Narrado por Renesmee


Acordei com o corpo quente, os lençóis levemente embolados e o som ritmado da respiração de Alec ao meu lado. Ele ainda dormia, um braço jogado sobre minha cintura como se me protegesse até nos sonhos.

Virei o rosto para observá-lo. Seu semblante tranquilo contrastava com o caos dentro de mim.

Sussurrei um "desculpa" silencioso, me desvencilhando com cuidado do toque dele. Me levantei devagar, vesti uma calça jeans e uma blusa de manga longa, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo rápido. O espelho refletia uma mulher exausta, determinada e com algo a perder — ou a recuperar.

Peguei o celular, respirei fundo e disquei o número da Black Enterprises.

— Black Enterprises, bom dia. Jessica falando.

— Olá, Jessica. Aqui é Juliette Monroe, sou sócia do grupo Galloway. O senhor Jacob Black agendou um almoço de negócios comigo hoje, e queria confirmar o horário. — Minha voz estava firme, profissional.

— Só um instante, senhora Monroe. — Teclados ao fundo. Uma pausa. — O senhor Black não tem nenhum compromisso marcado hoje. Ele reservou o dia inteiro para ficar com a filha.

Meu coração se contraiu. Engoli o nó na garganta e forcei um sorriso que ela não podia ver.

— Certo. Deve ter havido um mal-entendido. Muito obrigada.

— De nada. Tenha um bom dia.

Desliguei.

Jacob estava com ela. Com a minha filha.

Voltei ao quarto. Alec ainda dormia. Sua confiança em mim era doce... e sufocante. Não era dele que eu precisava agora.

No canto da cômoda, vi o bilhete com o nome do edifício onde Jacob estava morando — informação que eu mesma havia encontrado em um site de fofocas, entre fotos dele com Clara no pier e comentários sobre sua nova vida de pai divorciado.

One57, no coração de Manhattan. Luxuoso. Imponente. Cercado por vidros e seguranças.

Saí sem fazer barulho, pegando as chaves do carro de Renée. A cidade acordava, e comigo a fúria também. Eu não suportaria mais um dia sem ver aquela menina. Nem mais uma noite sem saber se ela sabia quem era.

Dirigi até a 57th Street com o coração martelando no peito. Estacionei em uma vaga discreta, com visão direta da entrada do prédio. A rua já fervilhava de gente, mas eu só conseguia enxergar uma coisa: a chance de vê-la.

E então, uma hora depois, ele apareceu.

O SUV preto cruzou a saída da garagem. O sol refletiu no capô e meus olhos foram direto para o banco do passageiro.

Ela estava ali.

Clara.

Sophie.

Rindo de algo que Jacob havia dito, com o cabelo solto, levemente ondulado, e os olhos que eram os meus. O mesmo jeito de ajeitar a mochila no colo. O mesmo sorriso torto de quando ficava sem graça.

Eu levei a mão à boca.

Era ela.

Eles passaram por mim e seguiram. Não me viram. Não podiam me ver ainda. Mas eu os vi.

E nesse instante eu soube — como uma mãe .


Narrado por Jacob


O despertador ainda nem tinha tocado, mas eu já estava de pé, encostado no batente da porta do quarto de Clara. A luz do sol se infiltrava pelas persianas, preguiçosa.

— Vamos, dorminhoca. Temos quinze minutos pra sair e achar um café decente antes que Manhattan fique intransitável.

Ela resmungou alguma coisa enrolada no edredom, mas logo empurrou os lençóis e sentou na cama, os cabelos desarrumados como uma tempestade.

— Só quinze minutos? Que tipo de pai faz isso com a própria filha?

— O tipo que não quer chegar que a filha passe mal por demorar a romar café da manhã — sorri.

Ela bufou e foi para o banheiro, arrastando os chinelos pelo chão.

Fui até a sala. Peguei meu celular e aproveitei para resolver algumas pendências. Fiz duas ligações rápidas até que Jessica, minha secretária, retornou uma das mensagens.

— Senhor Black?

— Fala, Jess.

— Só pra confirmar, uma senhora Juliette Monroe ligou agora há pouco, dizendo que tem um almoço agendado com o senhor hoje. Posso confirmar?

Franzi a testa, caminhando até a janela. A cidade começava a ganhar ritmo lá embaixo.

— Juliette Monroe? — repeti, tentando puxar da memória. — Eu não agendei nada com ninguém com esse nome.

— Ela se identificou como sócia do grupo Galloway.

— Isso é estranho. Cancela qualquer possibilidade. Diz que foi um mal-entendido.

— Claro, senhor.

Desliguei, ainda com aquilo martelando a cabeça. Juliette Monroe… estranho demais. E esse nome, de algum jeito, me incomodava.

— Tô pronta! — a voz de Clara me chamou de volta ao mundo real.

Ela surgiu na sala com o cabelo preso num coque alto e a mochila jogada no ombro. Sorriu ao ver que eu a esperava.

— Onde a gente vai tomar café? Aqui nem tem fogão ainda. — Ela cutucou a caixa de utensílios na bancada com um riso debochado.

— Estava pensando na sua padaria favorita… aquela na esquina da Lexington.

Os olhos dela brilharam.

— A que tem croissant de chocolate? Ah, agora sim estamos falando a mesma língua.

Sorri, pegando a chave do carro e sentindo aquele alívio momentâneo que só Clara conseguia me trazer. Mas o nome Juliette Monroe ainda ecoava no fundo da minha mente.

E, por algum motivo, me deixava inquieto.


Narrado por Jacob


Escolhi a Padaria Maman, uma das favoritas de Clara. Pequena, aconchegante, com aquele aroma de café fresco e pão recém-saído do forno que fazia a gente esquecer por um momento que estava no meio da selva de concreto chamada Manhattan.

Chegamos cedo o bastante pra pegar uma mesa perto da janela. Clara se acomodou animada, ainda com o cabelo úmido das pressas matinais.

— Croissant de chocolate, capuccino com canela e um suco de laranja. — ela disse ao garçom com um sorrisinho vitorioso.

— Espresso duplo, sem açúcar. E uma torrada de abacate. — falei, entregando o cardápio.

Enquanto o garçom se afastava, olhei para Clara e apoiei os cotovelos na mesa.

— Já que vamos passar o dia juntos, quais os seus planos? Ou vai deixar esse pai velho e cansado decidir?

Ela fez uma careta pensativa, mordendo o canto do lábio como fazia quando queria fingir maturidade.

— Hm… Talvez ir na livraria depois. Posso escolher um livro novo?

— Pode escolher dois, se não me fizer assistir mais nenhum reality de culinária coreana essa semana.

Ela riu, pronta pra rebater, mas parou de repente e olhou na direção da entrada da padaria.

— Pai… não é aquela sua amiga?

Meu coração vacilou por um segundo. Segui o olhar dela.

Ali, parada logo na entrada, com os olhos varrendo o ambiente com cautela, estava Renesmee.

Usava um casaco bege claro, lenço no pescoço e os cabelos soltos, ligeiramente ondulados, como eu me lembrava. Um suspiro que não pedi escapou de mim. Era ela. De novo.

— Amiga? — repeti, engolindo em seco. — Depende de qual amiga estamos falando…

Clara olhou para mim, depois de volta para Nessie, como se tentasse conectar as peças. Renesmee ainda não nos havia notado.

— É a moça do outro dia… a bonita, do Top of the Rock.

— É... — murmurei. — É ela, sim.

E antes que eu pudesse decidir o que fazer — fugir, levantar, chamar — os olhos dela finalmente me encontraram.

E, naquele instante, tudo ao redor pareceu silenciar.


Narrado por Renesmee


Segui Jacob a uma distância segura pelas ruas de Manhattan, o coração batendo como um tambor preso dentro do peito. Vi quando ele estacionou o carro em frente à Maman, a padaria charmosa que eu conhecia apenas por fotos e artigos. Ele desceu tranquilo… e Clara ao seu lado.

Clara... ou melhor, Sophie.

Minha respiração falhou por um segundo, como se o ar de Nova York tivesse sido arrancado de meus pulmões. Ela estava ali. De carne e osso. Com os mesmos olhos amendoados, o queixo que era todo meu… e aquele jeito despreocupado de andar.

Tomei fôlego e entrei.

O sininho da porta soou como um tiro.

Meus olhos encontraram os dela. E por um momento, o mundo parou.

Ela me reconheceu. Não como mãe, claro. Mas como… a mulher do Top of the Rock.

Clara abriu um sorriso gentil e acenou.

— Oi! — disse animada. — Que coincidência a gente se encontrar de novo!

Meu corpo inteiro queria fugir. Mas minhas pernas me arrastaram até a mesa.

— Bom dia… — murmurei, tentando parecer casual. Jacob estava imóvel, como se tivesse sido pego em uma armadilha invisível. — De fato… coincidência.

— Quer tomar café com a gente? — Clara perguntou com tanta empolgação que me desmontou. — Por favor, senta com a gente!

— Ela deve estar com pressa — Jacob interveio, tentando manter a voz neutra, mas eu percebi o nervosismo. Ele me conhecia bem demais.

Olhei para Clara. Para Jacob. Para a xícara ainda cheia na mesa. Eu não podia ir embora. Não mais.

— Na verdade… aceito, sim.

Sentei-me ao lado de Clara, o mais longe possível de Jacob. O garçom se aproximou e antes que ele perguntasse, falei:

— Um croissant de chocolate, um capuccino com canela e um suco de laranja, por favor.

— Uau! — Clara exclamou surpresa. — Pedi exatamente isso!

Sorri, apesar do nó na garganta.

— Acho que temos gostos parecidos.

Ela deu uma risadinha e começou a contar algo sobre um vídeo de um gato tocando piano. Eu a ouvia, ou tentava… mas meus olhos tremiam de emoção. Tão perto. Tão linda. Tão minha.

Jacob, ao meu lado, não dizia nada. Mas sei que ele sentia tudo. Porque o peso daquele momento era grande demais pra ser ignorado.

Eu precisava manter a calma. Mas por dentro, eu só queria gritar:

Ela é minha filha, Jacob. Nossa filha.”

Mas ainda não era hora.

Ainda não.