O Jogo dos Deuses: A Casa da Esperança
10 Yasmim: O desabafo de Poseidon
– Como ela pôde nos deixar?
– Nós vamos encontrá-la Yasmim. – tranquilizou-me Jane – Ela estava estranha depois da queda nos tuneis.
Depois de caminharmos pelos tuneis com a ajuda de Pã, nós saímos por uma entrada de caverna que parecia uma boca pronta para nos mastigar.
A mata a nossa volta era fechada, mas quando saímos da caverna não demorou até encontrarmos uma trilha esquecida pelo tempo.
Hebe e Kayanne seguiam em frente. Jane estava calada ao meu lado. Esta viagem estava me cansando, eu precisava dormir, mas fiz questão de não fechar os olhos nem para pensar, eu tinha que encontrar a minha irmã. Pensar que ela poderia estar sendo usada por titãs não me alegrava nem um pouco.
A brisa da mata nos salvava do intenso calor que pairava sobre nós, fiquei pensando em que horas poderiam ser.
– Por quanto tempo ficamos lá dentro? – perguntou Larissa.
– Ficamos por uma hora. – respondeu Jane.
– Como assim uma hora?! Você quer dizer que desde que te encontramos no castelo até agora foram simplesmente uma hora?
– Isso mesmo. Estamos em outro mundo, não se esqueça disso, o tempo é diferente por aqui.
Passar por tudo aquilo em apenas uma hora deixou meu corpo exausto. Eu estava a ponto de...
O cenário mudara e eu surgira em baixo d'água, mas felizmente eu conseguia respirar, talvez por ser filha de Poseidon ou talvez porque pudesse ser um sonho.
A minha frente estava uma linda cidade submersa que emanava um brilho azul pelo oceano a minha volta. Havia um movimento constante em volta da entrada da cidade.
Meu corpo flutuou para dentro e eu não conseguia me controlar. Cada movimento feito fora contra a minha vontade. Quando percebi eu estava na frente de uma porta com um tridente entalhado na maçaneta. As portas se abriram e pude ver uma cama aparentemente macia aonde um homem repousava.
– Venha. – disse ele erguendo sua mão direita para fazer um gesto para que eu me aproximasse.
Poseidon estava horrível, embora sua aparência estivesse ótima. Eu segurei sua mão gelada enquanto ele se esforçava para se manter acordado.
– O que está acontecendo? – perguntei a meu pai.
Ele tentou sentar na cama e eu o ajudei, pois sozinho ele não iria conseguir.
– Oceano sabe de minha fraqueza e está vindo para tomar meu lugar como o senhor dos mares.
– Eu posso ajudar em alguma coisa?
– Não minha querida. Você está longe e suas amigas precisam de você. Eu não estaria nestas condições se tivesse escutado os avisos de Huracán. Ele viu fragmentos de uma guerra em Atlântida, mas eu não acreditei.
Eu o olhei por um instante. Eu sabia que eu não estava realmente ali, pelo menos não fisicamente.
– Pai, como Ysla pode ser filha de Apolo e ainda sermos irmãs?
Poseidon me olhou como se não quisesse responder, mas eu precisava saber.
– Naquela época eu namorava sua mãe, éramos apaixonados, mas Apolo também era apaixonado por ela, o que trouxe algumas brigas entre mim e ele. Em uma maneira desesperada de tentar nos separar, Apolo passou a assumir minha aparência e ficar com sua mãe quando eu não estava presente.
Poseidon fez uma pausa para respirar um pouco.
– De alguma forma inexplicável ela engravidou de nós dois. Quando ela soube o que aconteceu, ela pediu que eu fosse embora, mesmo me amando.
Eu fiquei sem reação. Por que minha mãe nunca disse nada sobre Poseidon se o amava?
– O que houve com Apolo?
– Sua mãe não quis uma única palavra com ele. Às vezes nos encontramos em sonhos para matar a saudade. Mesmo assim ainda sinto que ela está magoada.
Aquilo era verdadeiro, eu podia sentir. A voz de meu pai emitia tristeza. Eu o abracei. Poseidon estava fraco e precisava de mim.
Eu comecei a sentir alguém me puxando de repente.
– Você precisa voltar minha filha. Não se esqueça da concha de sua mãe.
– Eu virei te ajudar pai. Assim que puder eu virei. Eu juro pelo rio Estige!
Poseidon arregalou os olhos como se não esperasse tal ação de mim. Eu deixei o palácio sendo arrastada.
– Yasmim! Acorde Yasmim!
Gritava alguém em cima de mim.
– Estou ouvindo, não sou surda! – respondi a pessoa que gritara.
As meninas riram a minha volta. Deduzi que Larissa tinha gritado, pois ela era a única que estava séria.
– Você estava penetrando na zona de morte. – disse Emilly.
– Então foi por isso que eu passei a me sentir tão viva.
Jane me olhou de cima a baixo. Ela parecia estar se perguntando se eu tinha ido a algum lugar enquanto estava desmaiada ou apenas me olhava.
– Estive com Poseidon em Atlântida. Uma guerra está prestes a começar por lá.
Contei a elas todo o ocorrido tirando o desabafo de meu pai sobre seu amor perdido. Aquele era um assunto para tratar com Ysla assim que eu a resgatasse dos Titãs.
– Como vocês me trouxeram de volta? – perguntei curiosa.
– Entrei na sua mente e te puxei para cá. Foi estranho, mas útil de certa forma. – explicou Kayanne.
Pode ter certeza, não fiquei confortável com aquilo.
Kayanne me dera uma das frutas de Deméter e seguimos viajem. Eu estava determinada a ajudar o meu pai, mas primeiro eu precisava ajudar Hebe e as meninas a resgatarem Atena e seus escolhidos sem esquecer a minha irmã e Ana.
Eu nunca parara para pensar que os deuses também eram maus, mas eles eram melhores do que gigantes e titãs.
Não consegui parar de pensar em meu pai naquela cama d'água, fraco e vulnerável.
Nossa caminhada era longa, de vez em quando parávamos abaixo de alguma arvore para descansar, mas logo voltávamos a caminhar.
As frutas de Deméter estavam acabando e não tínhamos ideia de onde encontrar mais. Pelas informações de Jane ainda eram duas horas da tarde. O tempo realmente passava devagar e não sei dizer se isso me irritava ou não.
Eu ainda considerava um mistério como os titãs capturaram a deusa da estratégia e provavelmente continuaria sendo.
– Sei como se sente. – disse uma voz ao meu lado.
Quase gritei de susto, mas me contive.
Wendell estava ao meu lado, mas as outras pareciam não estar vendo.
– Elas não estão me vendo, além de Dexter é claro. – ele passou a mão na cabeça do felino que ainda me dava medo – Exige muita energia me concentrar em todas de uma vez. É mais fácil focar em apenas uma.
– Meu pai mencionou que você teve uma visão.
– Verdade, mas não vou entrar em detalhes sobre isso.
Wendell ficou com o olhar distante.
– Está tudo bem?
– Está sim, não se preocupe. Às vezes sinto umas dores, mas nada com que deva se preocupar.
Havia uma mulher nos olhos de Wendell, conclui de que ele não estava sozinho n'A Casa da Esperança.
– Os titãs e os gigantes ainda estão separados. O plano de nosso inimigo é uni-los para destruir os deuses de uma vez por todas. Se Cronos e Porfírio unirem suas forças eu não sei o que pode acontecer, mas te garanto de que não resulta em boa coisa.
Eu olhei para ele esperando que dissesse que era uma brincadeira, mas não era.
– Quando chegarem ao Monte Vulcano, Jane e Hebe terá que subir a montanha até o topo, onde Ana e Ysla estão. O restante precisará entrar na montanha para resgatar Atena e os outros. Não esqueça Yasmim. Poseidon depende do seu sucesso para receber ajuda.
Wendell tremeluziu e desapareceu.
Contei para as meninas o que Wendell dissera. Ao que parecia, nós tínhamos conversado mentalmente, pois as meninas disseram que eu ficara quita o caminho inteiro.
Aparentemente Wendell me colocara na liderança ou apenas eu quem notou isso? Em todo caso, a responsabilidade estava sobre mim. Se falhássemos, Atlântida seria arrasada por Oceano e meu pai talvez não resistisse. Tentei espantar tal pensamento negativo.
O Monte Vulcano estava a nossa frente. Era um vulcão ativo no meio da mata com uma enorme abertura no chão, por onde nós entraríamos.
"A concha ajudará no que você precisar", disse Poseidon em minha mente.
Eu estava disposta a fazer o que fosse preciso para ajudar meu pai.
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