O Lado Sombrio do Amor
76 Eternos.
Narrado por Renesmee
Três anos. Parecia que tudo havia mudado e, ao mesmo tempo, continuava igual.
A cozinha estava cheia do aroma de pão quentinho e café fresco. Julie, agora com três anos, balançava as perninhas sentada no balcão enquanto eu preparava ovos mexidos.
Jacob entrou na cozinha com o cabelo bagunçado, usando uma camiseta amassada que provavelmente pegou no escuro do closet. Carregava Julie no colo, que já havia escapado da cama mais cedo.
— Achei essa fujona no meu lado da cama — ele disse, dando um beijo em minha bochecha antes de sentar Julie no balcão .
— Filha e o bom dia da mamãe?
— Bom dia, mamãe — ela sorriu, enroscando os dedinhos no cabelo dele.
Poucos segundos depois, Sophie entrou. A filha que parecia já estar na pré-adolescência eterna, mesmo tendo apenas quinze anos. Os fones nos ouvidos, celular na mão e um olhar levemente impaciente.
— Oi — murmurou, sem nem erguer os olhos da tela.
Jacob a observou por um segundo, cruzou os braços e caminhou até ela com calma. Antes que ela pudesse perceber, ele tomou o celular da mão dela com um gesto rápido.
— Ei! — ela reclamou, tentando pegar de volta.
— Bom dia é o mínimo, Clara Sophia Black — Jacob disse, com a voz grave e firme. — Celular só depois do café da manhã e com educação.
Sophie bufou, mas abaixou os ombros e olhou para mim.
— Desculpa, mãe... Bom dia.
— Bom dia, minha linda — respondi, tentando esconder o sorriso. Mesmo rebelde, ela ainda era nossa menina. — Vai querer suco de laranja?
— Sim... com pouco gelo — respondeu, sentando à mesa.
Jacob colocou o celular sobre a geladeira, fora de alcance.
— Você acha mesmo que eu não ia notar que está indo dormir quase duas da manhã respondendo mensagem daquele menino do time de natação?
Sophie arregalou os olhos e se calou, enquanto Julie ria achando tudo muito divertido.
— Mamãe, a Sofi tá em apuros! — disse, com os olhinhos brilhando.
— Parece que está meu amor — respondi, entregando o prato com os ovos a ela.
Jacob servia café para si quando me aproximei e coloquei a mão em seu braço.
— Amor... depois do café, vou passar na clínica de repouso.
— Clínica? — ele franziu o cenho, surpreso. — Onde Carlisle está?
Assenti, respirando fundo.
— Sim. Vou visitar Carlisle. Sei que Edward ainda não teve coragem, mas eu preciso... apesar de todo mal que ele causou sinto que preciso disso.
Jacob me olhou por longos segundos. A expressão era de surpresa e, ao mesmo tempo, respeito.
— Tem certeza que quer fazer isso sozinha?
— Sim — respondi com firmeza. — É algo que preciso enfrentar. Pra mim... e pra nossa filha também. A Julie merece saber da história, de onde ela veio — pausei, olhando para a menina que agora comia ovos com queijo como se fosse a maior delícia do mundo.
Jacob suspirou e assentiu, puxando minha mão para um beijo.
— Tudo bem. Mas me liga se precisar de qualquer coisa.
Sorri, grata por tê-lo ao meu lado.
— Está bem.
O jardim da clínica era silencioso, com arbustos bem cuidados e flores que pareciam ter sido dispostas com precisão cirúrgica — como se o lugar inteiro quisesse manter alguma aparência de paz.
O vento leve balançava as folhas das árvores e eu estava sentada no banco de madeira sob a pérgola de heras quando ouvi passos. Virei o rosto devagar e vi Carlisle se aproximando, mais envelhecido do que eu lembrava. Os cabelos completamente brancos e a postura um pouco curvada, mas os olhos… os olhos ainda carregavam o mesmo peso de sempre.
Ele me encarou por um longo momento antes de dizer, com a voz mais seca do que eu esperava:
— Você é a última pessoa que imaginei que viria me visitar.
Levantei devagar, ajeitando o vestido sobre a barriga já saliente da gravidez. Respirei fundo antes de responder:
— Renesmee Black… neta de Carlisle Cullen. A neta que o senhor não queria que existisse.
Um silêncio tenso pairou entre nós.
— Veio jogar o passado na minha cara? — ele perguntou, com a expressão impassível.
— Não — respondi, me aproximando mais. — Vim porque precisava.
Ele me olhou por mais alguns segundos e, para minha surpresa, soltou um suspiro quase nostálgico.
— Você se parece com ela… com sua bisavó. Elizabeth Cullen. Tinha aquele mesmo brilho nos olhos, mesmo quando tudo ao redor parecia ruir.
Fiquei surpresa com a menção.
— Então por que o senhor me odiava? — perguntei, direta.
Carlisle balançou a cabeça lentamente.
— Eu nunca te odiei. Mas você era a lembrança viva de tudo o que deu errado. A personificação da minha falha… da escolha que fiz ao proteger uma verdade por tanto tempo. Às vezes, o que escondemos para proteger, se transforma na arma que nos destrói.
Me sentei de volta no banco. Ele hesitou por um segundo, mas se sentou ao meu lado. O silêncio se instalou outra vez antes de ele perguntar:
— Como vai a vida?
Sorri. Um sorriso sincero, suave… quase infantil.
— Perfeita. Tenho duas maravilhosas, outro a caminho. Um marido que me ama. Amigos leais. Paz… e amor. Por isso vim, Carlisle. Porque não há mais espaço para mágoas ou julgamentos. Eu deixei o passado para trás, e queria te olhar nos olhos e dizer… que o senhor também pode.
Ele me observou, como se estivesse tentando encontrar alguma mentira nas minhas palavras. Mas não havia.
— Isso... isso é mais do que eu mereço — ele murmurou.
— Talvez. Mas é o que eu escolho oferecer.
Um pássaro passou voando sobre o jardim e o som de seu canto pareceu cortar o peso daquele momento.
Carlisle, por um instante, sorriu.
— Obrigado por vir, Renesmee.
Assenti, e olhei para o céu.
— Foi bom te ver, vovô.
Narrado por Jacob
O salão estava impecável.
Luzes bem distribuídas, trilha sonora elegante, garçons circulando com taças de espumante e canapés elaborados. No centro, um dos novos modelos reluzia sob a claridade suave — linhas modernas, seguras, funcionais. Era o orgulho da nossa equipe. O primeiro da nova linha voltada para mães modernas: conforto, segurança, tecnologia... e um pouco de estilo.
A festa de lançamento da nova marca da Black Enterprises estava no auge. E, mesmo cercado por investidores, parceiros e câmeras, meus olhos estavam onde sempre encontravam repouso: minha família.
De longe, vi Sophie, linda e confiante com seu vestido azul-marinho, conversando com Luna e os primos adolescentes. Às vezes, ela revirava os olhos nas piadas de Paul Jr., mas logo sorria. Ela crescia rápido demais… e cada vez mais parecida com a mãe.
Falando nela, Renesmee estava agachada perto de Julie, com a barriga de 6 meses, Julie parecia um raio de energia em miniatura correndo de um lado para o outro com seu vestidinho rosa rodado e sapatilhas brilhantes. Ela ria alto, espalhando alegria por onde passava.
Renesmee levantou, ajeitou os cabelos e me lançou um olhar divertido enquanto tentava conter a pequena.
Sorri.
Minha vida estava inteira ali, diante de mim. A razão de todo esforço, toda luta, toda marca que deixei no mundo.
— Senhor Black — um dos organizadores se aproximou, tocando levemente meu ombro. — É hora do seu discurso.
Assenti e caminhei até o palco com passos seguros. As luzes se voltaram para mim. Limpei a garganta, agradeci os aplausos e peguei o microfone.
— Boa noite a todos. — Olhei ao redor, buscando os olhos de quem me importava. — Hoje é mais que o lançamento de uma nova linha de veículos. Hoje celebramos o que nos move: o amor, a família e a felicidade.
Fiz uma pausa e estendi a mão.
— E nada disso faria sentido se eu não pudesse dividir com vocês quem me inspira todos os dias.
Todos voltaram o olhar quando Renesmee subiu ao palco com Julie nos braços e Sophie logo atrás. Eu as ajudei a subir, puxando Renesmee para perto de mim. Sophie acenou para a plateia, um pouco tímida. Julie, é claro, mandou beijo pra todo mundo.
— Essa — continuei, olhando para elas — é minha família. A alma por trás de cada escolha que fiz. E hoje, é com orgulho que apresento o rosto da nova fase da Black Enterprises: Renesmee Black.
As luzes se ajustaram quando Renesmee sorriu e acenou com a elegância natural que sempre teve. Ela era o símbolo perfeito do que nossa marca queria representar: força, beleza, sensibilidade e coragem. Veículos para mamães modernas, desenhados para quem enfrenta o mundo todos os dias com uma criança no banco de trás e amor no coração.
— Porque ninguém entende mais de proteger o que ama do que uma mãe.
Virei-me para ela, segurei sua cintura e a beijei. Longo. Intenso. Real.
O salão explodiu em aplausos.
Julie gritou: — Ecaaaa! — fazendo todos rirem, inclusive Sophie, que apenas cruzou os braços com um sorriso no canto dos lábios como quem dizia: eles não têm jeito mesmo.
Naquele instante, ali, sob os flashes, os aplausos e as luzes... eu soube que não havia nada além daquilo que eu ainda precisava conquistar.
Eu já tinha tudo.
Narrado por Renesmee
A noite estava tranquila.
O brilho das luzes de Manhattan piscava à distância como um quadro vivo, e a brisa suave dançava entre as cortinas abertas da varanda. Estávamos só nós dois ali fora, abraçados no sofá de vime, com uma manta sobre nossas pernas e duas xícaras de chá esfriando na mesinha ao lado.
Dentro da casa, o silêncio reinava.
Julie dormia agarrada ao seu ursinho favorito — aquele mesmo que ganhou de Sophie na maternidade. Sophie, por sua vez, havia finalmente caído no sono depois de mais uma daquelas conversas adolescentes onde tudo é intenso, e ao mesmo tempo passageiro. Ela ainda era nossa menina… mas sabíamos que o tempo corria rápido demais.
A cabeça de Jacob repousava levemente sobre a minha. Ele acariciava minha mão com calma, como se gravasse em si a memória daquela noite.
— Está cansado? — perguntei em voz baixa, rompendo o silêncio.
Ele sorriu, sem abrir os olhos.
— Cansado... e completamente feliz.
Ficamos em silêncio por um tempo. O tipo de silêncio que só compartilha quem conhece cada pedaço do outro.
— Sabe... — ele começou, sua voz um pouco mais rouca com o passar da noite — eu penso em como a gente chegou até aqui.
— Eu também. Às vezes parece que foi ontem... outras, parece que foram cem anos.
Ele riu. Um riso suave.
— Sophie vai fazer dezesseis em breve. Já imaginei quantas noites sem dormir ainda vamos ter.
— E Julie vai querer seguir a irmã em tudo — acrescentei.
— E o pequeno Jacob Junior... — ele disse com um sorriso largo — vai me fazer perder o juízo antes dos três anos.
— Vai nada — provoquei. — Você vai ser o melhor pai do mundo pra ele também.
Jacob se virou para me olhar. Seus olhos castanhos mergulharam nos meus.
— E você, a melhor mãe. A mulher da minha vida. Meu lar.
Senti um nó quente no peito. O tipo de amor que só cresce, mesmo quando achamos que não pode mais se expandir.
— Eu te amo, Jacob Black.
— Eu te amo, Renesmee Cullen Black.
Ele se aproximou e me beijou. Devagar. Com intensidade. Com ternura. Como se cada beijo fosse o primeiro — ou o último — e ambos fossem igualmente importantes.
Nos abraçamos ali, sob o céu de Nova York, com o coração cheio de histórias, cicatrizes e amor.
E naquele instante, eu soube…
Não importava o que o mundo trouxesse.
Enquanto estivéssemos juntos, seríamos eternos.
Fim.
Fale com o autor