O Jogo dos Semideuses: Em Chamas
2 O Anúncio
Notas iniciais
Acordo num sobressalto.
Então luzes se acendem e Grover, Damien, Portia, Drew e Milla começam a cantar “Parabéns a você”, batendo palmas e balançando balões.
Minha primeira reação é “meu aniversário foi ontem...”, mas então percebo que tudo não passou de um sonho. Na verdade, um pesadelo. Afinal não me lembrava de nada depois da conversa com Seneca.
Sei que, para alguns semideuses, os sonhos não são simplesmente sonhos, e sim revelações. Então, não fico tranquila.
Passados alguns abraços, parabéns e minidiscursos sobre o quanto sou corajosa e especial, minha equipe de preparação vai embora, me deixando a sós com Damien.
– Seneca Crane está planejando algo muito ruim! – digo assim que a porta se fecha.
– Do que está falando? – ele pergunta.
Então conto a ele o meu sonho. Damien escuta tudo em silencio. Pensei que ele fosse me chamar de louca, mas tudo o que ele diz é:
– Ravena também tinha muitos sonhos reveladores... – e fica pensativo.
– Quem é Ravena?
Então percebo que não devia ter perguntado. A expressão de Damien assumiu ar de tristeza. E logo de raiva. Mas estava feito, então reforço a pergunta.
– Quem é Ravena?
– A garota do chalé 4 no ano em que fui campeão. – ele diz, com o olhar no chão – Ela esteve do meu lado desde a Cornucópia até o último dia dos Jogos. Estávamos na final. Nós e os dois filhos de Ares.
– Que mesmo tocar no assunto? – pergunto, afinal sei que ele não gosta de lembrar de seus Jogos.
– Acho que é bom falar de vez em quando... Eu e Ravena estávamos escondidos em uma caverna quando as crias de Ares surgiram na entrada, atirando suas facas. Meu único instinto foi me proteger. Salvar minha vida... – seus olhos se enchem de lágrimas, mas ele as enxuga com as costas da mão.
– E então?
– Fiz a pior coisa que poderia ter feito! – ele grita com raiva – Os deuses não deviam ter permitido que eu vivesse depois disso. – ele demora um pouco, e então me conta – Usei Ravena como escudo... Todas as facas entraram em suas costas. Ouvi o canhão e caminhei na direção deles segurando o corpo dela na minha frente. Consegui matar o garoto com suas próprias facas. A garota escapou. Só então tive consciência do meu ato. Cheguei a pouco de me matar... mas não aceitei dar mais uma vitória à Ares! Algumas horas depois, nos reencontramos e a matei afogada num lago próximo à caverna.
Digeri tudo durante alguns minutos. Em seguida, abracei Damien com todo o carinho que eu podia dar.
– Então, soube algo sobre o Massacre? – pergunto quando nos separamos.
– Seneca Crane fará um anuncio ao anoitecer... – ele diz.
– Ah não! Ele vai anunciar que, de alguma forma, eu estarei nos Jogos...
– Isso é contra as regras! – Damien fala – Ele não pode fazer isso! Um vencedor dos Jogos Vorazes não pode se submeter novamente ao sorteio.
– Os Idealizadores têm uma mente astuta e perversa. E me odeiam. Com certeza encontraram uma brecha nas regras.
– Só nos resta esperar... E aí, ainda vai querer ir ao acampamento?
– Não depois de meu sonho... – digo – Vejo meus irmãos assim que possível.
Então Damien levanta e vai embora. Vou tomar banho, escovar os dentes e depois visto um vestido básico com flores coloridas.
Meu dia de aniversário passa em meio a fotografias com fãs e diversas visitas de pessoas importantes de Nova Roma. Dentre eles, vencedores de Jogos anteriores.
As horas passam rápido, cada vez mais perto do anuncia de Seneca. Entre uma visita e outra, leio algumas dezenas de páginas da minha edição de A Guerra dos Tronos.
Termino o livro ao fim da tarde e vou tomar banho. Grover havia dito que os Idealizadores pediram a presença de todos os antigos vencedores dos Jogos no estúdio onde Seneca faria o anuncio. Ele deixara um vestido cinza tomara-que-caia e sandálias gladiadoras de salto. Prendo meu cabelo num rabo de cavalo e ponho maquiagem básica.
Fomos para o estúdio, no centro de Nova Roma. Eu, Damien e Grover.
– Fique calma queridinha... – diz Grover notando meu nervosismo. – Não vai querer suar e estragar sua maquiagem, vai?
Dou um sorriso torto e tento esconder as pernas trêmulas. Não posso confiar tanto num sonho. Torço mentalmente para que tenha sido só um sonho.
Logo, estávamos no estúdio. Fui colocada na última das 49 cadeiras acolchoadas em um grande estúdio. Dezenas de câmeras rondavam pelo espaço, filmando cada campeão.
Leo Valdez, o garoto em chamas, estava ao meu lado. Garoto em chamas. É seu apelido depois que incendiou boa parte da arena simplesmente com alguns movimentos de braço. Venceu a 48° edição com 14 anos. Bem, notavelmente não é mais aquele magrelo que me recordo. Com certeza Valdez dedicou boas horas diárias de seu último ano em uma academia.
– Ei... – ele sussurrou.
– Hm? – pergunto. Se ele foi discreto, imagino que devo ser também.
– Você é a Centelha, certo? – ele diz, em um tom que mal podia escutar – Eu sou o garoto em chamas...
– Isso é um flerte? – soou irritada.
– Não, não! – ele se apressa em dizer – Só quero dizer que somos influentes. Juntos com alguns outros podemos trazer de volta o espírito de rebelião.
Isso me pegou de surpresa.
Mas antes que eu pudesse responder qualquer coisa, Seneca Crane, que subira ao palco sem que eu notasse, começa a falar.
– Estamos às vésperas do Segundo Massacre Quaternário! A data marca 50 edições de Jogos e podemos comemorar com nossos tributos vencedores a sua honra. Tenho certeza que esta edição será a mais memorável de todos os tempos. Porque? Porque este ano teremos verdadeiros assassinos na arena!
Nesse momento tenho certeza que o sonho era uma revelação.
– Para celebrar e relembrar suas vitórias, nada melhor que se consagrar mais uma vez como campeões...
Um murmúrio corre por entre a plateia e os vencedores. Estou estática, absorvendo cada palavra de Seneca.
– O sorteio dos tributos será feito amanhã ao meio dia. Para esta edição, metade de nossos tributos ocupam doze dessas cadeiras...
Ele aponta para nós.
– Um tributo vencedor de cada chalé será sorteado para o Massacre Quaternário!
Um barulho infernal corre pela plateia. Alguns aplaudiam, outros choravam por terem que perder seus ídolos, outros gritavam em negação.
– Os chalés que não dispõem de mais que um vencedor já sabem qual será seu tributo e infelizmente não contarão com mentores... – ele diz com um tom de deboche. Boa parte dos chalés se encaixa. 4, 10, 11, 12, 13 e os chalés menores. Até ano passado, o 6 também estaria nessa lista.
– A outra metade dos tributos virá do sorteio tradicional.
Ah não, crianças inexperientes competindo com vencedores brutos. Isso vai ser um banho de sangue. Eu mesma corro um sério risco. Apenas Damien é a outra opção para que eu não entre. E não vou deixar que ele se machuque por minha culpa. É por minha causa que os Idealizadores estão fazendo isso.
– Bem-vindos a 50° edição dos Jogos Vorazes, o Segundo Massacre Quaternário!
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