis ouvir. Se afastou dela, da criança... de tudo. A verdade é que Edward fugiu. Foi covarde.
Billy tomou a palavra então, completando:
— O que eu vou te contar não está em nenhum dossiê, Jacob. Nem Billy teve coragem de te dizer essa parte. Talvez por vergonha... ou por saber que isso muda tudo.
Meu olhar alternou entre ele e meu pai, que não respondeu. Só permaneceu em silêncio, com os olhos pesados de quem carrega mais do que deveria.
— Quando Irina descobriu que Bella estava grávida, Irina agiu rápido. A família dela... tinha poder. Muito poder. A primeira coisa que fizeram foi destruir Charlie Swan. Ele era um policial honesto, linha reta. Mas Irina fez com que ele perdesse o emprego. Usaram influência, plantaram provas... desmoralizaram ele completamente.
— O quê? — perguntei, pasmo. — Mas... por quê?
— Para mostrar pra Bella o que aconteceria se ela não obedecesse. Irina queria que Bella sumisse. Que a criança desaparecesse. Queria apagar qualquer vestígio da traição de Edward.
Bonnie olhou para mim, com dor nos olhos.
— Bella entrou em pânico. Estava sozinha, sem dinheiro, com um pai arruinado, e uma família poderosa contra ela. Quando a criança nasceu... ela fez o que achou que era certo. Entregou a filha para adoção.
— Não... — sussurrei, sentindo a verdade como um soco no estômago.
— Eu tentei convencê-la — Bonnie continuou, com a voz embargada. — Eu juro que tentei. Mas ela achava que a filha estaria mais segura longe dela... longe de tudo. Foi então que Mike Newton e sua esposa, Isabella, adotaram a criança. Oficialmente. Legalmente. Renesmee cresceu acreditando que Isabella Newton era sua mãe.
Fiquei em silêncio, imóvel.
A cabeça latejava com a avalanche de verdades. Meu peito subia e descia com força.
— Você está me dizendo... que a Isabella que Renesmee conhece como mãe... não é sua mãe verdadeira?
Bonnie assentiu, com pesar.
Bonnie se recostou na cadeira. O silêncio se arrastou por segundos que pareceram minutos. Eu podia ouvir meu próprio coração batendo enquanto ele se preparava para soltar a bomba.
— Jacob... a Isabella que Renesmee acredita ser sua mãe… não é sua mãe de sangue.
Engoli em seco.
— E onde está Isabella Swan agora?
Bonnie hesitou. Olhou diretamente nos meus olhos.
— Presa. Em uma penitenciária federal no interior do estado de Nova York.
— Presa? — repeti, chocado. — Por quê?
— Ela foi acusada do assassinato de Irina Denali. Três anos após o nascimento de Renesmee.
Senti o chão fugir dos pés. O ar ficou mais pesado. Tive que me apoiar na mesa.
— Bella... matou Irina?
— É o que dizem — respondeu Billy, a voz firme. — Mas nem tudo é o que parece. Houve um julgamento. Irina foi encontrada morta, e todas as evidências apontaram para Bella. A imprensa pintou um retrato de uma mulher desequilibrada, com um histórico emocional instável e motivos de sobra. Mas eu nunca acreditei nisso. E Bonnie também não.
Bonnie completou:
— Ela estava prestes a recuperar a guarda da filha. Tinha conseguido um advogado, novas provas, testemunhas… E então Irina apareceu morta. Foi conveniente demais. Rápido demais. Como se alguém quisesse calar tudo antes que a verdade viesse à tona.
Meu coração disparou.
— E Renesmee não sabe?
— Nada — disse Billy. — Para ela, a mãe morreu em um acidente. A história oficial foi cuidadosamente moldada para proteger o sobrenome Cullen e enterrar o escândalo.
Me virei, encostando na parede do escritório.
Renesmee… tudo o que ela acreditava sobre si mesma era uma mentira. A mulher que ela pensa ser sua mãe está morta. E a verdadeira… vive entre grades, abandonada por todos.
Fale com o autor