O Jogo dos Deuses: A Casa da Esperança
20 20: Kayanne - Manhã Após Escuridão
MANHÃ APÓS ESCURIDÃO
Um homem surgiu as nossas costas e se apoiou à beira da porta. Sua aparência era horrível se comparada à última vez que eu o vira.
Huracán estava de chinelos e usava a camiseta do Linkin Park, milagrosamente ele estava usando uma bermuda vermelha, coisa que ele nunca fez enquanto convivia conosco disfarçado de mortal. Ele sempre dizia odiar deixar suas pernas indefesas, por isso enquanto humano usava apenas calças.
– Oi. – disse ele com a voz fraca.
Minha vontade era de espancá-lo com toda a força, mas me contive.
Dexter, o tigre branco de Huracán, apareceu ao seu lado. Senti falta do Destruidor de Caras.
– Você desapareceu de repente nos colocando numa jornada mortal e quando nos encontramos você só consegue dizer "oi"? – disse Larissa revoltada com o deus.
Ele riu.
Ela o abraçou o mais apertado que podia, aliás, ele é um deus, não deveria sentir tanta dor, certo? Errado. Na situação em que ele se encontrava aquilo fora uma má ideia.
– Aquelas criaturas lá fora. – eu disse.
– Em breve os mandaremos embora.
Um clarão extremamente forte passou por todas as janelas no térreo da casa. Alguém abriu e fechou a porta e caminhou pelo assoalho até a cozinha. Seja quem fosse não estava sozinho.
– Elas chegaram. – disse Huracán com tamanha felicidade em seu rosto – Está na hora Reia.
Três mulheres estavam paradas a nossa frente enquanto Huracán as abraçava matando a saudade evidente.
A mulher mais alta das três, mas não mais alta que Huracán, era loura com alguns fios pretos. Ela usava uma calça jeans apertada, tênis de corrida e uma camiseta branca com um sol bordado no meio.
A segunda mulher era a mais baixa das três, ela tinha os cabelos negros e olhos com órbitas castanhas. Ela usava também uma calça jeans, a camiseta dos Guns 'N Roses e uma jaqueta de couro preta por cima. Em sua mão tinha alguns anéis de caveira, provavelmente de alguns insetos.
A terceira mulher tinha os cabelos mais ou menos curtos de cor preta, mas com algumas mechas vermelhas. Ela usava uma camiseta vermelha comum e uma calça jeans também.
Eu conhecia apenas a segunda e a terceira, Jane e Héstia respectivamente.
Jane, a deusa que nos acompanhara desde o inicio e que decidira ajudar Poseidon em nossa passada por Atlântida nos deixando com a deusa Hebe.
Héstia, a deusa do lar. Nos vimos apenas uma vez e fora bem rápido em nossa passagem pelo Olimpo. A única coisa que mudara era que suas mechas vermelhas estavam mais fortes.
– Eu te conheço de algum lugar. – consegui dizer.
– Nos conhecemos quando você ainda era pequena. – disse a deusa não identificada.
Huracán parecia inquieto com a presença da deusa desconhecida.
– Por onde esteve Hêmera? – ele conseguiu finalmente dizer.
Ela ficou com um olhar triste.
Hêmera era a primeira mulher de Huracán que sumira de repente e causara a rebeldia do deus até pouco tempo atrás quando ele encontrou a paz com Héstia.
– Minha mãe disse que era melhor eu ficar escondida por um tempo – respondeu ela – Os Soldados Negros estavam desesperados atrás de mim.
– Um bom tempo escondida.
O clima parecia um pouco tenso, aliás, a antiga esposa e a atual no mesmo cômodo deixava a situação estranha.
Reia trouxe um dos bolos que já estava pronto.
– Vamos para a sala – disse a deusa Reia – Emilly traga o outro bolo, por favor.
Todos nós nos sentamos nos sofás em volta da mesinha de centro, onde Reia colocou a forma de bolo. Ethan trouxera uma bandeja com sucos de frutas. Aparentemente haviam surgido mais lugares para sentar no sofá.
– Espere um pouco. – disse Jane de repente – Onde estão Daniel e Ana?
Alguns de nós abaixamos a cabeça. Emilly se jogou no sofá. Eu também estava curiosa.
– Ana foi sequestrada por Cronos e Daniel está no quarto lá em cima com Hebe descansando já que ele perdeu uma das pernas. – disse Emilly com um pouco de esforço para manter a voz calma.
Era evidente que separados não tínhamos muitas chances, levando em conta de que nenhum de nós havia cruzado com um titã após a separação, pelo menos eu acho que não. Emilly se sentia culpada pelo que acontecera.
– Por falar em descansar, Larissa precisa fazer o mesmo assim que terminar nosso pequeno lanche. – disse Ophellia.
Larissa contou a história para todos, de como tinha derrotado sua irmã Circe e sofrera as consequências no fim.
Dexter e Jimmy brincavam no canto da sala. Era evidente que ambos sentiram a falta um do outro. Comemos e bebemos tudo o que podíamos, até não aguentar mais. O sono começou a penetrar nossos corpos.
Huracán contara histórias sobre o seu passado, assim como Jane. Ela parecia feliz por finalmente estar junto de sua mãe.
Reia pediu gentilmente para que subíssemos para que os deuses pudessem conversar sem interferência de mortais. Na verdade fomos expulsos de forma educada. Subimos ao único andar pela escada de madeira em frente à porta de entrada enquanto os deuses nos olhavam.
Havia uma porta a nossa esquerda quando subimos, um corredor seguia a direita mostrando mais portas de madeira escura.
– Ethan e Harry podem ficar no fim do corredor. – informou Emilly – Cada quarto possui duas camas.
Em cada porta havia uma plaqueta com os nomes da dupla; Julian e Ophellia dividiriam o mesmo quarto assim como Daniel e Hebe, Ethan e Harry, Carol e eu, Yasmim e Larissa, Emilly e Ysla.
Tentamos sair de nossos quartos para ouvir um pouco da conversa dos deuses, mas alguma coisa ou feitiço nos impediu de sair dos quartos. No máximo podíamos ir ao banheiro.
Carol estava impaciente jogada em sua cama no canto esquerdo do quarto. As paredes eram madeiras puras e aumentava minha curiosidade de saber como ainda estava de pé. Aquela casa tinha quantos anos? Cinco mil talvez? A magia ali era poderosa ao extremo.
– Como era antes de tudo isso? – perguntou Carol.
– Se comparar era bem simples. Não havia monstros ou mesmo deuses.
– Os deuses estão sempre lá. Observando mesmo sem que você saiba, o mesmo é para os monstros. – disse ela.
Lembrei no começo de tudo quando soube da verdadeira identidade de meu amigo Wendell. Ele era uma manifestação como alguns diziam.
Certa noite Jane contara que havia poucos semideuses no outro mundo e de que os nossos poderes ficavam adormecidos até termos contato com o mundo de origem. Isso parecia complexo.
– Você cresceu nesse mundo? – perguntei.
Carol assentiu sem tirar os olhos do teto.
– Minha mãe morreu depois do meu nascimento, ela foi forte até o fim. Para que eu não enlouquecesse meu pai me levava em suas viagens rotineiras em outros mundos. Asgard, o Egito antigo e a Terra Cristã. Já falei com Emilly em uma de minhas viagens, mas tenho certeza de que ela não se lembra.
– Vocês tem uma arena de treinamento não?
– Ares achou uma ideia útil, então meu pai permitiu que fosse construído. No final foram os deuses quem saíram ganhando com isso. Com essa guerra prestes a explodir meu pai achou melhor que eu ficasse por lá. Foi quando Atena nos convocou.
Tentamos sair do quarto desta vez com sucesso, aparentemente a pequena reunião dos deuses havia terminado. Descemos as escadas de madeira sem fazer ruído algum.
Ouvimos a voz de Hêmera na cozinha, então fomos para lá e ela estava falando algo aparentemente importante, pois assim que entramos ela parou de falar.
–... Sacrifícios são necessários. – foi o que consegui ouvir.
Reia preparava o que parecia ser o almoço.
– Achei que não desceriam mais. – disse Reia – Seus amigos estão na varanda olhando para aquelas coisas nojentas.
– Huracán está com eles? – perguntou Carol.
– Não. Ele levou Ophellia para o santuário de Caos. Logo ele voltará.
– Estava com saudades da sua comida vovó.
Reia riu, ela não parecia estar acostumada a ser chamada de vovó.
Caminhamos até a varanda onde nossos amigos estavam sentados em espécies de divã de madeira e tomando água de coco. Larissa tinha ficado no quarto.
Desde que chegara eu ainda não tinha visto Daniel. Sua condição física deveria estar horrível.
Os acontecimentos seguintes foram os mais agradáveis possíveis. Almoçamos na sala de jantar sem a presença de Hebe.
Nosso almoço foi bem saudável, foram apenas frutas, com bolo de frutas e suco de frutas.
A manhã seguinte foi bem movimentada e não num bom sentido.
Os monstros que cercavam a casa estavam cada vez mais loucos para provar o nosso sangue, mas com o poder de Reia iluminando magicamente a casa, atacar era impossível.
A mesa de jantar se tornara uma mesa como aquelas em que se planeja um ataque. Uma planta da região ia de uma ponta a outra da mesa.
– O que você acha filha de Atena? – perguntou Hêmera sobre o plano.
Olhei para a planta e as marcações de canetas esferográficas.
– Arriscado demais. Acho que deveríamos nos separar em dois grupos equilibrados. Como Ana e Daniel estão indisponíveis isso pode funcionar com a mesma potência que imagino.
Jane entrara na sala.
– Armadilhas apostas. – disse ela.
Expliquei aos deuses o plano que eu tinha em mente e eles pareceram gostar da estratégia.
Julian ficou ao meu lado. Seu cabelo longo estava amarrado em um rabo de cavalo para que não o atrapalhasse. Ele vestia uma espécie de colete de ferro.
Todos estavam preparados para a batalha com exceção de mim. Me troquei o mais rápido que pude.
Comecei a imaginar o que aconteceria depois de hoje. Se voltaríamos para casa, se faríamos uma festa ou se iríamos passar uns tempos no Mundo Inferior.
A ficha de que eu estava ali prestes a começar uma batalha ainda não caíra. Eu vesti uma camisa com uma manga longa de um lado e sem manga do outro, um colete de aço pesado, uma calça normal e carreguei minha moeda mágica. Dei um longo suspiro e desci as escadas talvez pela última vez.
Apesar das condições, Huracán iria participar da batalha, o que aumentou minha preocupação já que tínhamos uma profecia que dizia sobre a morte de um deus.
Separei todos em três grupos; Larissa, Emilly, Ethan, Harry e Ysla; Ophellia, Yasmim, Carol, Julian e eu; e os deuses Huracán, Hêmera, Hebe e Jane.
Reia não era uma deusa de batalha, foi o que ela disse quando sugeri que ela integrasse o grupo, portanto, ela iria proteger a casa como fazia desde quando chegamos.
Todos me aguardavam na varanda. Essa era a batalha pela esperança e nós precisávamos vencer.
Apesar de bem ferida, Larissa parecia estar ótima para matar alguns monstros. Eles me olharam.
Dexter e Jimmy estavam aguardando ordens. Quem me deixara no comando? Tudo isso parecia loucura.
A moeda em minha mão queimava de excitação e se transformou na minha lança favorita. O anel que Huracán me dera também queimava. Ele olhou para mim e deu um aceno positivo de cabeça.
Os monstros a nossa frente estavam freneticamente inquietos. Ao fundo Clítio e Hyperion riam. Uma enorme noite estava em volta do gigante apesar de ser de dia a sua volta.
Pensei em minha mãe Atena e em como ela tinha sido uma mãe quando nos encontramos. Então gritei levantando minha lança:
– Pelo Olimpo!
Atacamos com força total, os deuses principalmente com suas enormes explosões.
Enquanto os deuses cuidavam das laterais da casa, o meu grupo partiu para de trás da casa enquanto o outro grupo ficou na frente.
Dexter se transformou na criatura que eu conhecera no Monte Vulcano e destroçava os monstros a sua volta como se fossem bonecos de porcelana. Jimmy triturava os inimigos com seus dentes afiados deixando apenas o pó negro de monstro.
Por pior que fosse a ideia, eu estava ansiosa para quando os titãs entrassem na batalha com Clítio.
Minha lança atravessava monstros sem parar. Era um novo hobby. Eu a transformei em uma espada para lutar quase corpo a corpo contra uma figura literalmente deformada que parecia ter escapado do Mundo Inferior.
Julian usava sua voz encantada para fazer criaturas lutarem entre si, e então chegava para dar o golpe final no que sobrevivesse.
Ophellia queimava cada monstro que se aproximava e usava a espada vermelha como bumerangue algumas vezes.
Alem de usar sua espada brilhante, Yasmim usava a concha que seu pai lhe dera. Ondas e mais ondas afogavam a maior parte do exército inimigo.
Carol voava a nossa volta lutando contra harpias e convocando raios contra os monstros no chão e na água que Yasmim convocava com frequência para eletrocutar aquelas coisas estranhas e muitas vezes nojentas.
O céu ficou vermelho-sangue o que me assustou um pouco. Os deuses pareciam estar enfrentando problemas, embora eu não entendesse como.
Uma bola de fogo cruzou o céu e atingiu os titãs que estavam fora da batalha, o que os deixou furiosos e prontos para entrarem em ação e guerrearem contra nós.
Hyperion foi o primeiro a surgir da onda de fumaça do impacto das bolas de fogo.
Héstia caiu em pé no chão. Huracán mencionara a saída dela para resolver problemas em relação ao Olimpo, mas agora ela estava de volta e com fora total.
Larissa surgiu correndo em direção de Clítio, seus olhos roxos mostravam sua raiva. Seu bracelete brilhava forte. Emilly também surgira para ajudar Héstia contra Hyperion.
Cronos surgira da nuvem de fumaça e Huracán fora a seu encontro e eu me juntei ao deus.
O titã do tempo era habilidoso e gigante como um lutador de UFC. Ele usava sua habilidade com tempo para nos deixar lentos, mas isso não impedia que o atacássemos de forma certeira.
Cronos convocou a sua famosa foice, então converti minha espada em lança novamente para igualar as armas de combate.
Eu e Huracán lutávamos contra o titã do tempo que levara nossa amiga Ana. Apesar de sermos dois contra um, Cronos levava a vantagem de alguma forma. A condição física de Huracán também não ajudava muito, eu não saberia dizer o quanto mais ele poderia suportar.
Eu esquivava o máximo que podia dos ataques de foice do titã. Era complicado já que ele usava o tempo para nos atrasar.
– Vocês não podem me vencer menos ainda me matar! – gritou Cronos.
Por incrível que pareça ele tinha razão. A ligação que havia entre ele e Ana o impedia de morrer, ou se matássemos o titã haveria o risco enorme de acidentalmente matarmos Ana.
Foi então que algo incrível aconteceu.
O céu vermelho com nuvens de cor mais forte se abriu em um vórtice de nuvens, um feixe de luz desceu do céu acertando o chão com um forte impacto e então desapareceu.
No lugar em que o feixe caíra, agora estava um homem agachado para suportar o impacto da aterrissagem. Até aquele momento eu não sabia dizer se ele era amigo ou inimigo.
Ele tinha louros cabelos rebeldes e vestia uma roupa estanha como a do deus do mar nórdico. Uma enorme capa vermelha se estendia por suas costas, mas eu sabia que não se tratava do Superman já que ele não era louro.
Percebi quem ele era assim que se levantou para avaliar a situação, pois deixou a sua famosa arma a mostra.
Thor procurava por alguém até que enfim achou e lançou-lhe uma revoada de raios na direção do individuo. Ou eu era seu alvo, ou eu deveria sair da frente, talvez o que viesse primeiro.
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