O Jogo dos Deuses: A Casa da Esperança
16 Ysla: As Rosas de Perséfone
Ethan, Larissa e eu caminhávamos por um vasto deserto vermelho, às vezes eu me sentia como se estivesse na superfície do planeta Marte.
Nós três fomos obrigados a nos separar dos outros devido a uma emboscada que sofremos. Minha irmã Yasmim não estava bem, e provavelmente estaria pior agora.
Tivemos uma conversa quando ainda estávamos em Atlântida, Poseidon me contara sobre o motivo de nós sermos gêmeas com os pais diferentes. Pelo que parecia, meu pai Apolo não sabia da minha existência ou estava ignorando os pedidos que fiz depois daquela conversa para conhecê-lo. Eu estava frustrada.
Ethan me dera todo o apoio de que precisava, embora ele não soubesse o motivo de eu o precisar.
De vez em quando Larissa andava apoiada em Ethan, pois seu tornozelo voltara a doer por causa do ferimento feito na nossa fuga nos túneis do Obelisco, o qual Larissa apelidou o lugar carinhosamente de "Túneis Desagradáveis".
Este deserto parecia não ter fim, nem sei mais quanto tempo estávamos ali. Caminhando sem direção. Tudo o que sabíamos era que precisávamos chegar à Casa da Esperança de alguma forma.
– Eu estive pensando, — começou Ethan – Já que estamos literalmente no inferno, podíamos ir até a casa de Hades. É uma ideia louca, mas ele não pode nos prender aqui. Há razões para isso. Talvez Emilly tenha ido pra casa do pai.
Eu e Larissa ficamos pensativas, ou pelo menos foi o que pareceu, mas enfim nós concordamos, aliás, ter um péssimo plano que poderia te levar a morte parecia melhor do que não ter nenhum e ficar vagando pelo inferno como uma alma condenada.
Poderia ser ilusão causada pelo deserto, mas a nossa frente havia um campo cheio de flores, lírios, orquídeas, rosas, entre outras. Era difícil enxergar o fim do campo de flores.
De repente, parecia que o deserto pelo qual vagamos não existisse, pois as flores se multiplicavam em uma velocidade impressionante.
Como se fosse um enxame de abelhas, pétalas de cor violeta flutuaram a nossa volta e então todas elas se uniram materializando na forma de uma mulher morena. Seus olhos castanhos chamavam muita atenção por causa de seus brilhos. Seus cabelos negros eram perfeitamente longos com uma franja sobre a testa. A mulher usava um vestido branco onde ao lado da perna esquerda havia um corte até o fim.
A deusa da primavera era linda.
Perséfone encarou Ethan por um segundo com um sorriso. Eu esquecera de que Ethan era filho de Deméter, por tanto ele era irmão de Perséfone.
– Estamos indo para a casa de Hades. – começou Larissa.
– Eu sei. – respondeu a deusa cuja voz calma e suave era capaz de fazer um touro raivoso dormir – Levarei vocês até lá com uma condição. Vocês não podem recusar.
Larissa e eu nos entreolhamos.
– O que seria essa condição? – perguntei mesmo sem querer ouvir a resposta.
Perséfone riu como se tivesse gostado do jogo que iria começar.
– Alguém roubou minhas raras e valiosas rosas negras e preciso que semideuses como vocês as busquem para mim. Como recompensa eu irei levá-los à casa de meu marido.
Larissa franziu a testa para Perséfone.
– E se recusarmos? – perguntou ela em um tom grave, como se desafiasse a deusa para uma luta até a morte.
Perséfone riu novamente. Estávamos dentro do jogo dela e não haveria escapatória.
– Vocês podem ficar vagando pelo Campo de Asfódelos e nunca acharem a saída. – ela caminhou para Ethan e passou a mão carinhosamente pelo rosto dele olhando de esguelha para mim e se afastou – Então crianças, qual será a escolha?
– O qual sobrevivemos! – disse com ênfase, mas ambas as opções não pareciam ter riscos de morte – Vamos buscar suas rosas negras.
Larissa e Ethan responderam positivamente a escolha que eu fiz.
– Sigam pela floresta e encontrarão o ladrão.
Sem dizer mais, Perséfone desapareceu em uma explosão de pétalas que voaram para longe. Em seguida brotou uma floresta no campo de flores que permanecera após a saída da deusa. Não demorou até ficarmos cercados por enormes árvores assustadoras.
Andamos pela floresta sem ter uma direção em mente, até que começaram a cair pétalas cor de rosa do falso céu.
– Perséfone está nos guiando. – disse Ethan com certeza em sua voz.
Seguimos as pétalas sem excitar, embora me desse um pouco de medo já que estávamos indo mais fundo na floresta, e quanto mais fundo, mais escuro ficava.
A escuridão tomara conta do que antes era o céu avermelhado do Mundo Inferior.
As árvores pareciam mais esqueléticas e mostravam ter uma cor acinzentada, a nossa frente havia um lago que emanava calor de seu interior.
Boiando sobre o lago estava um homem. Ele nadou até a margem e começou a caminhar em nossa direção. Ele era realmente lindo. Seus cabelos negros tinham um corte perfeito. Sua pele brilhava de tão limpa. Ele usava apenas uma sunga preta.
Ao contrário de mim e de Larissa, Ethan estava incomodado com a presença do belo homem.
– Olá. – disse com um sorriso brilhante e encantador – Procuram por algo?
Eu e Larissa travamos olhando para o corpo dele.
– Estamos à procura das rosas de Perséfone... – começou Ethan, mas foi interrompido pelo lindo homem que estava bem a nossa frente.
– Voltem de onde vieram. As rosas ficarão conosco!
A água do lago se agitou com o nervosismo dele. Seria ele um semideus filho de Poseidon?
– Vocês não sabem o quão difícil foi encontra-las – disse uma voz feminina.
De repente metade do homem que estava à nossa frente se transformou na metade de uma mulher.
Larissa e eu ficamos chocadas.
– Hermafrodito! – exclamou Ethan.
– Quem? – gritei para que ele me explicasse.
– Hermafrodito é filho de Hermes e Afrodite, por isso o nome. A mulher se chama Salmacis. Ela rogou aos deuses para que ela vivesse junto de Hermafrodito por toda a eternidade, os deuses atenderam ao pedido e os dois corpos se fundiram...
– E então amaldiçoei o lago para que todos que entrassem sofressem como eu. – terminou Hermafrodito.
– Nosso amor tem crescido intensamente – disse Salmacis enquanto Hermafrodito revirava o único olho que ficara – As rosas estão no meio do lago e vocês não as terão.
Pude sentir a raiva que Hermafrodito sentiu por Salmacis por ter dito a localização das rosas.
Larissa avançou sem excitar, mas Ethan a segurou pelo braço impedindo que ela prosseguisse.
– O lago está amaldiçoado. – alertou Ethan – Entre e o seu corpo ficará como dele.
Larissa fuzilou Hermafrodito com os olhos. Ele começou a gargalhar.
– Não há como chegar até as rosas, vocês não podem convocar um barco. O único meio de alcança-las é nadando, e todos sabem o que acontecerá se alguém fizer isso.
Hermafrodito estava certo. Estávamos perdidos no Mundo Inferior e sem nenhum meio de conseguir ajuda.
– Voltem ou enfrentem as consequências.
Nós três nos reunimos um pouco longe do corpo mutante de Hermafrodito e Salmacis.
– Tenho um plano. – começou Larissa.
De inicio discutimos muito a respeito do plano de Larissa, mas no fim era a única escolha que nós podíamos usar e ela estava disposta a sofrer as consequências.
Voltamos de frente para Hermafrodito que discutia com Salmacis sobre fazerem algo junto. Ficamos observando até que ambos perceberam o nosso retorno.
– E então? – questionou Hermafrodito – Decidiram o que vão fazer?
– Certamente! – respondeu Ethan com tamanha empolgação que me surpreendeu.
Hermafrodito esperou por uma resposta completa, o que não iria ter.
Ethan invocou um cajado de aço que tinha cor de madeira e quatro pontas no topo com uma cor cada, vermelho, azul, branco e prata.
Ele partiu para cima de Hermafrodito enquanto eu e Larissa corremos para as margens do lago amaldiçoado.
– Você tem certeza? – perguntei a ela.
– Isso precisa ser feito!
Dito isso, Larissa ditou um feitiço para que pudesse voar. Não sei de onde ela aprendeu, mas que bom que estava agindo como uma filha de Hécate. Nós não contávamos com o que estava prestes a acontecer.
Aves estranhas surgiram de repente dando rasantes para acertar e derrubar Larissa. As aves tinham partes do corpo deformadas e eram completamente negras, como se fossem sombras.
Uma das aves conseguira acertar Larissa na cabeça e ela começou a cair em espiral inconscientemente até se chocar bruscamente com a água amaldiçoada do lago.
Eu não podia deixa-la se afogar então eu me aproximei rapidamente da margem e pulei no lago, nadando na direção dela. Eu olhei para trás.
Hermafrodito empunhava uma espada enquanto Salmacis se protegia com um escudo. Eles lutavam como um só contra Ethan, que desvencilhava dos golpes de espada e escudo.
Continuei nadando o mais rápido que podia até finalmente abraçar o corpo inconsciente de Larissa. Nadei puxando o corpo dela junto ao meu até chegarmos à ilhota, que era o nosso destino.
O corpo de Larissa cuspiu toda a água do lago que sem querer havia engolido, e então ela acordou.
– Tudo isso por causa de umas rosas idiotas. – resmungou Larissa.
Eu estava exausta e as rosas de Perséfone estavam bem atrás de nós. Um portal circular surgiu ao meu lado e Ethan saiu de dentro.
– Vocês estão bem? – perguntou ele com um rosto assustado.
Larissa o encarou.
– O que você acha? Estamos amaldiçoadas. – respondeu ela nervosa – E Hermafrodito?
– Salmacis o está mantendo ocupado. Ela repensou e disse que era uma atitude infantil a dele.
– O que vai acontecer conosco? – perguntou Larissa com medo da resposta que viria.
– Por enquanto nada – respondeu Ethan – Mas se vocês se apaixonarem por alguém, seus corpos irão se unir.
– Então eu vou dividir o corpo com Huracán?! – gritei de uma forma inimaginável.
Larissa fez uma careta e Ethan me encarou.
– Felizmente o seu caso é diferente – começou Ethan – Huracán não pode se relacionar com ninguém além de Héstia. Os dois estão sob proteção de Caos e Moros, não há nada que possa separá-los.
Eu me lembrei da proposta que o misterioso deus inimigo me fizera quando estávamos nas proximidades do Monte Vulcano. Ele propusera que se eu ficasse ao seu lado Huracán seria inteiramente meu. Era uma proposta tentadora.
Embora eu soubesse das consequências eu ainda estava com duvidas se deveria aceitar ou não.
– Por que você não usou esse portal para nos trazer ao invés de nadarmos até aqui? – questionei Ethan para mudar o assunto rapidamente.
– É um poder que consome muita energia. Se eu trouxesse vocês eu não teria forças para enfrentar Hermafrodito.
– E se viéssemos os três juntos? – perguntou Larissa.
– Hermafrodito viria atrás de nós.
Pétalas de rosas flutuaram como se fossem um enxame de abelhas e quando todas se encontraram, formaram o belo corpo da deusa da primavera.
Por um estante eu esquecera a causa de eu ter sido amaldiçoada. As rosas negras de Perséfone estavam as nossas costas.
– Sinto muito pelo o que aconteceu meninas. – começou Perséfone – Temos um trato e vou cumpri-lo!
Perséfone estalou os dedos e nós surgimos em frente a um palácio. Estávamos na casa de Hades.
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