Notas iniciais
Sou contra violência contra a mulher que fique claro. A atitude de Jacob foi errada mas é difícil julgar diante da situação.


Narrado por Jacob


O fim da tarde já tingia o céu com tons dourados quando estacionei o carro. Clara saiu animada, contando sobre o milkshake de morango que queria tomar antes de dormir e sobre a menina nova na escola que usava lápis de olho roxo.

— Aposto que você vai virar amiga dela só por isso — brinquei, e ela riu.

Mas meu sorriso morreu no rosto assim que olhei para a entrada do prédio.

Claire estava ali. De braços cruzados, postura tensa. E com aquela expressão que só aparecia quando algo fora do controle dela acontecia.

Suspirei fundo.

— Vai subindo, Clara — pedi, pegando as chaves. — Eu já subo. Preciso resolver uma coisa aqui embaixo.

Ela franziu o cenho, mas assentiu.

— Tudo bem… mas se for mais uma briga com a mamãe, posso ficar ouvindo com um copo na porta?

— Clara — repreendi com um olhar divertido, e ela riu antes de correr escada acima.

Voltei o olhar para Claire, que não esperou.

— Precisamos conversar, Jacob — ela disse, já entrando no apartamento sem ser convidada.

Fechei a porta atrás de nós, cruzando os braços.

— Vai me dizer que apareceu aqui por causa da tal "viagem"?

— Um final de semana, Jacob. Só um final de semana. Em Boston. No chalé da família de Emily. Clara adora aquele lugar.

— Clara precisa estudar, Claire. As provas estão chegando, você mesma disse isso semana passada. E do nada você resolve levá-la para Boston?

— Não é do nada. Eu quero um tempo com minha filha.

Minha paciência estava por um fio.

— Nossa filha, Claire. Mas diferente de você, eu não uso Clara como desculpa para fuga. Você apareceu aqui querendo arrastá-la, sem explicar por quê. Está se escondendo de quê agora?

O olhar dela vacilou por um segundo.

— Você não pode me impedir — ela retrucou, a voz vacilando entre desafio e desespero. — Eu sou a mãe dela!

— E eu sou o pai. E se você acha que vai simplesmente levá-la sem minha autorização, está enganada. Isso não vai acontecer.

Claire estreitou os olhos, o orgulho ferido, e pegou a bolsa com raiva.

— Você vai se arrepender de ter me feito inimiga, Jacob. Vai mesmo. — E então saiu, batendo a porta com força suficiente pra fazer os quadros da parede balançarem.

Fiquei imóvel por um instante. Sentindo a adrenalina. O cansaço.

— Pai?

Virei-me. Clara estava parada no corredor, de pijama, os cabelos soltos e os olhos grandes.

— A mamãe já foi?

Assenti, forçando um sorriso calmo.

— Já sim, princesa.

— Vocês brigaram de novo?

Puxei-a para um abraço apertado.

— Está tudo bem, tá? Prometo. Só... coisas de adulto. E eu tô aqui com você. É isso que importa.

Ela se aconchegou em mim e murmurou:

— Só quero que parem de brigar por minha causa…

Fechei os olhos e segurei firme.

— Eu sei. E vou fazer tudo pra te proteger, Clara. Sempre.


Deixei Clara na escola como de costume. Ela desceu do carro sorrindo, com seus fones pendurados no pescoço e um livro apertado contra o peito. Antes de fechar a porta, olhou para mim e disse:

— Te amo, pai.

Sorri.

— Também te amo, baixinha. Boa aula.

Liguei o motor novamente e segui direto para a Black Enterprises. O trânsito até que estava tranquilo para uma manhã em Manhattan, mas minha cabeça estava longe — pensando nos projetos, no novo modelo de motor sustentável, no possível acordo com os italianos.

Assim que entrei no prédio, Jessica, minha secretária, me abordou com expressão tensa.

— Senhor Black... tem dois homens esperando por você na recepção. Disseram que são policiais.

Franzi o cenho.

— Policiais?

Ela assentiu, visivelmente nervosa.

— Eles pediram uma conversa reservada.

— Traga-os para minha sala, por favor — disse, tentando manter a calma, embora meu estômago começasse a se revirar.

Minutos depois, dois homens entraram. Ambos usavam trajes civis, mas os distintivos pendurados no pescoço e a postura só confirmavam: eram da polícia de Nova York.

— Senhor Black? — o mais velho se adiantou. — Detetive Sanders, este é meu parceiro, detetive Roy. Obrigado por nos receber.

Cumprimentei-os com um aceno firme.

— Claro. Aconteceu alguma coisa?

— Podemos nos sentar? — perguntou Roy.

— Claro — disse, apontando para as cadeiras diante da minha mesa. — Podem falar.

O detetive Sanders puxou um envelope e o colocou sobre a mesa, deslizando-o em minha direção.

— Trata-se de uma intimação oficial, senhor Black. A senhorita Renesmee Swan registrou uma denúncia formal de que sua filha, Clara Black, é na verdade Sophie Swan, filha biológica dela, sequestrada há doze anos na cidade de Annecy, França.

Eu congelei.

— O... quê?

Sanders me observava com atenção.

— Ela afirma que a criança foi levada de sua residência enquanto vivia no exterior. Segundo a denúncia, a garota foi trazida para os Estados Unidos e criada como filha de outra mulher — Claire Young. A senhorita Swan afirma que a senhora Claire nunca esteve grávida e falsificou documentos, apresentando Clara como filha biológica sua e sua.

As palavras ecoaram na sala como se estivessem sendo ditas dentro d'água. Minhas mãos ficaram frias. Minha respiração vacilou.

— Isso é... impossível — murmurei, a voz rouca. — Claire é a mãe da minha filha. Fiz um exame de DNA quando Clara nasceu.

Roy abriu uma pasta e consultou alguns documentos.

— Temos conhecimento desse exame, senhor. Mas não há nenhum que comprove a maternidade. Apenas que a criança tem compatibilidade genética com o senhor.

Sanders completou:

— A denúncia foi considerada grave o suficiente para que um processo de verificação oficial fosse iniciado. O senhor foi intimado a comparecer para prestar depoimento amanhã pela manhã. Também será solicitada uma nova coleta de DNA da menina para análise cruzada com a senhora Swan.

Fiquei mudo. Incapaz de reagir.

Renesmee.

Ela havia feito isso. Sem me procurar. Sem me dizer uma palavra. Denunciando Claire, denunciando a mim...

Ou talvez — e esse pensamento me fez estremecer — talvez ela estivesse certa.

Minha mente voltou para aquele café... para a forma como Clara se movia, como sorria, como comia...

— Senhor Black? — Roy chamou minha atenção de volta. — Precisamos de sua assinatura aqui, por favor.

Peguei a caneta com a mão trêmula e assinei, quase sem ver o que estava fazendo.

Quando os dois saíram da sala, permaneci sentado em silêncio absoluto. Apenas as batidas do meu coração martelando em meus ouvidos.

E se…?

E se a Clara que eu criei... for mesmo a Sophie da Nessie?


O silêncio da sala me engolia. O papel ainda tremia em minhas mãos, mas era o que ele representava que fazia meu sangue ferver.

Sequestrada.

Minha filha.

Não. A filha da Renesmee.

A verdade explodia em minha cabeça como um vendaval descontrolado. Cada lembrança, cada gesto de Claire, cada "coincidência" nos últimos anos... Tudo começou a se encaixar.

A tentativa de fuga com Clara.

A ausência de fotos de quando bebê.

A resistência em falar sobre o parto.

A insistência em manter as aparências.

Meu punho se fechou. A raiva queimava como fogo líquido sob minha pele.

Num impulso desgovernado, arremessei a pasta contra a parede. O porta-retrato com a foto da inauguração da Black Enterprises caiu com um estalo. Gritei, socando a mesa com tanta força que o copo de vidro espatifou-se. Outro soco — e a estante cedeu. O baque fez tudo tremer.

A porta se escancarou.

— Jake?! — Paul correu, os olhos arregalados.

Rachel entrou logo atrás, ofegante.

— Jacob! O que aconteceu?

Eu arfava, as mãos sujas de sangue dos cacos de vidro.

— Ela me enganou.

— Quem?! — Rachel se aproximou, assustada.

— Claire!

Olhei para os dois, descontrolado. Meu peito subia e descia com a força de uma tempestade.

— Ela roubou... ela roubou a filha da Renesmee. E me fez acreditar que era minha! Durante DOZE ANOS!

Rachel levou a mão à boca, chocada. Paul me encarava como se tentasse processar.

— Ela tentou fugir com a Clara. Sabia que a verdade ia explodir. Por isso queria ir embora. Por isso me usou!

Avancei para fora da sala.

— Jake, espera! — Paul tentou me segurar pelo braço. — Você tá no limite. Não vá atrás dela assim...

Empurrei a mão dele com força.

— Eu preciso ver aquela desgraçada agora.

— Jake, respira! — Rachel gritou, mas já era tarde.

Atravessei o corredor ignorando os olhares assustados dos funcionários. Peguei o elevador, desci os andares com a mente em chamas.

Meu carro me esperava. Entrei com violência, dei a partida e acelerei com tudo, os pneus cantando no asfalto da garagem como um aviso de guerra.

O destino?

Young Fashion House.

A maldita empresa que Claire ergueu com o nome da minha família. A fachada da mentira. O covil da ladra da minha paz.

Agora ela ia me ver.

E não ia gostar do que veria.


As portas do elevador se abriram no 12º andar e eu saí como um furacão prestes a devastar tudo. A secretária tentou barrar minha passagem.

— Senhor Black! A senhora Young está em uma reunião...

— Não está mais. — rosnei, sem sequer olhar para ela.

Empurrei a porta da sala de Claire com violência. A batida ecoou como um trovão.

Claire se virou da janela, surpresa com minha entrada abrupta.

— Jacob? O que você faz aqui?

Não disse uma palavra. Caminhei até a mesa dela e atirei com força a intimação policial sobre o tampo de vidro.

— Era por isso, Claire? — minha voz veio baixa, grave, ameaçadora. — Era por isso que queria fugir com a Clara? Porque a Renesmee descobriu que você roubou a filha dela?!

Claire empalideceu.

— Jacob, não... isso é mentira. Renesmee... ela... ela está inventando isso!

— Inventando? — meus olhos arderam de fúria. — Você tá chamando a mãe de uma criança desaparecida de mentirosa? Depois de DOZE ANOS?

Ela hesitou, recuando, mas mantinha o tom firme.

— Ela descobriu que estava grávida de você, Jacob! Renesmee... ela não quis a menina! Ela a deixou comigo! Disse que não podia criá-la!

— Mentira! — explodi, avançando sobre ela.

Agarrei os pulsos de Claire e a encarei de perto. Os olhos dela se encheram de medo.

— Me diz a verdade. AGORA.

Ela tentou se soltar, a voz trêmula:

— Jacob, me solta! Você está me machucando!

Meu aperto se tornoumaia forte, e meus olhos não desgrudavam dos dela.

— Você... roubou a Sophie. Você me usou. Me fez acreditar que aquela menina era minha filha com você... pra quê? Por poder? Pra me prender?

A empurrei a fazendo cair no chão, longe, ofegante.

— Eu te amava. Eu só... eu só queria uma chance. E ela ia te tirar de mim! Sempre ia ser ela!

— Ela era a mãe da minha filha, Claire! — gritei, sentindo a voz falhar.

Claire desabou e eu a ergui de forma violenta lhe dando um tapa a fazendo cair novamente no chão.

— Você nunca ia ficar comigo se soubesse. Ia correr atrás dela, como sempre fez...

— E o que você achou que aconteceria? Que essa mentira ia durar pra sempre?

Ela não respondeu. Chorava silenciosamente.

Minha respiração estava pesada. Eu tremia.

— Você vai pagar por isso, Claire.

A levantei de forma violenta.

Antes que eu pudesse dar outro passo, a porta se escancarou novamente.

— Jacob! — a voz de Rachel me cortou como um raio.

Ela entrou acompanhada de Paul, os dois com os rostos tensos. Atrás deles, dois seguranças surgiram, visivelmente alarmados.

— Senhores, a senhora Young acionou a segurança! — disse um deles, pronto para agir.

Rachel se colocou entre mim e Claire, erguendo as mãos.

— Calma! Isso é um assunto de família. Não precisam intervir.

Claire chorava encostada à parede, o rosto abatido e a maquiagem borrada. Quando os olhos dela encontraram os meus, vi mais do que medo. Vi culpa. E isso me corroía ainda mais.

Paul se aproximou e segurou meu braço com firmeza.

— Jacob, vem. Agora. Antes que isso piore.

— Ela roubou minha filha, Paul! — rosnei, tentando me soltar. — Ela enganou a todos nós!

— Eu sei. E você tem todo direito de estar furioso. Mas não aqui, não assim.

Rachel se virou para Claire e falou entre os dentes:

— Acha mesmo que vai sair impune disso? Nem começa a se fazer de vítima.

Claire soluçou, ainda se protegendo atrás de Rachel, como se esperasse que eu a atacasse — como se ela fosse a vítima dessa história.

Paul me puxou novamente e dessa vez eu deixei. Eu estava tremendo, o sangue fervendo, mas precisava sair dali antes que fizesse uma besteira da qual me arrependesse.

Ao sairmos da sala, empurrei a porta com força. Andamos pelo corredor, e Paul só me soltou quando chegamos ao elevador.

— Precisa respirar — disse ele. — Não pode deixar essa raiva dominar você.

— Eu preciso falar com a Renesmee. Agora. — minha voz saiu baixa, quase rouca.

Rachel assentiu.

— E vai. Mas com calma, Jake. Agora tudo vai mudar.

O elevador desceu, e com ele, a última gota de ilusão que eu ainda carregava sobre Claire.

Clara... minha filha… nossa filha.