Yasmim estava quase que desesperada procurando sua irmã Ysla em cada canto da casa, literalmente em cada canto. Ysla desaparecera novamente e desta vez não sabíamos para onde ela fora.

– Nós vamos para casa agora? – perguntou Larissa.

– A jornada ainda não acabou. Na verdade ainda vai começar. — respondeu Huracán.

– Como assim?

– Vocês irão entender quando acontecer.

Embora o desaparecimento repentino de Ysla tivesse nos assustado, alguns como Larissa preferiam encarar como se fosse algo comum de acontecer.

Subi as escadas para ver se Daniel estava bem, pois fazia horas que eu não o visitava.

Puxei uma cadeira que estava no canto do quarto e sentei ao lado da cama. No momento em que me sentei ele acordou e me fitou.

– Olá. – consegui dizer enquanto lutava para controlar emoções. — Dormiu bem bela?

Ele fechou a cara e não pude deixar de rir.

– Muito engraçado filha do submundo. – reclamou ele – Por quanto tempo eu apaguei? O que perdi?

– Não contei quanto tempo você está babando no travesseiro. – ele realmente babara no travesseiro – Você não perdeu muito, apenas a batalha contra um gigante, dois titãs e dezenas de milhares de monstros.

Ele levantou uma sobrancelha.

Jimmy, o jaguar de Huracán, entrara no quarto e subiu na cama lambendo o rosto de Daniel e então deitou aos seus pés.

– Senti sua falta amigão.

Daniel esfregou a cabeça do jaguar que por sua vez caíra no sono. O fato de sua perna ter sido arrancada pareceu não perturba-lo.

– Vocês já se conheciam? – perguntei.

– Sim. Huracán deixou Jimmy cuidando de mim por um tempo para se certificar de que Hefesto manteria a palavra de não me matar.

– Parece ser o que mais temos em comum. Huracán.

Daniel assentiu e isso era verdade. Todos nós, inclusive os escolhidos de Atena já tiveram contato com Huracán. Parecera algo inevitável. Lembrei-me do sonho que Larissa contara certa vez.

O Destino gostava de jogar, ele poderia acabar com isso com apenas um piscar de olhos, mas ele gostava de ver deuses e mortais lutando para sobreviver, isso parecia diverti-lo.

– Desçam rápido! – alguém gritara do térreo.

Ajudei Daniel a se levantar e então a pegar uma muleta que estava em pé atrás da porta. Vê-lo sem uma perna me deixou um pouco enjoada, mas nada que eu não conseguisse controlar.

Ajudei-o a descer as escadas de carvalho. Yasmim sorriu ao vê-lo.

– Espero que esteja melhor. – disse ela.

– Ficarei melhor quando eu puder matar alguns gigantes idiotas.

Os dois riram.

– O que está acontecendo? – perguntei.

– Huracán começou a passar mal de repente. Estão todos lá embaixo. Vim buscar toalhas úmidas.

Descemos por uma escada no meio da sala. A escada ficara escondida pela mesa de centro que ficava bem em cima. As toalhas limpas e brancas estavam penduradas nos braços de Yasmim.

Havia uma porta que ia do chão ao teto. Uma porta dupla de carvalho branco. A imagem de um homem estava entalhada na porta com as duas mãos formando uma tigela com estrelas em seu interior. Ele era careca.

As portas se abriram com a nossa aproximação.

Uma cama feita de barro estava no centro da sala, onde Huracán estava deitado com as mãos sob o peito e atrás de onde estava sua cabeça a estátua do homem entalhado.

– Quem é ele? – perguntou Yasmim.

– O pai adotivo de Moros. Ele é Caos, a primeira divindade grega. — respondeu Jane acariciando a cabeça do deus deitado no barro.

– Este é o santuário de Artry. – disse Reia, fiquei tentada a perguntar quem era Artry, mas me concentrei em Huracán apenas – Um dos filhos de Huracán.

– Artry está desaparecido há pouco tempo, exatamente desde o enfraquecimento dos deuses. – completou Hebe.

Fiquei imaginando que em breve teríamos que encontrar esse cara, a menos é claro que estivessem complementando a resposta no caso de alguém perguntar algo mais.

Huracán estava realmente horrível. A cor sumira de seu rosto. O deus do fogo estava gelado.

Ophellia segurava uma de suas mãos enquanto chorava. Ele estava tão bem momentos antes, como podia ter piorado de forma tão repentina, foi então que percebi, a batalha tinha lhe custado muita energia. Ele ficara fraco.

– Não se preocupe. – dizia ele para a filha – Este ainda não é o fim, apenas uma transição.

Transição? Mas que diabos ele queria dizer com isso. Ele estava morrendo e vinha com esse papo de transição. Só podia ser brincadeira.

– O caminho a queimar. – disse Larissa. – O que significa.

Huracán deu um leve sorriso. O último. Seu corpo começou a queimar lentamente, exatamente como na primeira vez em que o vimos como um deus. Uma chama azul se espalhava pelo seu corpo, deixando apenas as cinzas.

Ophellia segurava uma caixa de aço bem fechada. Ali dentro estavam os restos mortais do deus Huracán. Suas cinzas que de acordo com Reia iria nos ajudar. Comecei a pensar se a morte de meu amigo tinha sido planejada desde o inicio.

Desabei no sofá com Daniel ao meu lado.

– Você o conhecia bem? – ele perguntou como em resposta ao momento que tivéramos a sós. Ele perguntou se eu o conhecia bem?

– De certa forma sim. Éramos amigos na escola.

– Quem chegou em quem?

– Eu comecei a falar com ele.

Eu não estava a fim de conversar muito. Acabara de perder um amigo querido, é natural que eu queira me isolar, mas eu queria Daniel por perto, mesmo que em silêncio.

Ele olhou para a minha mão.

– Este anel. Já o vi antes.

O anel que Huracán me dera no inicio da jornada. Como ele poderia conhecê-lo? Vendo minha expressão de espanto ele começou a explicar.

– Originalmente são sete. Pertenciam à Cronos antes de sua queda. O sétimo anel pertencia a Reia, os outros seus haviam sido distribuídos aos seis primeiros deuses do Olimpo.

– Por que Huracán estava com eles? E por que ele nos deu?

– Ele deveria estar protegendo-os talvez. Não sei dizer.

– Talvez Reia saiba.

Levantei-me a procura de Reia por todos os cômodos da casa, mas não a encontrei. Fui até a varanda e finalmente a vi, sentada em um banco de frente para o campo onde lutamos contra o gigante Clítio e os titãs.

– Huracán estava com esses anéis e nos entregou. Por quê?

Reia me olhou de cima a baixo e fez um gesto para que eu sentasse.

– Huracán recebeu os anéis para serem guardados. Zeus disse para que ele as desse para seis semideuses de confiança. Foi o que ele fez.

Olhei para suas mãos. Não havia nenhum anel em dedo algum. Ela percebeu para onde estava indo o meu olhar.

– O meu anel está em segurança. Em breve vocês o verão como parte de sua próxima missão. Agora vou entrar.

Ela se levantou e entrou. Eu me levantei e me apoiei à mureta.

Daniel se juntou a mim.

– Há muita coisa faltando nesta história. O que faremos? – questionei – Ana foi sequestrada, Ysla desapareceu novamente, Huracán se foi...

Não consegui terminar a frase.

– Vamos ficar bem. Encontraremos as meninas e daremos um fim nessa guerra. Como Huracán disse este ainda não é o fim.

– O caminho a queimar. Temos que decifrar isso.