O Lado Sombrio do Amor
64 Eu te amo
Narrado por Renesmee
Assim que entrei no apartamento, estranhei o silêncio. Fechei a porta e só então percebi Bella sentada no sofá, e ao lado dela — para minha surpresa — Edward.
Ele se levantou ao me ver, com aquele sorriso contido que eu conhecia desde criança.
— Oi, filha — disse, com a voz suave.
— Oi — respondi, educadamente, sem saber muito bem onde colocar a bolsa ou o olhar.
Ele assentiu, lançou um rápido olhar para Bella e ajeitou o paletó.
— Eu… já vou indo. A gente se vê depois — disse ele, dirigindo-se a Bella.
— Até logo, Edward — ela respondeu, com um pequeno sorriso.
Fiquei parada por alguns segundos, observando enquanto ele saía. Coloquei a bolsa sobre o sofá e cruzei os braços, virando para minha mãe.
— Eu percebi — comentei, arqueando uma sobrancelha. — Tem algo entre vocês dois… de novo.
Bella suspirou e bateu levemente com a mão no sofá ao seu lado.
— Senta aqui.
Fui até ela e me sentei, ainda de braços cruzados. Ela me olhou com um misto de expectativa e doçura.
— Nós estamos nos acertando — admitiu, com sinceridade. — Eu e Edward.
— Tem certeza disso, mãe? — perguntei, olhando em seus olhos. — Ele te deixou sozinha… você passou trinta anos na prisão por algo que não cometeu.
Bella abaixou os olhos, como se ainda carregasse o peso de tudo aquilo.
— Na verdade, eu quem não quis vê-lo — confessou. — Mas ele foi. Todos os dias. Durante os trinta anos.
Fiquei em silêncio por um momento, sentindo meu peito pesar.
— Só não quero que se machuque de novo, mãe — disse com sinceridade. — Que eles te façam mal de novo.
Ela colocou a mão sobre a minha.
— Vai ser diferente dessa vez, filha. Eu estou mais forte. E ele… também mudou.
Suspirei, ainda receosa. Mas parte de mim queria acreditar que ela merecia aquele recomeço.
Bella então mudou de assunto, me olhando de canto com um sorriso maroto.
— E você… está com um olhar diferente.
— O que quer dizer com isso? — perguntei, tentando conter o sorriso.
— Dormiu na casa do Jacob?
O sorriso escapou.
Bella riu baixinho e me puxou para um abraço apertado.
— Nós duas merecemos essa felicidade, Nessie.
Me aninhei no abraço dela, sentindo o coração se aquecer.
Talvez a vida estivesse finalmente nos devolvendo o que nos foi tirado.
Depois que Bella foi para o quarto, fui até o meu e fechei a porta. Precisava de um banho. Daqueles demorados. Da água quente escorrendo como se pudesse levar junto as dúvidas, a culpa, o medo… e até um pouco da felicidade que eu tentava esconder de mim mesma.
Ao sair do banho, vesti uma camisa leve e me joguei na cama, ainda com os cabelos molhados. Peguei o celular para ver as mensagens.
Haviam três de Eloise.
"Nessie, está tudo sob controle por aqui."
"A prefeitura de Annecy finalizou o relatório sobre as floriculturas. Depois te envio."
"Ah, Lina quer saber quando vai conhecer a sua filha. Estamos com saudades."
Sorri ao ler o nome de Lina. Era estranho pensar em voltar a Annecy agora, com tanta coisa acontecendo. Mas eu sabia que precisaria. Sophie precisava conhecer aquela parte da minha história.
Escrevi de volta:
— "Prometo que em breve estarei aí. E sim… você e Lina vão conhecer a Sophie. Ela vai amar vocês."
Pouco tempo depois, uma notificação nova surgiu.
Lina.
"Ela tem olhos iguais aos seus? Já imagino ela no meio das nossas bagunças!"
Aquela mensagem me arrancou um riso leve e genuíno. Foi quando ouvi uma batida suave na porta.
— Filha? — a voz de Bella.
— Pode entrar.
Ela abriu a porta devagar, com um sorriso contido.
— Edward está pensando em organizar um jantar… só nós. Uma noite em família, nada formal.
Eu franzi o cenho, abaixando o celular.
— Jantar? Com ele?
— Sim — ela se sentou na beira da cama. — Ele quer conversar. E… acho que também quer te ouvir.
Suspirei. Parte de mim ainda resistia. Outra parte, talvez a mais ferida, queria respostas. Ou pelo menos… compreensão.
— Não sei, mãe.
— Você não precisa perdoar de imediato. Mas talvez ouvir o que ele tem a dizer te ajude a colocar algumas peças no lugar. Para você. Para Sophie também.
Fiquei em silêncio por alguns segundos. Depois assenti.
— Tá bem. Eu vou.
Bella sorriu, tocando minha mão com carinho.
— Vai ser leve, prometo.
Eu retribuí o sorriso, mas lá no fundo… já sabia que nada seria realmente leve nos próximos dias.
Ainda assim, eu estava disposta a tentar.
◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇
Eu ainda estava sentada na cama, com o celular entre os dedos, pensando em tudo — Alec, minha mãe, meu pai… Annecy — quando o telefone voltou a vibrar. Olhei o visor e o nome que apareceu me fez sorrir de imediato.
Jacob.
— Jake — atendi com a voz suave.
— Oi amor — a voz dele soou quente do outro lado da linha, e só de ouvi-lo, meu coração desacelerou um pouco. — Minha mãe está te esperando pro jantar hoje.
Sorri, sentindo uma pontada gostosa no peito.
— Sarah me convidou?
— Sim. Mas... pra ser honesto, ela só confirmou o que eu já ia fazer. — ele riu. — A gente janta às sete. Pode ser?
— Claro. — respondi. — Eu vou adorar.
Houve um breve silêncio. Aquele silêncio confortável que só existe entre duas pessoas que se conhecem há muito tempo… ou que se amam há muito tempo.
— Ja estava com saudades — ele disse, com a voz mais baixa, quase um sussurro.
Fechei os olhos e encostei a cabeça no travesseiro, apertando o celular contra a orelha.
— Eu também .. Mais do que deveria.
— O que a gente sente... não precisa mais ser escondido, Nessie.
— Eu sei — respondi, com um sorriso no canto dos lábios. — E acho que Sophie está louca para revelar essa novidade.
Jacob riu.
— Ela puxou a mãe. Falante. Observadora, decidida... e um pouco teimosa.
— Um pouco?
— Tá bom. Muito. Mas é irresistível. Assim como você.
Mordi o lábio, sentindo as bochechas queimarem.
— Te vejo às sete?
— Sete em ponto. E leva esse sorriso que você tá dando agora. Eu sei que tá sorrindo.
— Bobo.
— Mas seu.
Desliguei devagar, o coração aquecido. Meu olhar caiu na mesinha de cabeceira, onde a moldura com a foto da manhã brilhava sob a luz suave do entardecer.
Era a nossa foto.
Jacob, eu e Sophie.
Os três sorrindo na calçada em frente à padaria. Eu de moletom, ele de camiseta branca, Sophie no meio, com a expressão mais feliz do mundo.
Meu sorriso aumentou.
Talvez, pela primeira vez, aquela imagem fizesse sentido. Como um retrato daquilo que, por tanto tempo, parecia impossível.
Uma família.
Narrado por Jacob
O cheiro da comida da minha mãe preenchia cada canto da casa. Havia algo reconfortante em estar ali, na grande mesa de madeira rústica, cercado das pessoas que marcaram minha história. Nessie estava ao meu lado, e Sophie mais à frente, entre risadas e olhares curiosos.
Billy estava de ótimo humor, como sempre quando Sarah cozinhava seu famoso assado com batatas. Rachel e Paul trocavam provocações como dois adolescentes, mesmo depois de tantos anos casados. Rebecca sentava-se ao lado de Solomon, sempre atenta às histórias que ele contava. E então, Bonnie entrou com sua esposa.
— Família... — Bonnie começou com aquele tom orgulhoso que ele sempre usava quando estava prestes a fazer um anúncio. — Essa aqui é a Lauren, minha esposa. Ela chegou hoje em Nova Iorque! — ele disse orgulhoso.— Disse que estava na hora de acabar com a minha fama de solteiro.
Todos riram junto com ele, inclusive Renesmee — embora eu tenha notado que ela piscou duas vezes, surpresa.
— Eu… não fazia ideia. — Nessie comentou, sorrindo com sinceridade, estendendo a mão para Lauren. — É um prazer conhecê-la.
— O prazer é meu. — Lauren respondeu com elegância, segurando com firmeza a mão de Renesmee. — Bonnie me contou muito sobre você… e sobre Sophie.
— Lauren é bem reservada — Bonnie completou, passando o braço ao redor da esposa. — E nosso filho, Brad, herdou isso dela. Ele virá da próxima vez. Só queria apresentar minha melhor parte a vocês hoje.
Nessie sorriu, tocada pela gentileza e leveza daquela mulher que até então era um mistério. Sophie, como sempre, quebrou o clima com sua espontaneidade afiada:
— E quando vocês vão anunciar que estão juntos?
Um silêncio breve se fez na mesa. Renesmee ficou vermelha até as orelhas. Eu olhei para ela, tentando conter o riso. Todos à mesa nos encaravam com sorrisos divertidos.
— Sophie! — Nessie sussurrou, repreendendo com o olhar.
— Ué, vocês se olham como nos filmes! — ela completou, erguendo os ombros, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Bem… — comecei, limpando a garganta e erguendo meu copo — já que a pequena porta-voz da verdade decidiu adiantar o assunto... Sim. Eu e Renesmee estamos juntos.
Billy sorriu com os olhos brilhando. Rachel e Rebecca bateram palmas discretamente. Bonnie ergueu a taça de vinho e Paul soltou um assovio abafado.
— Já estava mais do que na hora. — Paul comentou, provocando mais risadas.
Nessie olhou para mim, ainda corada, mas com um sorriso que não conseguia conter.
Sophie levantou a taça de suco.
— Um brinde ao casal!
Todos brindaram com entusiasmo. Eu toquei minha taça na de Nessie, e naquele momento, tudo parecia certo. Como se o universo estivesse, finalmente, colocando cada coisa em seu lugar.
Narrado por Renesmee
A porta se fechou atrás de nós, abafando o som do elevador. O silêncio do apartamento contrastava com a movimentação alegre e barulhenta do jantar. Eu tirei os sapatos devagar, ainda com um sorriso discreto no rosto, enquanto Jacob largava as chaves sobre o balcão da cozinha.
— Silêncio... paz… — ele murmurou, me puxando pela cintura. — Um final de semana só nosso.
Eu arqueei uma sobrancelha, desconfiada.
— Isso foi bem conveniente… Sophie viajando com Rachel, Paul e a Luna justo hoje?
Jacob deu de ombros, fingindo inocência.
— Coincidências acontecem, não é?
— Coincidências, hein? — perguntei, rindo contra os lábios dele. — E por acaso essa coincidência tem nome?
— Planejamento estratégico. — Ele respondeu, rindo.
Nosso beijo começou ali, na cozinha, leve, cúmplice. E foi se intensificando à medida que caminhávamos juntos para o sofá da sala. Deitados, entre carícias e beijos demorados, Jacob me olhou com aquela expressão que ele usava quando ia dizer algo sério, algo importante.
— Nessie… — ele murmurou, os dedos acariciando meus cabelos — Eu sei que as coisas ainda estão frescas, o fim do noivado, tudo… Mas eu quero te fazer uma pergunta. Não é um pedido de casamento. Ainda não. — ele sorriu — Mas eu queria que você viesse morar comigo. Com a gente. Comigo e Sophie.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, sentindo o coração bater mais forte.
Eu o encarei. Ele estava sendo honesto, transparente. Não me apressava, apenas abria espaço para a gente… para o que éramos agora.
— Você quer dizer… morar aqui? — perguntei, com a voz suave, só para confirmar.
— Sim. Sem pressa, sem cobranças. Mas já passou tempo demais, não acha? Eu quero dormir com você toda noite. Ver você e Sophie rirem na cozinha de manhã. Eu quero tudo. Só… do jeito certo, no tempo certo.
Minhas mãos tocaram as dele.
— Eu aceito. — sussurrei, com um sorriso pequeno, sincero. — Quero isso também. Quero nós.
Jacob sorriu, aquele sorriso que sempre me desarmava. Me puxou mais para perto e me beijou, com um carinho e paixão.
Os beijos de Jacob se tornaram mais lentos, mais intensos. As mãos dele deslizavam pela minha cintura, como se quisessem memorizar cada curva do meu corpo. O sofá se tornou nosso refúgio — simples, familiar — mas naquele instante, era tudo o que precisávamos.
Nossos corpos se encaixavam com a mesma facilidade com que nossas almas já tinham se reencontrado. Eu senti quando ele sussurrou meu nome entre beijos, como se cada sílaba fosse carregada de cuidado, de desejo contido por anos.
Meu coração batia descompassado enquanto nossos olhos se encontravam. Não havia dúvidas, não havia mais espaço para o passado, mágoas ou inseguranças. Ali só existíamos nós dois, como se o tempo tivesse finalmente feito as pazes com o destino.
— Você tem ideia de como eu esperei por isso? — ele sussurrou, com os lábios encostando nos meus.
—Tenho… — respondi com a voz baixa, sentindo cada parte de mim despertar sob o toque dele — porque eu também esperei.
Nos despimos devagar, entre sorrisos tímidos e olhares cúmplices. Cada gesto era repleto de carinho, de descoberta, mesmo depois de tudo o que já havíamos vivido. A maneira como ele me tocava me fazia sentir inteira, amada, segura.
Nos entregamos um ao outro com intensidade e doçura. A sala, iluminada apenas pela luz suave do abajur, testemunhou nossa noite. As batidas do nosso coração se fundiram ao som da cidade adormecida do lado de fora. O tempo se desfez.
Quando o silêncio finalmente se instalou entre nós, ainda entrelaçados sob a manta que Jacob puxara com pressa, meu corpo relaxou nos braços dele. Ele beijou minha testa e sussurrou:
— Eu te amo... minha Nessie…
Sorri, aninhada no peito dele, e respondi baixinho:
— Eu te amo, meu Jake.
Adormecemos ali mesmo no sofá, como se o mundo lá fora não pudesse mais nos alcançar.
E naquela noite, eu soube: a nossa história estava, finalmente, no momento certo para recomeçar.
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