O Juízo Final
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu via ali as velas acesas, os símbolos riscados no chão com giz, a taça e o sangue que ela continha.
Beberiquei o estranho líquido e comecei a murmurar as palavras diferentes escritas no papel. Nada se ouvia naquele porão imundo a não ser minha voz seca e, até então, o bater de portas no andar superior. Sorri com isso.
Então a ventania ficava cada vez mais forte, por um momento pensei que a velha casa iria desabar sobre meu corpo magricela tamanha foi a força que as portas e janelas batiam. O vento era um furacão naquele recinto, meu cabelo agitava-se tomando conta do meu rosto e entrando constantemente em minha boca, impedindo-me de falar. A folha em minhas mãos parecia que iria se rasgar com o vento.
Por fim, ajoelhei-me diante os símbolos, tomei um último gole de sangue e gritei:
— TOLLE ME!
Bastou.
Tudo se aquietou de repente. Apenas minha respiração cansada era ouvida.
— Chamastes?
A voz era alta e clara. Grossa e com autoridade.
Levantei-me e virei-me para a figura vestida em tons de cinza logo atrás de mim.
— Sim. – Minha voz também era firme.
Seus olhos analisaram-me dos pés a cabeça com indiferença, depois estreitaram-se mantendo a mesma linha rígida que estabeleceu assim que colocou os pés aqui.
— O que quisestes?
Respirei fundo, meus dentes trincaram.
— Leve-me. Desejo transitar no mundo dos mortos.
— Não será possível.
Bufei.
— E por que não?
— A partir do momento que vai para o outro mundo, não se é possível voltar – disse ele pausadamente.
— E quem disse que quero voltar?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Se queria apenas morrer, não precisavas fazer todo este alarde. – Gesticulou para o cenário. Revirei os olhos.
— Se morresse, iria para algum lugar, e não é isso que quero. Desejo poder ir para transitar por entre os mundos.
— Creio então que não poderei ajudar.
— Tenho o direito de saber o por quê?
— Não é possível que humanos vá para lá para andarem. Se a levar, tu iras direto para o purgatório.
Assenti, meus olhos estreitaram-se. Tinha um jeito, ele que não queria me ajudar. Estalei a língua no céu da boca, pensando se ele me diria como era possível eu ir para o outro mundo.
— Você sabe – afirmei.
— Ah! – Ele arregalou os olhos, numa falsa surpresa. Confirmou o que eu pensava. – Você sabe.
Continuei a estalar a língua.
— Bem, tem um jeito, mas isso não é comigo.
Provavelmente ele esperava que eu fizesse alguma oferta. Tudo bem, qualquer coisa para por as mãos naquele livro.
— O que você quer? – Minha voz beirava a irritação.
Ele fingiu pensar por algum tempo, talvez tentasse achar algo que fosse impossível d’eu achar. Coitado, mal sabia ele quem era eu. Por fim, sorriu torto e disse:
— As asas de um anjo.
Pisquei. Difícil, mas não impossível.
Mantive minha expressão indiferente e dei de ombros.
— Você tem quarenta e oito horas.
Minha boca escancarou-se surpresa com o prazo tão curto.
— O que? – Protestei; a testa franzida.
Ele apenas sorriu sarcástico e sumiu dizendo:
— Você ouviu.
— Filho da puta.
Virei-me e comecei a recolher os pertences. Apaguei as velas e passei a sola do meu sapato no giz para apagá-lo.
A missão agora era encontrar um anjo. Não é tão complicado, mas se torna quando você só tem dois dias para encontrá-lo, matá-lo e recolher suas asas. Maldito seja aquele que me instruiu a fazer isso.
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