O Jogo dos Semideuses
12 A surpresa
Notas iniciais
Eu não sabia que Nico di Angelo era tão poderoso.
Quando olho para a luta, vejo Nico erguendo Silena a vários metros do chão com tentáculos de sombra que fluíam dele. Provavelmente é um dos mais sinistros poderes usados na arena.
Esse lance de usar poderes na arena sempre foi questionado entre os Idealizadores dos Jogos. Seria injusto contra os semideuses que não os possuísse. No entanto, após a vitória de Leo Valdez, o menino magricela e simpático que conquistou todo mundo e deu um show à parte com suas chamas na edição do ano passado, acho que ficou bem óbvio que é válido usar poderes na arena.
Silena estava sufocando. Nico estava com uma expressão furiosa. O rosto cheio de veias, os olhos vermelhos fixos na menina.
A menina balança as pernas em tentativas frustradas e chutar Nico. O filho de Hades dá um novo sorriso estranho, e com um leve movimento com a mão, faz Silena ser jogada contra o tronco de uma árvore. Posso ouvir o inconfundível som de osso quebrando e um grito fino da menina.
Decido que ficar próximo a Nico é perigoso, pelo menos por enquanto, e volto correndo no rumo da caverna. Encontro Amanda no caminho com o frasco, e a faço voltar comigo.
Quando estávamos chegando à entrada da caverna, ouvimos o tiro do canhão. Silena está morta. Amanda tira a camuflagem do meio e entramos.
Percy estava com a espada na mão. Suponho que estava indo atrás de nós.
– Enfim você voltou! – Percy fala, me abraçando. – Fiquei preocupado.
– Estou bem... – digo, surpresa com a demonstração de sentimento – Hum... Como está seu pé?
– Ainda está inchado...
– Ainda precisa daquela planta! – afirmo.
– Não quero que se arrisque por mim! – ele fala, segurando minha mão.
– Você precisa... E não me custara nada...
– Só não quero perde-la! – ele fala, com aqueles olhos lindos marejando.
Vendo que ele estava se forçando a ficar de pé, me abaixo e ele faz o mesmo. Amanda estava nesse momento lavando o rosto na fonte de água, distraída com seu reflexo. Então, seguro Percy pela camisa e o puxo para mais perto de mim.
Sinto sua respiração quente em meu rosto e é uma sensação boa. O permito que se aproxime mais, até que nossos lábios se tocam.
Confesso que não sou experiente nesta questão de beijar... Ok, assumo que este foi o meu primeiro beijo. E foi ótimo!
Foi rápido e não muito pressionado, e nada de línguas, mas transmitiu segurança e conforto. Percy e eu nos abraçamos quando nossos lábios se separam. Encosto minha cabeça em seu peito.
Mais tarde saí enquanto Percy deu uma cochilada e consegui as folhas ali perto. Eram folhas comuns na floresta que cerca o acampamento, e não foi difícil acha-la naquela selva. Quando estou de volta à caverna, Amanda me ajuda a molhar as folhas até elas formarem uma massa verde e nojenta, para depois colocarmos no pé de Percy.
E o dia passou sem mais acontecimentos. Pelo menos até o fim da tarde, quando escutamos mais um tiro de canhão.
– Quem terá sido? – Amanda pergunta.
– Saberemos daqui a pouco ao anoitecer. – eu digo.
Comemos pães com geleia e água mineral enquanto ainda está cedo. Eu acendo uma fogueira e nós assamos alguns peixes que Percy, com seu pé já bom, fez aparecerem do nada e pescou na fonte.
Um jantar luxuoso para quem está na arena...
Ao cair da noite, os três vamos lá para fora para assistir à chamada dos mortos. Concordo que não é um dos meus programas de TV favoritos, mas precisamos saber quem ainda resta a ser enfrentado.
Então toca o sino e começa o show de horrores.
O primeiro rosto que aparece é o de Jason Grace e fico chocada. O último dos canhões de hoje foi pelo filho de Zeus. Alguém o matou no fim da tarde. Alguém com coragem suficiente para enfrentar os carreiristas. Ou um deles.
O próximo da lista é Will, do chalé 7. Não foi um dia bom para os carreiristas...
Em seguida, surge o belo rosto de Silena, do chalé 10. Ela tentou me matar, mas me sinto triste pela morte dela. Travis, do chalé 11. E por último, Bianca di Angelo, do chalé 13. Doze mortos. Restam doze tributos.
As mortes de hoje foram ainda mais tristes que as de ontem, afinal tive contato com quase todos eles pouco antes de suas mortes.
Bem, como resposta a tudo isso, o que meu coração manda fazer, é o gesto mais polêmico que já ousaram fazer na arena.
Levo os três dedos médios da mão direita até a boca e ergo o braço para cima. O símbolo de adeus a quem se ama. Mas também o símbolo de negação.
Associado a meu broche de tordo, provavelmente com este gesto acabo de pedir aos Idealizadores dos Jogos que arranquem minha cabeça. Mas não podia ficar parada.
Percy me olha com repreensão, como se não tivesse aprovado minha atitude.
– Você está morta... – diz Amanda, entrando na caverna.
Percy e eu esperamos um pouco para entrar. Ficamos lá fora, sentados no chão, olhando para as estrelas. Aproveitando um momento de paz e beleza, tão raro na arena. A lua estava naquela noite, especialmente bonita. Quase, artificial. Encosto a cabeça em seu ombro.
– Gostou? – ele me pergunta.
– Do que? Da lista de mortos?
– Não se faça de boba...
– Foi o melhor da minha vida! – digo, timidamente. Bem, contando com o fato de este ter sido o primeiro, não era nenhuma mentira.
Então ele vira o rosto para mim. Faço o mesmo e nossos olhares se encontram. Nos beijamos de novo. Desta vez com um pouco mais de calor. Permito que sua língua passeie por minha boca. Ele era bom nisso...
– Já posso ouvir Effie Trinket declarando, “Os amantes desafortunados da 49° edição... Uma história de amor mais trágica que Charlie e Silena!”. — diz uma voz inconfundível atrás de nós.
Era a voz de Malcolm!
Olho ao redor e o vejo na entrada da caverna com uma faca ameaçadora no pescoço de Amanda. A menina com expressão de medo. Ele, com olhar insano.
– Olá, Annabeth! – diz ele, passando a faca no pescoço da menina.
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