Narrado por Renesmee


A brisa leve do mar entrava pela escotilha aberta, misturando o aroma do sal com o calor da pele dele. Acordei antes do sol nascer completamente, ainda envolta nos braços de Jacob, com a respiração dele ritmada contra meu pescoço.

Ele me puxou um pouco mais para perto, como se inconscientemente soubesse que eu estava acordada.

— Está fugindo? — a voz dele veio rouca, ainda sonolenta.

Sorri, meus dedos traçando círculos preguiçosos no peito dele.

— Não hoje. Acho que você vai ter que me aguentar mais um pouco.

Ele riu, aquela risada baixa e quente que me fazia arrepiar.

— Ótimo. Estava mesmo pensando em te sequestrar por mais uns dias.

Eu me apoiei no cotovelo e o encarei. Os olhos castanhos dele estavam cheios de algo que me desarmava: paz.

— E depois desses dias? — perguntei, tentando manter o tom leve, mas a pergunta ficou ali, entre nós.

Ele levou a mão até meu rosto e passou o polegar pela minha bochecha.

— Depois desses dias... a gente volta pra Manhattan. Apresentamos a nova campanha. Depois disso, tenho um convite para te fazer.

— Que tipo de convite? — arqueei uma sobrancelha, brincando, mas sentindo meu coração acelerar.

— Algo entre um jantar formal e um passo adiante — ele respondeu, misterioso. — Mas só se você prometer não fugir.

Eu brinquei, fingindo pensar.

— Depende... haverá vinho?

Ele gargalhou e me puxou para cima dele de novo.

— Vai ter vinho, vela, música e o homem que está completamente... — ele hesitou e então completou — fascinado por você.

Meu coração deu um pulo. Parte de mim queria mergulhar nesse sentimento, me deixar levar, esquecer tudo. Mas outra parte... a parte que carregava os nomes Black e Cullen como fantasmas no peito, ainda sussurrava que eu não podia me perder.

— Jake... — comecei, mas ele me beijou a testa.

— Eu sei. Você ainda está dividida. Mas só quero que saiba... que estou aqui. E que isso, — ele apertou minha cintura de leve — é real. E é só o começo, Nessie.

Fechei os olhos por um instante, sentindo o calor dele, seus beijos, seu corpo se moldando no meu enquanto me fazia dele, nossos corpos diaputando com o balanço leve do iate, o futuro incerto... mas pela primeira vez em muito tempo, eu não sentia medo. Só o peso de escolhas importantes.


Narrado por Jacob


O céu de Manhattan nos recebeu nublado, mas havia algo de quente no ar — talvez fosse o jeito como ela sorriu ao descer do carro, ou o toque leve da mão dela na minha antes de se despedir com um beijo no rosto que, mesmo casto, ficou gravado na minha pele como fogo.

— A gente se vê amanhã? — perguntei, inclinando-me pela janela do carro.

— Se você não me mandar mais pra alto-mar, talvez — ela disse com um sorrisinho brincalhão e entrou no prédio.

Fiquei alguns segundos ali, parado, observando a porta fechar. A certeza me consumia agora. Não era impulso. Era decisão.

Voltei para casa sentindo a adrenalina de quem sabia que estava prestes a mudar tudo.

Assim que entrei, ouvi passos apressados pelo corredor e a voz da minha mãe.

— Jacob! — Sarah apareceu, sorrindo. — Que bom que voltou. E... — ela me olhou de cima a baixo, sorrindo com malícia — tem algo em você... você está diferente.

Dei um meio sorriso.

— Talvez seja porque eu decidi o que quero. E dessa vez, não tem volta.

Antes que ela pudesse perguntar, Billy surgiu na sala com sua bengala.

— E o que exatamente você decidiu, filho?

— Que vou pedir Renesmee em casamento. Em breve.

Sarah levou a mão ao peito com um pequeno suspiro emocionado. Billy sorriu... aquele sorriso raro que sempre escondia algo mais fundo.

Ele se aproximou, batendo a bengala no chão como se fosse um brinde informal.

— Finalmente, está deixando de andar em círculos. Estou orgulhoso de você.

Nos abraçamos. Foi breve, mas sincero. Bonnie apareceu no topo da escada, já sabendo pela expressão nos nossos rostos que algo grande tinha sido dito.

— Perdi a notícia? — ele desceu devagar. — Ouvi palavras como "casamento"?

— Vai acontecer — confirmei, firme.

Bonnie se aproximou e deu um leve soco no meu ombro.

— Então a herdeira Cullen será uma Black... quem diria.

Antes que eu pudesse responder, a campainha tocou.

O empregado atravessou a sala até a porta principal. O som do trinco ecoou no ar, e então a voz dele anunciou:

— Senhor Edward Cullen está aqui.

A tensão caiu sobre a sala como um véu grosso. Billy travou. Sarah olhou assustada. Bonnie levantou o queixo.

E eu... senti meu maxilar se apertar.

Ali, parado na entrada com um olhar gélido e a postura impecável, estava ele.

Edward Cullen.

E de repente, tudo que parecia sob controle... se tornou uma partida de xadrez prestes a começar.


O silêncio na sala era espesso como fumaça. Ninguém se moveu. O empregado se afastou discretamente, como se sentisse o peso que aquele nome — Edward Cullen — tinha para todos nós.

Ele deu dois passos à frente. O olhar cravado em mim como se pudesse ver tudo o que eu pensava.

— Eu não vou permitir que você use minha filha — disse, firme, pausado, como um juiz prestes a dar sentença.

A menção de minha filha soou como aço contra pedra. Pela primeira vez, ele assumia abertamente o que Bonnie vinha dizendo nas entrelinhas. E aquilo fez o sangue em minhas veias correr mais rápido.

Eu abri a boca, mas antes que pudesse responder, foi Bonnie quem falou.

— Sua filha? — ele riu, sem humor. — Agora é sua filha?

Edward o encarou. Os dois se mediram como antigos titãs ressuscitados de um passado mal enterrado.

— Isso não é entre você e o Jacob, Edward. — Bonnie cruzou os braços. — Ele tinha oito anos quando tudo aconteceu. Oito! Não tem culpa do que a gente viveu. Não misture os erros de ontem com a vida dele hoje.

— Ele carrega o nome Black — disse Edward, ríspido. — E carrega as intenções do pai. Eu conheço Billy.

Billy se moveu ao fundo, mas não interveio. Sarah estava pálida, tensa. Eu me mantive calado por um segundo, observando os dois homens se enfrentarem no meio da minha sala.

— O que você realmente quer, Edward? — Bonnie perguntou. — Tirar sua filha de perto do único homem que a protege? Ou é o medo de ver a história se repetir e dessa vez ser você o vilão?

— Você não sabe o que diz. — Edward cerrou os punhos.

— Eu sei exatamente o que digo — rosnou Bonnie. — Você foi um covarde. Abandonou Bella. Fechou os olhos para o que Irina fez. Fugiu como um rei mimado quando a coroa pesou. E agora vem cobrar dignidade?

Os olhos de Edward se acenderam com raiva.

— Isso não é sobre mim e você, Bonnie.

— Mas sempre foi. — Bonnie avançou um passo. — Você não veio proteger a Nessie. Veio proteger sua culpa.

Eu respirei fundo. O ar parecia espesso. Não podia permitir que aquele duelo de fantasmas tomasse o controle da minha vida — ou da dela.

— Chega. — Minha voz ecoou mais firme do que esperava. — Não vou permitir que usem a Renesmee como campo de batalha. Eu a amo. E ela está segura comigo.

Edward me olhou. Pela primeira vez, sem tanto desprezo... mas com dor.

— Ela não sabe o que vocês são capazes de fazer.

— Então deixe que ela descubra — disse Bonnie.

O silêncio retornou. Edward parecia prestes a dizer algo, mas apenas assentiu, tenso.

Virou-se e saiu sem mais uma palavra.

Assim que a porta se fechou, deixei escapar o ar dos pulmões.

Bonnie me olhou e disse:

— Essa guerra... mal começou.

E eu sabia que ele tinha razão.



Narrado por Renesmee


O apartamento estava silencioso. Só o som do relógio na parede e o leve tilintar da colher que girava em minha xícara de chá. O notebook aberto sobre a mesa exibia as pastas organizadas: Black, Cullen, Dwyer. Cada nome com segredos que eu ainda precisava arrancar com calma.

Mas naquele instante, meu foco era outro. Eu traçava os próximos passos com cautela. Estava tudo se encaixando — ou quase tudo.

O som da campainha me tirou dos pensamentos.

Suspirei. Vesti o sorriso mais doce que tinha e fui abrir a porta.

— Claire? — minha voz saiu suave, mas surpresa. — Que bom te ver...

— Poupe sua atuação, Renesmee. — ela entrou sem esperar convite. Os olhos avermelhados e o tom duro revelavam tudo o que estava por vir.

Fechei a porta com calma.

— Claire, o que aconteceu?

— Você e Jacob? — ela jogou de uma vez, direta. — É isso mesmo? Vocês estão juntos?

Eu engoli em seco, com perfeição.

— Claire... não foi planejado. Aconteceu. As coisas mudaram depois da festa, depois de tudo que você passou... Eu jamais quis te magoar.

— Você jamais quis? — ela riu com sarcasmo. — Renesmee, você foi acolhida por mim. Dividiu tudo comigo. Eu te defendi, te protegi... e no fim, você só queria uma coisa: o meu noivo.

— Não é verdade. — dei um passo à frente, com a voz trêmula, fingindo emoção. — Eu tentei resistir. Juro que tentei, Claire. Mas...

— Mas o que?! — ela interrompeu. — Ele era MEU. E você sabia disso! Me viu sonhar com o casamento, viu o anel, ouviu os votos e ainda assim ficou com ele?

— Você estava com o Quil — sussurrei, como se isso justificasse algo. — Eu vi vocês...

Claire ficou imóvel. Por um instante, vi a culpa cruzar seu rosto. Mas ela se recompôs.

— Aquilo foi um erro. Um erro que você usou para me destruir. E você conseguiu. Agora eu entendo... desde o começo, você quis ocupar o meu lugar.

Fiz meus olhos encherem de lágrimas. Dei dois passos para trás, como se estivesse ferida.

— Claire... eu nunca quis te machucar. Você é minha amiga. Eu não escolhi isso...

— Você escolheu sim. — ela apontou o dedo. — Escolheu no minuto em que olhou pra ele com aquele seu olhar inocente de quem finge ser coitadinha.

Ela respirou fundo, tremendo de raiva.

— Agora tudo faz sentido. Você sempre quis ser eu. Mas eu juro, Renesmee... isso ainda não acabou.

Ela se virou para sair. Antes que colocasse a mão na maçaneta, deixei as lágrimas escorrerem, baixei a cabeça e murmurei com a voz embargada:

— Vai embora, Claire... por favor.

Ela hesitou por um segundo... e então saiu, batendo a porta atrás de si.

Eu me virei devagar, enxuguei as lágrimas falsas do rosto e fui até o espelho do corredor.

O reflexo mostrava alguém aparentemente abalada. Mas só eu sabia:

A melhor amiga doce e inocente havia desaparecido.


Narrado por Claire


Entrei no apartamento como um furacão. Bati a porta com força, jogando a bolsa no sofá sem nem olhar. Minha cabeça latejava de raiva e confusão.

A discussão com Quil ainda reverberava nos meus ouvidos. Ele não entendia. Achava que eu estava sendo impulsiva por voltar a Nova York. Mas não era isso. Eu precisava estar aqui. Eu precisava descobrir a verdade.

Comecei a andar de um lado para o outro, os saltos batendo no piso de madeira como se marcassem o ritmo dos meus pensamentos.

— Quem teria como filmar aquilo? — murmurei, me encarando no espelho. — Quem?

Meu apartamento era seguro. Eu confiava em poucas pessoas para entrar ali. Muito poucas. E ainda assim, aquelas imagens estavam por toda parte, me expondo, me destruindo...

Foi então que ouvi.

— Você precisa ser mais cuidadosa com quem deixa entrar, Claire.

Meu corpo gelou.

Girei nos calcanhares, arregalando os olhos.

— Pai? — minha voz saiu ríspida. — O que você está fazendo aqui? Como entrou?

Logan Yong estava ali, sentado na poltrona como se fosse o dono do mundo. Cruzou as pernas, elegante, e ergueu algo na mão. Uma pequena câmera.

— Chave-mestra. E uma filha que confia demais em quem não deve — ele respondeu, girando o equipamento entre os dedos.

— O que é isso? — perguntei, sentindo a garganta secar.

— A pergunta certa é: quem instalou isso no seu apartamento? — ele rebateu com um sorriso cínico.

Meu estômago revirou. Dei um passo à frente, sem tirar os olhos da câmera.

— Você sabia?

— Claro que não. Mas eu sou o único que se importa o bastante pra investigar. E sabe o que eu descobri, Claire? — ele se levantou, andando devagar até mim. — Que você precisa ser mais seletiva com suas amizades. Especialmente com aquelas que fingem ser como irmãs… enquanto filmam você pelas costas.

— Renesmee? — sussurrei, sentindo o mundo girar por um instante.

Logan assentiu lentamente, como quem saboreava a queda de uma rainha.

— Tudo leva a ela. O acesso. O momento. A motivação. Mas não se preocupe, minha filha. Você terá sua chance de vingança. Vamos jogar o jogo dela… melhor do que ela imagina.

Ele estendeu a câmera na minha direção.

— Mas primeiro, você vai sorrir. Vai fingir que acredita nela. E quando for a hora certa… vamos derrubar cada uma das peças do tabuleiro.

Eu peguei o objeto com a mão trêmula, engolindo o nó na garganta. Por dentro, a fúria queimava como fogo vivo.

Renesmee Newton achava que podia me destruir.

Mas o jogo estava longe de acabar.

Agora… era pessoal.