Narrado por Renesmee


A luz me cegava por instantes. Jared falava pouco, apenas gesticulava com a mão para eu virar o rosto, inclinar o queixo, cruzar os braços. Eu obedecia sem hesitar.

Estava no controle — mesmo sem parecer.

A câmera disparava cliques ritmados, como se tivesse pressa em me registrar. E Rachel, parada ao fundo da sala, me observava com olhos de águia. Silenciosa. Atenta. Avaliadora.

Até que, após mais alguns disparos, ela ergueu a mão e Jared parou.

— Claire tinha razão — disse Rachel finalmente, virando-se para mim com um leve sorriso no canto da boca. — Você é o rosto que a nova marca precisa.

O coração acelerou. Eu sorri — dessa vez, não foi atuação.

Claire aplaudiu levemente, animada.

— Eu falei! Olha esse olhar, essa presença. Nessie nasceu pra isso!

Fingi surpresa.

— Nossa… eu nem sei o que dizer…

— Diga sim — respondeu Rachel. — Você toparia ser a modelo exclusiva da Black Enterprises?

Fiz um teatro breve de hesitação, mas já sabia minha resposta desde que encostei naquela moto vermelha.

— Seria uma honra.

— Ótimo — disse Rachel. — Quil, providencie o contrato.

Quil, que até então parecia deslocado na cena, assentiu devagar.

— Pode deixar. Vou cuidar disso pessoalmente.

Claire se aproximou de mim e me abraçou pelos ombros com entusiasmo.

— Parabéns, Nessie! Isso é incrível!

— Obrigada, Claire. Por tudo mesmo.

Rachel deu mais algumas instruções ao fotógrafo e, antes de sair da sala, voltou-se para mim:

— Bem-vinda à família Black Enterprises.

Aquela frase ecoou por dentro.

Família Black.

Mal sabiam…

Quil se virou e saiu. Claire logo atrás.

— Só vou beber uma água e já volto — disse ela, sorrindo.

Observei os dois caminhando pelo corredor, o corpo dela levemente inclinado para o dele, como quem guarda segredos que não precisam ser ditos em voz alta.

Meus olhos estreitaram levemente.

Aquilo... era interessante.

Muito interessante.

Suspirei e encostei na parede. O jogo estava avançando. E agora, eu fazia parte oficial da empresa.

Exclusiva.

Perto o bastante para ver tudo. Ouvir tudo.

E quando menos esperassem… tocar no que mais lhes dói.

Fiquei mais alguns minutos observando o corredor vazio por onde Claire e Quil desapareceram. A linguagem corporal deles dizia mais do que qualquer conversa. Um nervosismo velado, como se estivessem lidando com algo proibido.

Anotei mentalmente.

Ajeitei a bolsa no ombro e puxei o celular para checar as câmeras recém-instaladas. Tudo funcionando perfeitamente. Um sorriso discreto escapou dos meus lábios.

— Agora, Claire… me mostre o que tem guardado nesse mundinho perfeito.

Rachel reapareceu à porta, já recolhendo algumas pastas.

— Preciso ir, o dever me chama — disse, seca, como sempre.

Assenti com uma reverência respeitosa.

— Mais uma vez, obrigada pela oportunidade.

Ela não respondeu, apenas saiu com o mesmo ar de quem comanda o mundo — ou pelo menos parte dele.

Aproveitei o momento de silêncio e comecei a caminhar sozinha pelos corredores da empresa. Os painéis digitais, as portas de vidro, o cheiro de café caro e de status. Meu salto ecoava leve, discreto, calculado. Eu fingia digitar algo no celular, mas estava apenas percorrendo o lugar com os olhos atentos.

Foi então que aconteceu.

Senti um ombro bater no meu e meu corpo se desequilibrou. O celular quase escapou da minha mão. Estava prestes a cair de lado quando um braço forte envolveu minha cintura e me segurou com firmeza.

O mundo parou por meio segundo.

Levantei o olhar.

E soube exatamente quem era — antes mesmo que dissesse uma única palavra.

Aquele rosto. Aquele maxilar marcado, os olhos intensos. Eu o conhecia das fotos emolduradas nos jornais, das capas da Forbes, das pesquisas que fiz tantas vezes a ponto de memorizar cada traço.

Jacob Black.

O homem que carregava o sobrenome que destruíra meus pais… ou, ao menos, carregava esse peso como herança.

— Você está bem? — ele perguntou, a voz grave e gentil, com um leve sotaque que não pude identificar de imediato.

Assenti, ainda sendo segurada pela cintura. Meu coração disparava — e, dessa vez, não era só atuação. Era adrenalina pura.

— Sim… eu... desculpe, eu não estava olhando.

Ele me soltou devagar, como se temesse me machucar.

— Foi culpa minha — disse, simpático. — Me distraí saindo da sala.

Não consegui evitar. Sorri levemente e balancei a cabeça.

— Estamos quites, então.

Ele me observou por um segundo a mais do que o necessário. Os olhos analisando, curiosos. Me senti nua sob aquele olhar.

— Você é nova por aqui?

Fingi timidez.

— Sou a nova modelo. Acabei de ser contratada.

— Ah… então é você — ele murmurou, como se alguma ficha tivesse acabado de cair.

Antes que dissesse qualquer coisa, uma voz surgiu ao fundo:

— Jake, estão te esperando na sala do conselho.

Ele olhou na direção do som, depois voltou para mim.

— Bem-vinda à empresa, senhorita…?

— Newton — respondi, mantendo o olhar firme. — Renesmee Newton.

Ele estendeu a mão. Eu segurei. E o aperto dele foi firme, quente.

— Jacob Black — disse, como se eu não soubesse.

Soltei sua mão devagar, sentindo ainda o peso do contato. Ele me lançou um último sorriso — gentil, quase encantador — e desapareceu pelos corredores com passos decididos.

Quando fiquei sozinha, meu coração ainda batia acelerado. Encostei na parede e fechei os olhos por um segundo.

Primeiro contato.

Agora sim… o jogo começou.


Narrado por Jacob


A luz do fim da manhã atravessava as janelas amplas da minha sala, refletindo nas placas de vidro e criando formas geométricas no chão de madeira polida. Eu terminava de revisar o relatório financeiro do último trimestre quando a porta se abriu — sem aviso.

Só uma pessoa ousava entrar assim.

— Mãe? — ergui os olhos, surpreso.

Sarah Black entrou com seu vestido azul-claro impecável, os cabelos presos num coque elegante e o mesmo olhar que me atravessava desde os meus dez anos, quando tentava mentir sobre ter quebrado um vaso. Ela fechou a porta com calma e se aproximou da minha mesa.

— Jacob Ephraim Black… — começou, usando meu nome completo como só ela fazia quando estava prestes a me dar um sermão.

— Isso não parece bom — murmurei, recostando na cadeira.

Ela apoiou ambas as mãos na mesa e me olhou como se estivesse prestes a diagnosticar uma doença.

— Você e Claire vão ou não marcar esse casamento?

Soltei o ar devagar e fechei o relatório, já prevendo o rumo da conversa.

— Mãe… nós estamos focados em tantas coisas agora. A campanha da nova marca, o aniversário dela, minha expansão para o ramo de energia…

— Você sempre terá mil compromissos. E sempre terá algo acontecendo. Mas quando se ama alguém de verdade, Jacob, a gente faz o tempo acontecer.

— Eu amo a Claire — disse, firme. — Mas casamento não é só amor. É momento. E talvez ainda não seja o ideal.

Sarah me analisou por um instante. Depois suspirou e se sentou diante de mim.

— Eu só quero que você seja feliz, meu filho. E que não empurre sentimentos importantes pra depois, como seu pai fez por anos.

Aquilo me atingiu como um soco silencioso. Assenti.

— Eu sei.

Ela se levantou e veio até mim, beijando meu rosto com carinho.

— Pense nisso. Ah, e escolha um dia pra jantar conosco essa semana. Sem desculpas.

— Combinado.

Sarah deixou a sala com a mesma elegância com que chegou. Suspirei, ajeitei o paletó e peguei meu tablet. Era hora da reunião com o conselho de marketing.

Saí da sala, entrei no elevador e observei os andares passando diante dos olhos.

Minha cabeça ainda estava cheia da conversa com minha mãe.

O elevador parou no térreo executivo. Assim que as portas se abriram, caminhei apressado, digitando algo no celular, quando…

Pum.

— Droga — murmurei, sentindo algo — ou alguém — esbarrar com força no meu peito.

Instintivamente, meu braço se moveu e envolvi a cintura da pessoa antes que ela caísse. O cheiro doce de algo cítrico e amadeirado subiu até mim. E quando olhei…

Por um segundo, o tempo desacelerou.

Era uma mulher — ruiva, pele clara como porcelana e olhos que pareciam conter pequenos relâmpagos castanhos. O rosto era perfeitamente simétrico, traços firmes, mas femininos. A boca levemente entreaberta, surpresa. Seu corpo se encaixava perfeitamente em meu braço, e por um momento, eu… esqueci de soltar.

— Você está bem? — perguntei, sem tirar os olhos dela.

Ela assentiu, mas não disse nada.

E ali, por um instante estranho, silencioso e intenso…

Algo mudou.