Narrado por Renesmee


Cheguei em casa exausta, o corpo ainda carregando o peso dos últimos dias. Mal fechei a porta e ouvi vozes vindas da sala. Caminhei devagar até o ambiente e encontrei Alec, Bella, Edward e Bonnie sentados, conversando. Todos pararam ao me ver.

Bonnie levantou-se primeiro, se aproximando com um sorriso gentil.

— Renesmee. — Ele segurou minhas mãos. — Fico feliz que você voltou bem com Clara.

— Obrigada, Bonnie — sorri, mesmo com os olhos cansados.

Meu pai se levantou e veio até mim.

— Oi, filha — disse ele com a voz grave e suave ao mesmo tempo. — Estávamos esperando você.

Eu me aproximei e abracei minha mãe.

— Mãe… eu soube. — Me afastei o suficiente para olhar em seus olhos. — Que o Logan matou a Irina.

Bella assentiu, os olhos marejados.

— Demorou trinta anos para se fazer justiça — disse ela com tristeza.

Bonnie cruzou os braços, firme.

— Ainda não foi feita. — Sua voz era determinada. — Logan está foragido. E eu e Edward vamos descobrir por que ele matou Irina. — Ela olhou para o meu pai. — Não foi apenas um acidente, algo muito maior está por trás disso. E você sabe disso, Edward.

Edward assentiu com um leve movimento de cabeça, o maxilar tenso.

— Eu sempre soube que o sumiço de Irina escondia algo... mas não imaginava isso.

Alec se aproximou de mim, como sempre fazia quando meu coração pesava demais. Passou o braço pela minha cintura e me puxou suavemente para perto, me envolvendo em seu abraço seguro.

— O passado está se cruzando com o presente — murmurou ele ao meu ouvido, sério.

Eu respirei fundo e encostei minha cabeça no ombro dele.

— Eu sei. — Me afastei devagar, olhando para todos. — Mas fui eu quem começou a cavar o passado. Fui eu que levantei a terra para saber sobre meu passado e agora... estou descobrindo muito mais do que imaginei.

Bonnie me olhou com firmeza e carinho.

— Talvez porque agora seja a hora. A hora de colocar tudo no lugar.

Bella se aproximou e segurou meu rosto entre as mãos.

— Seja forte, minha menina. A verdade dói, mas é o único caminho para a paz.

Alec beijou minha testa.

— E você não está sozinha nisso.

Fechei os olhos por um momento.

— Por mais doloroso que seja... eu sei que estou onde preciso estar.

E agora... eu fatia qualquer coisa para proteger minha filha.


A água quente escorria pelo meu corpo, levando embora um pouco do cansaço, mas nenhuma das dúvidas que se acumulavam dentro de mim. Eu me demorei no banho, deixando a mente vagar entre memórias e medos. Depois, enrolei a toalha nos cabelos e vesti uma roupa confortável. Quando saí do banheiro, Alec estava encostado na moldura da janela, observando o horizonte da noite nova-iorquina com os braços cruzados.

— Você demorou — disse ele com um meio sorriso, mas a expressão cansada nos olhos entregava o que a voz não dizia.

Sentei na poltrona perto da penteadeira e comecei a secar o cabelo com calma.

— Eu precisava de um tempo para respirar — respondi, encarando meu reflexo por um instante.

Alec se aproximou e apoiou as mãos nos ombros da cadeira, atrás de mim.

— Eu estive pensando... — começou, sua voz baixa e controlada. — Logo voltaremos para Annecy. Você precisa conversar com a Eloise. Ela está mantendo tudo em ordem na floricultura, mas você sabe que nada funciona igual sem você por lá.

Suspirei.

— Eu sei... Eloise deve estar sobrecarregada. E... eu também sinto falta de casa.

Ele se abaixou para ficar à minha altura e olhou dentro dos meus olhos pelo espelho.

— Podemos ficar mais alguns dias aqui, até o reconhecimento oficial da maternidade da Sophie. Mas depois, Renesmee... ela vai amar Annecy. A cidade, as flores, o lago... tudo. É o lugar certo para começar de novo.

Fechei os olhos por um instante, sentindo o coração apertar.

— Alec... — hesitei — eu ainda não sei como vai ficar a guarda da Sophie. Eu não posso simplesmente colocá-la num avião e ir embora. Ela mal me conhece... tem laços aqui. É apegada ao Jacob. E... por mais que me doa dizer isso... ele é um ótimo pai.

Alec se afastou, como se minhas palavras tivessem o empurrado. Cruzou os braços novamente e me olhou com frustração evidente.

— Quer dizer que... você não vai voltar para Annecy?

Me levantei devagar e caminhei até ele.

— Eu vou, Alec. Mas talvez demore. Não é uma decisão simples. Eu lutei por essa menina a vida inteira... agora que a encontrei, não posso arrancá-la da vida dela de um dia para o outro. Ela precisa de tempo. Eu preciso de tempo. Nós três precisamos.

Alec desviou o olhar para a janela, engolindo em seco.

— Eu entendo, Renesmee. Mas também preciso que você entenda... eu não posso largar minha vida, minha carreira, tudo o que construí em Annecy, por tempo indeterminado. Eu... eu esperei por você por doze anos. Mas estou cansado de viver em pausas.

Me aproximei e segurei sua mão.

— E eu sou grata por cada segundo que você esperou. Você me manteve em pé quando ninguém mais pôde. Mas agora... agora tudo está fora de lugar, e preciso consertar isso. Preciso fazer isso por mim. E por ela.

Ele apertou minha mão, mas não disse nada.



Narrado por Jacob


Clara estava sentada no sofá da sala, com os cabelos presos em um coque desfeito e as pernas esticadas sobre uma almofada. A TV estava ligada em algum programa qualquer, mas ela não prestava atenção. Quando me aproximei com dois copos de suco, ela sorriu e pegou o seu.

— Obrigada, pai.

Sentei ao lado dela e fiquei em silêncio por alguns segundos, observando como o rosto dela ainda carregava um traço de fragilidade desde o acidente. Mas os olhos... os olhos estavam cheios de perguntas.

— Pai... — ela começou, baixando o volume da TV — posso te perguntar uma coisa?

Assenti, dando um gole no suco.

— Claro, princesa.

— Como era a Nessie... antes de tudo isso?

Sorri sem perceber, como sempre acontecia quando pensava nela.

— A Nessie... sempre foi forte. Independente. Tinha um riso leve, mas uma alma inquieta. Amava arte, moda, livros. Ela era apaixonada pela vida, mas carregava um mundo nos olhos. E era... é... doce. De um jeito que só ela consegue ser.

Clara ficou me olhando, pensativa.

— Você ainda gosta dela?

Engoli em seco e olhei para a tela da televisão, agora mostrando uma propaganda de férias em família.

— A verdade é que nunca deixei de gostar — admiti, em voz baixa. — Mas as coisas... foram complicadas. Muitas feridas. Muitas escolhas erradas.

Ela não disse nada por alguns segundos, até que falou:

— Quando o exame sair... e confirmar que eu sou filha dela... a Nessie vai me levar embora?

Me virei totalmente para ela, vendo o medo por trás daquela pergunta. Segurei sua mão.

— Filha... a Nessie nunca faria nada contra a sua vontade. Ela não vai te obrigar a nada. Isso eu posso te garantir.

— Que bom... — ela suspirou, aliviada. — Porque eu não quero ir embora. Eu quero continuar aqui. Na minha escola, com meus amigos... com a tia Rachel, a vovó Sarah, a vovô Billy... com você.

Meu coração apertou, mas não pelo medo de perdê-la. Apertou por perceber o quanto ela já pertencia àquele mundo, à nossa família, mesmo que a verdade tivesse mudado as raízes da história dela.

— Você vai ficar aqui, Clara. Com quem você ama. Ninguém vai te arrancar disso — garanti, apertando sua mão de volta.

Ela sorriu e deitou a cabeça no meu ombro.

— Eu só queria que tudo ficasse bem... que ninguém ficasse triste por minha causa.

Beijei o topo da cabeça dela.

— O que importa agora é você. E a gente vai fazer tudo ficar bem, eu prometo.

E no fundo, mesmo com toda a confusão, eu acreditava naquilo. Porque ela era nossa. Minha e da Nessie. E nenhum passado — nem o mais sombrio — ia mudar o amor que já começava a florescer entre mãe e filha.



Narrado por Renesmee


Acordei com a luz suave da manhã entrando pelas frestas da cortina. Estiquei o braço, ainda sonolenta, procurando por Alec ao meu lado... mas o lençol estava frio. Ele não estava ali.

Suspirei e me sentei na cama, passando a mão pelos cabelos. Levantei e me vesti sem pressa, peguei minha bolsa e, antes de sair do quarto, enviei uma mensagem para Jacob:

Bom dia. Como está a Clara?”

A resposta veio quase instantânea:

Está bem. Perguntou por você.

Um sorriso suave escapou de mim. Toquei rapidamente no teclado:

Vou tomar café com ela.”

Saí do quarto. O silêncio tomava conta da casa, e só o som suave das teclas me guiou até a sala. Alec estava sentado no sofá, o notebook no colo, a expressão concentrada.

— Bom dia — murmurei, tentando soar leve.

Ele ergueu os olhos.

— Bom dia.

— A Bella?

— Saiu cedo com o Edward. — Ele fechou o notebook e o colocou sobre a mesinha de centro. — Renee e Phil tinham um compromisso.

Assenti, me aproximando um pouco mais.

— Vou tomar café com a Sophie... — disse com cuidado, observando sua reação.

Alec apenas assentiu com a cabeça, os olhos distantes.

— Depois do resultado do exame de DNA... vou voltar para Annecy.

Aquilo me pegou de surpresa.

— O quê? — dei um passo à frente — Achei que você ficaria mais uns dias...

Ele se levantou, ajeitando a camisa de forma quase mecânica.

— Um dia a mais ou a menos, Nessie... não faz mais diferença. — Seu olhar encontrou o meu, firme. — Eu esperei por doze anos. Mas não vou esperar por doze dias... ou doze meses.

— Alec... — comecei, sentindo um nó na garganta.

— Eu entendo o que está acontecendo. Entendo o vínculo entre vocês dois. Você e Jacob. Entendo o quanto Sophie significa pra você... Mas não vou fingir que não vejo que você já fez sua escolha.

— Não é assim... — sussurrei, mas minhas palavras pareceram fracas até para mim mesma.

Ele sorriu com tristeza e passou por mim, deixando um beijo leve na minha testa.

— Vai tomar café com a sua filha, Renesmee. Você merece isso. Ela também.

Alec seguiu para o quarto e eu fiquei ali, imóvel, sentindo um misto de perda e verdade. Ele estava certo. E talvez, no fundo, eu já soubesse disso.

Mas nada doía mais do que ter que aceitar.

Sophie me esperava. E, por ela, eu suportaria tudo.


Cheguei ao apartamento de Jacob e, assim que a porta se abriu, o cheiro de café fresco e pão quentinho me envolveu como um abraço.

— Estou terminando o café da manhã — Jacob disse da cozinha, vestindo uma camiseta escura e com um pano pendurado no ombro. — Clara deve ficar na cama, ordens médicas.

Assenti, tirando o casaco.

— Ela está bem?

Ele hesitou, e isso me alarmou.

— Ela sentiu dor na perna durante a noite. Não quis te dizer antes pra não te preocupar... Dei o analgésico e ela dormiu de novo, mas achei melhor deixar ela quietinha hoje.

Suspirei, sentindo o peito apertar. Caminhei silenciosamente até o corredor e bati levemente na porta entreaberta do quarto.

— Clara? Posso entrar?

— Pode! — a voz dela respondeu, animada.

Entrei e a encontrei sentada na cama, as costas apoiadas em algumas almofadas. Um livro nas mãos e os cabelos bagunçados pela noite. Ela sorriu quando me viu.

— Bom dia, Nessie.

Meu coração sempre apertava um pouco quando ela me chamava assim. Mas era um aperto bom.

— Bom dia, minha linda — sorri e me aproximei, sentando ao lado da cama. Peguei sua mão com cuidado. — Jacob me disse que sua perna doeu ontem.

Ela fez uma careta fofa.

— Um pouco... só doeu mais quando tentei levantar sozinha. Mas já passou. — Fechou o livro no colo. — Eu só tô cansada de ficar deitada.

— Eu imagino. Mas daqui a pouco você vai estar correndo por aí de novo. Prometo.

Ela me olhou com aqueles olhos grandes, carregando uma curiosidade doce e afiada.

— Você sempre promete coisas bonitas. É estranho... mas eu confio em você.

Sorri, sentindo as lágrimas querendo aparecer.

— Isso é bom... porque eu vou estar aqui, sempre que você quiser. Pra tudo. Pode confiar mesmo, Sophie.

Ela piscou ao ouvir o nome. Não pareceu assustada, apenas... pensativa.

— Você me chamou de Sophie.

— Sim... — apertei sua mão com carinho. — É o nome que eu escolhi pra você. Quando você ainda estava dentro de mim. Eu chamava você de minha pequena Sophie todas as noites. E ainda chamo, aqui dentro. — Coloquei a mão no peito.

Ela ficou em silêncio por um momento, depois falou baixinho:

— Eu... gosto desse nome. Mas acho que ainda sou um pouco Clara.

— E está tudo bem. Você pode ser quem quiser. Só... me deixa fazer parte disso.

Clara sorriu, tímida.

— Você já faz parte. Mesmo quando eu não entendia porquê... eu gostava de estar perto de você.

Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu sorri. Uma lágrima escorreu mesmo assim, e ela a enxugou com o dedo.

— A gente vai ficar bem, né?

— Vamos. Eu prometo. E dessa vez, eu não vou a lugar nenhum.

Ela assentiu, olhando para mim com um carinho que me atravessou.

— Então... posso te chamar de “mãe Nessie”? — perguntou, com um meio sorriso.

A gargalhada que escapou de mim foi inevitável, emocionada.

— Pode, meu amor. Pode me chamar do que quiser. Só nunca deixe de me chamar.


Estávamos ainda com as mãos entrelaçadas quando ouvimos três batidas leves na porta.

— Posso entrar? — a voz de Jacob veio com suavidade.

— Pode, papai! — Clara respondeu animada.

A porta se abriu e ele apareceu com uma bandeja nas mãos. Usava uma camiseta preta e o cabelo um pouco bagunçado, como se tivesse passado as mãos nele várias vezes. O cheiro do café e do pão de queijo recém-saído do forno invadiu o quarto.

— Café da manhã para a mamãe e a filha mais linda de Manhattan — disse com um sorriso enquanto se aproximava.

As palavras dele me atingiram de uma forma que eu não esperava. "Mamãe e filha". Um nó se formou na garganta. Clara sorriu, encantada, mas meu peito apertou. Porque, mesmo depois de tudo... ainda doía ouvir Jacob me chamar de mãe da nossa filha. Doía e curava ao mesmo tempo.

Ele parou diante de mim e me entregou a bandeja. Nossos dedos se tocaram no gesto. Por um segundo que pareceu mais longo do que deveria, nossos olhares se encontraram.

Foi rápido, mas real. Um calor familiar subiu pela minha pele e me vi obrigada a desviar os olhos, disfarçando com um leve sorriso enquanto ajeitava a bandeja no colo.

— Uau! — Clara disse, empolgada. — Tem tudo que eu gosto! Croissant de chocolate, suco de morango, panqueca de banana...

— Achei que você merecia um café especial — Jacob disse, puxando a poltrona ao lado da cama.

— Achei que era só pra eu ficar de repouso... mas estou sendo mimada! — Clara sorriu, pegando o copo de suco com cuidado. — E tem até Nutella!

Jacob riu.

— Não me subestime, filha. Eu conheço o coração de uma adolescente faminta.

Observei os dois e por um momento... meu coração se aqueceu. Ali estavam eles. O pai e a filha. Minha filha. Nossa filha.

— E você, Nessie... gosta de croissant? — Clara perguntou, me oferecendo um.

— Gosto sim — sorri. — Mas agora quero ver você comer tudinho. Enfermeira Renesmee vai ficar de olho.

— Ih... já tô vendo que vou ser cercada de adultos mandões. Mas tudo bem.

Jacob e eu rimos juntos. Pela primeira vez, em muito tempo, juntos.

E naquele quarto iluminado pela luz suave da manhã, com nossa filha sorrindo entre nós, eu senti... que o amor que um dia existiu — e talvez ainda existisse — não havia sido apagado. Apenas adormecido.

E agora… estava despertando, bem devagar.