O Jogo dos Deuses: A Casa da Esperança

14 Larissa: O Castelo de Vidro do Destino


O palácio era incrível.

Havia pinturas nos corredores de todas as batalhas que Poseidon travara, e acredite, não eram poucos.

Anfitrite andava como se não estivéssemos ali, nós quase a perdemos de vista ao entrar em outro corredor.

Uma enorme porta dupla de madeira, onde estava entalhado um enorme tridente, se abriu para a nossa entrada nada triunfal na sala do trono do deus dos mares. Tudo aquilo ainda parecia surreal para mim.

Poseidon estava sentado em um trono de ferro segurando o seu famoso tridente. Ele olhou com alegria para Yasmim como se ela houvesse feito algo importante ou coisa assim.

Todos nós nos curvamos e levantamos com a autorização do deus. Fiz isso no automático.

– Obrigado por vir Njord. – agradeceu Poseidon ao deus nórdico que retribuiu com um sorriso e um aceno de cabeça. – Peço que me espere no salão ao lado para os planejamentos. Querida, leve Njord para o salão, por favor.

Anfitrite pareceu estar feliz em sair do salão onde estávamos.

Njord agradeceu pela companhia e seguiu Anfitrite.

– Cuidado com as promessas que faz Yasmim – alertou Poseidon – O que você fez foi muito arriscado, mas fico feliz que tenha conseguido.

– Achei que você estivesse quase morto. – lembrou Jane com os braços cruzados. Sua roupa ainda estava impecável, uma das vantagens em ser uma deusa.

Poseidon riu como se esperasse tal comentário.

– Já estava na hora de alguma coisa melhorar por aqui. – respondeu Poseidon se levantando do seu trono e deixando o tridente de lado. – Eu gostaria de falar a sós com Yasmim e Ysla. Hebe, você poderia levar as crianças, por favor?

– Tudo bem por mim. – respondeu Hebe – E você Jane?

– Vou ajudar Njord. Nos vemos logo. – respondeu Jane seguindo na direção em que Anfitrite levara Njord.

Hebe nos levou ao corredor contrario ao qual Jane seguira, ou seja, o outro lado.

Fomos divididos em quartos. Ethan, Julian, Daniel e Harry ficaram em um; Kayanne, Ana, Emilly e eu ficamos em outro; enquanto Ophellia, Carol e Hebe dividiam um terceiro.

O quarto tinha banheiro, roupas novas e beliches, felizmente havia ar puro ali.

"Seu pai depende do seu sucesso", dissera Huracán de acordo com o depoimento de Yasmim. Se tivéssemos falhado não teríamos encontrado Njord e provavelmente ele estaria perdido na floresta.

Eu tive um sonho ou uma daquelas viagens estranhas que as gêmeas mencionavam.

Eu flutuava em meio ao espaço. Eu nunca vira tantas estrelas a minha frente. À minha esquerda estava a Lua e à minha frente havia um asteroide enorme com um enorme castelo feito de vidro. Quem construiria um castelo de vidro no espaço onde ele poderia ser atingido por um meteoro a qualquer momento.

– Por isso é indestrutível. – ecoara uma voz de repente.

Eu não via ninguém por perto. Pousei confortavelmente de pé em uma das sacadas do castelo. A direita do castelo parecia ter um imenso portal com a imagem da Terra.

– Aquele é a Terra de onde vieram. – disse a mesma voz de antes, diferente da voz que nos perseguia. Eu percebi de que seja lá quem fosse, falava em minha mente.

De frente para o castelo estava uma Terra maior e real. Sem poluição ou satélites de agências espaciais em sua órbita. Era um planeta saudável.

Às minhas costas as portas de vidro da sacada se abriram revelando um enorme aposento cheio de livros, de lá saiu um homem e então as portas se fecharam. Se esta não era a tal Casa da Esperança, Huracán mudara de residência. Em todo o caso ele estava bem ali.

– Você está bem. – consegui dizer.

– Não sou quem pensa que sou. – disse sem ao menos abrir a boca – Huracán é uma parte de meu ser.

O homem parecido com Huracán vestia uma roupa típica de adolescente como calça jeans, camiseta e tênis. Em sua mão esquerda estava um cajado com algo que não consegui identificar, e sua outra mão era de cor preta dos dedos ao pulso. Eu poderia jurar de que vi algumas galáxias desenhadas naquela mão.

– Quem é você exatamente?

– Chamam-me de Destino, contudo meu nome é Moros.

Vendo que eu estava com uma expressão confusa, o Senhor Destino decidiu explicar.

– Sou o destino em pessoa assim como minha mãe Nix é à noite em pessoa. Sendo quem sou não posso interagir com a humanidade ou qualquer outro ser a menos que seja necessário. Por este motivo eu criei Huracán, para que eu pudesse viver com os outros. Vivi por muito tempo na Era Maia, mas decidi acabar com aquele universo devido a intrigas que ambos os deuses sofriam e me tornei grego reencarnando como filho de Zeus e Hera e casando com Hêmera. Séculos depois do que você já sabe, eu conheci Héstia e soube que ela era uma criação de minha esposa Ananke, que a fez nascer como filha de Cronos e Réia.

A história de Huracán, ainda era difícil de acreditar.

– Se você é o destino em pessoa, você pode acabar com esta guerra não?

Moros riu como se eu houvesse dito uma piada.

– Eu poderia, mas não é assim que funciona. Existem milhares de caminhos para algo acontecer, eu e Ananke temos que garantir que aconteça de um jeito ou de outro, mas existe o imprevisto. Nós vemos tantas possibilidades que acontece de algo passar sem que percebamos. Urano e Cronos tiveram escolhas, mas optaram pelas ruins apesar de termos avisado. Quando o fim está próximo da escuridão eu tento ajudar, mas a maioria é cega. Sei que esta não é a resposta que queria, e sim uma lembrança esquecida por todas.

Moros me encarou por um instante, talvez para descansar seus pensamentos uma vez que ele se comunicava por telepatia.

– Eu terei que decidir algo, certo?

Ele assentiu.

– Huracán escolheu seis semideuses de outro mundo para manter os portais entre os mundos abertos. Se forem fechados o mar de caos irá povoar os mundos. Estes portais – ele apontou para o que estava ao lado do castelo com a imagem da Terra – São como correntes, um segurando o outro. Quando esquecem a existência de outros universos as correntes ficam fracas.

Sua forma tremeluziu.

– Dos escolhidos de Huracán, você é a que pode comprometer a estabilidade do universo. Não se recuse a acreditar, isto é real e se não aceitar, a sua missão irá fracassar deixando as correntes frouxas. Você deve lidar com decisões, aliás, você é filha de Hécate.

Acordei no meu beliche em Atlântida sem cansaço ou fome. Juntei-me aos outros que estavam numa sala com ar puro tomando café. Os únicos deuses à mesa eram Hebe e Njord.

– Você conhece Moros? – perguntei à Hebe depois que mordi um pão.

Hebe me olhou como se perguntasse o motivo de minha curiosidade, o que certamente deixou os outros curiosos também, com exceção de Njord e Daniel.

– Não o conheço pessoalmente, mas meu pai me contou histórias sobre ele quando eu era pequena. – respondeu Hebe – Zeus disse que ele comandou a Era de Ouro. Ele surgiu para Urano antes de Cronos ter o controle do universo e também para Cronos antes da Titanomaquia acontecer.

– Ele é o deus mais poderoso daqui – completou Njord – Ninguém o vê se ele não quiser. Eu o vi em Asgard certa vez para conversar com o pai de todos Odin. Ouvi dizer que alguns mortais iniciaram uma revolta contra ele e depois eles nunca foram vistos.

– Estão vivendo em outro universo na verdade. – disse Poseidon entrando na sala – Moros incumbiu sua mãe Hécate de guardar as Correntes de Libra que ligam todos os universos. Ele geralmente surge para esclarecer as decisões, mas normalmente é Hécate quem faz isso.

Os outros sentados à mesa pareciam estar interessados.

– Por que ele mora no espaço? – perguntei.

– Ele é o guardião das promessas. Tudo o que os mortais prometem e todas as rezas vão para o Castelo de Vidro. – respondeu Poseidon sentando ao meu lado.

– Como podem existir dois deuses do fogo como Hefesto e Huracán? – perguntou Ana tentando mudar o foco do assunto. Ela estava segurando uma maça.

– Existem muitos deuses que possuem a mesma função, assim como Hêmera, Hélio e Apolo, que são deuses do dia.

Começamos a sentir tremores de repente, o sorriso de Poseidon e Njord desapareceu num passe de mágica e não foi difícil saber o porquê, Atlântida estava sendo atacada.

Nos levantamos a espera de ordens de Poseidon, mas ele se levantou calmamente e disse:

– Leve-os pelo corredor – disse ele à Hebe – Chame por Eos e ela os ajudará a escapar.

– Mas pai... – começou Yasmim antes de ser interrompida.

– Vocês precisam ir, o tempo está ficando curto – disse Njord.

Sem dizer algo mais, nós seguimos Hebe pelo corredor que Poseidon nos indicara. Depois de três minutos correndo sem parar, nós chegamos a uma porta que abriu com a nossa aproximação.

– Onde está Jane? – perguntou Harry com as mãos apoiadas nos joelhos em busca de fôlego.

– Ela ficou para ajudar, ela nos encontrará n'A Casa da Esperança. Eu conto com isso.

Hebe levantou uma de suas mãos e fez sinais com os dedos. Uma luz se ascendeu não muito longe e se aproximava rapidamente.

Eos surgira à nossa frente usando um vestido branco e rasteirinha. Seus cabelos eram louros e seus olhos eram de cor âmbar. Os meninos começaram a babar por sua causa, literalmente.

– Devemos nos apressar, sua amiga não pode manter vocês respirando por muito mais tempo. – disse Eos de forma direta.

Olhei para Yasmim e notei que ela ficara extremamente fraca. Se ela desmaiasse, todos nós exceto os deuses iriam se afogar.