O Lado Sombrio do Amor

62 Almoço em família



Narrado por Renesmee


Fiquei ali, sozinha no provador, com a aliança de noivado repousando na palma da minha mão como se pesasse uma tonelada. As lágrimas desciam silenciosas. Eu deveria sentir alívio. Liberdade. Mas tudo o que sentia era culpa.

Alec me libertou... e tudo o que eu consegui sentir foi como se tivesse falhado com alguém que me amou com tanta entrega.

Respirei fundo, tentei conter o choro e abri a porta do provador. Ainda vestida de noiva, andei pelo salão da loja com o olhar perdido. Olhei em volta, procurando Alec, mas ele já tinha ido. Claro que tinha.

— Senhora... a senhora não pode sair vestida com o modelo — disse a vendedora gentilmente, se aproximando com cautela. — É uma peça exclusiva.

Eu apenas assenti, sem força pra discutir.

— Não vai haver mais casamento — murmurei, voltando ao provador.

Minutos depois, me vi de volta aos meus jeans e à blusa clara que tinha escolhido de manhã. Simples. Leve. Mas naquele momento, tudo parecia pesar.

Coloquei a aliança de volta na caixinha e a guardei no bolso da bolsa.

Saí da loja, e assim que atravessei a porta, avistei Bella e Sophie sentadas na lanchonete da frente. Bella segurava uma xícara de café e Sophie, uma fatia de bolo quase pela metade.

— Mãe! — Sophie sorriu quando me viu, com o brilho nos olhos que sempre aquecia meu peito. — Você ficou linda com aquele vestido. Vai escolher aquele?

Eu sorri, ou pelo menos tentei.

— Aquele não, amor. A gente pode conversar melhor em casa, tudo bem?

Bella me encarou com o cenho franzido, imediatamente percebendo algo no meu tom. Mas não disse nada. Apenas assentiu e se levantou.

— Eu tenho uma consulta agora — ela disse. — Você vai ficar bem?

— Claro, mãe — respondi, beijando sua bochecha rapidamente.

Bella me olhou mais uma vez, tentando captar o que eu escondia. Eu apenas balancei a cabeça, pedindo com os olhos que ela não perguntasse agora. Ela entendeu.

Sophie pegou minha mão e fomos em direção ao carro.

— Mãe... você tá bem? — ela perguntou baixinho.

Apertei sua mão com carinho.

— Agora eu tô. E nada me faria mais feliz do que passar o resto do dia com você.


Chegamos em casa em silêncio. Sophie caminhou na frente, ainda animada com o passeio, e logo se jogou no sofá com o celular na mão.

— O papai mandou mensagem — ela disse, os dedinhos ágeis digitando de volta. — Ele perguntou se eu tô bem.

Assenti, forçando um sorriso.

— Responde pra ele que sim... que a gente tá bem.

Enquanto ela se distraía com o celular, aproveitei para ir até o quarto. Empurrei a porta com cuidado, como se já soubesse o que encontraria — ou o que não encontraria.

As malas dele não estavam mais ali.

A prateleira onde ele deixava os livros estava vazia.

O armário, também.

Toquei o lençol ainda esticado com um cuidado quase ritualístico e sussurrei para mim mesma, como quem confirma algo que não queria aceitar:

— Ele foi embora...

A voz da Sophie me pegou de surpresa.

— Mãe?

Me virei, limpando rapidamente as lágrimas que nem percebi que haviam escapado.

— Oi, meu amor.

— Você tá triste?

Sorri de leve e me ajoelhei para abraçá-la.

— Um pouquinho... mas tá tudo bem. Às vezes as pessoas vão embora. Mas eu ainda tenho você, não tenho?

Ela me envolveu com os bracinhos pequenos e disse com a seriedade de quem carrega uma grande revelação:

— Tem uma coisa que deixa qualquer pessoa feliz.

— Ah, é? — sorri, tentando entrar no jogo dela. — E o que seria?

Ela me olhou nos olhos com convicção.

— Macarrão.

Soltei uma risada verdadeira, daquelas que aquecem por dentro.

— Você venceu. Vamos almoçar uma macarronada daquelas, com muito queijo e molho de tomate.

Sophie deu um pulinho animada.

— Com suco de uva?

— E pão de alho. Mas só se você prometer que vai me ajudar a cozinhar.

Ela correu em direção à cozinha.

— Então hoje serei a chef.

Eu a segui com o coração mais leve. Ainda doía. Ainda doía muito. Mas por ela, eu me levantaria mil vezes.

E naquela tarde, entre risadas, molho no rosto e queijo derretido, entendi que às vezes a felicidade vem em formas simples — como uma garotinha esperta, uma panela no fogo... e um prato de macarrão.



Narrado por Jacob


O silêncio do meu escritório contrastava com a turbulência dentro de mim.

A conversa com Alec ainda reverberava na minha mente.

"Ela nunca foi minha por completo."

"Ouvi ela chamar seu nome enquanto dormia."

"Espero que agora vocês façam certo."

Alec não tinha dito aquilo com rancor. Tinha sido um ato de coragem. De amor verdadeiro. E, por isso mesmo, me atingira como uma flecha.

Permaneci ali por longos minutos, encarando a tela do computador sem realmente enxergar nada. Me levantei e caminhei até a janela, observando Nova York lá embaixo, movimentada como sempre, alheia ao meu caos interno.

Suspirei e peguei o celular.

Meus dedos pairaram sobre a tela por um momento. Havia uma pessoa que podia me ancorar agora. Uma que sempre foi meu elo com Renesmee, mesmo sem saber disso.

Disquei o número da Sophie.

Ela atendeu no segundo toque, com aquela voz leve que sempre aquecia meu peito.

Jacob: “Oi, pequena. Tá tudo bem por aí?”

A resposta veio quase de imediato.

Sophie: “Oi pai! Tá sim! Tô na casa da mamãe 😄”

Sorri, já imaginando as duas juntas.

Jacob: “Que ótimo. Sabe o que eu tava pensando? Que macarrão melhora qualquer dua.”

Sophie: “Isso é uma otima ideia pai , vou pedir para mamãe pra gente fazer macarrão !!! 😋”

Jacob: “Melhor ainda. O que você acha de eu almoçar com vocês? Mas… shhh. Não conta pra sua mãe. Quero fazer uma surpresa.”

Sophie: " Que otima ideia pai. Vou guardar um lugar pra você. Prometo não contar 🤫”

Desliguei o telefone com o coração apertado. Mas era um aperto diferente. Daqueles que nos impulsionam a fazer o certo.

Toquei a campainha do apartamento e esperei apenas alguns segundos até ela se abrir.

Sophie apareceu com um sorriso que iluminava tudo ao redor.

— Pai! — exclamou, jogando os braços ao redor do meu pescoço.

Abracei minha filha com força, sentindo aquele calor que só ela conseguia trazer. Era como se o mundo finalmente estivesse no eixo.

— Vem, entra! — disse animada, me puxando pela mão. — A macarronada tá quase pronta!

Entrei no apartamento e, antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, vi Renesmee saindo da cozinha com um pano nas mãos. Ela parou ao me ver, surpresa estampada nos olhos.

— Jacob? O que você tá fazendo aqui?

A voz dela saiu confusa, hesitante.

— Sophie me convidou pro almoço — respondi com um sorriso contido, tentando manter a calma mesmo com o coração batendo mais rápido ao vê-la de perto, com os cabelos presos de qualquer jeito e aquele cheiro familiar que me bagunçava inteiro.

Renesmee olhou para Sophie, que sorriu inocente e deu de ombros.

— Ele disse que queria uma surpresa. E a gente adora surpresas, né mãe?

Nessie suspirou, apertando os lábios num sorriso leve, quase rendido.

— É... a gente adora.

Sophie olhou de um pro outro com aquela esperteza que só ela tinha e disse:

— Eu vou ajudar a pôr a mesa, tá? — E saiu, nos deixando a sós na sala.

O silêncio entre nós durou mais tempo do que deveria. Ela me encarava com aquele olhar que me desmontava — meio bravo, meio grato, completamente confuso.

— Então… Sophie te convidou? — ela perguntou, cruzando os braços, ainda desconfiada.

Eu sorri, me aproximando um pouco, mas mantendo o respeito da distância.

— Ela disse que almoçar com vocês era uma ótima ideia. E olha… — apontei para o ar — quem sou eu pra contrariar minha filha?

Renesmee baixou os olhos e balançou a cabeça, mas sorriu. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.


O cheiro do molho se espalhava pelo apartamento, aquecendo o ambiente tanto quanto os sorrisos de Sophie enquanto contava uma história engraçada sobre a escola.

Renesmee sentou à minha frente, colocando macarrão no meu prato, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se os anos entre nós tivessem sido apenas um intervalo e não um abismo.

— Não exagera, Sophie. Ele nem vai conseguir terminar isso tudo — ela brincou, rindo quando Sophie ignorou e serviu mais.

— Ele consegue sim. É o meu pai. Ele aguenta — Sophie disse, convicta.

Olhei para Renesmee com um sorriso enviesado.

— A menina confia no meu apetite. Acho bom não decepcioná-la.

O almoço seguiu leve. Sophie falava sem parar, e eu e Nessie trocávamos olhares cúmplices, ríamos, nos permitíamos aquele momento. Por alguns minutos, tudo parecia simples de novo. Como se o passado tivesse tirado férias e deixado a gente respirar.

Quando o último garfo foi levado à boca e os pratos ficaram vazios, Sophie se levantou:

— Eu vou ver o que tá passando na TV. Vocês lavam a louça, né? — Ela piscou, sapeca, e saiu da cozinha antes que um de nós pudesse responder.

Renesmee cruzou os braços e encostou na pia, me olhando com aquele ar divertido.

— Acho que ela tá armando.

— Claramente. Herdou isso de você.

Ela riu.

— Vai me ajudar mesmo com a louça?

— Claro — respondi, pegando os pratos. — Sou um homem moderno.

Ficamos lado a lado, ela lavando, eu enxugando. As mãos se encontrando de vez em quando, os ombros se roçando de leve. O som da água, das risadas abafadas, da respiração mais contida do que deveria.

— Você cozinha bem — comentei, quebrando o silêncio. — Tipo… absurdamente bem.

— Sophie me obrigou a aprender. Disse que uma mulher que não sabe cozinhar não assusta ninguém.

— Ela tem razão.

Renesmee me olhou de canto, os olhos brilhando. O pano caiu da minha mão, mas eu não me abaixei pra pegar. Só olhei pra ela, como quem vê um ponto de paz depois de uma tempestade.

— Nessie…

Ela parou, as mãos ainda molhadas, a respiração presa no peito.

— Eu não vim só por causa do macarrão.

— Eu imaginei.

— Eu precisava te ver. Só te ver. E lembrar porque nada — nenhuma escolha, nenhum tempo perdido — me fez te esquecer.

Ela baixou os olhos, e por um momento, o silêncio pesou.

— Jacob… — sua voz saiu baixa. — Tá tudo tão bagunçado.

— Eu sei. E não tô aqui pra bagunçar mais. Só pra lembrar que a gente ainda existe… em algum lugar dentro disso tudo.

Ela não respondeu. Só me encarou. E naquele olhar, havia dúvida… mas também desejo. Saudades.

Antes que qualquer palavra quebrasse aquilo, Sophie gritou da sala:

— O filme começou! Alguém vem ver comigo?

Renesmee respirou fundo, e voltou a lavar o último prato.

— Nós vamos — ela disse, enxugando as mãos e se virando pra mim. — Vamos?

Assenti. Mas sabia que aquele momento — aquele toque nas entrelinhas — ainda não tinha terminado.