Narrado por Renesmee


Entrei no quarto ao lado de Jacob, com o coração aos saltos. As mãos suadas. Eu o seguia como quem caminha em direção a um milagre — e também a um campo minado.

Clara estava deitada, os olhos ainda inchados, as bochechas rosadas pelo choro recente. Quando me viu, seus olhos me fitaram, não com raiva… mas com confusão.

Ela piscou devagar e então, com um fio de voz, disse:

— Oi.

— Oi, meu anjo — murmurei, tentando conter a emoção que já começava a embaçar minha visão.

— Meu pai… ele me explicou — continuou ela, os olhos se voltando para Jacob, depois para mim. — Disse que eu sou… a Sophie. Sua filha.

Uma lágrima escapou dos meus olhos. Dei um passo à frente, o coração apertando no peito como se finalmente estivesse se encaixando depois de anos quebrado.

— Você é minha Sophie — sussurrei, me aproximando devagar, como se temesse espantá-la. — Meu bebê. Eu procurei por você a vida inteira.

Ela me olhou de novo, com aquele brilho curioso e ainda cauteloso nos olhos.

— É tudo muito confuso — confessou, mordendo o lábio inferior. — Eu... não sei o que pensar.

Jacob se aproximou e se sentou na beira da cama.

— E você não precisa entender tudo agora, filha. Isso vai levar tempo. Mas o mais importante é que você está segura. E que a Nessie só quer te conhecer. Nada mais.

Clara respirou fundo. Os olhos foram até os meus de novo.

— Você se importa se eu continuar te chamando de Nessie... e não de mãe?

Senti um aperto no peito. Mas sorri. Segurei a mão dela com todo o carinho do mundo.

— De forma alguma, meu amor. Eu entendo. Eu sei que você ama a Claire e que ela sempre foi sua referência. Eu jamais ficaria chateada por isso.

Engoli o choro e completei, acariciando os dedos dela:

— Só espero que, um dia, você consiga me ver como sua mãe também. No seu tempo. Do seu jeito.

Ela me observou por alguns segundos. E então sorriu, aquele sorrisinho torto e sapeca que vi tantas vezes nas minhas memórias.

— Então… eu vou ter duas mães?

Jacob riu pelo nariz, cruzando os braços.

— Tecnicamente, sim.

Clara arqueou a sobrancelha, malícia no olhar:

— Isso significa que eu vou ganhar duas mesadas?

Eu ri, rindo de verdade, com o coração leve pela primeira vez em anos. Me inclinei e beijei a mão dela.

— Pode apostar que sim.

Clara sorriu, e pela primeira vez, vi ali… não só a menina forte e confusa, mas minha filha. Minha Sophie. E pela primeira vez, ela não parecia tão distante de mim.


Na manhã seguinte, o hospital estava mais movimentado do que eu esperava. Enfermeiros iam e vinham com pressa pelos corredores, enquanto Alec segurava minha mão silenciosamente no banco da sala de coleta.

Clara estava sentada na cadeira ao lado de Jacob, com os braços cruzados e os olhos semicerrados para a enfermeira.

— Vai doer? — perguntou, desconfiada.

— Só uma picadinha, querida — disse a enfermeira, gentil.

Clara olhou para Jacob com a sobrancelha arqueada, como se quisesse confirmar se podia mesmo confiar na mulher.

— Isso vai provar que eu sou... a Sophie? — perguntou com a voz miúda, olhando para o pai.

Jacob sorriu e assentiu, passando a mão nos cabelos dela.

— Vai sim, meu amor. É só uma formalidade agora.

Ela revirou os olhos.

— Tá... então vamos logo com isso.

Não pude evitar um sorriso. Mesmo em meio a tanta confusão, ela ainda era uma adolescente. Teimosa, autêntica. Clara.

A coleta foi rápida, apesar da careta que ela fez no momento da agulha. Jacob também fez sua parte em silêncio. Quando terminaram, a porta se abriu e o médico entrou com um semblante mais leve.

— Tenho boas notícias — disse ele, olhando para mim e Jacob. — A recuperação da Clara está excelente. Ela está fora de perigo e terá alta nas próximas horas.

— Sério?! — Clara quase saltou na cama se não estivesse com a perna imobilizada. — Eu vou pra casa!

— Vai sim — disse Jacob, sorrindo.

Ela virou-se para mim, os olhos brilhando:

— Você vai comigo, Nessie?

Meu coração quase parou.

— Eu vou estar ao seu lado, Clara. Sempre que você quiser.

Ela abriu um sorriso largo e se recostou no travesseiro satisfeita.

— Legal… — murmurou, ainda sorrindo, mas então franziu o cenho. — E… e a minha mãe? Ela vai me ver quando eu sair daqui?

Eu e Jacob trocamos um olhar rápido, tenso. Aquele tipo de silêncio que pesa mais do que qualquer palavra.

Jacob se sentou na beira da cama e pegou a mão dela.

— No momento, a Claire não pode te visitar. Ela… está resolvendo algumas coisas.

— Coisas sérias? — Clara olhou de um para o outro, já prevendo que havia mais por trás daquela resposta.

— Sim — respondi com cuidado. — Mas assim que for possível, ela vai ter a chance de conversar com você.

Clara desviou o olhar, pensativa. Ficou em silêncio por alguns instantes, como se digerisse a resposta. Mas então, suspirou.

— Tá. Eu espero.

Ela não perguntou mais. Talvez por saber, no fundo, que a verdade estava começando a se revelar. E talvez, como eu, só quisesse viver um momento de paz depois de tudo.

Ali, naquele quarto de hospital, sentada entre ela e Jacob, percebi que o recomeço que tanto esperei finalmente estava diante de mim.

Minha filha estava viva.

E eu jamais deixaria que a arrancassem de mim novamente.



Narrado por Jacob


Chegamos ao apartamento no fim da tarde. Eu não sabia exatamente o que esperar, mas assim que abri a porta, um cheiro suave de lavanda me atingiu. A luz do pôr do sol entrava pela janela da sala recém-decorada, e por um segundo eu me senti… em casa. De verdade.

Rebecca estava ali, de braços cruzados, com aquele sorriso de quem sabe que fez um bom trabalho.

— Clara vai amar a nova decoração do quarto — disse, orgulhosa.

Minha mãe, Sarah, ajeitava algumas almofadas no sofá novo. Tudo parecia diferente, mais acolhedor. A mobília, as cortinas, até a cor das paredes… Rebecca e minha mãe realmente haviam dado um jeito no lugar. Era como se preparassem um lar de verdade. Um lar pra mim e pra minha filha.

Clara entrou mancando levemente com a ajuda de Nessie, apoiada no braço dela, e olhou em volta.

— Uau… — disse baixinho.

Rachel, Paul, Embry e até Jared estavam ali, esperando por ela. Todos sorrindo, disfarçando a tensão com alegria.

— Bem-vinda ao lar, Clarinha — disse minha mãe, e se aproximou para lhe dar um beijo na testa.

— Obrigada, vovó.

Renesmee ficou ao meu lado. Vi no rosto dela a emoção contida. Todos da minha família a trataram bem — e isso me aliviou mais do que eu imaginava. Rachel conversou com ela como se estivessem retomando uma antiga amizade, e até Rebecca, que sempre foi mais desconfiada, ofereceu um sorriso verdadeiro.

— Sinto muito por tudo o que aconteceu, Renesmee — disse minha mãe, com delicadeza. — Mas mais tarde… você e eu vamos precisar conversar.

Renesmee assentiu, compreensiva.

— Claro, dona Sarah. Mas por agora… Clara só precisa descansar.

Peguei Clara nos braços, como fazia quando ela era menor, e ela riu, se aninhando contra meu peito.

— Pai! Já tô grande!

— Vai me deixar carregar você ou prefere vir pulando com a perna quebrada?

Ela bufou fingindo estar brava, mas sorriu em seguida.

Ao entrar no quarto, pude sentir sua surpresa. As paredes estavam pintadas de um lilás suave, havia pôsteres de bandas e filmes que ela gostava, uma estante com livros e alguns mimos: uma poltrona nova, luzes suaves em volta da cabeceira, almofadas coloridas.

— Quem fez tudo isso? — ela perguntou, olhando ao redor com os olhos arregalados.

— Rebecca e a vovó. — Sorri. — Mas a ideia foi minha. Elas só deixaram tudo muito melhor.

Ela se deitou na cama com cuidado, ajeitando a perna.

— Eu amei. Sério. Parece coisa de filme.

— E é só o começo — prometi, sentando na beira da cama. — Esse lugar é seu tanto quanto é meu.

— Vai ser bom ficar aqui.

Olhei para minha filha… nossa filha. A dor, a confusão, a perda — tudo isso ainda existia, mas naquele momento, o que reinava ali era esperança.

Renesmee entrou devagar no quarto, sorrindo, os olhos brilhando de ternura. Clara ajeitava os travesseiros e olhou para ela, encantada.

— Uau… seu quarto tá lindo — disse Renesmee, tocando a colcha com as pontas dos dedos. — Tem muito da sua personalidade aqui.

Clara assentiu com um sorriso tímido. Era visível como se sentia confortável ao lado de Renesmee. Um laço silencioso crescia ali… e era lindo de ver.

— Acho que vou deixar vocês sozinhas um pouco. Isso me parece um momento de… mulheres — brinquei, me aproximando da cama.

Clara riu e esticou o braço. Inclinei-me e beijei sua testa.

— Volto logo, princesa.

Antes de sair, olhei para Nessie. Nossos olhos se encontraram por um instante. Eu não disse nada — não podia. Mas meu olhar dizia tudo. Ainda a amava. Ainda era ela.

Fechei a porta devagar e respirei fundo.

Caminhei pela sala. Sarah estava conversando com Rachel e Paul, enquanto Rebecca mexia no celular. Me aproximei.

— E a Bonnie? E o Solomon? — perguntei, sentindo o vazio da ausência deles.

Paul me olhou com um semblante mais sério.

— Foram até a delegacia — respondeu. — A polícia ligou. Eles encontraram uma fita… na casa de Logan.

Minha espinha enrijeceu.

— Que fita?

Paul fez uma pausa, tensa.

— Um vídeo de trinta anos atrás. Estava intacto. A perícia conseguiu restaurar as imagens.

Rebecca largou o celular, preocupada.

— E o que tinha nesse vídeo?

Paul me encarou.

— Logan matou Irina Denali.

Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Meu sangue gelou. Eu conhecia aquela história… ou achava que conhecia. Irina havia desaparecido em circunstâncias misteriosas. Era um tabu, um fantasma. E agora, descobríamos que Logan… o mesmo homem que tirou Sophie de mim… também havia tirado uma vida décadas antes.

— Eles têm certeza? — perguntei, engolindo seco.

— Absoluta. — Paul cruzou os braços. — As imagens mostram Logan entrando no apartamento de Bella e saindo minutos depois com a arma branca. Essas imagens desapareceram e isso incriminou Isabella Swan.

Rebecca levou a mão à boca, chocada.

— Esse homem é um monstro.

Assenti. Meus punhos se cerraram.

— Ele destruiu vidas… tantas vidas.

Meu olhar foi até a porta fechada do quarto de Clara. Meu coração apertou.

Mas agora… tudo mudaria.

— Mas porque ele Mataria Irina Dennali? — perguntei.

— Isso é o que seu tio esta tentando descobrjr— disse meu pai. — A polícia já emitiu um alerta internacional. Mas não vai durar muito.

Assenti em silêncio. Mas uma coisa era certa:

Tudo estava ligado. O passado. O presente é talvez o futuro.