O Jogo do Diferente

7 A proposta de Uda Takeru


― Ohta-san, conforme seu conselho, vim junto com meu irmão mostrar as mensagens que recebi.

Hiroji recebeu o smartphone das mãos de Miiko. Sentia-se meio estranho em ver o conteúdo do telefone de outra pessoa, mas, era necessário fazê-lo, e a garota o apresentou espontaneamente. Leu atentamente a conversa que, percebeu, não foi respondida. Coincidentemente, a primeira mensagem lhe fora enviada na madrugada após o funeral de Minazuki Eimi.

“De que adianta tentar se encaixar nos padrões podres e intolerantes da sociedade? Isso só causa sofrimento e dor em quem é diferente. Você é diferente. Vamos jogar para esquecer a dor que a sociedade nos causa?”

“Visualizou e não respondeu... Está com medo, minha criança?”

“Não tenha medo. Este jogo irá mudar sua vida... Acredite. Não há nada a temer.”

Sob os olhares dos presentes, Hiroji anotou as datas e os horários de cada uma daquelas três mensagens. Pelo o que havia observado dos conteúdos extraídos dos smartphones das vítimas anteriores por Ruriko, o tom dessas mensagens era bem semelhante.

Tudo começava com um convite e com uma pressão para a pessoa que recebia a mensagem entrar no tal jogo. E, depois que entrava, não conseguia mais sair. Discutira, mais cedo, com Ruriko e Takeru, sobre como conseguiriam pegar quem quer que estivesse incentivando os adolescentes a entrarem em algo que, após algum tempo, culminaria em morte.

O principal problema é que tudo isso só ficava evidente após uma tentativa de suicídio ou um suicídio já consumado.

Se houvesse como acompanhar isso em tempo real... Poderiam pegar o criminoso no pulo!

Takeru primeiramente observou o superintendente; em seguida, os dois irmãos recém-chegados. Estava pensando em uma possibilidade de pegar o suspeito após ter todas as informações a respeito do caso.

Brotava-lhe uma ideia em sua mente.

Enquanto Miiko e Tatsuo conversavam com Hiroji, Takeru os analisava detidamente com o olhar. Observou as mãos do jovem, percebeu-as calejadas. Deduziu que ele poderia ser operário ou mecânico. Os cabelos eram bem curtos, mas era perceptível que estavam “amassados”, como costumava ocorrer com qualquer um que pilotasse uma moto ou fosse transportado por ela. Seu tom de voz era firme e, ao mesmo tempo, tranquilo. Tinha uma atitude meio protetora para com a irmã, aparentando ser o responsável por ela. Quanto à garota, percebeu que ela, embora estivesse abalada pelo ocorrido ainda muito recente – a morte de sua melhor amiga – mostrava certo equilíbrio psicológico. Falava em poucas palavras, mas suficientes para se fazer entender. Adorava ser diferente do padrão das garotas nipônicas, e isso não era apenas por seu cabelo artificialmente loiro.

Percebeu que ambos tinham uma grande cumplicidade. E parecia que as mentes eram semelhantes. Os dois aparentavam ser bem centrados, não se deixando levar facilmente pelas emoções. Não que não as tivessem, mas eram contidos. A garota Kanasawa aparentava preocupação com as mensagens que recebera, mas não parecia apavorada, como qualquer outra pessoa poderia ficar.

Ruriko, por seu turno, observava Takeru. Ele parecia absorto em seus pensamentos e se perguntava sobre o que ele estaria divagando. Era como se ele fosse um daqueles detetives famosos da literatura ou da cultura pop. Meio Sherlock Holmes, meio L...

O olhar dele era realmente muito atento, bastante intrigante até. Aliás, Uda Takeru era uma espécie bem intrigante de detetive amador.

― Escutem. – a voz de Takeru soou. – Eu tenho uma proposta para vocês dois.

Miiko e Tatsuo se entreolharam e depois voltaram seus olhares para Takeru, que percebeu que ambos estavam querendo saber mais a respeito. Prosseguiu, sob a atenção de Hiroji e Ruriko:

― Se não houver nenhuma objeção, eu proponho que a garota Kanasawa responda a essas mensagens e entre no jogo. Assim, poderemos monitorar em tempo real a interação dela com o tal do “Tutor” e buscar todos os meios de localizá-lo.

― Em outras palavras... – o superintendente, intrigado, ajeitou os óculos de grau e encarou o detetive amador. – ... Você quer que transformemos a garota numa cobaia?

― Basicamente isso.

― Uda-san, isso é muito arriscado. Estamos pisando em um terreno muito perigoso, que é a mente de uma possível vítima.

― Eu sei. – Takeru respondeu sob os olhares dos irmãos. – Mas, se não me engano, Ohta-san, já foram tentados todos os meios de descobrir a identidade do “Tutor”. Estou certo?

Hiroji odiava admitir, mas Takeru estava certo. Todas as tentativas foram frustradas, e a investigação já estava em um ponto em que a equipe liderada por ele começava a andar em círculos. Ruriko, Tatsuo e Miiko apenas observavam os dois naquele impasse.

O silêncio era a resposta. Uma tácita resposta afirmativa.

― Situações desesperadas pedem por medidas desesperadas, não concorda? E toda ajuda é muito bem-vinda para conseguirmos pistas que nos levem ao assassino. Além disso, não seria apenas ela nos ajudar, daríamos todo o suporte necessário.

Miiko observava a discussão em torno daquela proposta. Não era para menos que era algo tão discutido, pois era expô-la a um perigo. Por mais que não fosse tecnicamente uma criança, também não era adulta, então não poderia correr qualquer risco.

A sala se mergulhou em um longo e denso silêncio, tenso e, ao mesmo tempo, reflexivo. Hiroji procurava pensar na situação em que estavam. A ideia proposta por Takeru era, de certo modo, “boa”. Porém, havia mais questões do que apenas a aceitação ou não de Kanasawa Miiko para ser uma “cobaia”.

Havia muito mais... Existiam várias implicações. As leis vigentes no tocante à proteção de uma garota menor de idade – pois ela era uma adolescente de dezesseis anos – não deveriam ser burladas no intuito de uma exposição ao perigo. Outra questão era a autorização do responsável legal, no caso, o irmão mais velho.

E, por último... O suporte. Por mais que a garota aparentasse boa saúde mental e emocional, sabia, pelos casos anteriores, que o “Tutor” era capaz de minar tudo isso.

Era como recrutar um kamikaze, que iria ao campo de batalha e nunca mais regressaria.

Kanasawa Miiko poderia não ter a mesma sorte que Ryuhei teve.

Ruriko, até então, guardara silêncio durante o desenrolar do impasse. Decidiu falar, olhando para os Kanasawa:

― É realmente uma questão muito delicada... E é uma pressão a mais para os dois. A proposta faz todo o sentido, embora seja um tanto... Questionável, eu diria. Mas, de toda forma, não podemos exercer qualquer pressão sobre os dois. Aliás, querendo ou não, podemos estar causando essa pressão neles.

Depois de uma breve pausa, prosseguiu:

― Ohta-san, Uda-san, não acham que é interessante darmos a eles um tempo para decidirem se desejam ou não nos ajudar?

Os dois homens se entreolharam e, por fim, Hiroji propôs:

― Kanasawa-san – dirigiu seu olhar para Tatsuo. – Gostaríamos de contar com a ajuda de vocês dois para conseguirmos avançar nas investigações e prender a pessoa que assassinou a melhor amiga de sua irmã. O que acha de me dar a resposta sobre o que decidirem de nossa proposta em dois dias?

Tatsuo ainda estava meio confuso com tanta informação, principalmente no que se referia a envolver sua irmã na caçada ao assassino responsável por tantos suicídios. A princípio, não queria deixar Miiko se expor ao perigo. Porém, aceitou o prazo para responder como se deveria.

Afinal, era um prazo bom para pensar melhor e ter os argumentos adequados.

― Tudo bem, Ohta-san. É um tempo razoável. Em dois dias, terei a resposta para dar.